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QUEM NÃO QUERIA SER IGUAL AO SIMONAL?

23 / fevereiro / 2018

por André Felipe de Lima


Charge: André Felipe de Lima

A seleção brasileira se preparava para ir à Copa do Mundo de 1970. O mês era fevereiro. No Brasil, sofríamos com a ditadura militar, e nos palcos, embora censurados como tudo no país, o destaque popular era o cantor Wilson Simonal ou, como diz o título da série de reportagens sobre ele assinada pelo grande Sérgio Noronha, “aquele cara que todo mundo queria ser”. Arrazoada verdade. Simonal era o showman na crista da onda do final da década de 1960, e entre os seus grandes amigos, um especialíssimo. Um rei. O Rei Pelé I e único. 

Simonal era tão parceiro de Pelé que gravou, em 1967, uma composição (Gosto tanto de você) assinada pelo Rei. A música integra o  LP “Alegria Alegria vol. 2”, lançado pela Odeon. Mas a relação entre os dois estava acima da música. O futebol os uniu no momento que se tornaria o mais importante da história do esporte bretão no Brasil: a Copa do Mundo de 1970, no México.

Simonal foi convidado pelos cartolas da antiga CBD (Confederação Brasileira de Desportos) para acompanhar a delegação na Copa. Evidentemente que o cantor topou na hora. “Simona”, como era carinhosamente chamado pelos amigos, adorava futebol. Cabia ao showman entreter a moçada na concentração. Lucro dele, que estaria perto de alguns dos melhores jogadores do planeta, mas lucro também dos próprios craques, que se deliciariam com o cara que todo mundo queria ser no país.


No documentário “Ninguém sabe o duro que dei”, de Calvito Leal, do “casseta” Cláudio Manoel e de Micael Langer, Pelé confessou o grande carinho que tinha por Simonal e a importância dele na delegação rumo ao “tri”. Os dois eram queijo com goiabada. Combinação perfeita. Cantaram, tocaram violão e alegraram os jogadores. No México, a amizade entre Simonal e Pelé estava devidamente consolidada. 

“Pô, eu chegava no aeroporto e todo mundo pedia autógrafo pra ele [Simonal]. Quer dizer, parecia que ele era um jogador de futebol. Aquela coisa que você sabe, né, de boleiro com cantor. Ele dizendo que era bom de bola, que gostava de bater bola. Eu tinha um [campo de futebol] society lá na minha casa, aí nós brincamos lá. Aí começou nossa amizade. Pô, é impressionante. Todo cantor quer ser jogador e todo jogador quer ser cantor”, declarou Pelé, em depoimento para o filme.


No mesmo filme, o jornalista Nelson Motta confirma a importância do cantor entre os craques de 70: “Simonal foi uma espécie de cantor oficial da delegação [do Brasil, na Copa de 70]. Ele fazia um imenso sucesso no México tanto quanto Pelé”.

Simonal foi mais que o cantor oficial da delegação. Foi a mascote, um querido amigo de todo mundo. O clima descontraído permitiu aos jogadores promoverem uma brincadeira com o cantor. Durante um treino, ele deveria jogar para um leve e descompromissado “teste”. Os craques deixavam o cantor se sentir “jogador”. Simonal passava a bola, conduzia a pelota… só dava o “craque” Simona na pelada dos cobras da seleção. 
No documentário, o humorista Chico Anísio recupera uma história surreal. Zagallo tinha dúvidas se levava para o México o ponta-direita Rogério, do Botafogo, ou o terceiro goleiro, no caso o Leão, do Palmeiras. Carlos Alberto Torres, o “Capita” de 70, emendou a sugestão, naturalmente na maior galhofa: “Zagallo, pra que levar o Rogério se o Simonal está aqui? O ‘Simona’ entende, joga uma bola redonda”. 


Zagallo embarcou na piada do Capita e perguntou ao Simonal: “Você joga, Simonal?”. O treinador do escrete ouviu na lata: “Bato uma bola…”. Um todo prosa Simonal mordeu a isca, e Zagallo o convidou para uma “preparação física pra valer” na manhã do dia seguinte. Tudo à vera, sem “brinca” nem delongas. “Se você estiver bem, eu te inscrevo”. Um confiante Simonal acreditou.

“Ele [Simonal] achava que estava bem, que era atleta e ele falou assim: ‘Pô, vou fazer uns dois toques’, porque a gente fazia brincadeira de dois toques, né? Aí, recreação… ele falou: ‘Vou fazer dois toques com vocês aí’. Aí eu falei: ‘Tá legal’, aí arrumamos pra ele fazer o dois toques. Botou o uniforme, botou a chuteira, tudo. Eu me lembro como se fosse hoje. Aí, ele foi fazer o dois toques. Quinze minutos de aquecimento, pô, ele se sentiu mal. Lá no México é alto, pô, deu um piripaque nele. Aí, ficou lá, teve que vir o doutor dar um oxigênio e tudo pra ele”, recordou Pelé, às gargalhadas, para o documentário do cantor.

Simonal desmaiou. Somente quando acordou é que percebeu que tudo não passava de uma gozação. Até ali, o cantor acreditava piamente ser ele o ponta-direita da seleção na Copa de 70.

Simonal, cujo apelido de “Pilantra” foi uma forma jocosa inspirada no agente 007 interpretado pelo ator Sean Connery, era um camarada tímido e até certo ponto ingênuo. Um dos maiores showman da MPB alegava ter medo de encarar a plateia. Só decidiu enfrentá-la devido à necessidade de ganhar dinheiro. 


Wilson Simonal contou ao Sérgio Noronha que o estilo malandreado surgiu após assistir a um filme do famoso agente britânico. Quando as luzes do cinema acenderam, ele imaginava a sala de projeção cheia de mulheres devido à fama de galã da personagem. Pelo contrário. Só havia homens. Aí, Simona refletiu: “Como é que é? E comecei a descobrir que o 007 faz aquele gênero que todo homem gostaria de fazer. Ele não é bonito. Pode ser um tipo machão, mas isso não é difícil de ser. Conquista todo mundo, bate a torto e a direito, é polícia mas transgride a lei e ainda leva esculacho. É um irreverente, um irresponsável. Foi lá na Rússia e atacou a embaixatriz, tem reunião ele chega atrasado, com aquela roupa. Os outros de terno azul marinho e camisa branca, e ele chega de azul claro e camisa cor de rosa. Uma pasta diferente, uma ar cínico. Todo mundo se projeta nele, e foi aí que eu senti que dava pé […] e você acaba sendo aquele cara que todo mundo queria ser”.

Simonal foi um mágico da MPB. Encantava até mesmo os mais resistentes ao seu estilo. Impagável vê-lo dando um show de simpatia ao lado da diva do jazz Sarah Vaughan, ambos cantando a célebre e maravilhosa The Shadow of Your Smile. “Por favor, não tumultuem. Repita comigo, Sarah: ‘Vou deixar cair'”. A cantora arrastou o português, repetiu a frase e a plateia cedeu em risos e efusivos aplausos. A diva, certamente, jamais esqueceu do dueto com Simonal, que tem o nome graças ao médico que cuidou de sua mãe, Maria Silvia de Castro, três meses antes do nascimento do futuro cantor: “O médico gostou de mim, só me chamava de ‘Gorda’, e disse que fazia questão que eu botasse o nome dele no meu primeiro filho. Tanto é assim que, quando meu marido veio me ver, depois do nascimento, tinha um papelzinho identificando a criança: Paulo Roberto Simoná, que era o nome do médico todinho. Meu marido não queria, mas ele tinha me tratado tão bem que eu pedi para deixar ao menos um nome dele na criança, e ele voltou com o registro: Wilson Simonal de Castro”.


No mais, a vida de Simonal tem como síntese a letra de “Sá Marina”, composta por Antônio Adolfo e Tibério Gaspar, uma das mais lindas da MPB, imortalizada na voz do mais deliciosamente malandro da história do showbiz nacional: “Deixando versos na partida/ E só cantigas pra se cantar/ Naquela tarde de domingo/ Fez o povo inteiro chorar”.

O povo chora a falta do querido “pilantra”, mas sorri até hoje ao ouvi-lo cantar.

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