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AOS 30, MAS COM 14

15 / março / 2022

por Rubens Lemos


Ídolo de minha geração cinquentona, Zico estava sublime ao fazer 30 anos. Se perdeu a Copa do Mundo de 1982, era campeão mundial de 1981 e brasileiro do ano seguinte. Em 1983, completou 30 anos maduro, respeitado por torcedores de todos os clubes, incluídos os do Vasco da Gama, meu time, Fluminense e Botafogo, rivais rubro-negros domésticos.

Zico partiu ao completar três décadas de vida se despedindo ao dar de presente o terceiro título brasileiro ao Flamengo numa surra homérica de 3×0 no Santos diante de 155 mil pessoas, maior público das finais nacionais.

Fez um gol com menos de um minuto e depois partiu para a Udinese, uma espécie de Ponte Preta de Campinas da Itália, mediana e que luziu apenas enquanto Zico vestiu sua camisa 10, por sinal, parecidíssima com a do Vasco.

Até os 30 anos, Zico construiu uma imagem cristalina de atleta e cidadão. Estava no Flamengo nos três mundiais que disputou, porque voltou da Udinese em 1985.

Zico estava nos álbuns de figurinhas, nas campanhas publicitárias politicamente corretas, era o Flamengo nascido no subúrbio de Quintino, aparência frágil e voracidade assassina em direção gol.

Em toda a sua carreira profissional, de 1971 a 1983, Zico encarnou o jovem e depois o adulto modelar. Não dava declarações polêmicas, evitava divididas políticas (só depois de pendurar as chuteiras, foi Ministro de Fernando Collor), honrava a camisa 10 que Pelé passou a Rivelino, seu antecessor.

Zico criou uma sólida reputação de bom caráter que o permitiu circular livre em todas as camadas futebolísticas, jornalísticas e passionais de arquibancada.

Somente aos 30 anos, Zico se preocupou com prioridade em ganhar dinheiro mais do que suficiente. Assim mesmo, teve que jogar até quase 40 no futebol japonês, que a ele deve o sol nascente ludopédico.

Zico e Neymar não podem ser comparados. Zico jogava mais bola do que Neymar assim como os outros dois da trinca mágica e azarada vestindo amarelo: Sócrates e Falcão. Zico era um meia-atacante que os tecnocratas hoje chamariam de vertical, como se fosse possível alguém jogar deitado. Zico era um driblador progressivo, sentava cinco marcadores e o goleiro antes de fazer o gol.

Uma – das inúmeras – vantagens de Zico sobre Neymar: Zico buscava o gol com objetividade requintada, sempre quis a vitória e o gol como seu instrumento único. Zico jamais driblou Dudu do Vasco, Jandir do Fluminense ou Carlos Alberto do Botafogo para trás e depois deu um sorrisinho irritante para as câmeras.

Outra diferença em favor de minha patota de barriga proeminente mas sem onde guardar hectolitros de cerveja: Zico comemorava seus gols com a torcida do Flamengo. Nem que tivesse de atravessar o campo inteiro do Maracanã. Não mandava galera rival se calar tampouco fazia sinais pornográficos aos adversários.

Zico foi uma instituição, em lampejos no PSG, Neymar é contradição, literal ou metafórica: é o que sobrou de um futebol profanado em sua matéria-prima de arte e molejo, de ginga e balé, de malabaristas ocupando o espaço tomado de assalto por trogloditas especializados na deformação do 0x0, no máximo 1×0, como regra autoritária pelas ideias paupérrimas de técnicos de prancheta e sem contato com a dona do teatro, a bola.

Enquanto Zico atravessou a fase final de Pelé, passou por Rivelino, Ademir da Guia até ser o primeiro de uma seleta galeria com Reinaldo, Sócrates, Falcão, Júnior, Roberto Dinamite, Adílio, Paulo Isidoro, Jorge Mendonça, Paulo César Caju. Até ensinar à garotada bicampeã mundial de juniores(1983/85), com Geovani, Bebeto, Mauricinho, Romário(não foi campeão, mas era estupendo ainda criança), Silas e Muller.

Neymar nunca teve concorrência. Surgiu como um raio e, em 2010/11, explodiu como o fora de série que misturava dribles e danças com passagens na mídia indesejável, colecionava baby girls e, a contragosto, segue de figurante na Europa, primeiro para Messi e depois para o francês Mbappé.

Zico fez 30 anos sem festejos, é só pesquisar. Neymar, na idade comportamental, deve estar provocando coleguinhas com 16 Iphones de última geração. Ele completou 30, mas, na prática, parece estar com 14 anos.

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