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MINHA CARREIRA COMO TORCEDOR DE ARQUIBANCADA

27 / fevereiro / 2020

por Mário Moreira


Há pessoas que anotam todos os filmes que veem na vida. Outras preferem registrar por escrito os vinhos que bebem, com estrelinhas ao lado à guisa de cotação. Existem ainda as que elaboram listas para o futuro: experiências que ainda desejam viver, países que planejam conhecer… Tem pra todos os gostos.

Pois eu também faço cá minhas anotações. No caso, de todas as partidas do Fluminense a que assisto no estádio. Pode parecer meio bobo ou inútil. Mas é uma forma não só de manter vivas as memórias de torcedor de arquibancada como de registrar a minha própria história, já que cada jogo remete a uma fase vivenciada, a um momento inesquecível, à companhia da minha filha e de outras pessoas queridas, à celebração da vida, enfim.

E por que resolvi compartilhar isso agora? Porque cheguei à marca histórica (para usar um jargão do jornalismo esportivo) de 150 jogos torcendo e sofrendo ao vivo, junto com o time, pelo Tricolor. Reconheço que o número nem é assim tão expressivo, se considerarmos que tenho 53 anos. Mas é preciso lembrar que, desses, morei quase 15 em São Paulo, período em que acompanhei o Flu praticamente só pela televisão. Subtraindo essa fase, dá 38 anos, ou seja, quase quatro jogos por ano de vida… Não é ruim.

A marca épica (olha outro jargão aí!) foi atingida no início de fevereiro, no Maracanã, no frustrante empate em 1 a 1 com o Unión La Calera, do Chile, pela primeira fase da Copa Sul-Americana. Escolhi uma competição internacional para celebrar a efeméride, e vejam no que deu… A longa saga, porém, se iniciou há 45 anos, em uma segunda-feira, 21 de abril de 1975, feriado de Tiradentes e de Maracanã cheio. Já já eu conto…

Antes, algumas considerações. A primeira é que anoto as partidas da maneira mais rústica possível. Se você pensa que mantenho para isso uma pastinha no computador, ou mesmo um caderno passado a limpo, engana-se: registro tudo em folhas soltas, no verso de provas antigas do colégio ou da faculdade, guardadas sabe-se lá por quê, ou ainda de contratos de aluguel já encerrados ou de recibos de matrícula em cursos já frequentados. A cada jogo presenciado, anoto o placar, o público pagante e os autores dos gols do Flu. Só isso. Quando a folha que está em uso chega ao final, acrescento outra por cima e vou formando um pequeno calhamaço, que a esta altura já soma 12 folhas, guardadas numa gaveta da escrivaninha.

Feita essa confidência, divido com o leitor algumas estatísticas dos 150 jogos. Primeiro, uma nota metodológica: os dados não incluem as cinco partidas do Flu que presenciei como jornalista esportivo, já que estava ali a trabalho. Tampouco contemplam confrontos entre outros clubes e seleções – quando eu era criança, meu pai, botafoguense, me levou umas poucas vezes a jogos do seu próprio time. São 150 partidas só do Fluminense mesmo, quase sempre vistas do nível superior da arquibancada, junto ao escanteio, numa posição tal em que, na definição de um velho companheiro de Maracanã, afeito às coisas da geometria, a bandeirinha represente a bissetriz do ângulo do córner…

Mas vamos aos números. Nesses 150 jogos, vi o Flu vencer 67 (45%), empatar 47 (31%) e perder 36 (24%), marcar 194 gols (média de 1,29) e levar 142 (média de 0,95). Vi o clube conquistar 12 taças, relativas a dois Campeonatos Brasileiros, cinco Cariocas e cinco turnos do Estadual (incluindo quatro Taças Guanabara). Ou seja, por 12 vezes saí do estádio gritando “É campeão!”.


E quem terá sido o maior artilheiro da epopeia? Washington, que formava o Casal 20 com Assis, o Carrasco: 17 gols. Na sequência, vêm Romerito (dez gols), Assis e Fred (nove cada), Rafael Sóbis e o meia Wagner (oito) e, num honroso sétimo lugar, o zagueiro Gum (sete). A maior goleada? 5 a 0, duas vezes: sobre o Coritiba, em 1984, e sobre o Horizonte (CE), 30 anos depois. Já a maior derrota foi para o Botafogo: 4 a 1, em 86.

Os 150 jogos registraram, em média, 37.500 pagantes. Mas qual foi o maior público? Os 153 mil presentes ao Flu 1 x 0 Fla que decidiu o Carioca de 84 – número hoje impensável, depois que o Maracanã foi criminosamente reduzido à metade. E o menor? Os heroicos 1.600 que fomos ao estádio das Laranjeiras numa quarta-feira à noite testemunhar a opaca vitória de 2 a 1 sobre o Picos, do Piauí, pela Copa do Brasil de 92 – com direito a pênalti perdido pelo lateral tricolor Carlinhos Itaberá, cujo nome fora gritado em coro pela torcida para fazer a cobrança, um sarcasmo não compreendido pelo jogador.

O adversário mais frequente nessa odisseia particular foi o Vasco, com 27 confrontos – infelizmente para mim, mas para gáudio do editor-chefe do Museu da Pelada, com ampla vantagem cruzmaltina: 12 vitórias a 6. O segundo adversário nesse quesito é o Flamengo: 23 embates, com 6 vitórias tricolores e 7 rubro-negras. Contra o Botafogo, foram 11 jogos, com 5 triunfos do Flu e 4 do Alvinegro. Dentre os clubes de outros Estados, os rivais mais frequentes foram Corinthians e São Paulo (cinco vezes), Cruzeiro, Atlético-MG e Grêmio (quatro). 

Ao todo, vi o Fluminense encarar 52 adversários: 12 do Rio de Janeiro (seis da capital e seis do interior), 28 de outros 11 Estados brasileiros e 12 de nove países estrangeiros, incluindo um amistoso em Volta Redonda contra a seleção italiana, às vésperas da Copa de 2014. É curioso como o perfil dos adversários foi mudando ao longo do tempo. No início, eu ia quase somente a clássicos cariocas ou a jogos contra os pequenos do Rio (incluindo Bangu e América, outrora grandes). Aos poucos, vieram adversários paulistas, mineiros, gaúchos e outros. Mais recentemente, tenho presenciado partidas contra times sul-americanos, em partidas de competições continentais. 

Mas um balanço como este não pode reduzir-se a estatísticas. Até porque o que fica, mesmo, são os momentos, as alegrias, a comemoração dos gols, as emoções extraordinárias que só o futebol é capaz de proporcionar. O que me remete de novo ao primeiro jogo da lista, no tal 21 de abril de 75…

Tinha eu oito anos e quatro meses quando ex-alunos (tricolores) do meu pai na faculdade de Direito convidaram a mim e a um irmão botafoguense (três anos mais velho) para aquele Fluminense x Botafogo, válido pela Taça Guanabara, primeiro turno do Campeonato Carioca. O jogo era importante: faltavam duas ou três rodadas para o fim do turno, e quem perdesse ficaria sem chances de levar a taça.

Eu, que até então só acompanhava as partidas pelo rádio, morri de medo de que a estreia resultasse em derrota. Dia de calor e com 110 mil pagantes no Maracanã, os fatos se encarregaram de desfazer meus temores, e da maneira mais cabal: com dez minutos de jogo, o Flu já vencia por 2 a 0. O primeiro gol, do meu maior ídolo no futebol até hoje, uma obra-prima inusitada, tratando-se de Rivelino: uma bomba de pé direito da entrada da área, de voleio, no ângulo. No segundo, após uma arrancada espetacular de Búfalo Gil em direção à área, a bola sobrou limpa para o centroavante Manfrini empurrar para a rede. Enlouquecido, só me faltava subir pelas paredes como as lagartixas profissionais. O Botafogo veio pra cima no segundo tempo, mas só conseguiu reduzir a diferença. No final, vitória por 2 a 1 e uma tarde absolutamente inesquecível.


Claro que não foi a única. A do primeiro título carioca, em 1980, com um gol de falta de Edinho sobre o Vasco, foi outra. A do gol de Assis aos 45 minutos do segundo tempo, no Fla-Flu que decidiu na prática o Campeonato Carioca de 83, mais uma, especialíssima. A do outro gol de Assis que decidiu o Carioca de 84, contra o mesmo Flamengo, outra ainda. A do empate que garantiu o título brasileiro sobre o Vasco, meses antes, outra mais. Pensando agora, que fase aquela!

Evidentemente, também tive tristezas e decepções ao longo da minha carreira de torcedor de arquibancada. A maior delas, inigualável, a perda da Libertadores de 2008, nos pênaltis, para a LDU – um bom time até, mas tecnicamente inferior ao Flu, que amargou o vice em razão de um primeiro tempo desastroso no jogo de ida, em Quito. Dói até hoje.

Houve também situações curiosas, como sair do Maracanã com água pelo joelho após um vitória sobre o Goiás num sábado de chuva torrencial, em 85. Ou, no dia do já citado Fla-Flu de 84, omitir da minha mãe que eu passara muito mal durante a madrugada, informação que certamente a levaria a tentar me demover da ideia de ir ao jogo. Mas valia o bicampeonato carioca… Fiquei na moita, me mandei pro estádio, descolei um escasso ingresso para as antigas cadeiras azuis (a arquibancada já estava lotada) e acabei recompensado com uma das mais belas conquistas da história do Fluminense. Tantos anos depois, imagino minha mãe, que também era tricolor, lá do alto, sorrindo dessa minha pequena travessura adolescente e dizendo, naquele jeito doce: “Seu moleque…”.

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