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Ivan Gomes

O FUTEBOL E A NEOCOLONIZAÇÃO

por Ivan Gomes


O futebol brasileiro e sul-americano apresenta uma decadência técnica visível há muitos anos, basta puxar a lista de clubes campeões do mundo a partir do início do século 21 e, também, acompanhar as seleções que conquistaram as últimas edições das Copas do Mundo. De 2000 para cá, foram disputadas cinco edições da Copa, apenas em 2002 um sul-americano foi campeão, o Brasil, quando venceu a Copa Japão-Coréia do Sul, ao bater a Alemanha na decisão. Fora isso, nem nas finais nossas seleções conseguiram chegar, exceto a Argentina, que foi derrotada pela Alemanha na decisão da Copa de 2014, disputada no Brasil. Esta foi a primeira vez que uma seleção europeia venceu uma competição em nosso continente. Sem citar que os alemães aplicaram a maior goleada sofrida pelo esquete brasileiro, o famigerado 7 a 1. 

Nas Copas de 2006, 2010 e 2018, só ocorreram finais europeias: França e Itália, 2006, Holanda e Espanha em 2010 e França e Croácia em 2018. Importante destacar que, na última Copa, os sul-americanos nem nas semifinais conseguiram chegar. O Brasil, após ser atropelado pela Alemanha em 2014, conseguiu ser eliminado por uma seleção belga, nas quartas de final, que não apresentava um futebol que enchia os olhos, era somente um time organizado em campo. 

Quando comparamos a disputa no mundial de clubes, disputado desde 1960, aí a distância do início deste século para cá mostra uma ascendência europeia exacerbada e nosso futebol em frangalhos. Até meados dos anos 90 do século passado, a disputa Europa/América, especificamente América do Sul, mostrava certo equilíbrio, mas com ligeira vantagem para nós, os periféricos. Mas de 2001 para cá, quando houve a virada do século, os europeus encostaram, empataram e abriram vantagem considerável. 


Neste século, apenas quatro clubes sul-americanos foram campeões do mundo. Boca Juniors, da Argentina, (2003) e os brasileiros São Paulo (2005), Internacional (2006) e Corinthians (2012). Em 2010, 2013 e 2018, o futebol sul-americano não teve nem representantes na decisão. Com o Mundial de Clubes sendo organizado pela Fifa desde 2005, clubes dos outros continentes também participam. Times como o Internacional, Atlético/MG e River Plate, conseguiram a proeza de perder para clubes de países considerados inexpressivos na história.

Após essas pontuações brevíssimas, fica a pergunta: como chegamos neste ponto? Afinal, Brasil, Argentina e Uruguai, as três maiores potências futebolísticas em nosso continente, juntas venceram nove Copas, só o Brasil cinco. Em termos de mundiais de clubes, essas três potências venceram 26 vezes, se somarmos uma conquista do Olímpia do Paraguai, o número da América do Sul chega a 27.

E é em nossa querida América do Sul que nasceram os maiores nomes. Aqui nós temos Pelé, Maradona, Garrincha, Di Stéfano, entre uma infinidade de outros craques. Podemos dizer que nosso continente é um celeiro de jogadores excepcionais. Aqui os pés de obra nasciam em cada esquina, raios caem a todo momento. Mas por qual motivo, atualmente, com tanta riqueza técnica, vemos um futebol sofrível, campeonatos fracos e clubes endividados?

Uma das respostas pode ser a “neocolonização”. Se à época da invasão europeia, a partir do século 15, os “colonizadores” levavam nosso ouro, prata e árvores, atualmente eles levam nossos craques. E isso não tem sido algo recente, basta fazer uma pesquisa e veremos que sempre houve uma saída ou outra de grandes jogadores, mas após abertura do mercado europeu, em meados dos anos 1990, e a “glamorização” do futebol, com seus belos uniformes, estádios padrões e todo ritual comercial, foi aí que a situação ficou difícil para nós.

Com uma moeda mais valorizada, com as promessas de enriquecimento, milhões gastos em publicidade e clubes que se tornaram empresas e com seus respectivos donos, fomos ultrapassados em tudo e hoje podemos dizer que existe uma exploração de pés de obra em nosso continente. E um grande exemplo desta questão é o argentino Lionel Messi, que foi levado criança para Espanha e até o momento somente jogou no Barcelona. Apesar de ser tido como ídolo em seu país, Messi nunca jogou contra os grandes clubes argentinos e sul-americanos, nunca disputou uma Taça Libertadores.


De alguns anos para cá, jogadores brasileiros, argentinos, uruguaios, sem citar promessas dos outros países, são levados ainda muito jovens e não conseguem desenvolver uma carreira em seus respectivos países e não criam qualquer tipo de vínculo com a torcida local. Isso de alguma maneira afeta o desempenho desses atletas quando defendem suas respectivas seleções. Volto ao exemplo de Messi, que nunca venceu um título com a Argentina.

EXCLUÍDOS

Mas o problema da decadência de nosso futebol não ocorre somente pela escassez de nossas principais estrelas, ocorre também ao padrão imposto pelo colonizador. Eles levam nossas joias e as lapidam à sua maneira. O jogador ágil e autêntico dá espaço para um atleta muito forte fisicamente e com total obediência tática. Ao que é apresentado atualmente, é possível dizer que jogadores com a incrível capacidade de improviso não têm espaço neste futebol de glamour, de aparências e nada mais.

Além deste fato, outro problema é a padronização europeia sobre esquemas táticos, comportamento físico e o pior de todos, a questão das “arenas”. Saudade do tempo em que falávamos Vila Belmiro, Rua Javari, Pacaembu, Olímpico… Atualmente é arena isso, aquilo. Mas o pior é a exclusão social que o padrão europeu trouxe às “arenas”. É incrível como em poucos anos, o torcedor com menos dinheiro, fanático, que ocupava as arquibancadas e fazia de um simples jogo, algo especial para o seu dia e se produzia para o evento, cedeu espaço (ou foi tirado?) para pessoas bem vestidas, com suas camisetas que modelam o corpo e acompanham a disputa em um local sentado.


Se você é jovem e pensa que exagerei, puxe nas plataformas de vídeos e faça você mesmo a comparação. Veja como era o Maracanã, quando existia a geral, e veja como é hoje. Compare o sorriso de parte da torcida atual com os de algumas décadas atrás. Compare o tom de pele… A exclusão social com o fim das “gerais” nos estádios e o padrão Fifa, que não passa de padrão europeu, acabou com toda a alegria das arquibancadas. Hoje é tudo muito bonitinho e arrumadinho para aparecer no vídeo. Onde estão os caras que roíam as unhas e tinham um dos ouvidos colado em seus rádios de pilha? 

E para a América do Sul mostrar-se cada vez mais subserviente e afinada com o colonizador, como se isso fosse algo positivo, os dirigentes sul-americanos conseguiram acabar com a alegria da principal competição que temos em nosso continente, que é a Libertadores da América. Para seguir o padrão europeu, a decisão deste campeonato desde 2019 é realizada em apenas um jogo, em campo neutro. Novamente o torcedor foi excluído, afinal, não são todos que têm condições de comprar uma passagem de avião para ver seu time do coração em uma decisão de Libertadores.

Os colonizadores levam nossos craques, impõem padrão de jogo, de forma física, de estádio e contribuem para que os jovens saibam mais sobre seus “pequenos” clubes endinheirados, do que os grandes times de nosso país e continente. É muito triste conversar com um jovem que acha bacana chamar Cristiano Ronaldo de robô, ou que diz que Chelsea, da Inglaterra, ou PSG, da França, são grandes clubes. Sim, os colonizadores nos enfiam isso goela abaixo e nós, os periféricos, achamos bonito o padrão que vem do centro. 


Saudade dos terrões e das ruas, traves feitas de blocos, chinelas nas mãos com se fossem luvas. Nesse período, as crianças diziam que o sonho seria um dia jogar no Santos, São Paulo, Corinthians, Flamengo… Mas todos sabiam que para isso você precisava se destacar nos clubes do interior. Hoje, a maior parte diz que o “sonho” é ser atleta do PSG, “Barça”, Real, Chelsea. Onde ficam o Timão nesta história, o Porco, o Tricolor? 

O garimpo de pés de obra tem dado muito certo para os clubes europeus que enriquecem cada vez mais, enquanto nossos clubes, com administrações ruins e amadoras acham bonito revelar jogadores para desfilarem nas arenas europeias. Enquanto isso, nós que fiquemos com o resto em nossos estádios, pois nas poucas arenas, não temos condições de ir, afinal, o preço que se paga é caro. 

Às vezes bate aquela saudade de quando tínhamos ouro por aqui e sabíamos. Saudade de um tempo no qual havia jogadores e não atletas. Devolvam nosso futebol!  

A MAGIA DA SELEÇÃO DE 70: UMA CONSTELAÇÃO DE CRAQUES

por Ivan Gomes


Vivemos dias tristes e mais estranhos do que os habituais, isso é fato! Mas durante esse período de confinamento e no qual o mundo virou de cabeça para baixo, ou para cima, depende do ponto de vista, a falta de futebol fez as emissoras revisitarem os arquivos do esporte. E na semana passada, o Sportv nos levou de volta à Copa do Mundo de 1970.

Quando garoto, a TV Cultura sempre reprisava alguns jogos clássicos e foi por meio desta emissora que vi muitos dos jogos da Copa de 1982 e também de 70. Gosto de futebol desde que me conheço por gente e com o passar do tempo nos envolvemos mais e mais, tentamos jogar, lemos sobre o esporte, acompanhamos as histórias. 

Cresci vendo a programas esportivos nos quais comentaristas em debates acalourados exaltavam a seleção de 82, mas, do que eu havia visto, a seleção de 70 era algo sensacional. Não havia como ter tal comparação. E com isso, fui rever novamente os jogos. A seleção de 82 era ótima, mas a seleção de 70 é o ponto fora da curva. Que timaço! E além dos 11 que entraram em campo, era impressionante a quantidade de craques no banco de reservas.

Além da beleza do futebol apresentado, o que mais chamou atenção, ao rever os jogos, era a falta de vaidade, entrega em campo e companheirismo. Pelé era o rei do futebol quando chegou à Copa. Mas fiquei impressionado em vê-lo no auxílio à marcação… como contribuía com o sistema defensivo, dava combate, fazia falta e ainda revidava as agressões recebidas, que não foram poucas.

Também destaco o fato de não ver jogadores preocupados com o cabelo antes de bater uma falta ou arrumar o meião antes de ir para marcação. Ali havia apenas a preocupação em jogar futebol e infernizar as defesas adversárias. E como infernizaram. Foram 19 gols anotados em seis jogos. Sendo sete apenas entre a semi-final e a decisão. E não contra quaisquer timecos, como somos obrigados a engolir nos dias atuais. Foram sete gols anotados em duas seleções bicampeãs do mundo: Uruguai e Itália.


Portanto, ao rever esses jogos, é inevitável fazer a comparação com os dias atuais. Infelizmente o que vejo atualmente é somente marketing. Somos quase que obrigados a ouvir um monte de bobagens de muitos “especialistas” que desanimam tamanho absurdo que dizem. O futebol atual é mais negócio… não parece que o que se pratica hoje é a mesma modalidade que praticavam há 50 anos.

A seleção de 70 era toda formada por atletas que jogavam em nossos clubes. E a quantidade de camisas 10? Pelé, Rivellino, Gérson, Jairzinho… todos no mesmo time. Atualmente, os “entendidos” no esporte dizem que fulano não pode jogar com ciclano, beltrano. Ah… quem sabe jogar joga e joga ainda mais quando tem outro craque ao seu lado.

A magia de 70 é tanta que além do título, das vitórias acachapantes, belos gols, teve ainda lances maravilhosos como a tentativa do gol de Pelé antes do meio campo, a defesa magistral de Banks, o drible inacreditável no goleiro uruguaio… 

Se atualmente a mídia trata Messi e Cristiano Ronaldo como “monstros”, imagino o que diriam sobre o cometa que passou pelo México em 1970. E Messi e Cristiano não apanham nem um quarto do que Pelé e companheiros apanhavam. E nem vou citar condições de gramado e material esportivo.

Para encerrar, faço das palavras do escritor inglês Nick Hornby, em sua obra “Febre de Bola”, as minhas: “o Brasil estragou tudo para nós. Tinha revelado, ali, uma espécie de ideal platônico que ninguém, nem o próprio Brasil, jamais seria capaz de atingir outra vez.” 

RICARDINHO: TRÊS GOLS E O PAGAMENTO DE UMA DÍVIDA

por Ivan Gomes


Há 15 anos, em 19 de dezembro de 2004, um domingo, o Santos vencia o Vasco por 2 a 1 em São José do Rio Preto, interior do Estado de São Paulo, e conquistava pela segunda vez o Campeonato Brasileiro, o primeiro em pontos corridos. A conquista ocorreu somente na última rodada, a 46ª, após um duelo de muitas rodadas de tirar o fôlego, contra o Atlético-PR. 

Àquela época o campeonato era disputado por 24 equipes. Ricardinho, ídolo do Corinthians, que em 2002 havia ido para o São Paulo e por desavenças se transferiu para o Santos neste ano, foi um dos principais nomes desta conquista. 

Ricardinho tornou-se um dos grandes nomes da conquista não somente pelos gols importantes que fez, mas sim por um que ele fez contra o Santos, em 2001, mais especificamente em 13 de maio. Ricardinho era um ídolo corintiano, camisa 10 e na data mencionada, jogava contra o Santos a segunda partida da semifinal do Campeonato Paulista daquele ano, no Morumbi. No primeiro jogo, empate em 1 a 1. Nova igualdade tornaria o Santos finalista e enfrentaria o Botafogo de Ribeirão Preto na decisão. 

Segundo a mídia, o Santos não vencia um “campeonato de expressão” desde 1984. Simplesmente ignoravam o Rio-São Paulo de 1997 e a Copa Conmebol de 1998. Todavia, com a gozação dos adversários, víamos naquela semifinal, a possibilidade de, enfim, voltar a sermos campeões.

A partida estava empatada, jogo equilibrado. Tudo nos fazia crer que avançaríamos para decisão, quando no último lance do jogo, Ricardinho recebe uma bola na entrada da área e aos 47 minutos e 45 segundos, do segundo tempo, com o árbitro tendo determinado três minutos de acréscimo, dispara um chute no canto, indefensável para Fábio Costa, e faz 2 a 1. Estávamos eliminados do Paulista.


Esse gol doeu demais! Em 2002, enfrentamos o Corinthians na decisão do brasileiro e vencemos, em um jogo histórico, com um time só de jovens. Em 2003, o Santos foi vice da Libertadores e vice do Brasileiro. No início de 2004 o Santos conseguiu manter Robinho e Diego. Leão seguia no comando da equipe desde 2002. Fracassamos no Paulista, não fomos tão bem na Libertadores, perdemos jogadores importantes, Leão foi demitido.

Após queda de nosso grande comandante, o Santos contratou Luxemburgo, trouxe Basílio, Deivid e uma das pessoas mais odiadas por nós, Ricardinho, nosso carrasco e algoz de 2001. Ricardinho, acredito eu, só não era mais odiado que Márcio Rezende de Freitas, árbitro, que em 1995 tirou nosso título de campeão Brasileiro.

Após início turbulento, o Santos se encontrou e com boa sequência de vitórias, cinco ao todo, brigava para chegar à liderança. Em busca de sua sexta vitória consecutiva, o peixe enfrentou o São Paulo na Vila. O Tricolor abriu o marcador. Deivid empatou ainda no primeiro tempo. O jogo arrastava-se para o empate, quando uma falta próxima à grande área, aos 46 minutos da etapa final, foi anotada. Ricardinho ajeitou a bola, ele, logo ele, que tanto odiávamos. Ajeitou a bola e com perfeição acertou o ângulo, a bola triscou na trave e entrou. Vencemos por 2 a 1. Com aquele tento, o ódio deu uma leve recuada.

Esse não foi um gol qualquer, foi o primeiro gol dele com nossa camisa. Após esse tento, vieram outros e o Santos terminou o primeiro turno como campeão. O segundo turno começou animador. Com alguns tropeços considerados normais para um campeonato tão longo. Em primeiro de setembro, pela quinta rodada do returno, o Santos vai a Caxias do Sul defender a liderança contra o Juventude. No segundo tempo, partida truncada, empatada em 1 a 1. 

Até que em uma bola foi lançada para Basílio, nosso atacante divide com o goleiro na entrada da área, o arqueiro consegue afastar e, mais próximo do meio campo do que da grande área, a bola cai no pé esquerdo de Ricardinho, que, de primeira, toca por cobertura e marca um golaço, 2 a 1.


O gol genial fez o ódio ficar ainda mais contido. Ricardinho fez outros gols, mas o que acabaria definitivamente com nosso ódio veio em 19 de dezembro. Mas antes disso, o Santos havia perdido a liderança para o Furacão, a mãe de Robinho havia sido sequestrada e o craque ficou fora por alguns jogos. 

Com quatro rodadas para o final, com o Atlético/PR um ponto à frente, o Santos somente empatou em 1 a 1 com o Paysandu, em Belém e o Furacão enfrentaria o já rebaixado Grêmio. O rubro negro abriu 3 a 0, era o nosso fim. Mas não sabemos de onde o tricolor gaúcho tirou forças e empatou a partida em 3 a 3.

Na penúltima rodada, o Santos enfrentaria o São Caetano, no Anacleto Campanella e o Furacão iria até São Januário para encarar o Vasco, que precisava vencer para fugir do rebaixamento. Nem um roteirista de Hollywood escreveria uma história tão incrível. O Santos fez sua parte e venceu, 3 a 0. O Atlético sucumbiu diante do Vasco, 1 a 0. O Santos era o novo líder e faria o último jogo em seu mando.

Dias antes da partida, após mais de um mês, a mãe de Robinho voltava para casa. O Santos, punido com perda de mando, faria o jogo em São José do Rio Preto. O Atlético do Paraná enfrentava o Botafogo, em Curitiba.

A rodada começava com o Santos campeão. Mas como só dependíamos de nós, o time foi para cima. Chances foram criadas e desperdiçadas. Mas com quase cinco minutos, Ricardinho, o algoz, o carrasco de 2001, cobra uma falta perfeita e joga no canto do goleiro, 1 a 0. A partir dali sabíamos que o título era nosso. Elano fez o segundo. O Vasco diminuiu no segundo tempo, mas ficou nisso. 

Ricardinho, de carrasco a herói em três gols. E que três belos e importantíssimos gols. Não esqueceremos 2001, mas não te odiaremos nunca mais. Obrigado.

 

 

 

 

 

SAMPAOLI: O RESGATE DE SI, DA LEVEZA E ALEGRIA DO FUTEBOL SANTISTA

por Ivan Gomes


Estamos nos dias finais para encerrarmos o primeiro semestre de 2019. Nesse quase meio ano, quem torce para o Santos Futebol Clube pode acompanhar o renascer de um técnico que, com seu renascimento, resgatou a alegria e a leveza da prática do futebol no alvinegro praiano, algo que não víamos há alguns anos.

Um dos clubes mais vitoriosos e respeitados do futebol brasileiro e mundial precisou que um argentino, deixado quase no ostracismo após mau desempenho na Copa do Mundo de 2018 com sua seleção, resgatasse aquilo que todo santista sempre gostou: ousadia, gols e belas jogadas. 

Desde as primeiras apresentações do time de Sampaoli notamos que poderíamos ter algo diferente. Muitos disseram, após alguns jogos, que ele não havia inventado a roda. Óbvio que não! Sampaoli fez somente o básico. Estudou, buscou se aprofundar na história do clube. E o que ele fez não é invenção, mas sim o resgate dos bons tempos, que todo torcedor sente falta. E esse jeito que gostamos de ver nosso Santos jogar, encaixa perfeitamente com o estilo de jogo que o argentino gosta de proporcionar ao torcedor/espectador.

Quem acompanhou o moribundo Santos de 2018 e vê o Santos em 2019 não acredita que o time é quase o mesmo, sem citar que perdeu dois atacantes considerados importantes: Gabriel e Bruno Henrique. A diferença de um ano para outro é abissal. O alvinegro praiano, se não me falha memória, estava na zona de rebaixamento na nona rodada do Brasileiro passado, este ano é vice-líder.

Com reposição de algumas peças e o trabalho no dia a dia, Sampaoli transformou aquele time que teve somente apresentações pífias com Jair Ventura e Cuca em um time que pratica um futebol leve, que ataca, que não se dá por satisfeito, mesmo quando o placar aponta vantagem considerável. Não tem esquema de atacar em casa e jogar fechado fora, é sempre o padrão de busca pelo gol, não há qualquer custo, mas com um jeito que foi muito difundido nos primeiros meses dele na Vila: amor pelo balón. 


Outra obviedade é que não se consegue mudar tudo de hora para outra, a aposta no tempo é essencial. Críticos dirão que o Santos foi eliminado de quase tudo neste ano. Que a equipe sofreu algumas goleadas. Não negamos isso. Mas acreditamos que são percalços inerentes ao crescimento e mudança de estilo e padrão de jogo. 

Talvez as sementes plantadas por Sampaoli este ano ainda não rendam frutos. Espero que a torcida não seja tão imediatista, assim como a diretoria, e deixem o argentino trabalhar e lhe deem condições para isso. O próximo ano pode ser melhor, um exemplo, apenas uma analogia, o Liverpool investiu no tempo quando contratou Klopp. O retorno começa a ser dado algumas temporadas e derrotas depois.

Claro que queremos ver nosso time campeão todo ano se possível, mas não é assim que “a banda toca”. Quem acompanhou o Santos ano passado pela TV, rádio, internet ou arquibancada, sabe o quanto foi sofrido. Este ano, ao menos, vemos um time com vontade, com ímpeto, que se impõe, que respeita a camisa e toda história feita pelos gigantes que um dia passaram e fizeram história na Vila Belmiro.

A Sampaoli fica o agradecimento por tudo que ele fez. Enquanto ele resgatou nosso futebol, nós o resgatamos como técnico. Que a partir de agora, o alvinegro não saia dessa trajetória, pois como bons santistas que somos, não nos basta apenas vencer, mas sim convencer, assim como foram nossos títulos à época do rei Pelé, assim como em 2002 com os Meninos da Vila. 

 

 

 

TODOS IGUAIS, MAS UNS MAIS IGUAIS QUE OS OUTROS

por Ivan Gomes


O título acima nos remete a uma frase de George Orwell em seu fantástico livro “A Revolução dos Bichos”, lançado em 1945. A frase também foi utilizada em 1992 pela banda gaúcha Engenheiros do Hawaii, na música “Ninguém é igual a ninguém”, que nos remetia ao final do governo Collor e seus escândalos. 

E em 2019, ela pode ser utilizada para o time, para mim seleção não existe mais, da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), que puniu Douglas Costa, de maneira correta, após cuspir em um adversário, mas não irá punir Neymar, que atingiu um torcedor com um soco há algumas semanas.

Por qual motivo a agressão de Douglas Costa foi punida e a de Neymar não? Acredito que o futebol reflete em muito a sociedade na qual está inserido e, com essa atitude, mostra que realmente as regras no Brasil não são para todos. Como diz um antigo ditado, “aos amigos a lei, aos inimigos os rigores da lei.”

Muitos podem dizer que o jogador do PSG não pode ficar fora, pois trata-se de uma competição importante, que a “seleção” precisa do título, entre outras desculpinhas insignificantes. Mas não podemos esquecer que o futebol é o esporte mais popular do país e adentra às casas de milhões de brasileiros e praticado por muitos jovens e crianças que aspiram um dia tornarem-se profissionais e defender a seleção.


Devido a quantidade de pessoas que são afetadas por essa modalidade esportiva, acredito que ela poderia ser utilizada para mostrar às crianças e adolescentes que todo ato tem consequências. Neymar é tido como ídolo por muitos desses jovens, que mau exemplo ele deu e exemplo pior dá a confederação ao não puni-lo.

Quem é amante do futebol sabe que não é somente um jogo, é muito mais do que isso, mas a competitividade não pode estar acima de questões morais e éticas. Se bem que a CBF e a maioria da classe política brasileira são antros de péssimos exemplos e estão muito longe de valores éticos/morais, basta lembrarmos dos escândalos que envolvem Ricardo Teixeira, Marin e Marco Polo, os três últimos presidentes desta entidade.

Mas se alguém está preocupado com a competição, basta lembrarmos que na Copa do Chile, em 1962, Pelé, o rei do futebol, se contundiu e não disputou a fase final, mesmo assim o Brasil sagrou-se bicampeão do mundo. Também sem Pelé, em 1963, Almir Pernambuquinho substituiu o rei e o Santos conquistou o bicampeonato mundial de clubes. Esses exemplos mostram que quem vence é o grupo, não somente um jogador.

Além de ser péssimo exemplo de comportamento fora de campo, o atacante do time da CBF também o é dentro. Trocar o Santos pelo Barcelona é até compreensível nos dias atuais, devido ao neocolonialismo que sofremos, como se tudo que fosse feito na Europa seja o correto e o restante do mundo tem que seguir seus padrões. Mas trocar o Barcelona por um PSG, aí vemos que algo não está relacionado somente ao futebol… 

Talvez por isso hoje seja difícil termos ídolos no futebol. Os últimos são Rogério Ceni e Marcos, que sempre defenderam com honra e orgulho as cores de seus clubes. Cássio, o atual goleiro do Corinthians, trilha esse caminho, todos eles com carreiras feitas nos clubes e conquistas importantes.


Acredito que para que o futebol brasileiro e o sul-americano no geral melhorar (afinal, são sul-americanos os maiores craques de todos os tempos: Pelé, Garrincha, Maradona, Di Stéfano) é preciso que ocorram mudanças nas gestões dos clubes, profissionalismo é fundamental, incentivo às categorias esportivas dentro das escolas e que os jovens parem de usar os principais clubes de seus países como trampolim para ser contratados por times médios e pequenos de outros continentes. 

Quando criança nos anos 80, o sonho da molecada era ser jogador e ídolo no Santos, Corinthians, São Paulo, Palmeiras… ninguém falava em Europa. Hoje, a maior parte só pensa em jogar fora do Brasil. Precisamos deixar o eurocentrismo de lado e valorizar mais nosso povo e cultura. E, fundamentalmente, fazer com que as regras sejam aplicadas a todos e todas, independentemente da ocasião.

Ivan Gomes é jornalista e professor