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Gerson

GERSON, O CANHOTA GENIAL

por Péris Ribeiro


O Estádio Jalisco inteiro ouviu quando a mágica canhota de Gérson bateu na bola, a uma distância de mais de 40 metros, para fazê-la viajar, certeira, até encontrar o peito abençoado de Pelé, naquele segundo gol do Brasil na Copa de 70, contra a Tchecoslováquia – que vencemos por 4 a 1.

Dotada, porém, de mil outras magias, aquela canhota milimétrica era capaz de guardar força, malícia e precisão quando a dramaticidade do momento assim exigia. Que o diga o goleiro Albertosi, ao se deparar com aquele petardo inesperado, aos 20 minutos do segundo tempo.

Então, irremediavelmente batido, pôde ver aquele time de camisas amarelas desempatar um jogo tenso. E caminhar para uns estrondosos 4 a 1 sobre a Itália. Consagração definitiva de Gérson. E, por extenso, daquele Brasil tricampeão do mundo. Um campeão quase perfeito, como nunca se vira antes.

Momentos como esses, é bem verdade, são para se guardar para sempre na retina da memória do torcedor apaixonado. Só que o que ele também faz questão de não esquecer, jamais, é daquele Gérson, Canhotinha de Ourode vários outros momentos épicos no futebol.

No início  da carreira, por exemplo, aquele garoto vindo de Niterói, parecia ser a arrogância em pessoa. E dizia sem qualquer pudor, para quem quisesse ouvir, que ia ser tão grande quanto Pelé, Garrincha, Didi e Zizinho – não por acaso, suas maiores admirações.

Por isso mesmo, é que não foi à toa que, já em 1961, com aquele topete enorme, calções arriados e muita habilidade no pé esquerdo, desse de encarar de igual para igual o Santos de Pelé, Coutinho, Pepe, Zito e outros cobras mais. E logo em São Paulo, em pleno Estádio do Pacaembu.

Justo onde o Flamengo, o seu time na época, enfiou uma histórica goleada de 5 a 1 nos santistas – três gols seus e dois do amigo Dida, supremo goleador da Gávea naqueles tempos – e arrancou para a conquista  do pomposo título de campeão do Torneio Rio- São Paulo. Uma espécie de Campeonato Brasileiro da época.

 Mesmo assim, e mesmo com toda a repercussão após aquela inesperada façanha, o começo do seu auge só ocorreu quando se mudou para General Severiano. Tanto que foi no Botafogo, que se transformou no herdeiro natural da camisa 8 do mestre Didi. Ali, Gérson comandava o time com uma visão de jogo rara.Inacreditável! E gritando palavrões com quem teimava em correr das bolas divididas – ou insistia em desafinar no entrosamento das jogadas -, portava-se em campo como o supercraque que era, mas também como um verdadeiro líder. Um técnico dentro de campo.

E foi assim, multiplicando-se sempre, que levou aquele Botafogo – que ainda contava com craques como Jairzinho, Manga, Roberto, Rogério e Paulo César Caju -ao bicampeonato carioca, em 1967/68. E a outro bi, o da Taça Guanabara, nos mesmos anos.

 Depois da consagração na Copa do México, eis que o Gérson que fomos encontrar era um gênio da bola a guardar fôlego e disposição para dar mais um bicampeonato, desta vez o paulista, ao São Paulo F.C. do então governador Laudo Natel – que não provava do doce sabor de um título havia 13 anos. E foi lá no São Paulo, que deixou transparecer ainda mais a sua vocação de líder, quando dizia :

 – O importante não é falar, é se fazer acreditar. Não quero que vejam em mim o “cobra” da Seleção. Grito, xingo…,mas corro e luto tanto quanto exijo dos outros.

   Carreira encerrada em dezembro de 1974, no Fluminense, aos 33 anos de idade, e ainda com lenha de sobra para queimar, o que Gérson sempre dizia, naqueles tempos, era que não estava preparado para ouvir ingratidões. Ou chacotas, como a de um torcedor bêbado nas gerais, a gritar num jogo qualquer de menor expressão: “ Corre atrás da bola, ô careca! Tá sem perna, pô!

Porém, se ele avaliasse mesmo tudo o que havia feito pelos campos, saberia bem o que estava deixando: uma bruta saudade da sua personalidade indomável, da sua liderança, da sua inacreditável visão de jogo.

E, mais do que tudo, da centelha mágica daquele pé esquerdo. Capaz de dribles que assustavam adversários, chutes que liquidavam goleiros. E lançamentos que provocavam a alegria dos goleadores e o encanto de todo e qualquer amante daquele futebol genial, jogado com um misto de técnica, arte e lucidez científica.

O GERSON QUE DEVE HAVER EM TODOS NÓS

por Marcelo Mendez


Ontem eu não esperava muita coisa do jogo das 18 horas do Maracanã, mas sim, Bahia e Flamengo fizeram um jogão de bola.

O placar de 4×3 para o Flamengo teria muita coisa aqui a ser comentada, mas eu já aviso de antemão aos amigos aqui do Museu da Pelada, que ainda assim, nada será dito sobre o que aconteceu com bola rolando. E sim, não vou falar porque obviamente um fato superou todas as coisas que se valem de quando a bola rola.

– Cala boca, seu Negro!

Quando Gerson acusou essa fala dita pelo meia Ramirez do Bahia, nem jogo deveria mais ter. Só quem passa pelo que Gerson e outros tantos Brasileiros Pretos passam, que sabe do quanto que isso dói. O quanto isso avilta, o quanto isso rasga a carne de quem é exposto ao racismo nosso de cada dia. O Brasil é um País que vive envolto às consequências de um racismo estrutural que faz com que as pessoas passem a naturalizar situações como essas, fazendo crer que seja normal, ou no máximo um equívoco de quem o acusa. Não:

Racismo é crime.

Não é uma moda, como afirmou o técnico Jorge Jesus. Tampouco é a malandragem que Mano Menezes afirmou ser, discutindo com Gerson da beira do campo, tergiversando a discussão para um diversionismo de garoto no recreio da quinta série numa atitude vexatória e lamentável.

Racismo é crime que precisa ser visto como tal, sem as vestes do relativismo, sem ficar subjugado a outras situações, sem ter que ficar em segundo plano de nada que suspenda a discussão sobre o assunto, sobre o fato, sobre a dor de quem sofre essa situação.

Essa coluna fala sim das coisas do campo, das partidas, dos esquemas táticos, mas essa coluna jamais tratará o futebol como uma ilha isolada de todo o contexto social ao qual ele faz parte e atua. Sendo assim, não, não terá nada de bola rolando aqui hoje não.

Esse jornalista, primeiro colaborador do Museu Pelada, atuante aqui nesse espaço desde a fundação do projeto, se coloca visceralmente a favor de Gerson, parabeniza o Esporte Clube Bahia pela rápida postura, mas em vez de apenas lamentar contra o ocorrido, se coloca aqui e coloca seu trabalho como instrumento de luta contra essa coisa nojenta que é o racismo.

No jogo da vida, eu Marcelo Mendez, sou o Gerson. Tamo junto.

GERSON AO SOM DE MILES DAVIS

por Marcelo Mendez


Eu não tenho muita paciência para assistir futebol.

Salvo as vezes de que por dever de ofício devo acompanhar a rodada, procuro fazer outras coisas, decerto, coisas que me dão prazer. Este, não encontro em partidas modorrentas disputadas por times bundões, treinado por técnicos burocratas que só apregoam o medo para conseguir seus parcos pontinhos na tabela.

O compromisso desses sujeitos é tão somente com a manutenção de seus empregos, jamais veremos um técnico de futebol no Brasil preocupado com o torcedor que consome a duras penas, o produto futebol. Mesmo assim, liguei a TV para dar uma olhada em Flamengo x Santos. Abaixei o volume da TV porque ninguém merece as obviedades das narrações futeboleiras, fui no som, peguei um vinil (Sim, amigos, sou desses que ainda ouvem vinis), meti o Miles Davis para tocar e aí se fez a magia da coisa toda.

Na pick up tinha Miles Davis tocando “Smoke gets in your eyes”, em campo,  jogava Gerson.

A perfeita simetria que se dá entre a blue note de onde vem todo improviso, magia e encanto jazzístico, encontra-se na camisa 8 do Flamengo vestida por Gerson. Seu futebol é sinuoso, malemolente, suingado e furioso na medida certo do verso que forma o poema. Desfila pela cancha a elegância de antigos que vestiram sua mesma camisa. Adílio, Dr Rubens, jogadores que levavam para o meio campo o raciocínio rápido dos bailarinos de imortais gafieiras cariocas. 

Na abafada tarde que se passava, ver Gerson jogando ao som de Miles Davis iluminou minhas expectativas. Que coisa linda de se ver. Um outro há de me dizer; “Mas e a Seleção? Por que não vai?” – Eu até poderia começar responder isso com uma daquelas teses chatíssimas sobre técnicos de seleção e suas verdades idiotas, mas agora não. Azar da seleção.

Quero ver o pôr do sol que chega, com o futebol de Gerson ao som de Miles Davis na mente. Assim o fiz.

Em nome do Futebol Brasileiro que um dia existiu.

GERSON NO FLAMENGO, A VOLTA DO CANHOTINHA

por Victor Kingma


Rubro-negro histórico, seu Tobias sabia tudo sobre o Flamengo. Podia, por exemplo, descrever com detalhes o  gol de Agustin Valido sobre o Vasco, no primeiro tricampeonato carioca do Flamengo, em 1944. Nas resenhas com seus contemporâneos, o sorriso meio sacana admitia que o avante argentino tinha mesmo se apoiado nas costas do defensor vascaíno Argemiro para fazer o gol do título.

Recordava, saudoso, do ataque de meninos formado por Joel, Duca, Evaristo Dida e Zagalo, pela segunda vez tricampeões, em 1955.

Gostava de contar da ousadia do técnico “Feiticeiro” Fleitas Solich ao apostar todas as suas fichas no garoto alagoano Dida, autor dos quatro gols naquela decisão contra o América, vencida por 4 x 1.  Até porque o Flamengo, que havia vencido a primeira partida da melhor de três por 1 x 0, com gol de Evaristo,  tinha levado uma sonora surra de 5 x 1, na segunda partida da final.

Sua memória era uma autêntica enciclopédia rubro-negra. Era capaz de se lembrar de cada título, das campanhas e até do apelido de cada jogador.

Sabia tudo da carreira do “Diamante Negro”, Leônidas, do “Doutor” Rubens, e de “Mestre Ziza”, o grande Zizinho, com quem, dizia, Pelé aprendeu muitas coisas.

Lembrava das matadas no peito de Silva, “o  Batuta” , do gol com a cara na lama de  Almir, “o  Pernambuquinho” contra o Bangu, em 1966, e do gol de cabeça de  Rondineli, “O Deus da Raça”, naquela decisão contra o Vasco, em 1978.

 Até dos jogadores menos conhecidos que passaram pelo clube ele sabia o apelido, como o de Dionisio,  “Bode Atômico”, Rodrigues Neto, o  “Turíbio” e de  Merica,  o “Cabra de  Lampião”, volante que que não perdia uma dividida.  Dividiu era do Meriquinha! – Ele sempre dizia.

Apenas de um jogador ele não gostava muito do apelido. Achava que “Galinho” era pouco para Zico, o maior de todos.


Hoje, sentindo o peso da idade quase centenária, a memória já não é a mesma, e seu Tobias, às vezes, mistura a realidade com a fantasia, quando fala do seu time de coração.

Outro dia, sentado na sua inseparável cadeira de balanço, com cachecol preto e vermelho no pescoço para se abrigar do frio, parecia cochilar. Enquanto isso, seus netos, economistas, discutiam sobre o custo benefício do alto valor pago por Gérson, a nova contratação do Flamengo. De repente ele entra na conversa:

– Verdade o que vocês estão falando? O Flamengo contratou de novo o Canhotinha de Ouro?  Quer dizer que o Violino vai ter novamente seu companheiro de meio campo? Henrique e Dida vão se cansar de fazer gols novamente com os lançamentos do Canhota! 

– Não, vovô! Responde os netos, entre risos. Esse é outro Gérson, aquele meia que jogou no Fluminense e estava na Itália.

Ai o velho rubro-negro, recuperando totalmente a lucidez:

– Que ótima notícia, meus netos! Não sei se esse menino é  mesmo bom de bola’ e quanto pagaram por ele, mas foi barato!

E com os olhos marejados de saudade, seu Tobias, que sabe tudo de bola, conclui:

– Ter um Gérson no meio de campo de qualquer time do mundo soa muito bem aos ouvidos! Enriquece qualquer escalação!

Com  certeza, vai dar certo!

PARABÉNS, CANHOTA!

Hoje é aniversário do craque Gerson! O “Canhotinha de Ouro” completa 76 anos e continua com a língua afiada!! Fiquem ligados, a matéria com o rei dos lançamentos sai neste domingo!!