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RECORTES DE UMA VIDA – PARTE 3

por Zé Roberto Padilha

Trabalhava na Prefeitura de Três Rios, em 1987, um ano após encerrar minha carreira, quando o Rubens Galaxe me indicou para ser técnico dos Infantis do Flu. Ele dirigia o Juvenis.

Primeira pergunta que fiz em Xerém, porque não poderia arriscar ficar sem emprego :

– O treinador infantil cai também?

Me falaram que sim. “Tanto que você está aqui assumindo o lugar do que caiu!”, responderam.

– Mas foi por resultado?

Não, erro de avaliação. O treinador também tem que observar jogadores indicados ao clube. E ele foi convidado a ir até Vitória-ES, observar dois garotos da Desportiva. Eram irmãos.

– E aí, o que aconteceu?

Bem, tinha o meia, o Rodrigo, que está com a gente, e ele não observou qualidades no ponta esquerda. Não indicou a sua contratação. Acontece que o Flamengo ficou com ele. E, que azar do treinador, no último Fla x Flu ele fez o gol da vitória. E aí…

– Que azar! Qual o nome do ponta?

– Sávio.

Ainda bem que ganhamos o título infantil e não perdi o emprego. Acontece.

De repente o Sávio não estava inspirado naquele fatídico dia em que o futebol tricolor perdeu um dos mais completos ponta esquerda que vi jogar.

Ou meu antecessor era maluco. 

UMA LIÇÃO AOS (IR)RESPONSÁVEIS

por Zé Roberto Padilha

Quando compramos um ingresso para um espetáculo, como uma partida de futebol, uma peça de teatro, está incluído no pacote um palco e um gramado à altura dos seus artistas.

O que o Maracanã possibilitou aos milhares de espectadores, anteontem, momentos de pura magia, foi negado a quem se dirigiu domingo ao Alfredo Jaconi.

Deveriam devolver o ingresso aos que foram assistir e os pontos ao Fluminense. E punir quem autorizou a bola ser afogada por lá.

Um crime palcos irregulares cercearem a Fernanda Montenegro e ao André, o Divino, e Cia, toda a plenitude de sua arte.

Todos perdem.

LIÇÕES TARDIAS DE UMA COPA DO MUNDO

por Zé Roberto Padilha

Fomos eliminados na última Copa do Mundo, na Rússia, em 2018, pela Bélgica. Como sempre, muitos jornalistas, torcedores, nem lembro, mas estava no bolo dos inconformados, o país não poupou o técnico Tite. Muito menos o Neymar.

Mas logo para a Bélgica?

Bem, revendo, hoje, os melhores lances da partida, entendemos melhor porque perdemos. E não foi para qualquer seleção.

Sabe quem era o goleiro deles? Courtois, do Real Madrid. Fez contra o Brasil o que fez contra o Liverpool.

Quem fez o segundo gol deles, já que o primeiro foi contra, de Fernandinho? Kevin DeBruyne, campeão inglês pelo Manchester City e um dos mais completos jogadores do time de Guardiola.

E quem era o centroavante? Lukaku. Campeão Mundial de Clubes pelo Chelsea.

Não é pouca coisa. Se estão voando hoje, medalhas no peito, titulos mundiais, imaginem há quatro anos?

Apenas outra lição dos que vivem, como todos nós, a procurar erros nas derrotas sem enxergar os méritos dos vencedores.

A outra Copa do Mundo está próxima.

Quem sabe não aprendemos mais esta lição que o futebol nos concedeu?

AS AVENTURAS DO PROFESSOR PARDAL

por Zé Roberto Padilha

O Fluminense, que fez uma grande partida, deixou escapar a vitória porque seu treinador, para não fugir à regra de complicar o que está fácil, quando seus goleiros e zagueiros precisam sair jogando sem ter qualidade para isso, improvisa Yago Felipe na lateral esquerda.

E deixa de fora os três especialistas que o clube colocou à sua disposição: Marlon, Pineida e Chris. Fernando Diniz é um grande treinador. E um péssimo cientista.

Como se fosse fácil um meia, que nunca havia atuado por ali, sem uma cobertura treinada para dar segurança às suas subidas, enfrentar o lado mais poderoso do Flamengo.

Naquele setor, esse monstro chamado Éverton Ribeiro consegue, com sua habilidade, organizar uma série de jogadas com seus laterais que desmontam qualquer defesa organizada. Imaginem diante de uma improvisada.

Enquanto aquele toque de bola desumano chama a atenção da zaga, e a confunde, quando alcançam a linha de fundo a bola é enviada para o setor que melhor define as jogadas. Fecha o Bruno Henrique. E surge o Arrascaeta. E, ontem, foi a vez do Andreas aparecer e decidir nessa brecha.

Quando fui para o Flamengo, trocado pelo Doval, Toninho Baiano foi também. Era lateral direito da seleção brasileira. E Junior, o lateral direito titular rubro-negro. Aí nosso treinador, Carlos Froner, disse ao nosso Maestro, um solista à época: melhor você tentar a lateral esquerda.

Junior disse que nunca havia atuado ali. Froner explicou que eu, que corria muito, ajudaria na marcação e seu potencial ofensivo era superior ao meu. Era tentar ou sentar no banco de reservas.

E foi com muito treino, jogos amistosos, posicionamentos e coberturas treinadas à exaustão com o Jaime de Almeida e o Dequinha, que ele se adaptou à nova função.

Será que deu certo?

Coitado do Yago, nem pelas divisões de base passou para aprender, na cartilha do prézinho do Professor Pinheiro, que primeiro o lateral marca. Depois realiza as coberturas e só depois apoia o ataque.

Os dois gols do Flamengo surgiram nas costas e nas indecisões do lado esquerdo tricolor. E não será desprezando lições do passado que Fernando Diniz vai nos apresentar o seu futebol do futuro.

SEM LENÇO, SEM DOCUMENTO

por Zé Roberto Padilha


Esqueça o futebol. E pense na sua profissão. Seja ela qual for.

Você chegando em uma empresa fora da sua cidade, contratado e saudado com todas as suas referências e, com 21 dias de trabalho, morando ainda num hotel porque nem deu tempo de arrumar um apartamento, com as crianças ainda não matriculadas e a esposa perdidinha com a mudança, você é sumariamente demitido.

Nenhum de nós gostaria de estar, hoje, na pele de um profissional respeitado como Fabio Carille. Como alguém deixa de ser a solução e passa a ser o problema em apenas três semanas?

Será que os dirigentes do Athletico-PR não sabiam que não foi ele que montou seu time? Que não teve tempo para treinar porque estreou em plena Copa Sul-Americana e com Brasileirão e Copa do Brasil em andamento?

Eles, dirigentes, sabiam disso. Nao queriam um técnico. Queriam um mágico.

Por isso são frios, calculistas e covardes. Incompetentes, usam a desunião de uma classe, a de treinadores de futebol, que aceitam um companheiro de profissão ser humilhado desse jeito, para justificar seus atos absurdos e desleais.

Em três semanas, um cidadão do bem, que estudou para exercer sua profissão, sem parentes importantes para viver de indicação, deixa seu novo clube cabisbaixo pela porta dos fundos, levando consigo um caminhão de culpas que ninguém mais por lá vai precisar assumir.

Por que não, a obrigatoriedade de todo treinador permanecer, no mínimo, por seis meses no cargo em que for convidado?

Por que temos que conviver com tais injustiças apenas porque não foi com o trabalho da gente?

Torço pelo Fluminense e, temporariamente, contra o Athletico-PR. Merece cair. Não apenas de divisão, mas pro quintos do inferno.