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GERSON, O CANHOTA GENIAL

19 / abril / 2022

por Péris Ribeiro


O Estádio Jalisco inteiro ouviu quando a mágica canhota de Gérson bateu na bola, a uma distância de mais de 40 metros, para fazê-la viajar, certeira, até encontrar o peito abençoado de Pelé, naquele segundo gol do Brasil na Copa de 70, contra a Tchecoslováquia – que vencemos por 4 a 1.

Dotada, porém, de mil outras magias, aquela canhota milimétrica era capaz de guardar força, malícia e precisão quando a dramaticidade do momento assim exigia. Que o diga o goleiro Albertosi, ao se deparar com aquele petardo inesperado, aos 20 minutos do segundo tempo.

Então, irremediavelmente batido, pôde ver aquele time de camisas amarelas desempatar um jogo tenso. E caminhar para uns estrondosos 4 a 1 sobre a Itália. Consagração definitiva de Gérson. E, por extenso, daquele Brasil tricampeão do mundo. Um campeão quase perfeito, como nunca se vira antes.

Momentos como esses, é bem verdade, são para se guardar para sempre na retina da memória do torcedor apaixonado. Só que o que ele também faz questão de não esquecer, jamais, é daquele Gérson, Canhotinha de Ourode vários outros momentos épicos no futebol.

No início  da carreira, por exemplo, aquele garoto vindo de Niterói, parecia ser a arrogância em pessoa. E dizia sem qualquer pudor, para quem quisesse ouvir, que ia ser tão grande quanto Pelé, Garrincha, Didi e Zizinho – não por acaso, suas maiores admirações.

Por isso mesmo, é que não foi à toa que, já em 1961, com aquele topete enorme, calções arriados e muita habilidade no pé esquerdo, desse de encarar de igual para igual o Santos de Pelé, Coutinho, Pepe, Zito e outros cobras mais. E logo em São Paulo, em pleno Estádio do Pacaembu.

Justo onde o Flamengo, o seu time na época, enfiou uma histórica goleada de 5 a 1 nos santistas – três gols seus e dois do amigo Dida, supremo goleador da Gávea naqueles tempos – e arrancou para a conquista  do pomposo título de campeão do Torneio Rio- São Paulo. Uma espécie de Campeonato Brasileiro da época.

 Mesmo assim, e mesmo com toda a repercussão após aquela inesperada façanha, o começo do seu auge só ocorreu quando se mudou para General Severiano. Tanto que foi no Botafogo, que se transformou no herdeiro natural da camisa 8 do mestre Didi. Ali, Gérson comandava o time com uma visão de jogo rara.Inacreditável! E gritando palavrões com quem teimava em correr das bolas divididas – ou insistia em desafinar no entrosamento das jogadas -, portava-se em campo como o supercraque que era, mas também como um verdadeiro líder. Um técnico dentro de campo.

E foi assim, multiplicando-se sempre, que levou aquele Botafogo – que ainda contava com craques como Jairzinho, Manga, Roberto, Rogério e Paulo César Caju -ao bicampeonato carioca, em 1967/68. E a outro bi, o da Taça Guanabara, nos mesmos anos.

 Depois da consagração na Copa do México, eis que o Gérson que fomos encontrar era um gênio da bola a guardar fôlego e disposição para dar mais um bicampeonato, desta vez o paulista, ao São Paulo F.C. do então governador Laudo Natel – que não provava do doce sabor de um título havia 13 anos. E foi lá no São Paulo, que deixou transparecer ainda mais a sua vocação de líder, quando dizia :

 – O importante não é falar, é se fazer acreditar. Não quero que vejam em mim o “cobra” da Seleção. Grito, xingo…,mas corro e luto tanto quanto exijo dos outros.

   Carreira encerrada em dezembro de 1974, no Fluminense, aos 33 anos de idade, e ainda com lenha de sobra para queimar, o que Gérson sempre dizia, naqueles tempos, era que não estava preparado para ouvir ingratidões. Ou chacotas, como a de um torcedor bêbado nas gerais, a gritar num jogo qualquer de menor expressão: “ Corre atrás da bola, ô careca! Tá sem perna, pô!

Porém, se ele avaliasse mesmo tudo o que havia feito pelos campos, saberia bem o que estava deixando: uma bruta saudade da sua personalidade indomável, da sua liderança, da sua inacreditável visão de jogo.

E, mais do que tudo, da centelha mágica daquele pé esquerdo. Capaz de dribles que assustavam adversários, chutes que liquidavam goleiros. E lançamentos que provocavam a alegria dos goleadores e o encanto de todo e qualquer amante daquele futebol genial, jogado com um misto de técnica, arte e lucidez científica.

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