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O MELHOR QUE EU VI

28 / agosto / 2020

por Paulo Roberto Melo


Eu nasci em março de 1966. Por força dessa data, posso dizer que sou do tempo dos Beatles. Não posso dizer, no entanto, que acompanhei o quarteto de Liverpool, afinal, eu tinha apenas quatro anos quando eles decidiram se separar e só fui apresentado aos seus clássicos pelo meu irmão, alguns anos mais tarde.

Por assim dizer, também sou do tempo em que Pelé desfilava seu reinado pelos gramados do mundo, mas, infelizmente, não o vi jogar. Minha noção real de futebol começou a tomar forma quando eu tinha dez anos e, nessa época, os desfiles do Rei aconteciam nos gramados sintéticos dos Estados Unidos e sem a mídia que temos hoje, o soccer da terra do Tio Sam (porque para esses doidos, football, apesar do nome, é um esporte jogado com as mãos, o que nós aqui chamamos de… futebol americano),bem, eu dizia, o tal de soccer era um quase nada que nem passava na televisão.

Mesmo não tendo visto Pelé jogar, acredito e concordo de que se trata do maior jogador de futebol de todos os tempos. Os relatos, as crônicas e os vídeos me convenceram disso há muito tempo. Mas meus olhos, coitados, não viram Pelé jogar e o título deste texto é “O melhor que eu vi”. Então, é… hum… o que eu quero dizer é que, ainda que seja um vascaíno de boa cepa, o melhor jogador que vi jogar foi o… Zico!

Tanto tempo depois da aposentadoria do Galinho, essa declaração pode ser feita hoje tranquilamente, mas, olha, nem sempre foi assim. Tendo nascido e vivido em uma casa vascaína com certeza,houve época em que tal afeto podia ser comparado ao beijo de Judas em Jesus, ao romance proibido de Romeu e Julieta, ou a delação de Joaquim Silvério dos Reis. Traição em último grau. Mas, se é verdade que quem tem um bom advogado tem tudo, Renato Russo diria em minha defesa:“quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração?”

A verdade é que sou um vascaíno convicto, mas sou também um apaixonado pelo futebol bem jogado, o que significa dizer: com talento, habilidade, raça, dribles, lançamentos e gols, muitos gols. Quem em sua sã consciência pode dizer que essa não é uma perfeita definição do jogo do Zico? É claro que sofri vendo-o fazer gols contra o Vasco, mas esse sofrimento foi ficando menor, à medida em que fui entendendo que em um jogo, assim como na vida, se ganha e se perde e depois tudo vira história.

Em 1982, pelo campeonato brasileiro, houve um Flamengo x Guarani, em Campinas, que foi transmitido pela TV. O Guarani tinha um timaço, com Careca e Jorge Mendonça jogando muito! Sobre esse jogo, convém lembrar que o bairrismo, hoje diluído por causa do êxodo dos craques, naquela época era bem mais acentuado. Vários jogadores cariocas sofreram com vaias intensas durante jogos inteiros, em São Paulo, mesmo jogando pela seleção, casos de Paulo César Caju e Roberto Dinamite, por exemplo. Com isso, quase dez anos depois de ter aparecido para o futebol e apesar de contar com uma profusão de gols e de conquistas Brasil e mundo afora, orquestrados pela imprensa de São Paulo, as torcidas de lá diziam que o Zico era jogador só de Maracanã. Ou seja, o Galo ia ter que provar mais uma vez que eles estavam errados. Pois bem, então, naquela noite de quinta feira, o Brinco de Ouro da Princesa virou Estádio Mário Filho. O Flamengo venceu por 3×2, com três gols do Zico, que eu considero a maior atuação de um jogador em uma partida de futebol. Foi incrível!

Mais tarde, vendo o Zico jogar pelo modesto Udinese, da Itália, nas manhãs de domingo, pela TV Bandeirantes, o Brasil inteiro pôde constatar, inclusive as hostes inimigas, o que um craque como ele podia fazer contra adversários do quilate de Maradona, Platini, Falcão e outros, que jogavam em times muito mais fortes que o dele e em condições atmosféricas completamente desfavoráveis para um atleta brasileiro (e carioca).


Com o pessoal lá de casa, aliás, acontecia uma coisa engraçada. Parecia aquele negócio de filho bagunceiro: é verdade, mas ninguém pode falar do garoto, só os da família. Para meu pai e meus irmãos, o Zico só fazia gol de pênalti ou na banheira, mas diante da perseguição da imprensa de fora do Rio ou quando ele sofreu aquela entrada criminosa de um zagueiro do Bangu que quase o inutilizou para o futebol, os protestos foram unânimes e veementes. Nem aquele lance infeliz do pênalti contra a França na Copa de 1986 foi capaz de manchar minimamente a sua reputação de craque. Nada mais justo. Somos vascaínos, mas gostamos de futebol – ou melhor, somos vascaínos, por isso gostamos de futebol.

Claro, não posso deixar de dizer que o ápice da minha admiração aconteceu em 1993, quando ele aceitou jogar com a camisa do Vasco, na despedida do Roberto Dinamite. Sim, eu estava no Maracanã naquele jogo contra o Deportivo La Coruña. A derrota do Vasco para um time que na época era mais forte não significou nada. Grande mesmo foi ver eternos rivais que sempre se respeitaram, jogando juntos como amigos.

Ah, Zico, só você para me fazer sentir saudade e alívio, tudo junto.

Num tempo em que há por aí tantas “estrelas” milionárias supervalorizadas pela mídia, eu me lembro de uma coisa que o meu pai dizia, se não me engano falando do Ademir Queixada e parafraseando o profeta João Batista sobre as sandálias de Jesus: nenhum deles serviria sequer para amarrar as chuteiras do Zico.

Triste Copa: o Zico disputou três e não ganhou nenhuma – mas foi o melhor que eu vi jogar.

Tristes gerações Y e Z que não viram: há trinta anos, o Zico parou de jogar e continua sendo o melhor que eu vi.

Resumindo: o Dinamite foi o maior ídolo; o Zico, o maior craque.

E o seu maior craque, quem foi?

A propósito, mesmo sem ter visto os Beatles, eu declaro: eles são os melhores! Mas isso é papo para uma outra conversa.

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