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Paulo Henrique Ganso

DUNGA TINHA RAZÃO

por Rubens Lemos


Desde 2010, na Copa da África do Sul, o vazio criativo no meio-campo da seleção brasileira ganhou dimensões oceânicas. Em 2006, Ronaldinho Gaúcho e Kaká pareciam esperanças tornadas fumaça pelos pés franceses de Zidane. A França humilhou mais o Brasil em 2006 do que na amarelada de Ronaldo oito anos antes.

Um armador, implorávamos nós, os românticos, um camisa 10 autêntico, administrador do time e do jogo, soberano. Estávamos sem qualquer alternativa até surgir um garoto magrelo, paraense e de toques sofisticados jogando pelo Santos, ele e o driblador e antipático Neymar. Parecia um Ganso e assim chamavam o menino.

O coro nacional pela convocação dos dois precoces incendiou o desgastado filme do técnico Dunga, padroeiro dos brucutus fora dos gramados (em campo, foi um senhor volante). Dunga manteve suas convicções ranzinzas e Neymar e Ganso foram convocados apenas por Mano Menezes, ainda em 2010, meses depois da derrota para os holandeses.

Neymar e Ganso se separaram. Neymar foi povoar europas com seus dribles belos e raros, com suas quedas irritantes e uma arrogância maior do que o Camp Nou, estádio do Barcelona onde tentou sem conseguir a contracena com Lionel Messi.

Ganso deixou-se tomar pela indolência. A classe aparente virou lentidão, preguiça indisfarçável e sua criatividade murchou tal bola de borracha furada em racha de rua.

Ganso saiu do Santos (a torcida agradeceu), do São Paulo (repercussão idêntica), enganou em times de segunda mão na Europa e reapareceu no Fluminense com pose de regente. De velório. Ganso é a referência da errática fauna tida como luminosa para os anos 2000 com a camisa do Brasil.

Abrindo o parêntese da escassez, a camisa 10 deixou de ser objeto de cobiça, manto de Pelé, Zizinho, Zico, Rivelino e Rivaldo (um gênio que não teve a glória merecida pela matutês nordestina).

Neymar tomou-a e atua correndo como um maluco pelo ataque, quando a mitologia do número enxerga o dono entre o meio-campo e o ataque, criando fantasias de criança em pelada de pés descalços, do malabarismo produzido na fração do segundo.

É muito dinheiro na mão de meninos mimados. Dane-se a seleção. Ganso voltou da Europa ganhando 300 mil reais por mês, Alexandre Pato descansa em lago morto após ficar bilionário antes dos 20 anos, jogando no Milan e namorando a filha do dono, o Capo Sílvio Berlusconi. Quem teria moral de cobrá-lo? Pato saiu campeão mundial de 2006 pelo Inter (RS) para perder uma Olimpíada e passar distante da Copa do Mundo de 2010.

Voltemos a Ganso: Sem tesão inventivo, rasteja em pé e revela uma arrogância até superior a de Neymar: derrubou técnico, bateu em ex-juvenis, ignorou companheiros de time. Quase dez anos depois de iludir os carentes da bola jogada com arte, Ganso parece pedir para ficar em casa, ganhando sem jogar. Em campo, é um fantasma de chuteiras, arrastando correntes lerdas. Dunga tinha razão.

AO AFOGAR O GANSO, SUFOCAMOS O FUTEBOL ARTE

por Zé Roberto Padilha


Vivemos a clamar pela volta do futebol arte. Mas quando ele se apresenta imponente, levanta a cabeça, como Gérson, o Canhotinha de Ouro, o fazia, e raciocina e cadencia a correria, como Ademir da Guia, em uma faixa de campo em que os maestros deram lugar aos gladiadores, clamamos por sua pronta substituição. “Está chupando o sangue!”, grita o torcedor. Na verdade, raros jogadores, como Paulo Henrique Ganso, estão resguardando a alma e os resquícios do talento que restou pelos gramados do país.

A arte refinada do toque de bola deu lugar aos novos meias, como o Gérson, do Flamengo, fortes e destemidos, que dividem, marcam e entregam bolas em domicílio. É flagrante o grande momento vivido por este menino. Mas no Fla x Flu do último domingo, voltem a fita (ou esqueceram que o futebol arte tinha VHS e depois passamos pro DVD?), aos 18 minutos do segundo tempo, Ganso deu um passe magistral, de trivela, que colocaria Wellington Nem na cara do gol se não fosse por um puxão na sua camisa dado sutilmente por Pablo Marí.

Uma falta tão flagrante que até o mais cego dos VAR reconheceria. Se fosse acionado, lógico. Seria o gol do empate e o domínio e a pressão trocaria de lado porque o Flamengo ficaria com dez jogadores. O zagueiro rubro-negro já havia recebido o cartão amarelo.

“Segue o jogo!” Disse o narrador. Dois minutos depois, Gérson acerta um chute forte que desviaria na zaga e enganaria Muriel. O 2×0, então, definiu o resultado e o dono do último toque de arte deixou o campo debaixo de vaias. Marcão, símbolo maior dos brucutus marcadores, é que não alcançaria mesmo o valor de tamanha habilidade e destreza circulando em campo a seu favor.

Joguei três edições da Taça Guanabara seguidas sob a batuta de três grandes maestros: Gérson, em 74, Rivelino, em 75, e Zico, em 76. Nenhum deles corria muito ou voltava para dar duro na marcação. Como João Carlos Martins, Isaac Karabtchevsky e Paulo Henrique Ganso eram os comandantes afinados que se posicionam em meio a todas as ondas sonoras. Um time de futebol é como uma orquestra e só quem conhece todos os acordes ousa pegar a batuta e colocar bolas e notas em seu devido lugar.

À sua volta, giram os acordes dos laterais que apoiam com seus graves, como Rodinei, Gilberto, Renê e Julião. Já Allan, Piris da Mota e Sérgio Araújo são os que marcam no surdo os compassos adversários. E os agudos do Digão, Rodrigo Caio, Frazan e Cia que seguram a batida lá atrás.

Nenhum maestro que se preze deu um carrinho até hoje. Precisam esticar o pescoço e enxergar toda a extensão do lindo lago esverdeado e recheado dos bagres e cascudos que circulam ao seu redor. E comandar, do alto da sua sensibilidade, o grande espetáculo, seja ele no Teatro Municipal ou no Maracanã.

Porém, alguns pescadores, inseguros na sua interinidade, precisam do resultado para continuar berrando à beira do lago. E, pressionados, jogam uma tarrafa sobre o que resta de beleza em nossa música e no nosso futebol. E retirem do Lago do Cisne toda a harmonia que resta do meu tricolor das Laranjeiras.

UM ESTRANHO NO GRAMADO – UM REMAKE NECESSÁRIO

por Mateus Ribeiro


Hello everybody, welcome to my show! Não sei se meus amigos internautas (também conhecidos como amigonautas) sabem, mas um dos meus principais sonhos impossíveis sempre foi ser um cineasta de sucesso, mesmo assistindo poucos filmes durante minha nada mole vida. Como dificilmente alcançarei tal meta, resolvi criar filmes na minha cabeça e jogar tudo aqui. Vai que alguém vê e gosta, não é?

Pois bem, a minha primeira obra prima é um remake. Inspirado no clássico “Um Estranho no Ninho”, “Um Estranho no Gramado” é uma historia um pouco mais tranquila que a original (muito por conta de seu protagonista, que não se importa com nada), mas conta com pitadas de drama, terror e suspense.

Pegue sua pipoca, seu refresco, e vamos para minha primeira resenha.


Início: O filme começa contando a vida de Randall McGanso, interpretado por Paul Henry Ganso, também conhecido como “O Diferenciado”. McGanso vive tranquilamente no Pará, e por algum motivo, alguém diz que o jovem tranquilo e sossegado sabe jogar futebol. Acreditando nisso, depois de um bom tempo, vai parar na pequena cidade litorânea de Saints, onde faz amizade com um jovem ousado, chamado NeySea.

Depois de algum tempo, Randall McGanso começa a demonstrar um comportamento deveras controverso. Começou a atuar como um jovem preguiçoso nos gramados. Apenas andava, deixava o trabalho duro para os outros. Dizem que muito desse comportamento foi por influência de um cúmplice, chamado de Little Robson.

Por ser amigo de todo mundo, muita gente o protegia e o protege até hoje. Apesar de todas as evidências, ninguém provou sua indolência. Na época, chegaram a usar como prova uma contusão no joelho. Passados quase sete anos, existem pessoas que usam tal contusão para proteger o rapaz. Para piorar sua situação, seu parceiro NeySea estava voando de verdade, enquanto McGanso passava seu tempo apenas enrolando e enganando as pessoas.


Como todo pequeno malandro, McGanso cansou. Arrumou suas coisas, e foi morar na metrópole de St. Paul, na esperança de enganar mais e mais pessoas. A mudança foi um pouco conturbada, gerando certa polêmica. Mas é disso que McGanso gosta: se esforçar pouco e aparecer muito nos holofotes.

Mudança drástica:

Com o tempo, as coisas mudaram. Pra pior. Nosso protagonista passou a produzir menos e ter mais ibope. Nunca fazia, mas quando fazia qualquer coisa era um Deus nos acuda. Por sorte, isso tudo teria um fim.

Cansado de tanta enganação, o prefeito de St. Paul conseguiu enviar o já não tão jovem indolente para Sevilla. McGanso não gostou, pois sonhava com o glamour de Barcelona, Milão, Madrid, e demais cidades.


De qualquer forma, o anti herói achou que teria vida fácil. Porém, quando chegou em terras espanholas, descobriu que havia chegado a uma clínica de reabilitação futebolística. Achando que conseguiria driblar todos novamente, cometeu um grande erro. Sob o olhar da enfermeira megera Sampaolla, McGanso teve poucas chances de mostrar seu talento em furar o olho das pessoas.

Mesmo afastado, Randall tentava exercer sua influência sob seus pobres companheiros. Tentava tirar vantagem do fato de não ser ruim como os outros e ter que se submeter ao mesmo tratamento. Tentou durante um bom tempo convencer os outros de que era possível sair da reabilitação apenas sendo diferenciado.

Durante um tempo, seus companheiros até que são contaminados pela sua incrível vontade de ser o centro das atenções sem fazer nada. Até que chegou a hora que Sampaolla não quis mais saber e parou de dar atenção para McGanso. Pior do que isso: McGanso virou escravo da sua própria crença de que era um ser diferenciado no meio de tantos iguais. E quando tentou voltar atrás, já era tarde demais. Quando viu que seu mundo desabou, percebeu que nunca foi o que pensou ser ou o que disseram que ele era.


Final Feliz: Triste, infeliz, esquecido, e sem enganar mais ninguém. Assim ficou McGanso. Para sua sorte, a vida lhe sorriu mais uma vez. Como o o bom filho sempre volta (e os filhos medianos também), decidiu voltar para Saints e refazer sua parceria com o amigo enganador Little Robson. Enchem o bolso, continuam a enganar as pessoas e vivem felizes para sempre.

Fim.

Ficha Técnica:

“Um Estanho no Gramado”

Roteiro, direção e trilha sonora feita por Mateus Ribeiro.

Estrelado por Paul Henry Ganso e Oswaldo Sampaolla.

Ano: 2017

DE VOLTA AO PASSADO

por Zé Roberto Padilha

Dr. Emmett Brown, que no épico De Volta para o Futuro, de Steven Spielberg, levou Martin McFly em seu DeLorean de volta para o passado, poderia fazer um favor ao futebol brasileiro se repetisse a viagem e embarcasse, desta vez para o ano de 1982, o Ganso. Ele desembarcaria no Estádio Sarriá e seria escalado na meia-esquerda da seleção brasileira  ao lado de Toninho Cerezzo, Falcão e Zico. Telê Santana avançaria o Sócrates para formar o ataque ao lado do Éder. E a máquina do tempo traria Serginho de volta ao presente do nosso futebol, onde mal sentiria a mudança. Nosso grande centroavante jogaria como titular em qualquer equipe. Já o Ganso, não.

Sua classe, habilidade e cadência, definitivamente, não são compatíveis com a correria desenfreada e impensada que se estabeleceu atualmente naquela faixa nobre do campo. Neste filme, dos melhores sonhos dos amantes do futebol-arte, Paulo Rossi não seria protagonista. Seria apenas um coadjuvante que enfrentou a equipe que mais simbolizou em campo a arte do futebol brasileiro. Faltou-lhe apenas o título. Se tivesse o Ganso, quem sabe?


Ganso recebe muitas críticas por ser considerado lento (Foto: Reprodução)

Ontem, durante a transmissão de Flamengo x São Paulo, o futebol refinado de Paulo Henrique Ganso, de toques suaves e passadas cadenciadas, que parecia que alguma criança na sala apertava a tecla Slow Motion toda vez que a bola chegava aos seus pés, não agradava aos comentários do Edinho. No SporTv, o comentarista exigia que ele fosse mais participativo na partida. Um carrinho, por exemplo, como os do Sheik, seria sinal de luta. As roubadas de bolas do Marcio Araújo, então, simbolizaria a glória. A mediocridade jogada tem sido irradiada através das cabines de rádio e televisão, e ela tem contaminado locutores e comentaristas e alcançado dia seguinte às bancas de jornais. Ganso, jogando na década de 80, mereceria toda semana uma crônica de Armando Nogueira no Jornal do Brasil. E outra do Nelson Rodrigues no Jornal dos Sports. Mas os cronistas literatos desapareceram junto à arte do nosso futebol. No seu lugar, ficaram colunistas que por mais que tentem, seus textos não são mais inspirados  nas jogadas dos grandes craques, mas produzidos junto a garra e a luta de alguns gladiadores. Os cada vez mais quilômetros percorridos pelos fundistas que insistem em correr mais que a bola.

Ganso, que parece atuar de smoking, não foi escalado para jogar a Copa América porque não há no comando da seleção um treinador com o bom gosto de Telê Santana. Para jogar no time do Dunga, e do Felipão, o meio-campista tem que marcar, baixar a cabeça, correr e trocar passes com seus zagueiros. Luiz Gustavo, Fernandinho, Elias, Godzila, Homem de Ferro e Volverine crescem à frente dos telespectadores e do ataque adversário. Mas não evitam que voltemos mais cedo para casa para ver a Argentina se exibir inteirinha na tela presente.

Aos 20 minutos do segundo tempo, Ganso caiu de mau jeito na área do Flamengo. Quando o massagista chegou, torcemos para ele tirar daquela bolsinha Iodex, ou um tubo de Balsámo Bengué, aquele com salicilato de metila. Até Gelol, do Pelé, nos daria esperança. Seriam símbolos dos anos 80. Dr. Emmet Brown já teria conseguido transportá-lo. Mas o massagista do São Paulo, e o médico que o atendeu, tirou um tubo com anestésico de ultima geração de aerosóis e borrifou em suas costas. Estávamos mesmo de volta ao presente. Mas se Spielberg recuou McFly no tempo para mudar a vida dos seus pais, levar o Ganso de volta ao passado, a idade em que ele merecia ter nascido e jogado, mudaria seu destino. E do próprio futebol brasileiro.