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Pedro Barcelos

O ARTISTA QUE NOS UNIU

A história de um ídolo dentro e fora dos campos

 por Pedro Barcelos 


No dia 10 de julho de 1980, o Brasil perdia um de seus principais pintores, Francisco Rebolo. Porém, para além disto, o Corinthians perdia um de seus principais artistas. Nascido na Mooca, em 1902, Rebolo pode ser retratado de diversas formas, mas nós sempre iremos reverenciá-lo como o artista do escudo.

Ainda moleque, ouviu seus pais se queixarem da falta de grana em casa. A situação estava complicada. Pensando como poderia ajudá-los, não tardou a seguir uma carrocinha que passava pela rua enquanto jogava uma pelada. Foi com ela até seu destino final, crente que desta jornada conseguiria algum trampo que amenizasse a carência doméstica. Destinado, conseguiu assim seu primeiro trabalho: pintor de paredes.

Mesmo atarefado com os serviços recém-demandados, não deixou de jogar bola nas várzeas paulistanas. Na época, os clubes da Liga (de elite) e de várzea continham os mesmos jogadores. O homônimo corintiano, por exemplo, se chamava Botafogo, time formado por espanhóis da rua Santa Rosa (no Brás) que eram majoritariamente donos de armazéns de secos e molhados. O Paysandu jogava com o nome de Argentinos, na Rua do Glicério, que pela proximidade de casa, Rebolo acabou integrando. Após um tempo, Tobias, outro pintor de paredes, chamou Francisco para integrar o São Bento, que seria seu primeiro time da Liga. 

O ano de 1922 poderia ficar marcado para os artistas da época como o marco da arte modernista no Brasil, mas Rebolo nesta época era apenas um pintor de parede e seu foco artístico estava mais para o futebol. Seu ingresso no Corinthians, time que sempre torceu, aconteceu de forma curiosa. Contratado para pintar uma parede na sede do clube, Neco (jogador da seleção brasileira e um dos maiores ídolos da história do clube), reclamou: “Você vem aqui tirar o nosso dinheiro como pintor do salão e joga lá no São Bento?” A solução para o problema veio com o passe de Rebolo e o título do Campeonato Paulista daquele ano (Taça do Centenário da Independência), jogando de ponta-esquerda.


Sua passagem como atleta pelo seu time do coração não foi longa, durou apenas cinco temporadas. Após este período, ainda jogou no Ypiranga até se aposentar dos gramados. Porém, sua principal contribuição ao futebol ainda estava longe de acontecer.

Sua carreira de pintor de quadros decolava, sendo reconhecido cada dia mais como um dos principais artistas brasileiros. Junto com outras importantes figuras da época, criou o Grupo Santa Helena em seu ateliê na Praça da Sé. Era um grupo de artistas autodidatas notáveis. Prova disto, quando perguntado em uma exposição sobre se conhecia Cézanne, retrucou: “É corintiano? Mora em qual rua?”

Em 1936, finalizou aquela que seria uma das suas principais gravuras sobre futebol, estampando a capa do livro “O Negro no Futebol Brasileiro”, de Mario Filho. O autorretrato (ele vestindo branco e preto, óbvio) ganhou fama também por ilustrar um negro jogando futebol com as cores nacionais, algo ainda pouco recorrente na época. 


No entanto, foi em 1939 que seu nome ficaria para sempre marcado na história do Corinthians. Alguns dirigentes e amigos que ele mantinha no clube o procuraram para resolver uma questão: o clube agora também tinha equipe de regatas e o emblema do época não embarcava nesta novidade. Rebolo, então, pintou o escudo novo em toda a sede do Parque São Jorge.

O tempo passou e o clube deixou de ser apenas um coletivo de bairro para ter proporções mundiais. Após o pentacampeonato brasileiro, o escudo começou a ficar ofuscado pela quantidade de estrelas na camisa. Em 2011, o clube resolveu a questão com a seguinte nota: “Se título cada um tem o seu preferido, o emblema é único. É o belíssimo desenho de Rebolo que une todos os corintianos em torno de uma única paixão. É o escudo que nos protege dos adversários. É o distintivo que nos distingue dos outros. A camisa continuará com o escudo na altura do coração. Agora, até maior. E, do lado de dentro, no coração de cada um, continuará a brilhar a estrela preferida”.


No mesmo livro que Rebolo publicou sua gravura mais famosa sobre o esporte, Gilberto Freyre apresenta no prefácio uma famosa distinção entre o futebol-ciência (oriundo da Europa, com ênfase no jogo coletivo) e o futebol-arte (brasileiro, individualista, empírico). Esta diferença se acentuou com o tempo, ganhando relevância ainda mais notória após os três primeiros títulos mundiais brasileiros, porém, de todas as profecias possíveis para o futebol-arte, nenhuma consegue contemplar este personagem: pintor moderno, jogador ousado e desenhista do maior símbolo corintiano. Se falta arte para o nosso futebol contemporâneo, não falta história para as artes do passado.

Salve, Francisco Rebolo!

Salve o Corinthians!

99 ANOS DA PRIMEIRA MALDIÇÃO DO FUTEBOL

por Pedro Barcelos


Sempre ouça as palavras finais de um homem: elas têm poder profético. Ou melhor, nunca ouça as palavras finais de um homem: elas têm poder profético. Pior ainda se forem palavras de um jornalista do naipe de Euclides da Cunha.

O cenário não poderia ter nome mais irônico: Piedade. Era apenas mais um dia no Rio de Janeiro, já acostumado com as puladas de muro da esposa de Euclides. Ele era mais velho do que ela, viajava constantemente a trabalho e não tinha muito tempo para ela. Fora isso, ele nunca foi reconhecido por sua simpatia e cordialidade. “Os Sertões” vendeu muito bem e o jornal O Estado de São Paulo seguiu delegando coberturas distantes e complicadas ao célebre autor. A notoriedade foi tamanha, que Euclides chegou a ajudar na negociação do Acre, junto à Bolívia. Sem dúvidas, uma das grandes personalidades daqueles tempos. No entanto, a situação familiar seguia de mal a pior.

Ana Emília, que apenas queria ser amada, encontrou em Dilermando (um aspirante do exército) os carinhos que procurava. Os dois se amavam e tentavam viver escondidos, o que, de fato, não acontecia. Toda a capital federal sabia da relação, que inclusive chegou a acarretar em um filho, assumido por Euclides.

Essa relação extraconjugal de anos poderia ter tido um fim naquele domingo, 15 de agosto de 1909, porém o resultado foi bastante diferente.


Decidido a acabar com a vida do amante de sua esposa, Euclides saiu em direção ao bairro que, naquele dia, não vivenciou momentos piedosos. Dilermando estava descontraído na sacada de sua casa, acompanhando o movimento da rua, quando foi surpreendido pelo corno. O silêncio que precede o esporro foi interrompido pela profecia: “Vim para matar ou morrer”. Euclides conhecia bem o poder das palavras e sabia exatamente o que estava falando. Na campanha brasileira pelo Acre, provavelmente aprendeu com algum curandeiro que certas afirmações são incuráveis.


Dilermando correu para dentro da própria casa, em procura de defesa. Euclides entrou sem permissão na residência e encontrou Dinorah, o irmão mais novo de Dilermando e zagueiro do Botafogo. Vendo a arma nos punhos do jornalista, Dinorah tentou correr, mas acabou tomando três tiros. Um deles, o mais degradante, na coluna, logo abaixo da nuca.

Desacordado, não conseguiu ver o triunfo do próprio irmão sobre Euclides da Cunha, tampouco seu semblante de alívio por não precisar mais esconder uma relação amorosa de tanto tempo que de escondida não tinha mais nada. As vitórias enobrecem os homens, mas também os cegam. A euforia fez Dilermando não ter noção do estrago causado. Estes acontecimentos ficaram conhecidos nos jornais da época como a “Tragédia da Piedade”.


Alguns jornais da época enalteceram Dilermando, entendendo que o assassinato do escritor representava uma revanche contra os relatos de Euclides na Guerra de Canudos. Dilermando, um militar, traindo e matando um jornalista que, apesar de republicano assumido, havia denunciado os horrores de um massacre promovido pelo Governo. Era tudo que a imprensa pelega queria.

Euclides faleceu, mas deixou obras de valor histórico permanentes. Os feitos de Antônio Conselheiro e os estragos que o Governo causou contra seus seguidores jamais teriam tamanha notoriedade caso Euclides não escrevesse seu relato jornalístico. Suas obras continuam sendo lidas nas escolas até hoje, 111 anos após a Tragédia da Piedade. No final de contas, Euclides ainda vive. Então alguém precisava morrer.

O Futebol de Dinorah 

Dinorah e seu irmão mais velho começaram carreira militar cedo. Dilermando tinha mais aptidão pelas serviços demandados, enquanto Dinorah preferia os esportes. Em 1906, o irmão mais novo começou sua carreira no Internacional (SP). Em 1907, foi campeão paulista e chamou atenção do América carioca. Em 1908, após duas vitórias sobre o Botafogo, Dinorah foi árbitro de uma partida amistosa entre Botafogo e Germânia (SP). Os laços entre o zagueiro e o clube já estavam firmados e Dinorah vestiu a camisa alvinegra pela primeira vez apenas um mês depois, em 12 de outubro de 1908.

No começou do ano de 1909 o vínculo só aumentou. Dinorah jogou e fez gol no jogo histórico contra o Mangueira: 24X 0, a maior goleada do futebol brasileiro até hoje. Contra o Haddock Lobo, jogou no ataque e marcou SEIS gols. Um craque. Exatamente uma semana após a Tragédia da Piedade e ainda com uma bala alojada na coluna, lá estava ele em campo contra o Fluminense, maior rival do Botafogo.


Apesar destes feitos, o ano de 1909 acabou favorável aos tricolores, mas em 1910 seria diferente. O Botafogo foi campeão carioca e recebeu o apelido de “O Glorioso”. Dinorah jogou 9 das 10 partidas naquele torneio imortalizado no hino de Lamartine Babo (hino corrigido apenas em 1996). 

O ano de 1911 foi o mais importante de todos para o futebol carioca. Ali se definiram os alicerces e características marcantes de seus protagonistas. Porém, as complicações por conta da bala ainda alojada pioraram e Dinorah começou a atuar menos, participando de apenas três jogos pelo 1º time botafoguense. Em dois anos de clube, foram 29 jogos (21 vitórias; 4 empates; 4 derrotas), sendo 22 jogos com a bala alojada. Esses são números do primeiro time alvinegro, pois era comum na época jogos preliminares ou amistosos serem marcados com times alternativos. Sobre esses dados, infelizmente, não se tem conhecimento. 

A Maldita Profecia


Fato era que Euclides da Cunha passará dessa pra melhor, sem dúvidas, porém a maldição continuaria e alguém precisaria sofrer. Dinorah começou a sofrer problemas motores por conta do projétil e precisou parar de jogar bola em 1911. Dois anos depois, foi retirar a bala, mas por conta de um problema médico ficou hemiplégico (perdeu o movimento em metade do corpo).  

Transtornado com a situação e sem poder voltar aos serviços militares, vagou pelas ruas do centro do Rio de Janeiro em procura de esmola. Da glória de campeão carioca à mendigo, bastaram três anos. O esquecimento do primeiro guerreiro do futebol mundial foi mais rápido do que um mandato presidencial. A tortura psicologica causada por um incidente do qual ele não tinha a menor culpa foi enorme. Tentou se suicidar na Praia de Botafogo, mas nem para isso ele teve sucesso. Foi resgatado à contra-gosto.

Em busca de sua última missão, partiu para Porto Alegre, na esperança de encontrar o sossego final. No dia 20 de setembro de 1921, um domingo, se jogou no Rio Guaíba e morreu afogado. Levou consigo uma versatilidade e garra incomparáveis em campo, o título carioca de 1910, a sífilis, o alcoolismo e o esquecimento. Se Dinorah não acatou as próprias dores, creio que poucos, ou ninguém, também conseguiria. 

A Decisão Purgatorial 

Em 1916, Dinorah ainda soube de outra tentativa de assassinato contra seu irmão: desta vez feita por Euclides da Cunha Filho. Porém, Dilermando sobressairia outra vez e mataria o filho do jornalista. 

Euclides deixou filhos, mas Dinorah deixou herdeiros. Em um esporte praticado basicamente por elitistas da época, este é o primeiro caso relatado de um campeão glorioso que cai no esquecimento popular e mendiga farrelhos pelos cantos da cidade. Euclides anunciou: “Vim para matar ou morrer”! Esta frase ecoa até hoje nos ouvidos de todos os jogadores que iniciam carreira no futebol: “é vencer ou morrer”. Muitos morrem e são esquecidos, assim como Dinorah, infelizmente.

O que era, até então, um esporte humano, passou a ter preposições sobrenaturais com aquele tiro sem piedade na coluna de Dinorah. Um campeão jamais poderia ser esquecido. Isso é irracional, é sobrehumano. É uma maldição! A maldição da qual não se basta ganhar, é necessário algo a mais. E é exatamente esta a crueldade posta a partir daquele fatídico domingo: a incógnita do que significa o “algo a mais”. 

Seu falecimento completa 99 anos no dia de hoje. Aposto que daqui a uma ano, no centenário de sua morte, a data passará despercebida por grande parte dos torcedores de futebol, incluindo os do Botafogo. Uma pena para Dinorah, seus familiares e a história do futebol brasileiro. E o pior: tudo isso por culpa de um chifre!

BOTARAM FOGO NO CHUCRUTE DELES

por Pedro Barcelos


Matéria de capa do Jornal “A Noite”,

No último domingo, o mundo do futebol parou para assistir a final da Champions League. Ganhou o melhor time. Nenhuma surpresa para aqueles que acompanham o futebol do Bayern nos últimos anos. No entanto, o que pouca gente lembra é que o mesmo Bayern só despontou no esporte depois de duas aulas alvinegras. São dois episódios que nós, que batemos, pouco recordamos. Já eles…

O primeiro baile foi em 26 de maio de 1961, em Munique. O Botafogo esmagou um combinado do T.S.V. 1860 e do Bayern, chamado na época de “Seleção da Baviera”. Amarildo precisou de 11 minutos para marcar dois gols e adiantar a vitória botafoguense. O adversário tentou reagir, mas Garrincha e Amoroso fecharam o placar.

O Santos de Pelé já havia jogado em Munique em duas ocasiões, ambas com vitórias, mas os bávaros gostaram mesmo foi do Botafogo. Em matéria do jornal “A Noite”, podemos ver que os alemães “apontavam o Botafogo como equipe superior ao Santos” e que Garrincha era “o melhor jogador que jamais passou por aquela cidade”. Eu, apenas um torcedor de videoteipe, prefiro não argumentar sobre essas discussões e acreditar nos compatriotas do Einstein. 

Dizem que no final daquele jogo, Garrincha perguntou se os alemães estavam com o chucrute assado. Se essa história é verdade ou folclore, nunca saberemos. Fato é que Amarildo substituiu Pelé na Copa de 1962 e, junto com seus colegas de time, levou o Brasil ao seu segundo título mundial. Botafogo e Bayern demoraram 11 anos para se reencontrarem, tempo suficiente para as duas equipes estarem em situações completamente diferentes. O Bayern, depois da primeira aula, começava a crescer, sendo campeão alemão pela primeira vez em 1969. Já o Botafogo, repleto de problemas internos e com horizonte nebuloso, ficava cada vez mais distante dos títulos que se acostumou a ganhar.

Em 1972, o Botafogo foi convidado para participar do tradicional Torneio Ramón de Carranza. Não seria uma edição qualquer. Aquela foi a única edição, em 64 anos de história, que apenas um time espanhol jogou (normalmente eram dois clubes espanhóis e dois estrangeiros). Os organizadores se esforçaram ao máximo para levar boas equipes atéCádiz. A equipe anfitriã (Athletic Bilbao) receberia o Benfica de Eusébio, o Botafogo de Jairzinho e o Bayern de Beckenbauer. Possivelmente as melhores equipes mundiais da época. 


Eusébio e Beckenbauer em 1972

O Benfica era a base da seleção portuguesa, time que havia surpreendido o mundo na Copa da Inglaterra, ficando em terceiro lugar e eliminando o time bicampeão (Brasil). O Bayern era praticamente a seleção da Alemanha que havia conquistado a Eurocopa apenas dois meses antes e que tinha ficado em terceiro lugar na Copa de 70, após perder para a Itália em um dos maiores jogos de todos os tempos. Esses seriam os dois adversários do Botafogo naquele final de agosto.


Beckenbauer voando baixo em 1972

O Botafogo, por sua vez, já não era mais a base da seleção nacional, como em 1961. As convocações do Brasil estavam mais pulverizadas entre os clubes, mas mesmo assim ainda contávamos com jogadores excelentes, tais quais Wendell, Brito, Marinho Chagas (estreando no time), Nei Conceição, Carlos Roberto, Jairzinho, Fisher e Roberto Miranda. No entanto, duas grandes questões teriam que serresolvidas: o cansaço e o treinador, Tim.

O Botafogo chegou ao local do torneio na véspera do jogo contra o Benfica após 23 horas de viagem. Para piorar, o hotel era muito tumultuado. O movimento era tanto que até Vavá, que na época treinava um time da segunda divisão espanhola, visitou os jogadores alvinegros no hotel com dicas sobre o adversário. Pelo visto as dicas não foram muito boas e o Botafogo tomou 3 gols dos portugueses. Aquela foi a gota d’água para o crescente desentendimento entre Tim e o elenco. 

Assim que a partida acabou, os jogadores se juntaram para criticar o Tim. Reclamavam das suas escolhas táticas e pediam o óbvio: fechar o time na defesa e explorar a velocidade de Zequinha e Jairzinho no ataque. Não tinha erro. A briga cresceu tanto que até Vavá, que pouco tinha a ver com aquilo tudo, resolveu se meter a falar que o time era lento, desentrosado e ultrapassado.  


Zequinha e Marinho Chagas peloBotafogo

Tim podia ser muita coisa, mas calmo e humilde não eram algumas de suas virtudes. No dia seguinte, não teve o mínimo pudor de ir até Paulo César Pereira, jornalista histórico do Jornal dos Sports, reclamar dos jogadores, dos dirigentes e do clube inteiro. “O Botafogo é o clube mais liberal do mundo. Lá os jogadores são vedetes. Existe até hippies no elenco e os dirigentes não tomam nenhuma atitude contra isso. Sou técnico e não tenho que ficar me preocupando com detalhes disciplinares. Agora, de esquemas eu conheço mais do que qualquer um”.

Enquanto isso, o Athletic Bilbao vencia o Bayern por 4 a 3. Os anfitriões jogariam pelo título contra o Benfica, enquanto o Botafogo enfrentaria os bávaros para a disputa de terceiro lugar. Se existia ambiente pior para aquele jogo, o Botafogo desconhecia. A solução encontrada provavelmente desagradou Tim, mas quem levou a pior não foi ele. 


Gerd Müller com o primeiro troféu do tricampeonato da Bundesliga

Os jogadores botafoguenses, cascudos de competições internacionais, se juntaram, ignoraram as exigênciasdo treinador e organizaram seu próprio esquema tático. Jairzinho, com problemas no rim, não entraria em campo. Naquele 27 de agosto de 1972, o Botafogo foi escalado com Wendell, Edmilson, Brito, Valtencir (c) e Marinho; Carlos Roberto e Nei; Zequinha, Fischer, Roberto e Dorinho. O Bayern escalou todos os seus craques: Sepp Mayer, Paul Breitner, Franz Beckenbauer e Gerd Müller, artilheiro da Copa de 70. Dois baitas times.

O jogo começou acelerado e com apenas dois minutos, Fisher abriu o placar. Aos 30, Roberto entrou, literalmente, com bola e tudo. Müller descontou no final do primeiro tempo e empatou na metade da segunda etapa. Foi aí que a chave virou e o Botafogo cresceu na partida.


Chamada da matéria na capa Do Jornal dos Sports

Jairzinho, no banco de reservas, praticamente obrigou que Tim sacasse Fisher e colocasse Ferreti para jogar. O primeiro já não tinha velocidade para os contra-ataques e aquela seria a única possiblidade de vitória. Na primeira bola que Ferreti recebeu: gol. Aos 40 do segundo tempo, mais um gol dele, dessa vez driblando o excelente goleiro alemão e sendo aplaudido de pé pelos torcedores espanhóis. Sandro Moreyra, no JB, descreveu que “O Bayern se desesperou”.Normal, quando um time igual ao Botafogo se unia daquele jeito, era difícil o adversário entender o que estava acontecendo. Não tinha pra ninguém.

A crônica esportiva mundial foi ao delírio com aquele baile. Carlos Roberto não deixou Beckenbauer encostar na bola. Nei Conceição, com mais liberdade do que nas apresentações anteriores, brincou. Brito teve certo trabalho com Müller, mas o alemão jamais esqueceria daqueles pontapés. Roberto coordenou o ataque na ausência do Jairzinho. Fisher deixou até o FGTS em campo e Ferreti foi o craque do jogo (20 minutos e dois gols).


Botafogo em destaque no jornal “El Mundo Desportivo”, de Barcelona

Depois daquele dia, o futebol do Bayern nunca mais foi omesmo. O time ganharia a Champions League por três edições consecutivas (de 1973 a 1976), se consolidando no cenário europeu como referência de trabalho de equipe e frieza. Nenhum jornal do mundo, nunca mais, usou a expressão “desespero” na mesma sentença que “Bayern de Munique”. E aquele time ainda foi a base da Alemanha campeã do mundo em 1974. 


Gerd Müller e Franz Beckenbauer pelo Bayern

Beckenbauer continuou admirando o Botafogo e dizendo ser torcedor do clube, tanto que o parabenizou pela conquista da Taça Guanabara em 2013. Outra figura de Munique que também jamais esqueceu o Botafogo foi o cineasta Werner Herzog, que tinha apenas 18 anos quando viu o show de Amarildo em 1961.

Mas nada disso é comparável com a sequência do Botafogonaquela temporada de 1972, talvez o último grande ano do Botafogo naquela década. Nem mesmo o torcedor mais otimista conseguiria prever o feito dos meses seguintes. Assim que o time retornou da Europa, Leônidas assumiu o comando no lugar de Tim, levando o Botafogo ao vice-campeonato nacional. Porém, o que os alvinegros jamais esquecerão será daquele 15 de novembro de 1972, quando Jairzinho, Fisher e Ferreti, já cansados de assar chucrutes, resolveram botar fogo em outro lugar.

O JOGO DO PENETRA

por Pedro Barcelos


Capitão Zenon com a flâmula em homenagem aos 70 anos da CBF. Foto: Bob Thomas

A história do Brasil e Inglaterra de 1984

Há exatos 36 anos, o Maracanã estava em festa. O Brasil vivia um de seus períodos históricos mais conturbados, com a emenda Dante de Oliveira rejeitada na câmara dos deputados, representando o fim das esperanças de todos que estavam nas ruas pedindo o voto direto. Mas no Maracanã era diferente, era dia de festa. Festa que durou até as 17h14. 

O amistoso entre Brasil e Inglaterra de 10 de junho de 1984, com valor de ingresso referente a duas latas de óleos (na época) foi marcado por três comemorações. Primeira, a CBF comemorava os 70 anos de criação da FBS (Federação Brasileira de Sports), primeira instituição nacional criada para organizar todos os campeonatos esportivos no país. Pouco depois, a FBS passou a se chamar CBD (Confederação Brasileira de Desportos), para participar do primeiro Campeonato Sul-Americano, organizado na Argentina, e em 1979, finalmente, a CBD alterou seu nome e estatuto para respeitar as exigências da FIFA, tornando-se assim a CBF. 


Mauro (62), Carlos Alberto Torres (70) e Bellini (58) trazem a taça de volta para casa. Foto: David Canon

Outra comemoração era a volta da Taça Jules Rimet ao Rio de Janeiro, após o roubo na sede da CBF em 19 de dezembro do ano anterior. A réplica, encomendada pela Eastman Kodak Co., com autorização da FIFA, já havia passado por Brasília, para uma solenidade com o ditador Figueiredo, e em São Paulo, para a reabertura do Estádio do Pacaembu. Nesta última ocasião citada, Bellini, Mauro e Carlos Alberto Torres se encontraram com Paulo Machado de Carvalho, chefe das delegações das seleções de 1958 e 1962, e que após a reforma do estádio mais carismático da capital paulista, também passaria a dar seu nome ao mesmo. Na cerimônia carioca, apenas os três capitães estavam presentes.

A última novidade seria a estreia de Edu Coimbra como treinador da seleção brasileira. Após excelente passagem pelo Vasco da Gama (com o vice-campeonato brasileiro, perdendo a final para o Fluminense), ele começava sua curta passagem à frente do time. A equipe convocada não pôde contar com os jogadores de clubes estrangeiros. Falcão, Cerezo e Zico estavam na Itália. Sócrates, capitão brasileiro na última Copa, participava no mesmo dia do seu jogo de despedida pelo Corinthians, em Kingston (Jamaica), contra a seleção local. 2 a 1 para os caribenhos, com gol de desconto do Doutor.

Quem herdara a braçadeira e sua camisa 8 foi o companheiro de equipe, Zenon. No mais, a equipe brasileira era basicamente composta de jogadores de clubes cariocas. No gol: Roberto Costa (Vasco); na defesa: Leandro (Flamengo), Mozer (Flamengo), Ricardo Gomes (Fluminense) e Júnior (Flamengo); Meio de campo: Pires (Vasco), Assis (Fluminense) e Zenon (Corinthians); e ataque: Renato Gaúcho (Grêmio), Tato (Fluminense) e Roberto Dinamite (Vasco).


Seleção escalada por Edu para amistoso contra Inglaterra em 1984, no Maracanã. Foto: Bob Thomas

O time inglês era apenas um coadjuvante para aquela celebração. Como tudo no Brasil, a história fica ao relento dos pesquisadores, e as consequências dos nossos atos no presente viram livros de histórias vendidas em sebos empoeirados no futuro. Caso os dirigentes da CBF de 84 soubessem da partida histórica entre Brasil e Inglaterra em 1956, jamais teriam chamados os bretões para aquela festa. Sir Stanley Matthews, aos 41 anos, acabou com Nilton Santos, com 20, e consagrou uma das derrotas mais vexaminosas da seleção brasileira até então. 

Porém, o “otimismo” de nossos dirigentes quase sempre se confunde com arrogância. Naquele 10 de junho de 1984, até os melhores amigos da seleção vaiaram ao término do jogo. Márcio Guedes, comentarista do Globo Esporte na época, disse que aquela havia sido “a pior exibição de que se tem notícia no Maracanã, em termos de Seleção”.

A Folha de São Paulo destacou a “total falta de entrosamento entre os jogadores e da ausência de um esquema definido”, sendo surpreendidos por um 4-2-4 (“tática que caiu em desuso no futebol brasileiro”, segundo o veículo). Sandro Moreyra, em sua coluna “Bola Dividida”, n’O Globo, seguiu a semana inteira justificando os erros do Edu, tentando advogar por uma causa que não cabia ao mesmo.


Barnes avança sob cobertura de Zenon. Foto: David Canon

O problema daquela derrota não foi o Edu ou o abismo que o futebol brasileiro apresentava nos últimos anos. O problema daquela derrota não estava apenas nos 11 jogadores de amarelo e azul em campo, nem de qualquer problema político-eleitoral brasileiro. Naquele 10 de junho de 1984, o mistério do futebol aconteceu. Nenhuma de todas as possibilidades esperadas seriam capazes de prever a graça do futebol: o penetra. Ninguém organiza uma festa como aquela esperando que um não-convidado assopre as velas. 

O penetra: John Barnes, o jamaicano. Seus 20 anos de idade não resumiam toda a sua inconsequência. Jogador do Watford, não queria ver o adversário atacar sem revidar. Até os 11 minutos do primeiro tempo, só o Brasil atacou. Não abriu o placar porque Assis furou uma bola impressionante na marca do pênalti e porque Renato Gaúcho resolveu driblar o goleiro inglês. Vendo aquilo, Barnes deve ter entendido que o antigo Maracanã não servia apenas ao futebol, mas a todos os espetáculos que ali aparecessem.


Barnes comemora seu golaço aos 44 minutos do primeiro tempo. Foto: Bob Thomas

Não tardou muito, na primeira bola limpa que teve deixou Leandro (o latifundiário daquelas terras) com a bunda estatelada no gramado. E na segunda jogada, aos 44 minutos, um lance que os torcedores jamais deveriam ter esquecido: matou a redonda nos peitos, correu 35 jardas, driblou seis adversários e só não entrou com bola e tudo porque teve humildade. Sem dúvida, um dos gols mais bonitos da história do Maracanã (RIP 1950-2010). 

Não bastando ter acabado com toda a linha de defesa no primeiro tempo, ainda deu assistência para o gol de Hateley no segundo, forçando a substituição de Leandro por Vladimir (passando Júnior para a lateral direita), dois minutos depois. Sem dúvida, uma atuação digna de Mago dos Driblings, apelido do Sir Stanley Matthews. 

Conclusão do jogo para o Brasil: a população brasileira pouco se importou com uma réplica da Jules Rimet, a CBF chegaria ao seu centenário com pouquíssimos créditos (à exceção do uso de seus uniformes em manifestações reacionárias), Edu só duraria como técnico durante o período que fora contratado (três jogos), Roberto Dinamite se despediria da seleção na partida seguinte e aquelas duas latas de óleo nunca mais valeriam tanto.

Conclusão de jogo para a Inglaterra: Barnes continuaria sendo cobrado por atuações similares e, por mais que tentasse, os ingleses jamais aceitariam um jogador de país colonizado como protagonista de sua seleção. Sua cor da pele, que até hoje gera insultos entre os jornais galeses, nunca passou desapercebido, trazendo à tona o racismo estrutural tão dito atualmente. 


Barnes e Hateley com o troféu de 70 anos da CFB. Foto: Bob Thomas

Na Copa de 86, por exemplo, ainda como um dos maiores craques da seleção inglesa, amargurou o banco de reservas até os 30 do segundo tempo contra a Argentina, de Maradona. Já perdendo de 2 a 0, pouco poderia fazer. Mas, como qualquer bom penetra, fez. Um jogo rodeado pelas críticas à Guerra das Malvinas, poderia também ter sido lembrado como o jogo do penetra, não fosse o preconceito. Com apenas 9 minutos em campo, Barnes fez mais uma de suas jogadas surpreendentes, dando assistência para Lineker descontar o placar. Os 10 jogadores ingleses em campo foram eliminados, mas não Barnes. 

Décadas depois, a Inglaterra voltaria a enfrentar o Brasil na reabertura do estádio carioca para a Copa do Mundo. Em 2013, o “The Guardian”, principal jornal inglês, foi categórico sobre aquela partida de 1984: “O Carnaval pertence à Barnes”. É, pode ser. Carnaval fora de época, como qualquer penetra gosta.

ALTA RESISTÊNCIA

texto: Pedro Barcelos | fotos: Alex Ribeiro


Aviso importante para as areias cariocas: a altinha virou Patrimônio Cultural Imaterial da cidade do Rio de Janeiro na última semana. Apesar de toda a frescura alheia e de sua quase proibição (só podendo ser praticada legalmente a partir das 17h na beira da água), este esporte se mantém vivo e mais valorizado do que nunca.

Se nossos futebolistas ainda frequentassem as praias cariocas, nosso jogo continuaria atrativo para o expectador. Penso que se o domínio com elegância ainda fosse uma marca do nosso futebol, o Brasil permaneceria como o melhor do mundo. Se Heleno, Romário, Júnior e tantos outros não treinassem num terreno desnivelado e arenoso, sem dúvidas teriam mais dificuldade para jogar no gramado do Maracanã. 

Com todo o respeito aos jogadores do hemisfério norte, mas não se entra nas praias cariocas vestindo botinas. Nosso futebol se formou descalço e conquistou o mundo muito antes de se pensar que amortecedores nos calcanhares elogiariam nossos joelhos. Isso é besteira! O que acalma nossos joelhos é a areia, a estabilidade inconstante de posicionar os pés nela para um melhor controle da redonda. A imprevisibilidade do vento, a água do mar chegando justamente naquele momento de plasticidade e o grito dos ambulantes numa tentativa ingênua de desconcentrar nossos praticantes. A altinha se joga em roda e todos se ajudam. 


Por falar nisso, talvez as expressões culturais de matrizes africanas também estejam presentes aqui. A cultura de roda: roda de samba, roda de capoeira, roda de jongo, roda de altinha… A altinha é jogada por apenas um time e todos se esforçam pelo coletivo. Não é uma competição, está mais para uma dança praticada com uma esfera conectando seus artistas. 

E no nosso mundo, como tudo que não é competitivo, como tudo que só funciona através da cooperação total de seus participantes, a altinha sofreu diversas tentativas de proibição. Fracassaram! A altinha continua resistindo aos grã-finos e seus sapatos amortecidos. 

Viva a altinha carioca e o futebol genuinamente brasileiro!