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VASCAÍNO DE YOUTUBE

21 / dezembro / 2021

por Rubens Lemos


Tenho sido venenoso com o que restou do Clube de Regatas Vasco da Gama. Sou cáustico e não me arrependo. O Vasco, em 20 anos, vem caprichando na maldade comigo, um torcedor que dele fez razão de existir. Desde menino, quando descobrimos amores inoxidáveis, o Vasco é um sentimento de herança, do meu velho pai, morto e poupado dos vexames sucessivos.

É fim de ano – mais um – de Vasco vergonhoso, derrotado, humilhado e cínico. O Vasco de um presidente paquiderme, um técnico ridículo e um time que sequer existe.

Jorge Salgado, o presidente, é um azedume de fracassos compartilhados com um Zé Ricardo absolutamente néscio, responsável pelas perdas que se acumulam levando na Lagoa Rodrigo de Freitas, onde o Remo é imortal, as esperanças cruzmaltinas.

Sou torcedor de Youtube, sou torcedor do passado vitorioso. Descobri um atalho chamado Acervo DVD Vasco e passeio por ele revendo timaços que disputavam pau a pau com o Flamengo, heroicos por serem frequentemente roubados pelas arbitragens e, ainda assim, encarar clássicos memoráveis sem medo, com raça e, a partir do baixinho Geovani no meio-campo, técnica que eles, os rubro-negros, monopolizavam.

O fim de ano amolece corações, mas em relação ao Vasco, evito notícias. Cogita-se um volante do CSA, de onde virá o goleiro. Sou do Vasco de volantes do naipe de Zé Mário, o campeão de 1977, Carlos Alberto Pintinho, Dunga, Zé do Carmo e Luisinho. Goleiros: Mazarópi, Leão, Acácio e Carlos Germano.

Todos clássicos, todos raçudos, todos valendo em cada gota de suor, a catarse de arquibancada do velho Maracanã e de São Januário, hoje muito mais para São Funerário.

Me anestesio em meio à fase interminável, pois é preciso gostar muito para tolerar duas décadas de surras, desclassificações, rebaixamentos, promessas mentirosas de recuperação, os botecos de portugas com um quê de igreja em missa de sétimo dia.

Consigo encontrar o fato positivo. Não suportaria a desgraça de hoje (e ontem e anteontem), se fosse criança. Iria chorar todo dia, apenas para minha avó (torcedora do Fluminense), ver e me consolar, achando uma beleza, por exemplo, o horripilante desempenho de um Zeca, um Ricardo Graça e um MT, nome de cantor de baile funk.

O Vasco de agora, nas antigas, me faria prisioneiro na velha casa hoje fechada em mistérios e saudades. Vazia de gente e afeto. Não sairia na rua. Nem eu nem meus amigos Leco, Otacílio, Flávio Tércio de Jardim do Seridó e Adriano Didica. Éramos felizes vascaínos ainda que do lado de lá, estivesse Zico, serial killer dos dribles impossíveis.

Pois chegamos a ganhar oito vezes em nove partidas contra o Flamengo, de Jorginho, Leandro, Andrade, Zico, Renato Gaúcho e Bebeto. Tínhamos Acácio, Mazinho, Dunga, Geovani, Tita, Mauricinho, Roberto e Romário. Como, pouco antes, tivéramos Zanata, Dirceu, Guina, Roberto, Ramon e Paulinho.

Os que detestam futebol jamais sentirão o amargo da incompetência. O Vasco caiu para a Série B quatro vezes e de lá não consegue sair. Os blogs imbecis de jornalistas malucos inventam contratações todos os dias.

De pernas de pau de times de terceira do futebol paulista, do Bonsucesso, do Olaria, do São Cristóvão e do Goytacaz, sacos de pancada surrados a cada quarta-feira e domingo. Dos anos 1970, 80 e 90.

Decidi me levantar para escrever deixando em modo pause a final do Campeonato Brasileiro de 1989, vencida com um gol de Sorato em cruzamento perfeito do lateral-direito Luiz Carlos Winck.

Daqui a pouco, o São Paulo de Bobô e Raí irá pressionar e Acácio operar milagres em defesas elásticas. Haverá até uma recuada horrorosa do equatoriano Quiñones que, de novo, Acácio vai transformar em salto mortal.

É verdadeira a emoção que sinto ao rever os jogos. Faço até uma tabela. Pelo Natal, verei o Campeonato carioca de 1987, as surras no Flamengo e no pobre Bangu, que apanhou de 3×0 e 4×0, shows de Roberto, Romário e Geovani. Assim, resisto. Se for para escolher, nada verei ao vivo. Entre o masoquismo e o saudosismo, sou vascaíno de Youtube.

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