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NILO NEVES E O CORITIBA COMO ETERNIDADE

25 / junho / 2022

por André Felipe de Lima

Há torcedores que afirmam convictamente: “O melhor lateral-esquerdo da história do Coritiba foi Janguinho”. Mas o gaúcho Nilo Roberto Neves, que teve o brilhante Oreco, do Internacional, como ídolo, surgiu no Coxa em 1968 para disputar espaço com os ex-laterais-esquerdos Janguinho e Carazzai nos corações coritibanos. Para as gerações mais recentes, não há dúvida: dos três, Nilo Neves foi o melhor. Quem o buscou no São José de Porto Alegre e o indicou ao pessoal do Alto da Glória foi Rui “Motorzinho”, um excelente meia-atacante do Internacional no início dos anos de 1940, cujo time era conhecido como “Rolo-compressor”. Logo que pendurou as chuteiras, Rui tornou-se treinador do Atlético Paranaense, onde montou, em 1949, um timaço, com Jackson, Neno e Cireno. Um time chamado de “Furacão”, apelido que se tornou marca registrada do Atlético.

O começo da carreira de Nilo foi, entretanto, nas divisões de base do Internacional, no finzinho da década de 1950. Menino ainda, Nilo conviveu com o ídolo Oreco, lateral já consagrado na seleção brasileira.

Oreco foi para o Corinthians e nunca mais pintou um lateral-esquerdo como ele no Inter. Deveriam apostar na prata da casa. Nilo deveria ser o virtual herdeiro de Oreco, mesmo com pouca idade. Mas foi tratado com indiferença pela desesperada e xucra comissão técnica, que não conseguia parar o rival, o Grêmio, de ganhar tudo pelas paragens gaúchas. Nilo saiu magoado do Inter e seguiu para o São José de Porto Alegre em 1963. Foi campeão da segunda divisão estadual, em 1965, e permaneceu no modesto clube gaúcho até 1968. Estava sem clube. Cinco meses parado. Mas surgiu uma proposta do Banrisul. Salvação da lavoura para Nilo, que já demonstrava pouca motivação para continuar a carreira de jogador de futebol. O Banrisul o chamou, mas não para um emprego formal. Foi contratado para compor o time titular que disputaria o campeonato dos bancários.

Motorzinho, que nos idos de 1940 foi treinador do Atlético Paranaense, estava no papel de olheiro do Coritiba quando deu de cara com Nilo. “Dois dias depois, ele levou o dinheiro vivo numa sacola. Se fosse cheque, eu nem aceitaria.”

O rapaz ainda estava com dúvida entre o gramado e… o palco. Quando morava em Porto Alegre, inspirado pelo movimento musical Jovem Guarda, Nilo cantava e também era percussionista do conjunto “Evolução”. Nilo confessou ao repórter Ayrton Baptista Jr. que se trava de um “samba, mas não tradicional”, no estilo Golden Boys. Optou pela bola. Melhor para ele e para o Coritiba.

Baixinho e atarracado, não dava moleza para ninguém. Cobertura à zaga era como ele mesmo. Quantas bolas, cujo endereço era o gol do Coritiba, Nilo desviou a trajetória? Inúmeras. Dezenas. Era leal. Leal ao Coritiba. Sobretudo em dia de enfrentar o rival.

Atletiba inesquecível — senão o melhor de todos — para Nilo foi o que decidiu, no dia 28 de agosto de 1968, o campeonato paranaense daquele ano.

O placar estava 1 a 0 para o Furacão, gol de Zé Roberto, que anos mais tarde iria para o Coxa. O juiz Arnaldo César Coelho — prontinho para apitar o final do jogo — marcou uma falta para o Coxa. Nilo correu para buscar a bola e cobrar o quanto antes a bendita falta. Bellini, em fim de carreira no Atlético, tentou cortar, mas sobrou para Paulo Vecchio meter a cuca na bola e marcar o gol de empate. Do título. Festa para a torcida, para Nilo no estádio Durival de Britto.

O técnico Elba de Pádua Lima, o Tim, deve ter sido mesmo o maior que já comandou times do Coritiba. Competente como jogador no passado, manteve o estigma positivo como técnico. Todos gostavam dele. Krüger, Leocádio… Nilo não fugiu à regra. “Queriam me tirar do time, os diretores. Aí, acabei com um jogo contra o Botafogo, marcando o Zequinha. No final, o Tim zombou deles: ‘Queriam tirar você. veja como ficaram chateados…’. O Tim e o Francisco Sarno foram os melhores que vi no Coxa.”

Na lateral-esquerda, não havia gente melhor que Nilo nos gramados do Paraná. Acabou lembrado por Aymoré Moreira para a seleção brasileira. No mesmo ano em que chegou ao Coritiba foi convocado para o jogo em que o escrete nacional colocou a faixa de campeão estadual nos jogadores do Coxa. Nilo vestia a amarelinha, apesar de ter participado da campanha campeã do Coritiba. Mas há um dado que desperta curiosidade: naquele período em que aconteceu o jogo amistoso, Nilo estava emprestado ao Atlético Paranaense para a disputa do Torneio Roberto Gomes Pedrosa.

O Coxa perdeu de 2 a 1, mas deu uma canseira danada na seleção. Nilo começou no banco. O titular de Aymoré Moreira era Paulo Henrique, do Flamengo. No segundo tempo, enfim, sua oportunidade aconteceu.

Nilo nasceu em Porto Alegre, no dia 2 de dezembro de 1942. Até 1975 foi o titular absoluto da lateral-esquerda do Coxa. Ajudou ao time nas conquistas dos títulos estaduais de 1968, 69, 71, 72, 73, 74 e 75 e do Torneio do Povo, em 1973. Pendurou as chuteiras no Palmeiras, de Santa Catarina, aos 32 anos, e assumiu uma nova fase no futebol. Como treinador.

O início foi em divisões de base do Internacional de Porto Alegre, depois Coritiba, Atlético Paranaense, Pinheiros [atual Paraná Clube] e Criciúma. Em equipes profissionais, fincou o pé em Mato Grosso, estado em que dirigiu times do Sinop, Mixto, Operário de Várzea Grande, Barra do Garças, Sorriso e Tangará. Nilo também comandou o time de Francisco Beltrão, no Paraná. A frente do Sinop foi campeão mato-grossense em 1990 e 2000. Com o Barra das Garças, um surpreendente título nacional da Série C, em 1993.

Nilo, nos tempos em que treinou o time do Sinop, foi técnico e preparador de goleiros de Rogério Ceni.

Nilo Neves está devidamente eternizado na linda história do Coritiba.

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