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O rei da urca

texto: Sergio Pugliese | foto: Marcelo Tabach | vídeo: Guillermo Planel

 

Os amantes do futebol de praia, a mais carioca das modalidades esportivas, não hesitaram em citar Leoni Nascimento, o Leoni, como um dos maiores técnicos de todos os tempos. Aos 84 anos, o fundador do Guaíba, lendário time da Urca, até tentou desconversar, mas seus argumentos foram abafados pela legião de fãs, no encontro para homenageá-lo, no Belmonte, promovido pelo craque Alexandre Oliveira, o Xandoca.

— O Leoni merecia um busto, na entrada da Praia Vermelha! — afirmou o lateral Alcino, da geração campeã carioca de 1981 e 1983.

Da esquerda para a direita: Leoni, Delfim e o filho Bernardo. Fila da direita, da frente para o fundo: Alcino, Xandoca, Álvaro, Ivan Testa e Ivan Russo – Foto: Guilherme Careca Meireles

Líder incontestável, o velho Leoni levou seu precioso arquivo para o bar e espalhou fotos e recortes de jornais amarelados pelas mesas e, entre chopes e petiscos, a galera emocionou-se. Ao ler matérias sobre a conquista de 81 sobre o Juventus, o mais emocionante dos seis títulos, o goleiraço Álvaro chorou. Também pudera, que jogaço!!!! O Guaíba jogaria a decisão em casa, e pelo empate, mas com a Praia Vermelha vetada por conta da faixa de areia muito estreita, a final aconteceu em Botafogo, debaixo de um tremendo pé d´água. O Juventus era osso duro de roer e tinha Nena, irmão de Junior, do Flamengo, Renato e Pinduca. Mas o Guaíba, ah o Guaíba, dava gosto!!! Álvaro, Xandoca, Ivan Testa, Anderson, Delfim, Alcino, Mangueira, Betinho, Marquinho, Vavu, Pedrinho, Beto, Gerson e Russo.

— Mas havia um desfalque importantíssimo… — lembrou Ivan Testa.

Verdade, no dia da decisão, Leoni estava no Sul tentando levantar mais uma taça para o time de handebol do Flamengo. Como treinador da modalidade, conquistou seis títulos cariocas pelo Vasco, cinco pelo Flamengo e dois com o Guaíba. Filho de militar e nascido na Urca, bairro repleto de instituições militares, Leoni sempre zelou pela disciplina e quem saísse da linha ouvia o tradicional: “Paga 10!”. No caso, dez flexões. Muitos craques foram cortados do Guaíba por má conduta, mas os que passaram no teste viveram dias de glória.

— Ninguém o encarava porque além de tudo ele era mestre em jiu-jítsu — explicou o zagueiro Delfim, acompanhado do filho Bernardo e do amigo Ivan Russo.

João Havelange (de costas), Eurico Lyra Filho (Presidente da Liga Esportiva de Copacabana), Theodoro Sodré (Presidente da Liga Esportiva do Leblon), Leoni Nascimento (Presidente da Liga Esportiva da Urca) na época em que o futebol de praia era organizado em conjunto com a CBD (Confederação Brasileira de Desportes), presidida por João Havelange.

 

 

Mas a distância de Leoni não apagou o futebol do Guaíba. Garrincha, o treinador interino, até tentou dar algumas coordenadas, mas na preleção os craques estavam mais interessados nos “amassos” de um casal, que rolava pelas areias da Praia de Botafogo sem medo de ser feliz. Garrincha falou sozinho, mas a rapaziada era ensaiadinha, rolo-compressor. O temporal, naquela tarde de sábado, ameaçou o início do jogo, mas Túlio, o árbitro, falou que ali ninguém era de açúcar e trilou o apito. O Juventus partiu feroz para cima. Nena queria dar o título de presente ao irmão Junior, lateral do Flamengo, que naquela madrugada disputaria a final do campeonato mundial contra o Liverpool. Tanta pressão, virou gol. E olha, que passar pelas muralhas Ivan Testa e Delfim, e fazer gol em Álvaro, outra lenda da praia, não era tarefa das mais fáceis.

— O Álvaro agarrava firme bolas impossíveis, com uma das mãos, como fazia o goleiro Manga — afirmou o polivalente Xandoca.

Marquinho e Mangueira empurravam o time para frente! Anderson gritava e Pedrinho dava o sangue. O jogo caminhava para o fim. Escanteio!!! Alcino, lateral envolvente, pediu ajuda aos deuses e pensou “é tudo ou nada”. Nesse momento, um raio rasgou o céu e um trovão fez estremecer Botafogo. Alcino, pé direito, cruzou, Vavu disputou na cabeça com o gigante Pinduca e a bola sobrou para Betinho, o maestro, número sete. O chute não saiu forte e a bola, espirrada, entrou lentamente. Delírio!!!! Fim de jogo!!!!

— Aquele título tinha que ser nosso! — desabafou Álvaro.

De Botafogo, a galera “voou” para o Bar Canal 6, da TV Tupi, na Urca, apelidado pelos “guaibenses” de Vestiário Alegre. Do orelhão ao lado, fizeram fila para chorar com o técnico Leoni, o cara! E à noite, comemoraram o título do Mengão com o manto sagrado do Guaíba.

— Esses meninos me deram muitas alegrias — emocionou-se Leoni.

Em 83, ganharam novamente do Juventus e ainda teve 93. Leoni já havia papado o Carioca, de 60, e o Brasileiro de 71 e 72. As provas estavam na mesa do bar. Ah, tempo bom!!! Leoni lembrou dos pioneiros Ronald, Zeca, Rodrigo e Paulo Tovar, Walter, o capitão Mauro Laviola, Amaury Bitete, Sapo, sargento Lima, Acreano, Álvaro Santos, Parede, Canarinho, Raul Celso Lins e Silva e Horacinho, maior artilheiro do time, com 205 gols. Nosso fotógrafo, Guilherme Careca Meireles, figurinha carimbada das muretas da Urca, pediu para posarem. Família unida, o goleiro Álvaro puxou o samba oficial “aé, aé, no Guaíba só joga quem sabe dar olé”. O Guaíba acabou, mas nas resenhas continua vivendo dias de glória.

Time do Guaíba, campeão do Carioca de 1960.

OBS: Esse texto foi publicado na coluna A Pelada Como Ela É em março de 2015, e agora é reeditado após o convite do fotógrafo Marcelo Tabach para que Leoni voltasse a vestir o unifome do Guaíba no campo de tantas glórias.