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VIDA DE TREINADOR

2 / maio / 2020

por Zé Roberto Padilha


A última partida que dirigi como treinador foi contra o Flamengo, na Gávea, em 1995. Comandava o Entrerriense FC e disputávamos o octogonal decisivo da 1º divisão carioca. Lutamos muito para ficar entre as oito melhores equipes do estado em um dos mais disputados estaduais. O nível era muito alto: Centenário do Flamengo, o Botafogo acabou campeão brasileiro e o Fluminense, de Renato Gaúcho, foi campeão carioca. 

Nunca apanhamos tanto na vida.

Mesmo com o lombo doído de um dever cumprido, entramos no ônibus que nos levaria à Gávea. Foi quando um diretor do clube entrou também e sentou-se com o filho nas primeiras poltronas com a camisa do Flamengo. Deixa eu repetir: o time do Entrerriense foi jogar no Rio contra o Flamengo e um diretor embarcou no ônibus da delegação com a camisa rubro-negra.

Para tudo. Ou ele desce com o filho, troca de camisa, ou vai no seu carro. O fato é que não deixamos o ônibus partir. Confusão geral até a chegada do presidente. Que tinha que tomar uma posição e ficou em cima do muro. E o impasse durou trinta minutos, quase não chegamos a tempo. Finalmente, o diretor e seu filho desceram sob protestos. E sabia que ali estaria decretado meu destino.

Porque quando cheguei ao clube ele tinha três médicos. Dois neurologistas e um clínico geral. Torcedores e beneméritos sempre acompanharam o time. No amador tudo bem, mas no profissional? De cada atendimento em campo, 99,9% são casos para um ortopedista. E exigi que o Entrerriense contratasse um. E foram os três para o outro lado das arquibancadas torcerem contra mim.

Agora já eram quatro. Quase a diretoria toda.

O jogo? Acabou Flamengo 6×0, Romário fez três, Sávio fez dois e o outro não anotei a placa. 

Dia seguinte fui demitido. E fiquei pensando: não teria sido melhor melhor não ter deixado o ônibus partir? Tomar de WO?

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