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O PRIMEIRO BRASILEIRO A CONQUISTAR UMA COPA DO MUNDO

26 / dezembro / 2019

por André Felipe de Lima


O ano era 1958. O primeiro protagonista, seu Filó, ou Amphiloquio Guarisi Marques, proprietário de uma modesta mercearia, a Santa Clara, no Jardim Paulista, zona nobre de São Paulo. A segunda personagem principal, a seleção brasileira, que se preparava para disputar a Copa do Mundo, que se realizaria nos gélidos campos suecos. Novamente, como acontecia há duas décadas, a imprensa montava guarda na porta do estabelecimento daquele senhor, que nutria o sobrenome “Marques”, herança do pai português Manuel Augusto, segundo presidente da história da Portuguesa de Desportos, e o “Guarisi”, benção da mãe italiana Wanda. Um senhor que desde o “Maracanazo” de 1950 não queria saber de futebol.

Mas os jornalistas queriam ouvi-lo. Precisavam extrair dele o sentido de ser campeão mundial de futebol. Afinal nenhum outro brasileiro ostentava algo parecido. Com exceção de seu Amphiloquio, que, na distante data de 10 de junho de 1934, dia em que a Azzurra conquistou sua primeira Copa do Mundo, tornou-se o primeiro jogador de futebol do Brasil a sentir o gostinho de fazer parte do melhor esquadrão do planeta. Tampouco importava se o pavilhão que defendera era pintado com as cores verde, vermelho e branco ou se a Itália, sua nova nação, estivesse sob a ditadura fascista de Benito Mussolini. Nenhum outro teria o mesmo status de Filó, este o apelido que o consagrou nas canchas brasileiras, pelo menos até surgirem, em julho de 1958, Garrincha, Pelé, Didi, Nilton Santos e Cia.

Desejosos em saber como era ser o melhor do mundo, os repórteres o enchiam de perguntas sobre os tempos em que fora um ponta-direita dos mais habilidosos na primeira metade do século XX.

O grande Filó nasceu na rua Araújo, no Centro paulistano, no dia 26 de dezembro de 1905. Ele respondia aos jornalistas com orgulho, mas quase didaticamente. Falava linearmente, ou seja, do início, quando começou aos 12 anos, em 1917, no time infantil do aristocrático C.A. Paulistano, onde jogava o craque Rubens Salles, um dos grandes ídolos da moçada paulistana nos primórdios do futebol no Brasil, para somente depois recordar sobre sua breve passagem pelo time infantil do São Bento, em 1918.

Enchia-se de orgulho ao narrar sua estreia, com apenas 17 anos, no time principal da Portuguesa de Desportos, no dia 30 de abril de 1922, para onde foi levado pelo pai, cartola da Lusa. De cara, deparou-se com o temido Paulistano. E o resultado não seria outro senão a vitória do poderoso clube da aristocracia: 2 a 0. Mas o menino não se importou. Apesar da pouca idade, jogava ao lado de alguns dos primeiros ídolos da Portuguesa, como o goleiro Mesquita; os zagueiros Remo e Gaúcho; a linha média formada por Meirelles, Aloya e Canhoto e os atacantes Salerno, Dino, Coelho e Mancuso. O jovem Filó firmou-se como o novo craque da Lusa.

No Campeonato Paulista de 1924, seu time empatou em 5 a 5 com o Brás. Filó saiu de campo consagrado ao assinalar os cinco gols da Portuguesa. No mesmo ano, lembraram-se dele para compor a seleção paulista. Estreou no dia 9 de novembro, quando os paranaenses conheceram o poder de fogo de Filó, que marcou dois gols da goleada de 5 a 0 aplicada no escrete adversário. Estava cada vez mais difícil mantê-lo na Portuguesa.

Filó, cujo apelido era “Maquininha” devido à versatilidade em campo — cedeu ao assédio dos cartolas do Paulistano, sobretudo o de Antonio Prado Junior, que articulara com representantes esportivos franceses uma excursão inédita de um time brasileiro à Europa.

O futebol sul-americano estava na crista da onda. Os uruguaios conquistaram a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de 1924 e, no ano seguinte, Nacional de Montevidéu, Boca Juniors e Paulistano arrumaram as malas de seus craques para uma longa viagem ao Velho Continente. Filó e todos os seus companheiros de Paulistano, como Friedenreich, Araken Patusca, Clodô, Barthô e Mario de Andrada, embarcaram no dia 10 de fevereiro de 1925, em Santos, no navio Zeelandia, do Lord Real Holandês, rumo a Cherburgo, na França.

O Paulistano disputou 10 partidas e venceu nove. Autor de quatro dos trinta gols marcados pela equipe brasileira, Filó foi um dos destaques da extraordinária campanha.

O estádio de Búfalos, em Mont Rouge, Paris, estava lotado, no dia 15 de março de 1925, para o primeiro jogo do Paulistano em solo francês, e logo contra um escrete bleau, blanc et rouge. Na arquibancada havia muita gente de nome, dentre as quais representantes políticos da França e os brasileiros Washington Luís [então governador de São Paulo], Souza Dantas [diplomata] e o príncipe D. Pedro de Orleans e Bragança. Mas o que ninguém esperava — nem mesmo os ilustres brasileiros — era uma goleada de 7 a 2 do Paulistano, com Filó balançado as redes uma vez.

E o Paulistano do Filó não parava de ganhar jogos. Um atrás do outro. Os jornais franceses não falavam em outra coisa senão sobre “les rois du football” [Os Reis do Futebol]. As reportagens do Américo Rocha Neto, do jornal O Estado de S. Paulo, e de Mário Vespaziano de Macedo, do São Paulo Esportivo, também apontavam o Paulistano como um esquedrão imbatível. Quando o Paulistano, no último jogo da campanha, aplicou um rotundo 6 a 0 na seleção português, aí não havia mais dúvida: os caras eram mesmo os maiorais. Mas a peleja contra os lusitanos teve de acabar aos 30 minutos do segundo tempo. Caso a delegação não deixasse logo o estádio, perderia o navio de volta ao Brasil.

Naquele mesmo ano da estupenda campanha do Paulistano pela Europa, Filó vestiu a camisa da seleção brasileira pela primeira vez. Atuou na vitória do Brasil por 5 a 2 sobre o Paraguai, no dia 6 de dezembro de 1925, e fez um dos gols do match. O escrete brasileiro formou com: Tuffy, Penaforte e Clodô; Nascimento, Floriano e Fortes; Filó, Lagarto, Friedenreich, Nilo e Moderato. Filó jogaria mais quatro partidas pela seleção do Brasil.

Em 1926, o ponta-direita ajudou o Paulistano a conquistar o Campeonato Paulista e encerrou a competição como artilheiro, com 16 gols. Na temporada seguinte, faturou o bicampeonato, mas pela Liga Amadora Futebolística [LAF]. No ano de 1929, Filó foi duas vezes campeão paulista. Pelo Paulistano, que disputou o torneio realizado pela LAF, e pelo Corinthians, que disputou a competição organizada pela Associação Paulista de Esportes Atléticos [Apea]. Pelo clube alvinegro, conquistaria o bicampeonato em 1930.

A ITÁLIA NA VIDA DE FILÓ

Com os craques brasileiros se destacando aqui e em jogos no exterior e, claro, com a insatisfação reinante com o amadorismo no futebol, o mercado europeu começou a atrair muitos jogadores. Especialmente a Itália, o novo eldorado. E nem precisaria de sobrenome italiano para que algum craque ingressasse no calcio. Burlavam-se certidões de nascimento e um “Da Silva” se tornaria um “Giuseppe” da noite para o dia. “Oriundi” torto, mas que funcionava. “Qualquer jogador, branco, mulato ou preto podia ir embora. Bastava jogar bem futebol, querer fazer a Europa. O jogador branco, então, tinha todas as facilidades. Era branco se trocasse de nome, se arranjasse um sobrenome italiano, ninguém na Itália daria pela coisa”, destacou Mario Filho. O Guarisi, da mãe, garantiu o passaporte de Filó sem nenhum subterfúgio. Para o cronista, o assédio ao Filó era, descaradamente, o mais acintoso: “O caso de Amphiloquio Marques, o Filó do escrete paulista, do escrete brasileiro. Quem não sabia em São Paulo, os jornais cansados de publicar biografias dele, que Filó era filho de portugueses? Pois chegou a jogar na azurra, posando para os fotógrafos de braços levantados. Aquele ali, de braços levantados, não era o Filó, Amphiloquio Marques, era o Guarisi, Amphiloquio Guarisi.”

***

Esta introdução da biografia de Filó integra o primeiro volume de “Ídolos & Épocas – A Era do amadorismo, de 1900 a 1933”, contemplando biografias de craques com iniciais de A a F, a ser lançado em breve.

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