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A Pelada Como Ela É

A PELADA COMO ELA É

por Mauro Ferreira


A pelada não tem sobrenome. Só permite apelidos, carinhos, abraços, sorrisos e resenhas. A pelada, hino da alegria, só se permite no terreno do improviso, usa a bola como pretexto e tem no encontro sem desencontro – salve Vinícius – sua sustentação.

E a pelada foi homenageada. Deveria ser, tinha que ser. Boleiros, artistas, cronistas, gente importante e outras gentes tão importantes pra ela, embora léguas distantes dos holofotes, se reuniram bem debaixo do Cristo Redentor para saudá-la em livro.

“A Pelada Como Ela É”, livro de Sérgio Pugliese, conta e transforma em história a raiz do futebol. Virou tatuagem na tarde de segunda, 20 de dezembro de 2021 – guardem essa data, meninos -, a sua estreia antes de ir pras prateleiras das livrarias. Mais de 700 peladeiros deram o ar da graça com muita graça, sorrisos, gargalhadas, resenhas, surpresas… era a energia suprema dos boleiros, presentes para levar seu quinhão de resenha em forma de autógrafo e dedicatória.

Era gente que não se via há tempos; alguns, um intervalo de quase 40 anos. Era pra começar às cinco da tarde; às duas já tinha gente atrás do livro. E o espaço do Pizza Park da Cobal do Humaitá, foi enchendo. Muitos em fila, outros em mesa dentro, personagens em mesas fora. Todos rendidos ao prazer da resenha, o melhor produto da pelada. E rendeu conversas até quase uma da manhã.

Presentes para o autor foram vários. De cachaça a chuvisco. O maior de todos, a presença de todos. Para a pelada, sem dúvida, o presente foi a resenha coletiva, a maior da história. E é por isso – só por isso – que A PELADA É COMO ELA É

ESTÁTUA

por Rubens Lemos


Estão fazendo campanha para construir uma estátua de Roberto Dinamite no Estádio São Januário. É uma homenagem justa. Embora Roberto Dinamite seja para o Vasco o monumento humano e magnânimo. Roberto Dinamite é a razão de ser do Vasco, o ídolo de sorriso triste, aquele cara legal que você falta ao trabalho, desfaz a agenda de passeio com a família, apenas para vê-lo e ouvi-lo.

Roberto Dinamite, o principal emblema do Vasco, maior artilheiro da história dos campeonatos brasileiros (1971/2021), autor de gols decisivos, quase perfeito na cobrança de faltas e de pênaltis, quixotesco nos primeiros anos da Era Zico, quando lutava, sozinho, nos clássicos contra o Flamengo que levavam 100, 150 mil ao Maracanã para assistir ao rubro-negro sinfônico fazer sofrer e penar nas jogadas imprevisíveis do cabeludo de semblante algo melancólico.

O amor de Roberto Dinamite pelo Vasco foi eternizado em janeiro de 1980. O Barcelona havia comprado seu passe no ano anterior. Roberto havia brigado com o treinador, que não gostava do seu estilo de arrancadas fulminantes e chutes de sniper, e então o desespero tomou conta de todos nós vascaínos: o Flamengo anunciou a compra de Roberto e a Rádio Globo fez uma montagem de um gol em tabelinha dele com Zico, tremenda covardia.

Zico e Roberto Dinamite teriam formado num clube a eficiente dupla que jamais perdeu atuando pela seleção brasileira em 26 jogos, de 1976 a 1982. Juntos, marcaram 34 gols, sendo 18 de Zico e 16 de Roberto. Chegariam aos 100, se Telê Santana, o endeusado, o infalível, o técnico sensacional e siderúrgico teimoso, não nutrisse uma gratuita antipatia a Roberto, que pode ser posta na conta do que nos custou o Mundial de 1982 na Espanha. Zico e Roberto Dinamite, municiados por Sócrates, Falcão, Éder, Leandro e Júnior, teriam detonado a Azzurra, conforme aconteceu quatro anos antes, só com Roberto, sem Zico, na disputa pelo terceiro lugar na Copa/1978.

Então, o Flamengo sacudiu o Brasil anunciando uma linha atacante com Tita, Zico, Roberto Dinamite e Júlio César, o bailarino ponta-esquerda de dribles entortadores. A reação vascaína foi imediata e em pânico. Os torcedores não aceitavam ver seu mito de vermelho e preto.

Ótimo negociante, o presidente Antônio Soares Calçada lembrou que o Barcelona devia ao Vasco 700 mil dólares. Mandou o ainda desconhecido Eurico Miranda dizer que a dívida estava perdoada desde que Roberto voltasse à sua casa. Os espanhóis nem pensaram: aceitaram antes da segunda frase de Eurico.

Roberto voltou contra o Corinthians e marcou os cinco gols da vitória por 5×2 do Vasco no Maracanã tomado por 107.474 corações ensandecidos a cada bola balançando as redes do goleiro Jairo. Roberto estava no Vasco, o que significava o reencontro e a derrota sobre o Flamengo, que foi buscar o esforçado Nunes e acabou campeão brasileiro.

Nos 5×2, vibrei de ficar rouco. Meu saudoso tio-avô Derval Marinho, que detestava futebol, morreu me chateando: “Como vai Roberto Traque de Chumbo?”. Eu repetia: “É Dinamite, é Dinamite, é Dinamite’.

Seleção brasileira em Natal, meu pai comentava para a Rádio Cabugi AM(hoje Jovem Pan News) e um estúdio foi montado no luxuoso Hotel Ducal, hoje estorvo inútil no centro de Natal. Meu pai tomou-me pelo braço e me levou à cobertura onde Roberto Dinamite e o capitão Oscar conversaram.

Sinto a geleira no corpo e no espírito. Eu, um moleque, diante daquele que me justificava o amor ao futebol. Roberto Dinamite me deu um autógrafo. No caderno da escola levado por mim àquele universo mágico. Educadíssimo, conversou meia dúzia de abobrinhas enquanto eu travava no “é, é,é”.

Estupidez de Eurico Miranda, Roberto Dinamite chegou a ser expulso da Tribuna de Honra com o filho em 2002. Reagiu boquiaberto como os apunhalados pela covardia. Foi feio, deselegante, imperdoável.

Seguiu em frente. Antes, ganhou Campeonatos Cariocas (1977/1982/87/88) em cima da máquina de Zico e jogou até os 39 anos. Ele e Zico (vestido de Vasco, no troco do destino ao episódio de 1980). Roberto Dinamite está imortalizado, seja no concreto carrancudo de uma estátua, seja no amor que o fez símbolo icônico do Vasco que não existe mais.

ESCOLA DESTRUTIVA

::::::: por Paulo Cézar Caju ::::::::


Santos e Grêmio iniciaram o jogo ocupando a zona de rebaixamento. De um lado, Fábio Carille, do outro Felipão. Qual a emoção de assistir essa tragédia anunciada? Já havia visto o Brasil, de Tite, vencer a Venezuela atuando de forma vergonhosa. Felipão, Tite e Carille são de gerações diferentes, mas da mesma escola, uma escola danosa, destrutiva e que não pode, de forma alguma, ser perpetuada. Santos x Grêmio é um exemplo de tudo de ruim que pode ser oferecido ao torcedor, que voltou aos estádios, paga caro, se desloca, faz PCR, enfim, se arrisca para ver um bom espetáculo.

Os estatísticos anunciaram que o tempo de bola parada era praticamente o mesmo que o de bola rolando. O torcedor deveria sair do estádio e ir a delegacia registrar queixa por propaganda enganosa. O time do professor Carille venceu no último minuto com auxílio do VAR, todos os ingredientes de um jogo pavoroso. No fim, os jogadores do Santos se abraçaram como se comemorassem um título, choravam. O locutor falava em heroísmo, duelo, batalha. Rafinha, o do shortinho levantado, foi expulso no fim do jogo após se desentender com um gandula. Patético.

Santos e Grêmio deveriam seguir, abraçados, na zona de rebaixamento. No meio do tumulto, Ferreirinha se dirigia ao vestiário, invisível. No time de Felipão, Ferreirinha é reserva. Entrou no segundo tempo e em menos de dez minutos deu duas canetas e um lençol. Foi uma espécie de grito de socorro: salvem o futebol!!!! Na noite anterior, um pequenino ponta também infernizou a vida do gigante Leandro Castan, na vitória de 1×0 do Sampaio Correia sobre o Vasco. Era Pimentinha.

Antigamente os diminutivos faziam a alegria da torcida…Mauricinho, Paulinho, Katinha, Djalminha, Robertinho. Ferreirinha e Pimentinha estão sendo soterrados pela mediocridade do tal futebol moderno, carregam uma poesia perdida no tempo, são resistência, representam a saudade de uma época que, perdendo ou ganhando, saíamos felizes do estádio.

Após o apito final, dei mais uma chance para os analistas de computadores, que inventaram a briga pela segunda bola e que o jogador entrou rasgando por dentro da defesa adversária com posicionamento corporal e finalização na bochecha da rede! Teve outro falando que o Uruguai espaçou as linhas no duelo contra a Argentina! Sem comentários…

NETO X DOUGLAS LUIZ: A MAIS RECENTE TRETA DA INTERNET

por André Luiz Pereira Nunes


A rede mundial de computadores, popularmente conhecida como internet, inegavelmente legou inúmeras e incontáveis vantagens. O mundo se tornou mais globalizado, deixando a informação mais disponível.

Porém, como de hábito, o progresso e a tecnologia trazem vantagens e desvantagens. A atual conjuntura, permeada pela cultura da lacração, cancelamento, likes e deslikes nas redes sociais, é por demais fútil, dispensável e desagradável.

A mais recente polêmica nasceu a partir de uma crítica do apresentador e ex-craque do Corinthians e da Seleção Brasileira, José Ferreira Neto, âncora do programa ‘Donos da Bola’, da TV Bandeirantes, à convocação para a Seleção Brasileira do atleta Douglas Luiz, do Aston Villa, da Inglaterra.

O sururu virtual começou quando Neto, no último dia 6, questionou a qualidade do jogador para vestir a Amarelinha. Segundo o ex-célebre meia corinthiano, Danilo, do Palmeiras, ou Willian Arão, do Flamengo, seriam nomes mais qualificados a integrar a lista.

– Quer a maior vergonha do Tite em relação ao jogo contra a Venezuela? Convocou o jogador do Aston Villa. Alguém sabe quem joga no Aston Villa? Alguém nesse país sabe em que lugar da ‘Premier League’ está o Aston Villa?”, detonou o polêmico apresentador.

Quem acompanha a carreira de Neto, sabe bem que nunca teve papas na língua. Como jogador, foi um dos grandes craques do futebol brasileiro na década de 90. A sua ausência entre os selecionáveis à Copa do Mundo da Itália é considerada por muitos analistas uma injustiça. Na ocasião, o técnico Sebastião Lazaroni optou por nomes de menor envergadura como o meia vascaíno Bismarck.

Apesar do longo histórico recheado de confusões, Neto tem se destacado na condução de seu programa esportivo, embora reiteradamente exagere nas críticas e declarações.

Mas, como toda ação tem uma reação, em resposta, Douglas Luiz baixou o nível e chamou o apresentador de “palhaço da TV”.

O ex-jogador então reagiu:

– Tem que falar que o ‘Donos da Bola’ não aparece só em São Paulo. Está aparecendo na Inglaterra. O Douglas Silva, ops, Douglas Luiz, que joga no Aston Villa, a Portuguesa Santista que fala inglês, diz que sou o palhaço da televisão. O último gol dele foi em janeiro de 2020. Você está de brincadeira. Quem é você perto de mim? Se eu sou o palhaço da televisão, você joga bola?”, questionou.

A tréplica de Douglas Luiz, cuja carreira se iniciou no Vasco, foi ainda mais reticente.

– Olhei o currículo dele aqui e não vi nenhum time grande, fora do Brasil. Então, quem é o Neto para falar do Aston Villa, que, na minha concepção, é um gigante europeu? E você, Neto, não jogou em lugar nenhum, entendeu? Você fala muito, não sei quem te deu esse apelido de craque”, reiterou.

De fato, Neto atuou apenas por dois times no exterior, nenhum deles na Europa: o Millionários, da Colômbia, e o Deportivo Itália, da Venezuela, já em final de carreira. Conquistou dois Campeonatos Paulistas, um Campeonato Brasileiro, uma Supercopa do Brasil e um Campeonato Venezuelano, além de outros títulos de menor expressão.

Já o Aston Villa, clube de Douglas Luiz, é um dos mais tradicionais de Londres. Inclusive completará 147 anos em 21 de novembro. A equipe tem três títulos em nível europeu: uma Champions League, uma Supercopa da UEFA e uma Copa Intertoto. Além disso, conta com sete títulos do Campeonato Inglês e mais sete da FA Cup. Não é pouca coisa!

Contudo, vale sempre relembrar que Zico jogou na Udinese. Júnior e Casagrande no Torino. Roberto Dinamite fracassou no Barcelona e Sócrates na Fiorentina. Já Gabigol, colega de Douglas Luiz na Seleção, não obteve qualquer êxito na Inter de Milão.

Para ser craque é preciso ter jogado na Europa? Neto pode ter pego pesado, mas Douglas Luiz parece desconhecer a história e a grandeza do futebol brasileiro.

Ê, SAUDADE!!!!

por Sergio Pugliese


Da beira do campo 3, do Aterro do Flamengo, o pernambucano João Barbosa da Silva, de 76 anos, desabafou:

– O futebol está em crise…

Nosso atento fotógrafo, radar ambulante, Guilherme Careca Meireles, ouviu e freou, afinal a declaração partira de um dos maiores especialistas no assunto da cidade, João da Laranja, o vendedor mais antigo do parque.

– Por que tanto pessimismo, João? – questionou o lambe-lambe.

– Já assisti a grandes jogos aqui! O nível vem caindo muito – lamentou o tricolor, que há 45 anos vende laranjas e bebidas, no trecho entre os campos 3 e 5.

– Não tem visto nada de especial? – insistiu Guilherme Careca Meireles.

– Hoje tem uma garotada que corre muito e é tudo meio mecânico – respondeu.

O papo virou resenha e João da Laranja nos convidou para sentar. Perguntou se tínhamos visto o Embalo do Catete jogar. Naquela época, décadas de 60 e 70, os campeonatos do Aterro, organizados pelo Jornal dos Sports, atraíam milhares de torcedores. Todos queriam ver os chutes certeiros de Luisinho, bicampeão pelo Embalo, a técnica apuradíssima de Zé Brito, o lateral rechonchudo, campeão em 1972, e os dribles arrepiantes de Jacaré, do Xavier, da Tijuca, outro grande campeão.


– Não é exagero, mas as pessoas deixavam de ir ao Maracanã para assistir os jogos aqui – recordou João, que naquele tempo chegava a vender 500 laranjas por dia.

João chegou ao Rio com 26 anos e trabalhou como servente de pedreiro, mas logo passou a vender laranjas no Aterro. Morador da comunidade do Santo Amaro, no Flamengo, também encantava-se com o futebol do Ordem e Progresso, de Filé & Cia, um dos representantes do bairro, nos torneios.

– O que acha que mudou de lá para cá? – questionou o fotógrafo bom de bola.

– O campo era de terra. Esse sintético é um horror. Arriscavam-se mais dribles, os caras jogavam mais bola, sei lá…

Alguns desses caras eram Hugo Aloy, Xanduca e Roni, do Capri, Tonico, do Xavier, Joaquim e Cícero, do Naval, Álvaro Canhoto, do Milionários, e o goleiro Dinoel, do Pedra Negra. Segundo ele, o 10 do Baba do Quiabo também infernizava. Também lembrou do divertido time Morrone (Movimento dos Oito Rapazes que Vivem Rindo Onde Ninguém se Entende), do trio Hamilton Iague, Marcelo e Wilson Fragoso, o Onça. Levaram a maior goleada do Aterro, 47 x 0 do Embalo. Luisinho deitou e rolou!


– Sinto saudade, mas vai melhorar – apostou.

Enquanto isso, vai jogando seu dominó com os amigos, os também nostálgicos Shell, grande árbitro, Oscar, campeão pelas Drogarias Max, e o conterrâneo Zé Faria. Já não vende mais laranjas, só bebidas. Aproveita nossa equipe para reivindicar mais segurança e banheiros para o local. De repente, uma gritaria. Pênalti! Ele levanta-se para ver a cobrança. Na lua!!! Ele riu e comentou com os parceiros:

– O Luisinho jamais perderia.

Crônica publicada originalmente na coluna “A Pelada Como Ela É”, do Jornal O Globo, em 13 de junho de 2015.