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BOTARAM FOGO NO CHUCRUTE DELES

27 / agosto / 2020

por Pedro Barcelos


Matéria de capa do Jornal “A Noite”,

No último domingo, o mundo do futebol parou para assistir a final da Champions League. Ganhou o melhor time. Nenhuma surpresa para aqueles que acompanham o futebol do Bayern nos últimos anos. No entanto, o que pouca gente lembra é que o mesmo Bayern só despontou no esporte depois de duas aulas alvinegras. São dois episódios que nós, que batemos, pouco recordamos. Já eles…

O primeiro baile foi em 26 de maio de 1961, em Munique. O Botafogo esmagou um combinado do T.S.V. 1860 e do Bayern, chamado na época de “Seleção da Baviera”. Amarildo precisou de 11 minutos para marcar dois gols e adiantar a vitória botafoguense. O adversário tentou reagir, mas Garrincha e Amoroso fecharam o placar.

O Santos de Pelé já havia jogado em Munique em duas ocasiões, ambas com vitórias, mas os bávaros gostaram mesmo foi do Botafogo. Em matéria do jornal “A Noite”, podemos ver que os alemães “apontavam o Botafogo como equipe superior ao Santos” e que Garrincha era “o melhor jogador que jamais passou por aquela cidade”. Eu, apenas um torcedor de videoteipe, prefiro não argumentar sobre essas discussões e acreditar nos compatriotas do Einstein. 

Dizem que no final daquele jogo, Garrincha perguntou se os alemães estavam com o chucrute assado. Se essa história é verdade ou folclore, nunca saberemos. Fato é que Amarildo substituiu Pelé na Copa de 1962 e, junto com seus colegas de time, levou o Brasil ao seu segundo título mundial. Botafogo e Bayern demoraram 11 anos para se reencontrarem, tempo suficiente para as duas equipes estarem em situações completamente diferentes. O Bayern, depois da primeira aula, começava a crescer, sendo campeão alemão pela primeira vez em 1969. Já o Botafogo, repleto de problemas internos e com horizonte nebuloso, ficava cada vez mais distante dos títulos que se acostumou a ganhar.

Em 1972, o Botafogo foi convidado para participar do tradicional Torneio Ramón de Carranza. Não seria uma edição qualquer. Aquela foi a única edição, em 64 anos de história, que apenas um time espanhol jogou (normalmente eram dois clubes espanhóis e dois estrangeiros). Os organizadores se esforçaram ao máximo para levar boas equipes atéCádiz. A equipe anfitriã (Athletic Bilbao) receberia o Benfica de Eusébio, o Botafogo de Jairzinho e o Bayern de Beckenbauer. Possivelmente as melhores equipes mundiais da época. 


Eusébio e Beckenbauer em 1972

O Benfica era a base da seleção portuguesa, time que havia surpreendido o mundo na Copa da Inglaterra, ficando em terceiro lugar e eliminando o time bicampeão (Brasil). O Bayern era praticamente a seleção da Alemanha que havia conquistado a Eurocopa apenas dois meses antes e que tinha ficado em terceiro lugar na Copa de 70, após perder para a Itália em um dos maiores jogos de todos os tempos. Esses seriam os dois adversários do Botafogo naquele final de agosto.


Beckenbauer voando baixo em 1972

O Botafogo, por sua vez, já não era mais a base da seleção nacional, como em 1961. As convocações do Brasil estavam mais pulverizadas entre os clubes, mas mesmo assim ainda contávamos com jogadores excelentes, tais quais Wendell, Brito, Marinho Chagas (estreando no time), Nei Conceição, Carlos Roberto, Jairzinho, Fisher e Roberto Miranda. No entanto, duas grandes questões teriam que serresolvidas: o cansaço e o treinador, Tim.

O Botafogo chegou ao local do torneio na véspera do jogo contra o Benfica após 23 horas de viagem. Para piorar, o hotel era muito tumultuado. O movimento era tanto que até Vavá, que na época treinava um time da segunda divisão espanhola, visitou os jogadores alvinegros no hotel com dicas sobre o adversário. Pelo visto as dicas não foram muito boas e o Botafogo tomou 3 gols dos portugueses. Aquela foi a gota d’água para o crescente desentendimento entre Tim e o elenco. 

Assim que a partida acabou, os jogadores se juntaram para criticar o Tim. Reclamavam das suas escolhas táticas e pediam o óbvio: fechar o time na defesa e explorar a velocidade de Zequinha e Jairzinho no ataque. Não tinha erro. A briga cresceu tanto que até Vavá, que pouco tinha a ver com aquilo tudo, resolveu se meter a falar que o time era lento, desentrosado e ultrapassado.  


Zequinha e Marinho Chagas peloBotafogo

Tim podia ser muita coisa, mas calmo e humilde não eram algumas de suas virtudes. No dia seguinte, não teve o mínimo pudor de ir até Paulo César Pereira, jornalista histórico do Jornal dos Sports, reclamar dos jogadores, dos dirigentes e do clube inteiro. “O Botafogo é o clube mais liberal do mundo. Lá os jogadores são vedetes. Existe até hippies no elenco e os dirigentes não tomam nenhuma atitude contra isso. Sou técnico e não tenho que ficar me preocupando com detalhes disciplinares. Agora, de esquemas eu conheço mais do que qualquer um”.

Enquanto isso, o Athletic Bilbao vencia o Bayern por 4 a 3. Os anfitriões jogariam pelo título contra o Benfica, enquanto o Botafogo enfrentaria os bávaros para a disputa de terceiro lugar. Se existia ambiente pior para aquele jogo, o Botafogo desconhecia. A solução encontrada provavelmente desagradou Tim, mas quem levou a pior não foi ele. 


Gerd Müller com o primeiro troféu do tricampeonato da Bundesliga

Os jogadores botafoguenses, cascudos de competições internacionais, se juntaram, ignoraram as exigênciasdo treinador e organizaram seu próprio esquema tático. Jairzinho, com problemas no rim, não entraria em campo. Naquele 27 de agosto de 1972, o Botafogo foi escalado com Wendell, Edmilson, Brito, Valtencir (c) e Marinho; Carlos Roberto e Nei; Zequinha, Fischer, Roberto e Dorinho. O Bayern escalou todos os seus craques: Sepp Mayer, Paul Breitner, Franz Beckenbauer e Gerd Müller, artilheiro da Copa de 70. Dois baitas times.

O jogo começou acelerado e com apenas dois minutos, Fisher abriu o placar. Aos 30, Roberto entrou, literalmente, com bola e tudo. Müller descontou no final do primeiro tempo e empatou na metade da segunda etapa. Foi aí que a chave virou e o Botafogo cresceu na partida.


Chamada da matéria na capa Do Jornal dos Sports

Jairzinho, no banco de reservas, praticamente obrigou que Tim sacasse Fisher e colocasse Ferreti para jogar. O primeiro já não tinha velocidade para os contra-ataques e aquela seria a única possiblidade de vitória. Na primeira bola que Ferreti recebeu: gol. Aos 40 do segundo tempo, mais um gol dele, dessa vez driblando o excelente goleiro alemão e sendo aplaudido de pé pelos torcedores espanhóis. Sandro Moreyra, no JB, descreveu que “O Bayern se desesperou”.Normal, quando um time igual ao Botafogo se unia daquele jeito, era difícil o adversário entender o que estava acontecendo. Não tinha pra ninguém.

A crônica esportiva mundial foi ao delírio com aquele baile. Carlos Roberto não deixou Beckenbauer encostar na bola. Nei Conceição, com mais liberdade do que nas apresentações anteriores, brincou. Brito teve certo trabalho com Müller, mas o alemão jamais esqueceria daqueles pontapés. Roberto coordenou o ataque na ausência do Jairzinho. Fisher deixou até o FGTS em campo e Ferreti foi o craque do jogo (20 minutos e dois gols).


Botafogo em destaque no jornal “El Mundo Desportivo”, de Barcelona

Depois daquele dia, o futebol do Bayern nunca mais foi omesmo. O time ganharia a Champions League por três edições consecutivas (de 1973 a 1976), se consolidando no cenário europeu como referência de trabalho de equipe e frieza. Nenhum jornal do mundo, nunca mais, usou a expressão “desespero” na mesma sentença que “Bayern de Munique”. E aquele time ainda foi a base da Alemanha campeã do mundo em 1974. 


Gerd Müller e Franz Beckenbauer pelo Bayern

Beckenbauer continuou admirando o Botafogo e dizendo ser torcedor do clube, tanto que o parabenizou pela conquista da Taça Guanabara em 2013. Outra figura de Munique que também jamais esqueceu o Botafogo foi o cineasta Werner Herzog, que tinha apenas 18 anos quando viu o show de Amarildo em 1961.

Mas nada disso é comparável com a sequência do Botafogonaquela temporada de 1972, talvez o último grande ano do Botafogo naquela década. Nem mesmo o torcedor mais otimista conseguiria prever o feito dos meses seguintes. Assim que o time retornou da Europa, Leônidas assumiu o comando no lugar de Tim, levando o Botafogo ao vice-campeonato nacional. Porém, o que os alvinegros jamais esquecerão será daquele 15 de novembro de 1972, quando Jairzinho, Fisher e Ferreti, já cansados de assar chucrutes, resolveram botar fogo em outro lugar.

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