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NILO NEVES E O CORITIBA COMO ETERNIDADE

por André Felipe de Lima

Há torcedores que afirmam convictamente: “O melhor lateral-esquerdo da história do Coritiba foi Janguinho”. Mas o gaúcho Nilo Roberto Neves, que teve o brilhante Oreco, do Internacional, como ídolo, surgiu no Coxa em 1968 para disputar espaço com os ex-laterais-esquerdos Janguinho e Carazzai nos corações coritibanos. Para as gerações mais recentes, não há dúvida: dos três, Nilo Neves foi o melhor. Quem o buscou no São José de Porto Alegre e o indicou ao pessoal do Alto da Glória foi Rui “Motorzinho”, um excelente meia-atacante do Internacional no início dos anos de 1940, cujo time era conhecido como “Rolo-compressor”. Logo que pendurou as chuteiras, Rui tornou-se treinador do Atlético Paranaense, onde montou, em 1949, um timaço, com Jackson, Neno e Cireno. Um time chamado de “Furacão”, apelido que se tornou marca registrada do Atlético.

O começo da carreira de Nilo foi, entretanto, nas divisões de base do Internacional, no finzinho da década de 1950. Menino ainda, Nilo conviveu com o ídolo Oreco, lateral já consagrado na seleção brasileira.

Oreco foi para o Corinthians e nunca mais pintou um lateral-esquerdo como ele no Inter. Deveriam apostar na prata da casa. Nilo deveria ser o virtual herdeiro de Oreco, mesmo com pouca idade. Mas foi tratado com indiferença pela desesperada e xucra comissão técnica, que não conseguia parar o rival, o Grêmio, de ganhar tudo pelas paragens gaúchas. Nilo saiu magoado do Inter e seguiu para o São José de Porto Alegre em 1963. Foi campeão da segunda divisão estadual, em 1965, e permaneceu no modesto clube gaúcho até 1968. Estava sem clube. Cinco meses parado. Mas surgiu uma proposta do Banrisul. Salvação da lavoura para Nilo, que já demonstrava pouca motivação para continuar a carreira de jogador de futebol. O Banrisul o chamou, mas não para um emprego formal. Foi contratado para compor o time titular que disputaria o campeonato dos bancários.

Motorzinho, que nos idos de 1940 foi treinador do Atlético Paranaense, estava no papel de olheiro do Coritiba quando deu de cara com Nilo. “Dois dias depois, ele levou o dinheiro vivo numa sacola. Se fosse cheque, eu nem aceitaria.”

O rapaz ainda estava com dúvida entre o gramado e… o palco. Quando morava em Porto Alegre, inspirado pelo movimento musical Jovem Guarda, Nilo cantava e também era percussionista do conjunto “Evolução”. Nilo confessou ao repórter Ayrton Baptista Jr. que se trava de um “samba, mas não tradicional”, no estilo Golden Boys. Optou pela bola. Melhor para ele e para o Coritiba.

Baixinho e atarracado, não dava moleza para ninguém. Cobertura à zaga era como ele mesmo. Quantas bolas, cujo endereço era o gol do Coritiba, Nilo desviou a trajetória? Inúmeras. Dezenas. Era leal. Leal ao Coritiba. Sobretudo em dia de enfrentar o rival.

Atletiba inesquecível — senão o melhor de todos — para Nilo foi o que decidiu, no dia 28 de agosto de 1968, o campeonato paranaense daquele ano.

O placar estava 1 a 0 para o Furacão, gol de Zé Roberto, que anos mais tarde iria para o Coxa. O juiz Arnaldo César Coelho — prontinho para apitar o final do jogo — marcou uma falta para o Coxa. Nilo correu para buscar a bola e cobrar o quanto antes a bendita falta. Bellini, em fim de carreira no Atlético, tentou cortar, mas sobrou para Paulo Vecchio meter a cuca na bola e marcar o gol de empate. Do título. Festa para a torcida, para Nilo no estádio Durival de Britto.

O técnico Elba de Pádua Lima, o Tim, deve ter sido mesmo o maior que já comandou times do Coritiba. Competente como jogador no passado, manteve o estigma positivo como técnico. Todos gostavam dele. Krüger, Leocádio… Nilo não fugiu à regra. “Queriam me tirar do time, os diretores. Aí, acabei com um jogo contra o Botafogo, marcando o Zequinha. No final, o Tim zombou deles: ‘Queriam tirar você. veja como ficaram chateados…’. O Tim e o Francisco Sarno foram os melhores que vi no Coxa.”

Na lateral-esquerda, não havia gente melhor que Nilo nos gramados do Paraná. Acabou lembrado por Aymoré Moreira para a seleção brasileira. No mesmo ano em que chegou ao Coritiba foi convocado para o jogo em que o escrete nacional colocou a faixa de campeão estadual nos jogadores do Coxa. Nilo vestia a amarelinha, apesar de ter participado da campanha campeã do Coritiba. Mas há um dado que desperta curiosidade: naquele período em que aconteceu o jogo amistoso, Nilo estava emprestado ao Atlético Paranaense para a disputa do Torneio Roberto Gomes Pedrosa.

O Coxa perdeu de 2 a 1, mas deu uma canseira danada na seleção. Nilo começou no banco. O titular de Aymoré Moreira era Paulo Henrique, do Flamengo. No segundo tempo, enfim, sua oportunidade aconteceu.

Nilo nasceu em Porto Alegre, no dia 2 de dezembro de 1942. Até 1975 foi o titular absoluto da lateral-esquerda do Coxa. Ajudou ao time nas conquistas dos títulos estaduais de 1968, 69, 71, 72, 73, 74 e 75 e do Torneio do Povo, em 1973. Pendurou as chuteiras no Palmeiras, de Santa Catarina, aos 32 anos, e assumiu uma nova fase no futebol. Como treinador.

O início foi em divisões de base do Internacional de Porto Alegre, depois Coritiba, Atlético Paranaense, Pinheiros [atual Paraná Clube] e Criciúma. Em equipes profissionais, fincou o pé em Mato Grosso, estado em que dirigiu times do Sinop, Mixto, Operário de Várzea Grande, Barra do Garças, Sorriso e Tangará. Nilo também comandou o time de Francisco Beltrão, no Paraná. A frente do Sinop foi campeão mato-grossense em 1990 e 2000. Com o Barra das Garças, um surpreendente título nacional da Série C, em 1993.

Nilo, nos tempos em que treinou o time do Sinop, foi técnico e preparador de goleiros de Rogério Ceni.

Nilo Neves está devidamente eternizado na linda história do Coritiba.

AS DÉCADAS DERRADEIRAS DO ANDARAÍ – PARTE 1 (1938 A 1943)

por André Luiz Pereira Nunes


O gradual e acentuado declínio do Andaraí Atlético Clube, histórica agremiação esportiva que pertenceu à primeira divisão do Rio de Janeiro de 1915 a 1924, se iniciou por ocasião da perda de sua praça de esportes e o posterior arrendamento a partir da Associação Atlética Portuguesa, em janeiro de 1938, através de um acordo do clube luso com a Polícia Municipal.

Alegando, portanto, possuir campo de jogo, a Portuguesa manifestou interesse em manter-se na Liga de Futebol do Rio de Janeiro (LFRJ) em definitivo entre os profissionais. O estádio, o qual apresentou à entidade, era justamente o mesmo que pertenceu ao Andaraí até 1934, quando o então presidente deposto, Jansen Muller, cedeu o espaço para os praças.

Como nada costuma ser uma mera coincidência no mundo do futebol, ele teria sido aceito como sócio da Portuguesa dias após ter sido banido do cargo máximo do Grêmio Alviverde. É evidente que a partir da cessão desse espaço esportivo, o qual já não mais pertencia ao Andaraí desde 1934, a agremiação entra em um profundo e irreversível estágio de decadência. As atividades foram mantidas, contudo de maneira frágil e irregular. Não só o clube, como seus jogadores, já não mais faziam parte do ambiente fabril do bairro, afetando consequentemente a identidade da agremiação, ferida ainda pela perda de outras modalidades esportivas como o basquete e o tênis.


Ao longo de 1939, o Andaraí passou a conviver com as ameaças de expulsão da Associação de Futebol do Rio de Janeiro (AFRJ). Em 17 de junho foi anunciado que o clube seria suspenso caso não cumprisse com as obrigações de filiado de acordo com o estatuto. Sem saber quando voltaria a atuar e com seus jogadores “presos”, portanto, impedidos de atuar em outras equipes, a agremiação vivenciou um ano praticamente ocioso.

Em mais uma infrutífera e desesperada tentativa de se reerguer, o Andaraí anunciou, em abril de 1940, não só o retorno do ex-presidente afastado Jansen Muller, como o plantel formado pelos jogadores de 1932 para atuar no campeonato da Associação de Futebol do Rio de Janeiro (AFRJ). O time daquele ano fora convocado a comparecer a uma reunião marcada na própria residência de Jansen Muller, localizada na rua Visconde de Santa Isabel, bem próximo à sede social do clube. Jogadores como Bianco, Aragão, Palmier e outros, que haviam se destacado oito anos antes já não se encontravam em favoráveis condições físicas. No início dos anos 1930 eram desejados por outros clubes que já haviam se profissionalizado. Por sua vez, o Andaraí só oficializou contrato com seus atletas depois da criação da Federação Metropolitana de Desportos (FMD), em 1935. Agora, esses jogadores atuavam em equipes que não faziam parte da liga profissional, como o próprio Dondon, zagueiro imortalizado pelo samba de Nei Lopes, dos anos de 1980, que vinha jogando junto a Bianco no Confiança, clube ainda mais modesto e vizinho.

O grêmio verde e negro ficava sediado na Rua General Silva Teles, a cerca de dois quarteirões da rua Barão de São Francisco, onde se localizava o estádio do Andaraí. Todavia, os esforços para refazer uma equipe, a qual obtivera certo destaque em um passado recente, a volta de dirigentes famosos e as tentativas de recuperar um espaço perdido entre os clubes de maior projeção da cidade se tornaram cada vez mais difíceis.

Em reunião realizada pelo Conselho Superior da Liga de Football, que controlava a AFRJ, no dia 29 de maio de 1940, ficou determinado o desligamento do Andaraí por ter infringido os estatutos daquela entidade. Portanto, já desvinculado da AFRJ, o clube não participou do Torneio Início daquela associação, realizado em 9 de junho de 1940. E, a partir daí, as notícias que traziam o nome de Jansen Muller e dos antigos jogadores provenientes do plantel do começo da década de 1930 tratavam apenas de jogos festivos e amistosos.

Entre 1939 e 1941, o time se restringiu a promover jogos e excursões sem compromissos profissionais a fim de relembrar tempos mais gloriosos.

Em 1942, o Andaraí passa a integrar o Campeonato Carioca de Amadores, Primeira Categoria, promovido pela Federação Metropolitana de Futebol (FMF). Com o estabelecimento do futebol profissional pela Liga Carioca de Futebol (LCF), em 1933, a disputa da antiga categoria de segundos quadros foi substituída pelo campeonato de quadros amadores, destinado aos atletas que não desejavam aderir ao profissionalismo. A campanha, no entanto, foi bastante insatisfatória. O clube ficou na penúltima posição, superando apenas o Carioca, com a campanha de 34 jogos, 6 vitórias, 6 empates e 22 derrotas, sofrendo algumas goleadas humilhantes.

Partidas: Primeiro turno: 29.03 – 2 a 5 Bonsucesso (F); 4/04 – 4 a 3 America (C); 11/04 – 2 a 6 – Vasco (F); 2/05 – 1 a 2 Fluminense (F); 10/05 – 2 a 5 Flamengo (C); 17/05 – 2 a 2 Carioca (C); 24/05 – 2 a 2 Ríver (F); 31/05 0 a 7 Confiança (C); 7/06 – 5 a 7 Olaria (F); 14/06 – 1 a 9 Botafogo (C); 28/06 – 3 a 4 Ideal (C); 5/07 – 6 a 1 Mavílis (F); 12/07 – 3 a 3 Bangu (F); 19/07 – 1 a 2 Ruy Barbosa (C); 26/07 – WO Canto do Rio (C); 2/08 – 1 a 1 Madureira (F); 8/08 – 2 a 6 São Cristóvão (C). Segundo turno: 16/08 – 6 a 4 Bonsucesso (C); 22/08 – 2 a 6 America (F); 29/08 – 0 a 6 Vasco (C); 12/09 – 1 a 12 Fluminense (C); 20/09 – 0 a 8 Flamengo (F); 27/09 – 2 a 3 Carioca (F); 4/10 – 2 a 4 Ríver (C); 11/10 – 1 a 2 Confiança (F); 18/10 – 0 a 12 Olaria (C); 25/10 – 1 a 17 Botafogo (F); 8/11 – 1 a 1 Ideal (F); 15/11 – 2 a 5 Mavílis (C); 22/11 – 3 a 2 Bangu (C); 29/11- 2 a 2 Ruy Barbosa (F); 5/12 – 5 a 0 Canto do Rio (F); 13/12 – 3 a 5 Madureira (C); 22/12 – 1 a 5 São Cristóvão (F).

Classificação da Primeira Categoria de Amadores:

1º Botafogo (campeão) – 64; 2º Flamengo (vice) e Vasco – 55; 4º Olaria – 52; 5º Fluminense – 51; 6º São Cristóvão – 43; 7º Ideal – 35; 8º Confiança – 33; 9º America – 31; 10º Mavílis – 29; 11º Madureira – 25; 12º Canto do Rio – 24; 13º Bonsucesso e Ruy Barbosa – 22; 15º Bangu e Ríver – 19; 17º Andaraí – 18; 18º Carioca – 15.


Em 1943, os times amadores passaram a integrar a Segunda Categoria da Federação Metropolitana de Futebol (FMF) por imposição das equipes profissionais que não desejavam dividir espaço. O campeonato foi disputado por Manufatura, Confiança, Andaraí, Ruy Barbosa, Ríver, Mavílis, Ideal e Oposição. O Andaraí, que atuou no campo do Mavílis, ficou na quarta colocação final no certame, cujo vencedor foi o Manufatura, ficando o Oposição na segunda posição. Na categoria juvenil o Grêmio Alviverde foi o lanterna. O campeão e o vice foram, respectivamente, Ríver e Ruy Barbosa.

Partidas: Primeiro turno: 13/06 – 4 a 3 Ruy Barbosa (C); 20/06 – 4 a 4 Oposição (C); 27/06 – 2 a 3 Manufatura (F); 4/07 – 1 a 2 Ideal (C); 11/07 – 5 a 2 Confiança (C); 18/07 – 1 a 1 Ríver (F); 25/07 – 6 a 3 Mavílis (C). Segundo turno: 1/08 – 3 a 1 Ruy Barbosa (F); 8/08 – 3 a 1 Oposição (F); 15/08 – 1 a 2 Manufatura (C); 22/08 – 1 a 8 Ideal (F); 29/08 – 3 a 2 Confiança (F); 5/09 – 3 a 4 Ríver (C); 12/09 – 3 a 2 Mavílis (F).

Classificação da Segunda Categoria de Amadores:

1º Manufatura (campeão) – 24; 2º Oposição (vice-campeão) – 19; 3º Ideal – 18; 4º Andaraí – 16; 5º Confiança – 12; 6º Mavílis – 10; 7º Ríver – 7; 8º Ruy Barbosa – 6.

O IMPRESSIONANTE PELADEIRO BOLONHA

por André Felipe de Lima


Foto da Revista JCB

Sempre gostei de jogar bola. Desde bem pequeno. Tinha lá meus oito, nove anos, quando coloquei minha bola de couro embaixo do braço e fui fazer o que mais gostava: rolá-la e chutá-la no gramado em frente à tribuna geral do Hipódromo da Gávea. Meu pai gostava dali e, sobretudo, do bar que havia ao lado da tribuna. Quanto a mim, adorava o pão francês com queijo prato que faziam por lá. Comia facilmente dois deles, mas bebendo, sempre, uma garrafa de Crush, que, acho, nem existe mais. Comia, bebia e voltava a jogar minha bola. No bar, meu pai e seus amigos “estudavam” (em meio a algumas latinhas de Skol) o programa das carreiras. Entre estes amigos do papai, havia um singular. Jamais o esqueci. Era um cara alto, bastante bronzeado e quase totalmente careca. Sobravam-lhe poucos fios brancos, integralmente brancos. “Tordilho”, diriam os turfistas de raiz. Ah, a personagem de que falo portava uma, digamos, “sutil” barriga e entendia tudo de turfe, e de bola também. Afinal, por bater um bolão nas peladas, ele mereceu o apelido com o qual passou a ser conhecido no meio turfístico do Rio: “Bolonha”, cujo nome na identidade registrava-se Heitor de Lima e Silva, um dos cronistas mais respeitados da história do nosso turfe. Bolonha era sensacional. Gostava muito dele. Foi cronista na fase áurea da rádio JB (Jornal do Brasil) ao lado de ninguém menos que o “Pelé” dos locutores de turfe: Theóphilo de Vasconcellos. E até de júri do programa do Chacrinha Bolonha foi titular. Foi mesmo um camarada craque de bola, de turfe e de crônicas. Mas o que mais impressionava aquele garoto que um dia fui era o que Bolonha fazia com os pés.

— “Paulinho” — gritava ele do bar, chamando-me, embora meu nome seja André. Explique-se, portanto: chamavam-me “Paulinho” por conta do meu pai, Paulo Lima, hipólogo que aprendeu tudo com o fenomenal Atahualpa Soares, então diretor da caixa beneficente dos profissionais do turfe durante décadas e um dos mais antigos sócios do Jockey Club, era um velhinho gente boníssima. Mas a história dele fica para outra crônica. Falemos do nosso querido Bolonha.

Ao ouvi-lo gritar pelo meu “nome”, corri até o bar, levando a bola comigo, claro, pois sabia que ele faria aquela impressionante performance. Era pule de dez!

— Me dá aqui a bola, “Paulinho”.

— Toma aí.

Bolonha sentou-se no degrau único do barzinho (espaço suficiente para o que pretendia fazer) e começou a deixar todo mundo que ali estava de queixo caído. Era uma… eram duas, três, quatro… eram cem, eu disse cem embaixadinhas! E sentado! Quando chegava próximo da impressionante contagem, ele perguntava:

— E aí, “Paulinho”, quer mais ou tá de bom tamanho?

Conformado com a minha insignificante pretensão de um dia ser jogador de futebol (jóquei seria impossível devido à altura), respondi até mesmo com uma ponta de saudável e inocente inveja juvenil:

— Tá legal, “seu” Bolonha. Cem ficou legal…

Ele levantou-se, apertou minha mão e voltou para a mesa onde estavam papai e os turfistas.

Virei-me e voltei para casa pensando como era possível alguém com aquele corpanzil fazer cem embaixadinhas. No bar, o futebol dava lugar ao turfe. Os caras voltaram atenção para o que realmente interessava: as carreiras. Era hora do cânter. Binóculo sobre os olhos, porque a raia estava leve naquela tarde de bastante sol na Gávea e as barbadas certamente não decepcionariam Bolonha, papai e todos os saudosos turfistas daquele já bem distante 1977.

BATISTA, UM ÍDOLO PARA O ORGULHO DE DONA BELMIRA

O Internacional o tem como um de seus maiores jogadores na história. Não é para menos. Ao lado de Falcão e Jair (o “Príncipe Jajá”), Batista formou uma das melhores meias canchas que o Colorado teve em todos os tempos e que foi decisiva para o tri brasileiro (e invicto!) em 1979. Conheça um pouco da história do craque, que faz anos hoje.

por André Felipe de Lima


Dª. Belmira, enfermeira aposentada, estava exultante. Seu único filho, João Batista da Silva, que criou sozinha, com todo esmero, estava de volta a uma Copa do Mundo. A de 1982. Sofrera tortuosos meses vendo-o padecer por conta de uma grave contusão, ocorrida um ano antes. Muitos o achavam acabado para o futebol.

O Internacional, clube de Batista, não o queria mais. Logo o Colorado, para quem o bravo volante dera tantas alegrias e títulos de campeão. Sem o reconhecimento devido dos ingratos cartolas do Beira-Rio, Batista foi para o Grêmio. E foi vestindo a camisa tricolor que voltou à seleção brasileira. Quem não o deixou imerso na depressão foi Dª. Belmira.

Órfão de pai, Batista recebeu todo o cuidado de Dª. Belmira. Ela chegou a abandonar a profissão, no começo dos anos de 1960, para educar o filho, cujo maior prazer na infância era atazanar os gatos da vizinhança, em um bairro pobre de Canoas, a 15 km de Porto Alegre. Ela conseguiu e fez do garoto levado uma grande profissional. Um vencedor. Essa foi a trajetória que Dª. Belmira desenhou para Batista. A estrada de um campeão.

Reconhecidamente campeão e bom de bola, mas boêmio, o que desagradava muitos técnicos, com os quais conviveu ao longo da carreira. Mas Batista respondia em campo com um futebol que encantava treinadores como Rubens Minelli e Telê Santana (1931–2006), considerados “cascas-grossas” por muitos jogadores, devido à rigidez e disciplina que empregavam.

De Telê, com quem se indispôs durante a Copa do Mundo de 1982, na Espanha, Batista ouvia elogios que poucos receberam no futebol da década de 1980: “Ele (Batista) conseguiu unir dois estilos: o forte, programado e persistente, com o criativo, malicioso e colorido”. Um ano antes da Copa de 82, o jornalista João Saldanha, ex-treinador do Escrete Nacional, em 1969, espinafrou Batista, aconselhando Telê a não levá-lo para o Mundial, da Espanha. “É um bêbado”, rebateu Batista.

O craque – para uns, rebelde, para outros, apenas um camarada decidido – nasceu no dia 8 de março de 1955, em Porto Alegre. O Internacional lançou-o em 1974, sob o arguto olhar do treinador Rubens Minelli, mas foi no antigo Cruzeiro da capital gaúcha que Batista deu os primeiros passos no futebol, em 1971.

Antes de se tornar um dos maiores volantes do Brasil, o Inter o experimentou na lateral direita. Mas a propalada versatilidade garantiu a Batista a vaga de titular, em 1975, no meio-campo do Inter após a transferência de Paulo César Carpegiani para o Flamengo.


Marcador implacável – Maradona que o diga durante a Copa na Espanha… – e armador primoroso, o meia foi um dos ícones, ao lado de Falcão, Jair Prates, Mário Sérgio, Dario, Valdomiro e Elias Figueroa, do Internacional das décadas de 1970 e 80.

O futebol de Batista encantava. Forte e habilidoso, era o volante dos sonhos de muitos cartolas brasileiros. E, por pouco, em 1978, não aportou no Parque São Jorge, numa transação em que o Corinthians emprestaria Zé Eduardo e Cláudio Mineiro ao Inter para ter o craque gaúcho. Os dirigentes do Colorado, sabiamente, rechaçaram a proposta do clube paulista.

Com a camisa do Inter, foi campeão brasileiro em 1975, 1976 e 1979. Foram quatro títulos gaúchos (1975–76, 1978 e 1981) e um vice-campeonato da Taça Libertadores da América (em 1980), quando o Inter foi derrotado pelo Nacional do Uruguai, do centroavante Victorino.

O declínio no time do Rio Grande do Sul começou em 1981, quando sofreu uma grave contusão, após partida contra o Sport Club do Recife, realizada no dia 5 de abril. Merica foi o seu algoz, quebrou-lhe a perna, embora Batista tenha dito na época que o volante do time pernambucano não tenha sido desleal, o que os cartolas gaúchos discordaram.

Os mesmo dirigentes, curiosamente, segregaram Batista, que estava parado por mais de seis meses. O contrato não foi renovado e Batista se revoltou com o desprezo dos cartolas. “Alguns dirigentes só valorizam o atleta enquanto ele está jogando. Quando se machuca, passa a ser esquecido e tem pouco reconhecimento. Isso é injustiça.”

Antes de se machucar, Batista foi sondado pela Internazionale de Milão, que pagaria a fortuna de um milhão de dólares para tê-lo. Os dirigentes do Inter, sobretudo o presidente José Asmuz, esnobaram a proposta.

Vingança ou não, com o passe disponível na Federação Gaúcha de Futebol, Batista arrumou as malas e embarcou para o Estádio Olímpico, do arquirrival Grêmio que, convenhamos, teve no recém-empossado presidente do clube, Fábio Koff, um habilidoso estrategista de marketing.

Mas propaganda não ganha jogo e tampouco títulos. “Depois que estava tudo acertado com o Grêmio, um conselheiro do Inter, contrário à transação, me ofereceu o dobro para que eu não fosse para o rival, e sim jogar em qualquer outro clube, menos o Grêmio”. Koff desembolsou 163 milhões de cruzeiros. Um dos mais altos negócios do futebol brasileiro na época. Batista queria permanecer no Inter, mas dizia, publicamente, que a diretoria do Colorado o tratava com indiferença. “Foi uma barra pesadíssima. E não é fácil ficar tanto tempo sem receber salários. Sabe de uma coisa? A grana estava acabando.”

Tortuosa troca de camisa – E a barra foi mesmo pesada. Com Asmuz insuflando a torcida, Batista chegou a ser ameaçado de morte. Dª.

Belmira, a mãe superprotetora, não deixou o filho fraquejar. Impetuosa, peitou a diretoria do Inter e até xingou um cartola do clube, quando ouviu deste que Batista estava “liquidado, morto e sepultado”, caso fosse para o Grêmio. Ela ficou vigilante ao lado do filho para que não cedesse às ameaças do Inter e não aceitasse a proposta do São Paulo, que tentava seduzi-lo com um cheque em branco. “Meu time não é o Grêmio, nem o Inter, é o João Batista. Para onde ele for, vou junto. Me preocupo muito com ele, sim, e sofro bastante com seus problemas. Afinal, se eu não cuidar bem dele, quem vai cuidar?”

O volante foi titular do Grêmio, vice-campeão brasileiro em 1982, diante do Flamengo de Zico. De qualquer forma, foi com aquela derrota para o rubro-negro carioca, por 1 a 0, com um gol de Nunes, que o Grêmio iniciou a sua gloriosa jornada rumo à Tóquio, onde se consagraria campeão do mundo em 1983.

Mas foi com suas atuações no Grêmio que Batista deu a volta por cima e começou a pleitear regressar à Seleção brasileira. “Quem fizer qualquer lista para a Espanha, não esqueça de mim, porque eu sou de briga e vou estar lá”, disse ele, novembro de 1981, quando ainda se recuperava da grave contusão, tratando-se na Escola Superior de Educação Física do Exército, no bairro das Urca, no Rio de Janeiro.


O vaticínio de Batista foi preciso. Ele foi convocado por Telê Santana para a Copa do Mundo de 1982, contrariando muitos desafetos, que o achavam acabado para o futebol. Era a sua segunda Copa. Havia sido convocado em 1978, por Cláudio Coutinho, para o torneio na Argentina.

Após o fracasso da seleção, no Mundial de 82, e a perda do campeonato gaúcho para o Inter, começou a ruir o casamento com o Grêmio. Logo após o Gre-Nal decisivo de 82, inconformados gremistas o abordaram em seu Alfa-Romeo preto e quase o agrediram. Novamente Batista se defrontava com uma oposição ferrenha. “Se eu conseguisse ganhar um pouco menos noutra profissão, largaria o futebol, e nem me importaria de ser um cara obscuro”.

A imprensa pegava no seu pé. Chamavam-no de mascarado e vedete. Irritado, não quis mais falar com os jornalistas. Diante de tantas críticas, dizia que desejava sumir por um ano. Era um craque incompreendido. Suas virtudes, aos olhos da imprensa e da torcida, ficaram em segundo plano.

Concluída sua passagem sem títulos no tricolor dos pampas, Batista seguiu, no início de 1983, por indicação do treinador Rubens Minelli, para o Palmeiras, que pagou 280 milhões de cruzeiros pelo seu passe. Mas o que ninguém esperava é que o jogador ficaria apenas cinco meses no Alviverde, período em que disputou apenas 14 jogos, com seis vitórias e sete empates, marcando dois gols.

O passe do jogador foi adquirido pelo Grupo de Apoio ao Presidente (GAP), formado por poderosos empresários palmeirenses, liderados por Márcio Papa. A turma endinheirada pagou 200 mil dólares ao Grêmio, manteve Batista, por empréstimo de seis meses, no Palmeiras.

A estreia foi em um jogo realizado em um sábado à noite contra o Bahia, pelo Campeonato Brasileiro. Exatos 47 mil 702 palmeirenses foram ao Morumbi para ver uma goleada de 4 a 0.

Em junho, a Lazio viu-o durante jogos da Seleção na Europa e pagou um milhão de dólares para tê-lo com a camisa azul celeste do clube romano. A expectativa da crônica esportiva italiana era de que Batista chegasse ao mesmo nível de Falcão, o líder da arquirrival Roma. E a de Batista, claro, que a Lazio fosse tão forte como a Roma, ambos sob um nível de rivalidade com a qual se acostumou no Rio Grande do Sul, entre Inter e Grêmio.

Por conta da fragilidade do time da Lazio, a estada no futebol italiano foi difícil. Batista estava acostumado com títulos, a maioria deles com o Inter, clube do qual, apesar da despedida pouco amigável, tornou-se ídolo histórico.

Na Itália, nada de flores. Chegara a um clube que acabara de retornar à primeira divisão italiana e que, já na temporada seguinte, estava ameaçado de novo rebaixamento. Além deste incômodo, também o importunava na Itália a fama de indisciplinado e notívago – um deleite para os paparazzi e jornais sensacionalistas, que insinuavam casos com modelos locais.


Mas o craque deu a volta por cima em poucos meses. E até a braçadeira de capitão conquistou. O bastante para que renovassem seu contrato e permanecesse por mais dois anos na Lazio. As contusões insistiam, contudo, em atrapalhá-lo. Culpa de uma suposta vida desregrada e de pouca preparação física? Para agravar sua situação, o time italiano não engrenava no campeonato nacional.

O time acabou novamente rebaixado, em junho de 1985. Em função disso, Batista recebeu um indesejável prêmio: o de pior jogador brasileiro da temporada. As incômodas críticas da imprensa italiana desgastaram Batista, que quase deixou a Itália. A Unione Sportiva Avellino acreditou nele. Em outubro de 1985, meses depois do vexatório rebaixamento da Lazio, Batista teve o passe emprestado ao time da comuna sulista italiana, que se encontrava na primeira divisão. Ficou apenas uma temporada. Em julho de 1986, foi devolvido à Lazio. Permaneceu inativo durante alguns meses, pois o clube italiano não o queria mais, mas reteve seu passe. O jogador desejava voltar ao Brasil, especialmente para Porto Alegre, onde mantinha uma invejável mansão.

Nenhum clube esboçou esforço para contratá-lo. Batista ficou praticamente todo o ano de 1987 longe do futebol. Somente em outubro daquele ano, quando, enfim, a Lazio concedeu-lhe o passe-livre, surgiu uma luz no fim do túnel. O ex-jogador Marinho Peres, que treinava o Clube de Futebol Os Belenenses, de Portugal, telefonou para o amigo Baidek, que se preparava para trocar o Grêmio pelo futebol português, e este indicou Batista para o técnico.

E Batista foi mesmo para o Belenenses. Ficou por lá durante uma temporada e retornou ao Brasil para jogar pelo catarinense Avaí. Participou de apenas duas partidas, concluindo ser hora de parar. E, assim, em 1989, um dos maiores volantes do futebol brasileiro pendurou as chuteiras.

Pela seleção brasileira, Batista teve uma performance satisfatória. Estreou no dia 5 de abril de 1978, em Hamburgo, na vitória por 1 a 0 sobre a Alemanha, após substituir Rivellino durante o segundo tempo de jogo. Conquistou a confiança do treinador Cláudio (Pêcego de Moraes) Coutinho (1939–1981) e foi convocado em maio para a Copa do Mundo na Argentina, sendo titular da equipe durante toda a competição. Dali em diante fez parte de todas as convocações até o Mundialito, em janeiro de 1981, no Uruguai. Durante o jogo contra a Argentina, o zagueiro adversário Daniel Passarela o atingiu com violência. Recuperou-se rapidamente, mas, em abril, sofreu novo revés: a entrada de Merica, que o afastou do futebol durante o resto do ano.

Em 1982, foi à Copa na Espanha, mas ficou praticamente na reserva de Toninho Cerezo. Inconformado com a reserva, iniciou pela imprensa um bate-boca com o técnico Telê Santana. Antes, porém, fez uma grande partida contra a Argentina (3 a 1 para o Brasil), sem deixar Maradona respirar em campo. Mas a imaturidade do craque argentino, que na época não tinha mais de 21 anos, prevaleceu. Bastou uma entrada violenta de Maradona em Batista, e o jogador estava fora daquele que seria um dos mais trágicos jogos do Brasil em Copas do Mundo: contra a Itália, no estádio Sarriá.

A rusga com Telê era intensa: “Tenho brios e razões para não deixar barato a injustiça que cometeram comigo naquela Copa de 1982. Foi a minha grande chance e eu tinha perspectivas otimistas quanto à sorte do Brasil. Em 1986, estarei com 32 anos e praticamente em fim de carreira, talvez até radicado no futebol europeu.”

Batista até retornou à seleção, pelas mãos de Carlos Alberto Parreira, em 1983, mas nunca mais sentiria prazer de participar de uma Copa do Mundo.

Quando encerrou a carreira, em 1988, decidiu afastar-se cinco anos do futebol. Nesse período, casou com Mayone, com quem teve duas filhas. A família passou a ser sua inabalável prioridade. A renda, durante os cinco anos incógnito, vinha da administração dos imóveis que mantém em Porto Alegre, onde vive com a família. Deflagrou uma carreira de técnico (comandou os juvenis do Inter, em 1994), mas desistiu dela, ainda no começo, para assumir uma nova faceta profissional: a de comentarista esportivo, em um canal de TV a cabo.

Batista foi singular. Ídolo incontestável, independente acentuada fama de rebelde. (José Luiz) Carbone, ídolo colorado, volante de estirpe, que se preparava para abandonar a carreira, viu aquele garoto magrinho, jogando uma barbaridade no time infanto-juvenil do Inter: “Está ali um dos jogadores de maior futuro deste clube”. Ele acertou em cheio. O menino Batista, líder do Inter, campeão da Taça São Paulo de Juniores, de 1974, cresceria vigoroso. Craque de bola. Ídolo do Inter.

DEVO AO RÁDIO O AMOR PELO FUTEBOL

por André Felipe de Lima


O rádio me fez amar o futebol. Não tenho a menor dúvida disso. Sou um homem convicto, portanto, e de uma geração que assistia ao futebol na TV raríssimas vezes. Sou também de uma época (e ando repetindo muito isso em cada frase que digo…) onde não havia contrato milionário entre clubes e emissoras. Ao vivo, na velha Telefunken P&B , e para valer, só mesmo jogos de Copa do Mundo. Clássicos, como Vasco e Flamengo, por exemplo, eram raros ao vivo. Só rolavam na telinha quando estava em jogo um troféu da Taça Guanabara ou do campeonato carioca. Sem TV, eu vibrava com as transmissões radiofônicas dos jogos e sempre curtia, horas mais tarde, na TVE, o videoteipe completo do jogo que ouvi e, de quebra, os gols do Fantástico na indefectível voz do Leo Batista, com o notório patrocínio da cachaça Tatuzinho. Quem não se lembra do jingle? “Ai, Tatu, Tatuzinho, me (sic) abre a garrafa e me dá um pouquinho…”. Um verdadeiro “paraíso” do jogo de palavras que poucos anos depois, na faculdade de jornalismo, estudei nas divertidíssimas aulas de linguística do genial mestre André Valente. Aliás, quem nunca leu de autoria do Valente “A linguagem nossa de cada dia”, que leia. É uma viagem deliciosa pelo nosso idioma. Um encanto. Mas como estávamos falando, o meu amor pelo futebol nasceu com o rádio. Esse amor começou tímido, jogando bola com a minha surrada camisa do Vasco, da marca Hering, mas foi crescendo, crescendo, crescendo a cada jogo que ouvia pelo rádio. Acho que a maioria das partidas pode ter sido a maior pelada do mundo, mas eles, os locutores, faziam daqueles jogos “verdadeiros jogões”, como dia desses comentou o amigo Márcio Carneiro. Podia ser um Vasco e Mixto (é com xis mesmo… entenda-se isso), isso pouco importava. Empolgava-me mesmo manter o ouvido colado no rádio e depois tecer entusiásticos comentários com os colegas do colégio na manhã seguinte: “Meu irmão, que jogaço o de ontem do Vasco contra o Mixto…”. Éramos inocentes, ingênuos, mas saudavelmente românticos e com uma capacidade para sonhar que hoje sinto falta nas novas gerações que vivem o seu tempo, é verdade. Um tempo de velocidade, de apelo midiático sem precedentes, de novas e impressionantes tecnologias. Tempos de uma acessibilidade à informação que eu jamais tive quando jovem, mas também tempos de artificialidade. Por isso acredito que a minha geração, a do meu pai e a dos meus avós amavam mais o futebol, porque o rádio nos permitia sonhar mais com o clube, seus brasões e ídolos. Vejam vocês. Hoje em dia, um time é campeão e o torcedor não invade mais o gramado para comemorar com os jogadores. Estes, por sua vez, também são o reflexo dessa artificialidade de que falo. O juiz apita o final da peleja e a comemoração não é efusiva como aquelas que presenciamos nos anos de 1970 e de 80, e isso citando somente as que presenciei no Maracanã ou nas raríssimas transmissões ao vivo pela TV. A festa era impressionante. Revejam, por exemplo, o fim daquele jogo decisivo do Corinthians contra a Ponte Preta, em 1977, e comparem com as “comemorações” de finais dos anos de 2000 para cá. A constatação é óbvia. Amávamos mais o futebol. Vibrávamos mais. Cantávamos mais. Aquilo que o passado roubou de mim era o futebol que o rádio me ensinou a amar. Ah, Jorge Curi; ah, Waldir Amaral, que saudade de vocês…