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DUNGA TINHA RAZÃO

5 / novembro / 2019

por Rubens Lemos


Desde 2010, na Copa da África do Sul, o vazio criativo no meio-campo da seleção brasileira ganhou dimensões oceânicas. Em 2006, Ronaldinho Gaúcho e Kaká pareciam esperanças tornadas fumaça pelos pés franceses de Zidane. A França humilhou mais o Brasil em 2006 do que na amarelada de Ronaldo oito anos antes.

Um armador, implorávamos nós, os românticos, um camisa 10 autêntico, administrador do time e do jogo, soberano. Estávamos sem qualquer alternativa até surgir um garoto magrelo, paraense e de toques sofisticados jogando pelo Santos, ele e o driblador e antipático Neymar. Parecia um Ganso e assim chamavam o menino.

O coro nacional pela convocação dos dois precoces incendiou o desgastado filme do técnico Dunga, padroeiro dos brucutus fora dos gramados (em campo, foi um senhor volante). Dunga manteve suas convicções ranzinzas e Neymar e Ganso foram convocados apenas por Mano Menezes, ainda em 2010, meses depois da derrota para os holandeses.

Neymar e Ganso se separaram. Neymar foi povoar europas com seus dribles belos e raros, com suas quedas irritantes e uma arrogância maior do que o Camp Nou, estádio do Barcelona onde tentou sem conseguir a contracena com Lionel Messi.

Ganso deixou-se tomar pela indolência. A classe aparente virou lentidão, preguiça indisfarçável e sua criatividade murchou tal bola de borracha furada em racha de rua.

Ganso saiu do Santos (a torcida agradeceu), do São Paulo (repercussão idêntica), enganou em times de segunda mão na Europa e reapareceu no Fluminense com pose de regente. De velório. Ganso é a referência da errática fauna tida como luminosa para os anos 2000 com a camisa do Brasil.

Abrindo o parêntese da escassez, a camisa 10 deixou de ser objeto de cobiça, manto de Pelé, Zizinho, Zico, Rivelino e Rivaldo (um gênio que não teve a glória merecida pela matutês nordestina).

Neymar tomou-a e atua correndo como um maluco pelo ataque, quando a mitologia do número enxerga o dono entre o meio-campo e o ataque, criando fantasias de criança em pelada de pés descalços, do malabarismo produzido na fração do segundo.

É muito dinheiro na mão de meninos mimados. Dane-se a seleção. Ganso voltou da Europa ganhando 300 mil reais por mês, Alexandre Pato descansa em lago morto após ficar bilionário antes dos 20 anos, jogando no Milan e namorando a filha do dono, o Capo Sílvio Berlusconi. Quem teria moral de cobrá-lo? Pato saiu campeão mundial de 2006 pelo Inter (RS) para perder uma Olimpíada e passar distante da Copa do Mundo de 2010.

Voltemos a Ganso: Sem tesão inventivo, rasteja em pé e revela uma arrogância até superior a de Neymar: derrubou técnico, bateu em ex-juvenis, ignorou companheiros de time. Quase dez anos depois de iludir os carentes da bola jogada com arte, Ganso parece pedir para ficar em casa, ganhando sem jogar. Em campo, é um fantasma de chuteiras, arrastando correntes lerdas. Dunga tinha razão.

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