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MARINHO, A BRUXA

2 / novembro / 2021

por Elso Venâncio


Francisco das Chagas Marinho nasceu em Natal, passou pelo ABC e Náutico até chegar, aos 20 anos de idade, ao Botafogo. No ano de 1972.

Agnaldo Timóteo fazia uma turnê pelo Nordeste. Fã de futebol, resolveu ir ao Estádio dos Aflitos e se impressionou com Marinho. Botafoguense fanático, ligou de imediato para o clube fazendo uma exigência:

– Comprem Marinho! Vi esse garoto louro em campo, é um cracaço. Comprem Marinho!!!

O jogador foi apresentado em General Severiano e, no fim de semana, já estreou pelo Glorioso. Simplesmente, contra o Santos de Pelé.

Beto Gamarra, zagueiro do GPSO (Grupo de Pelada Seis de Outubro*), me contou: na véspera desse confronto faltou um para completar os times na areia da Praia de Botafogo. Alguém gritou para um cara que estava no calçadão:

– Ei, paraíba, quer entrar?

Sem pensar duas vezes, Marinho foi para a areia. Sequer tirou o tênis e, no primeiro toque na bola, deu um voleio do meio-campo que estufou as redes. Incrível! Praia boquiaberta. Esse era Marinho Chagas.

Na estreia, irreverente, habilidoso e ofensivo, Marinho deu um chapéu em Pelé, para surpresa de um Maracanã lotado. Na época, independentemente de seus clubes, torcedores de todas as bandeiras iam com gosto ao estádio só para ter o prazer de ver o Santos. Pelé, por sua vez, não gostou do afronte. Aos gritos, pediu respeito:

– Galego, me respeita!

Nesse jogo, Edu marcou para os paulistas e Marinho, de falta, chutando de longe, empatou. Pelé mais uma vez não aprovou:

– O que é isso? Tá pensando que é quem?

Marinho xingou o Rei de tudo quanto era nome. Houve quase uma briga generalizada.

O lateral se destacava pelo chute forte e pela quantidade de gols que marcava. Atacava sempre. Era mais um ponta, um armador, e logo se tornou ídolo da torcida alvinegra, chegando à Seleção. Na Copa de 1974, na Alemanha, inclusive, foi considerado pela FIFA o melhor lateral-esquerdo do mundo. Na disputa do terceiro lugar, contra a Polônia, após a surpreendente derrota para o ‘Carrossel Holandês’ de Johan Cruijff, Marinho avançou e, nas suas costas, Lato marcou. O comentarista João Saldanha não perdoou:

– É a ‘Avenida Marinho’…

No vestiário, pilha de nervos à flor da pele, o goleiro Leão parte para cima do lateral. Após tensa discussão, a turma do ‘deixa disso’ se juntou para separá-los.

Em 1977 o Fluminense, com sua inesquecível Máquina Tricolor, era a grande atração do país. O tri carioca era questão de tempo. Francisco Horta – “Vencer ou Vencer” – decide contratar Marinho de qualquer jeito, a qualquer custo. Se o Campeonato Brasileiro fosse por pontos corridos, o time das Laranjeiras teria sido, nos anos anteriores, bicampeão – e com rodadas de antecedência. Contudo, foi surpreendido nas semifinais de 1975 e 1976, respectivamente, pelo Internacional e pelo Corinthians.

Para ter Marinho, Horta oferece Paulo Cezar Caju, Gil e Rodrigues Neto. Vieram, de contrapeso, Wendel e Miranda. Mas na verdade o que houve foi um três por um. O dirigente mandou para o Botafogo três jogadores de Seleção: Gil, titular no Mundial do ano seguinte; Rodrigues Neto, outro craque que vestiu a ‘amarelinha’; e um gênio da bola que estava no auge: Paulo Cezar. Resumindo: Horta contratou Marinho mas desmontou a Máquina, que saiu dos trilhos. O Fluminense deixou de ser tricampeão carioca única e exclusivamente devido à obsessão de seu presidente por Marinho.

Depois que deixou o tricolor, Marinho ainda brilhou no Cosmos, de Nova York, ao lado do Pelé, Beckenbauer e Romerito. Também vestiu a camisa do São Paulo Futebol Clube.

Há cerca de três anos, fui de férias a Natal e resolvi ir à tal Praia da Redinha que Marinho tanto falava. De frente para o mar, pergunto em um quiosque onde ficava a casa em que ele nasceu e morou. Disseram que a 200 metros dali, apontaram-me o local.

Bato na porta, sou bem atendido, me convidam a entrar e o irmão dele, curiosamente, se apresenta como Bomba. Ele lembra Marinho, exceto pela proeminente barriga. Diz que era difícil para ‘A Bruxa’ viver com fama e dinheiro em cidades grandes.

Pergunto o porquê de seu apelido ‘bombástico’.

– Você não sabe? Eu que ensinei Marinho a soltar a bomba. Desde o início, no Riachuelo. Eu era um peladeiro limitado, mas tinha um canhão na perna e passei isso a ele. A maneira de bater forte e fazer gols.

Para muita gente, Marinho foi o melhor lateral-esquerdo do futebol depois de Nilton Santos. E tinha um foguete na perna. Curiosamente, em razão dos ensinamentos que teve do irmão de sangue.

*Essa pelada, sempre às tardes nos sábados, completou 48 anos de fundação. Era em Botafogo e há 10 anos está na Sede da ASBAC, na Praça Onze, Cidade Nova. Passa de pai para filho. Marinho, quando parou de jogar, sempre esteve presente. Não jogava porque o joelho já não mais lhe permitia, mas participava apitando os jogos e, claro, continuava ao fim junto com a galera na resenha.

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