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Mario Moreira

30 ANOS DE UMA COPA INJUSTIÇADA

por Mário Moreira


Nestes dias em que comemoramos o cinquentenário do tricampeonato mundial no México, na melhor Copa do Mundo da história, gostaria aqui de propor o resgate daquela que o senso comum aponta como a pior de todas as Copas – a de menor média de gols, paradigma do futebol de resultados, verdadeiro Patinho Feio da competição: Itália-90.

Mas, já sabemos, toda unanimidade é burra. Vítima da uma injustiça histórica, o Mundial italiano teve, sim, muitos momentos de ótimo futebol, drama, grandes surpresas e uma penca de partidas de antologia. O patinho, afinal, não é tão feio quanto o pintam.

A começar pela campeã. Não hesito em dizer que, na história da Copa Fifa – os 12 Mundiais realizados a partir de 1974, ano em que comecei a acompanhar futebol -, a Alemanha Ocidental de 1990 foi a equipe que melhor jogou, entre as que levantaram a taça. A seleção treinada pelo Kaiser Franz Beckenbauer era muito forte técnica e coletivamente, cheia de grandes jogadores e capaz de ser competitiva e dar show ao mesmo tempo. No papel, a mítica Alemanha de 74 era até melhor: Maier, Vogts, Breitner, Overath, Gerd Müller, além do próprio Kaiser… Mas os alemães jogaram em 90 mais do que em 74, quando saíram vaiados nos três primeiros jogos e só começaram a evoluir na metade da competição, até a indiscutível vitória final sobre o Carrossel Holandês. E nunca é demais lembrar: futebol se joga no campo, não no papel.

A verdade é que Matthäus, Brehme, Klinsmann e companhia deram espetáculo, e de alta qualidade, nos campos da Itália. Não por coincidência, a Alemanha pleiteou, como cabeça-de-chave, ficar no Grupo C para mandar seus jogos em Milão, onde o já citado trio desfilava sua categoria pela Internazionale, campeã italiana um ano antes. Pois foi ali, no estádio San Siro, nas três partidas da primeira fase e ainda nas oitavas e nas quartas-de-final, que os alemães jogaram de longe o melhor futebol do torneio, com exibições mais do que convincentes e que os levariam à semifinal em Turim e à finalíssima em Roma.

Como sempre, havia quatro ou cinco favoritos ao título. A Itália, pela tradição, pelo elenco e sobretudo por atuar em casa, talvez fosse a maior. Além da Alemanha, o Brasil – que vinha de conquistar a Copa América no ano anterior – e a Holanda de Gullit, Rijkaard e Van Basten, campeã europeia em 88, completavam o quarteto principal. A Argentina, então campeã mundial, mas com Diego Maradona fora de forma, corria por fora.

Das cinco, só a Alemanha justificou plenamente as previsões, com a Itália num distante segundo plano. À medida que o torneio avançava, poucos duvidavam que as duas fariam o confronto final. Mas os italianos, que tinham uma equipe forte, mas nem tanto, trataram de atirar por terra as previsões ao perderem nos pênaltis a semifinal para os argentinos.

A Alemanha, por sua vez, tratou de mostrar serviço. Logo de cara, goleou por 4 a 1 a boa seleção iugoslava, com uma atuação de gala do meia e capitão Lothar Matthäus, autor de dois golaços da entrada da área – o segundo, após uma arrancada irresistível desde o próprio campo. Estreia exuberante. O jogo seguinte, contra um rival fraco, serviu para confirmar a impressão inicial: 5 a 1 sobre os Emirados Árabes. Matthäus fez outro de fora da área.

Os alemães sofreram um tropeço no terceiro jogo, quando, já quase classificados, empataram em 1 a 1 com a Colômbia. Mas quem viu sabe que foi uma baita partida. Os colombianos precisavam do empate para se classificar e endureceram as coisas, à base de muita habilidade. Os gols saíram no final do segundo tempo: o rápido e driblador ponta Littbarski para a Alemanha aos 43 minutos, Rincón para a Colômbia nos acréscimos. Os alemães passaram em primeiro no grupo, já com pinta de grandes favoritos.


O confronto seguinte, contra a Holanda, ainda no San Siro, foi talvez o melhor jogo da Copa. Além da rivalidade histórica, a partida continha um antagonismo particular: os três maiores craques holandeses (Gullit, Van Basten e Rijkaard) atuavam pelo Milan, rival da Inter. Seria quase um clássico local. Seria também um repeteco da semifinal da Eurocopa de 88, quando a Holanda venceu por 2 a 1, de virada. Mais promissor, impossível. E a partida confirmou todas as expectativas. Os holandeses, vindos de três empates na primeira fase, finalmente decidiram mostrar o que sabiam, embora Gullit tivesse problemas físicos. A expulsão, na metade do primeiro tempo, de Rijkaard e do ótimo atacante alemão Völler acirrou ainda mais a tensão. A Alemanha, sempre mais perigosa, se impôs no segundo tempo, com belos gols do atacante Klinsmann e do lateral-esquerdo Brehme, contra um de Koeman, de pênalti, no final. Mais uma exibição de gala de Matthäus e outra grande vitória, que colocou os alemães definitivamente na rota do título.

No jogo seguinte, contra a Tcheco-Eslováquia pelas quartas-de-final, mais uma ótima exibição e uma classificação tranquila: 1 a 0, gol de Matthäus, de pênalti. Os alemães dominaram amplamente o jogo, criaram várias oportunidades e não foram ameaçados.

Enquanto a Alemanha nadava de braçada, os demais favoritos penavam. O Brasil, após três vitórias magras sobre Suécia, Costa Rica e Escócia na primeira fase, parou na Argentina em sua melhor exibição na Copa, com amplo domínio sobre os hermanos e várias chances perdidas, incluindo três que bateram na trave. Mas futebol é bola na rede, e Maradona impôs seu talento driblando três brasileiros e deixando Caniggia livre para fazer o gol da vitória. Outro confronto dramático. O Brasil deixava a Copa nas oitavas, sua pior campanha desde 66, sepultando temporariamente a Era Dunga, preconizada pelo técnico Sebastião Lazaroni.


Já os argentinos, após uma primeira fase sofrível – e uma derrota traumática  para Camarões no jogo de abertura da Copa -, ganharam novo alento com a vitória e acabaram passando depois às semifinais ao bater a Iugoslávia nos pênaltis. Aos trancos e barrancos, a Argentina chegava a mais uma semifinal.

Dos favoritos iniciais, restava a Itália. Com três vitórias sem brilho (e uma mãozinha da arbitragem) na primeira fase, a Azzurra teve dificuldades nas oitavas e nas quartas, contra Uruguai e Irlanda. Mas a tradicional força defensiva e os gols do desajeitado centroavante Totò Schillacci levaram a equipe adiante para uma histórica semifinal com a Argentina.

Faltava o adversário da Alemanha, papel que caberia à Inglaterra. Os ingleses se imporiam em duas disputas sensacionais até o confronto com os alemães. Depois de uma primeira fase insossa, com dois empates e uma vitória, a Inglaterra encarou nas oitavas a boa seleção belga. A partida, emocionante, foi dominada pela Bélgica, que mandou duas bolas na trave – uma delas num chute espetacular do talentoso meia Scifo. O 0 a 0 levou o jogo para uma prorrogação dramática. No último lance, o ótimo e irascível meia inglês Gascoigne levantou a bola na área e o atacante Platt acertou um voleio no ângulo, decidindo a parada.

O adversário seguinte da Inglaterra seria a surpreendente seleção de Camarões, primeiro país africano a chegar às quartas-de-final de um Mundial. Após a vitória inicial contra a Argentina, os camaroneses derrotaram a Romênia com dois gols do veterano centroavante Roger Milla, que entrava sempre no segundo tempo, e se classificaram em primeiro lugar no grupo. Nas oitavas, eliminaram a Colômbia com mais dois de Milla, o segundo deles após roubar a bola do excêntrico goleiro René Higuita, que tentara driblá-lo na intermediária.


Não sem razão, Inglaterra x Camarões costuma ser o jogo mais lembrado daquela Copa. Partida épica, para ficar no chavão. Um confronto entre a tradição e a zebra, entre o futebol pragmático e previsível dos ingleses e o jogo de ginga e habilidade dos camaroneses. Platt abriu o placar no primeiro tempo, mas Camarões se agigantou no segundo e produziu os 45 minutos mais empolgantes do torneio. Com um vasto repertório de dribles, tabelas e muita disposição, os Leões Indomáveis empataram num pênalti sofrido por Milla e viraram com Ekeké, ao receber passe de Milla (sempre ele) e tocar por cobertura na saída do goleiro Shilton. Já no final do jogo, o sempre perigoso atacante inglês Gary Lineker, artiheiro da Copa anterior, empatou de pênalti. Mais uma prorrogação, novo gol de pênalti de Lineker, e a Inglaterra chegava à sua primeira semifinal desde o título de 1966. Já Camarões deixava a Copa como a grande surpresa do Mundial e a seleção de futebol mais alegre da competição.

O último grande drama do torneio se daria na semifinal entre Itália e Argentina. Não bastasse o peso das duas camisas, a partida ocorreria no estádio San Paolo, casa do Napoli, que acabara de faturar seu segundo scudetto sob a liderança de Maradona. O gênio argentino tratou de aproveitar o fato para instigar o dissenso entre os torcedores locais, que se dividiram entre a paixão clubística e o amor às cores nacionais. Ele apelou inclusive ao sentimento de desprezo de que são vítimas os italianos do sul pobre e agrário por parte dos italianos do norte rico e industrializado.

É difícil saber se isso pesou, mas a seleção italiana, que até então só havia jogado em Roma, claramente tremeu. Embora Schillaci tenha feito 1 a 0 aos 17 minutos, a Itália parecia nervosa. A Argentina cozinhou a partida e começou a se impor na base da manha e da experiência. Na metade do segundo tempo, Caniggia igualou o placar de cabeça, numa saída em falso do goleiro Zenga, até então invicto na Copa. O empate enervou ainda mais os italianos e inflou os argentinos. O confronto ficou dramático. A Argentina, mesmo inferior, conseguiu levar o jogo para a prorrogação. O duelo acabou sendo definido nos pênaltis, e aí brilhou a estrela do goleiro Goycochea, que começara o torneio na reserva e entrara no segundo jogo, após o titular, Pumpido, fraturar a perna. Ele defendeu duas cobranças e colocou os argentinos na segunda final consecutiva contra a Alemanha.

A outra semifinal foi até uma boa partida, mas os alemães, menos inspirados que nos outros jogos, só conseguiram eliminar os ingleses nos pênaltis. No tempo normal, Brehme, de falta, e Lineker fizeram os gols. A Alemanha estava em mais uma final, a terceira seguida.


Alguém poderá dizer que a decisão da Copa de 90, no dia 8 de julho, foi a mais sem graça da história dos Mundiais, e eu estarei fortemente inclinado a concordar. Porque só uma equipe jogou – ou melhor, tentou. Os alemães tomaram a iniciativa e correram atrás da vitória o tempo todo, mas tiveram uma atuação pouco inspirada e enfrentaram dificuldade para criar chances de gol. Os argentinos nem ameaçaram – sua única finalização foi numa falta no primeiro tempo, que Maradona cobrou por cima do travessão, sem perigo. A Copa terminou decidida num pênalti duvidoso aos 40 minutos do segundo tempo, convertido pelo excelente Brehme – um dos raros jogadores realmente ambidestros que vi jogar, capaz de bater faltas com o pé esquerdo e pênaltis com o direito.

A Alemanha chegava ao tricampeonato em viés de baixa, é verdade. Mas o brilho mostrado nas cinco primeiras atuações não deixa dúvida de que se tratava de uma grande campeã. A taça acabou em excelentes mãos.

À Itália coube o consolo do terceiro lugar e do artilheiro do torneio, Schillaci, com seis gols. O atacante ganhou também a Bola de Ouro, numa evidente patriotada dos jornalistas italianos, maioria na cobertura da competição. Matthäus, o verdadeiro melhor da Copa (pouco à frente de Brehme), levou a de Prata, e Maradona, a de Bronze.

Se uma Copa do Mundo se limitasse à primeira fase, eu talvez concordasse que o Mundial de 90 foi o mais fraco de todos. Mas a fase de mata-mata registrou confrontos tão intensos e de tão boa qualidade que só alguém insensível às emoções do esporte pode menosprezá-lo. Quem não concorda, que (re)veja as partidas citadas. Com certeza, terá uma bela surpresa.

MINHA CARREIRA COMO TORCEDOR DE ARQUIBANCADA

por Mário Moreira


Há pessoas que anotam todos os filmes que veem na vida. Outras preferem registrar por escrito os vinhos que bebem, com estrelinhas ao lado à guisa de cotação. Existem ainda as que elaboram listas para o futuro: experiências que ainda desejam viver, países que planejam conhecer… Tem pra todos os gostos.

Pois eu também faço cá minhas anotações. No caso, de todas as partidas do Fluminense a que assisto no estádio. Pode parecer meio bobo ou inútil. Mas é uma forma não só de manter vivas as memórias de torcedor de arquibancada como de registrar a minha própria história, já que cada jogo remete a uma fase vivenciada, a um momento inesquecível, à companhia da minha filha e de outras pessoas queridas, à celebração da vida, enfim.

E por que resolvi compartilhar isso agora? Porque cheguei à marca histórica (para usar um jargão do jornalismo esportivo) de 150 jogos torcendo e sofrendo ao vivo, junto com o time, pelo Tricolor. Reconheço que o número nem é assim tão expressivo, se considerarmos que tenho 53 anos. Mas é preciso lembrar que, desses, morei quase 15 em São Paulo, período em que acompanhei o Flu praticamente só pela televisão. Subtraindo essa fase, dá 38 anos, ou seja, quase quatro jogos por ano de vida… Não é ruim.

A marca épica (olha outro jargão aí!) foi atingida no início de fevereiro, no Maracanã, no frustrante empate em 1 a 1 com o Unión La Calera, do Chile, pela primeira fase da Copa Sul-Americana. Escolhi uma competição internacional para celebrar a efeméride, e vejam no que deu… A longa saga, porém, se iniciou há 45 anos, em uma segunda-feira, 21 de abril de 1975, feriado de Tiradentes e de Maracanã cheio. Já já eu conto…

Antes, algumas considerações. A primeira é que anoto as partidas da maneira mais rústica possível. Se você pensa que mantenho para isso uma pastinha no computador, ou mesmo um caderno passado a limpo, engana-se: registro tudo em folhas soltas, no verso de provas antigas do colégio ou da faculdade, guardadas sabe-se lá por quê, ou ainda de contratos de aluguel já encerrados ou de recibos de matrícula em cursos já frequentados. A cada jogo presenciado, anoto o placar, o público pagante e os autores dos gols do Flu. Só isso. Quando a folha que está em uso chega ao final, acrescento outra por cima e vou formando um pequeno calhamaço, que a esta altura já soma 12 folhas, guardadas numa gaveta da escrivaninha.

Feita essa confidência, divido com o leitor algumas estatísticas dos 150 jogos. Primeiro, uma nota metodológica: os dados não incluem as cinco partidas do Flu que presenciei como jornalista esportivo, já que estava ali a trabalho. Tampouco contemplam confrontos entre outros clubes e seleções – quando eu era criança, meu pai, botafoguense, me levou umas poucas vezes a jogos do seu próprio time. São 150 partidas só do Fluminense mesmo, quase sempre vistas do nível superior da arquibancada, junto ao escanteio, numa posição tal em que, na definição de um velho companheiro de Maracanã, afeito às coisas da geometria, a bandeirinha represente a bissetriz do ângulo do córner…

Mas vamos aos números. Nesses 150 jogos, vi o Flu vencer 67 (45%), empatar 47 (31%) e perder 36 (24%), marcar 194 gols (média de 1,29) e levar 142 (média de 0,95). Vi o clube conquistar 12 taças, relativas a dois Campeonatos Brasileiros, cinco Cariocas e cinco turnos do Estadual (incluindo quatro Taças Guanabara). Ou seja, por 12 vezes saí do estádio gritando “É campeão!”.


E quem terá sido o maior artilheiro da epopeia? Washington, que formava o Casal 20 com Assis, o Carrasco: 17 gols. Na sequência, vêm Romerito (dez gols), Assis e Fred (nove cada), Rafael Sóbis e o meia Wagner (oito) e, num honroso sétimo lugar, o zagueiro Gum (sete). A maior goleada? 5 a 0, duas vezes: sobre o Coritiba, em 1984, e sobre o Horizonte (CE), 30 anos depois. Já a maior derrota foi para o Botafogo: 4 a 1, em 86.

Os 150 jogos registraram, em média, 37.500 pagantes. Mas qual foi o maior público? Os 153 mil presentes ao Flu 1 x 0 Fla que decidiu o Carioca de 84 – número hoje impensável, depois que o Maracanã foi criminosamente reduzido à metade. E o menor? Os heroicos 1.600 que fomos ao estádio das Laranjeiras numa quarta-feira à noite testemunhar a opaca vitória de 2 a 1 sobre o Picos, do Piauí, pela Copa do Brasil de 92 – com direito a pênalti perdido pelo lateral tricolor Carlinhos Itaberá, cujo nome fora gritado em coro pela torcida para fazer a cobrança, um sarcasmo não compreendido pelo jogador.

O adversário mais frequente nessa odisseia particular foi o Vasco, com 27 confrontos – infelizmente para mim, mas para gáudio do editor-chefe do Museu da Pelada, com ampla vantagem cruzmaltina: 12 vitórias a 6. O segundo adversário nesse quesito é o Flamengo: 23 embates, com 6 vitórias tricolores e 7 rubro-negras. Contra o Botafogo, foram 11 jogos, com 5 triunfos do Flu e 4 do Alvinegro. Dentre os clubes de outros Estados, os rivais mais frequentes foram Corinthians e São Paulo (cinco vezes), Cruzeiro, Atlético-MG e Grêmio (quatro). 

Ao todo, vi o Fluminense encarar 52 adversários: 12 do Rio de Janeiro (seis da capital e seis do interior), 28 de outros 11 Estados brasileiros e 12 de nove países estrangeiros, incluindo um amistoso em Volta Redonda contra a seleção italiana, às vésperas da Copa de 2014. É curioso como o perfil dos adversários foi mudando ao longo do tempo. No início, eu ia quase somente a clássicos cariocas ou a jogos contra os pequenos do Rio (incluindo Bangu e América, outrora grandes). Aos poucos, vieram adversários paulistas, mineiros, gaúchos e outros. Mais recentemente, tenho presenciado partidas contra times sul-americanos, em partidas de competições continentais. 

Mas um balanço como este não pode reduzir-se a estatísticas. Até porque o que fica, mesmo, são os momentos, as alegrias, a comemoração dos gols, as emoções extraordinárias que só o futebol é capaz de proporcionar. O que me remete de novo ao primeiro jogo da lista, no tal 21 de abril de 75…

Tinha eu oito anos e quatro meses quando ex-alunos (tricolores) do meu pai na faculdade de Direito convidaram a mim e a um irmão botafoguense (três anos mais velho) para aquele Fluminense x Botafogo, válido pela Taça Guanabara, primeiro turno do Campeonato Carioca. O jogo era importante: faltavam duas ou três rodadas para o fim do turno, e quem perdesse ficaria sem chances de levar a taça.

Eu, que até então só acompanhava as partidas pelo rádio, morri de medo de que a estreia resultasse em derrota. Dia de calor e com 110 mil pagantes no Maracanã, os fatos se encarregaram de desfazer meus temores, e da maneira mais cabal: com dez minutos de jogo, o Flu já vencia por 2 a 0. O primeiro gol, do meu maior ídolo no futebol até hoje, uma obra-prima inusitada, tratando-se de Rivelino: uma bomba de pé direito da entrada da área, de voleio, no ângulo. No segundo, após uma arrancada espetacular de Búfalo Gil em direção à área, a bola sobrou limpa para o centroavante Manfrini empurrar para a rede. Enlouquecido, só me faltava subir pelas paredes como as lagartixas profissionais. O Botafogo veio pra cima no segundo tempo, mas só conseguiu reduzir a diferença. No final, vitória por 2 a 1 e uma tarde absolutamente inesquecível.


Claro que não foi a única. A do primeiro título carioca, em 1980, com um gol de falta de Edinho sobre o Vasco, foi outra. A do gol de Assis aos 45 minutos do segundo tempo, no Fla-Flu que decidiu na prática o Campeonato Carioca de 83, mais uma, especialíssima. A do outro gol de Assis que decidiu o Carioca de 84, contra o mesmo Flamengo, outra ainda. A do empate que garantiu o título brasileiro sobre o Vasco, meses antes, outra mais. Pensando agora, que fase aquela!

Evidentemente, também tive tristezas e decepções ao longo da minha carreira de torcedor de arquibancada. A maior delas, inigualável, a perda da Libertadores de 2008, nos pênaltis, para a LDU – um bom time até, mas tecnicamente inferior ao Flu, que amargou o vice em razão de um primeiro tempo desastroso no jogo de ida, em Quito. Dói até hoje.

Houve também situações curiosas, como sair do Maracanã com água pelo joelho após um vitória sobre o Goiás num sábado de chuva torrencial, em 85. Ou, no dia do já citado Fla-Flu de 84, omitir da minha mãe que eu passara muito mal durante a madrugada, informação que certamente a levaria a tentar me demover da ideia de ir ao jogo. Mas valia o bicampeonato carioca… Fiquei na moita, me mandei pro estádio, descolei um escasso ingresso para as antigas cadeiras azuis (a arquibancada já estava lotada) e acabei recompensado com uma das mais belas conquistas da história do Fluminense. Tantos anos depois, imagino minha mãe, que também era tricolor, lá do alto, sorrindo dessa minha pequena travessura adolescente e dizendo, naquele jeito doce: “Seu moleque…”.

ENTREVISTA / SÉRGIO CABRAL

por Mário Moreira


“QUEM QUER POSAR DE MAIS CONHECEDOR QUE OS OUTROS NÃO É BOM JORNALISTA”

Houve um tempo, acredite, em que o nome Sérgio Cabral só evocava coisas boas: futebol, Carnaval, música popular… Culpa do brilhante jornalista, escritor e pesquisador que completa 81 anos neste 17 de maio. Cabral pai é um dos mais importantes jornalistas brasileiros, com passagens por veículos como Última Hora, Jornal do Brasil, Jornal dos Sports, O Globo, O Dia e, claro, do Pasquim, do qual foi um dos fundadores. Hoje, infelizmente, está retirado em razão do mal de Alzheimer.

Sérgio Cabral foi também político, eleito vereador do Rio por três legislaturas, nos anos 80 e 90. E foi em seu gabinete na Câmara Municipal que fui entrevistá-lo em junho de 1989 para minha monografia de fim de curso na PUC-RJ, sobre comentário esportivo. Foi a última entrevista de uma série que incluiu conversas com Sérgio Noronha, João Saldanha e Achilles Chirol (todas já publicadas aqui no Museu da Pelada). À época, o jornalista escrevia uma coluna diária em O Dia e participava da mesa-redonda de domingo na TV Educativa.

Cabral me recebeu com grande simpatia e rendeu um ótimo papo, que divido agora com os leitores do Museu. 

Eu primeiro queria que você contasse como foi que começou no jornalismo esportivo.

Esportivo foi… Eu comecei em primeiro lugar fazendo um trabalho… Eu era do Jornal do Brasil, e houve a Copa do Mundo de 62, aí o pessoal do Esporte me chamou pra ser copidesque do Esporte durante a Copa. Portanto, foi uma coisa eventual. Como, aliás, as minhas incursões pelo esporte durante toda a década de 60 foram eventuais. Foi essa, depois eu participei de programa de televisão, mesas-redondas, eu era o vascaíno da mesa… É…. Em 71 fui ser editor do Jornal dos Sports. Fim de 71.

Você nunca chegou a ser repórter esportivo?

Não, nunca fui, nunca fui, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca. Depois, em 80, O Globo – eu escrevia sobre música popular no Globo, né? Parei de escrever, aí o Globo me chamou pra fazer uma coluna de esporte. Aí eu fiz até 86, quando fui demitido na greve.

É, eu soube disso… (risos)

É… (risos) Aliás, eu sou o único jornalista da história do Brasil que foi demitido duas vezes por causa de greve.

Por causa de greve?

É.

Ah, é?

Em 86, no Globo, e em 62, no Jornal do Brasil.

Por ter cumprido a decisão do sindicato.

É um orgulho que eu tenho.

De um tempo pra cá, você está na mesa-redonda da TVE.

Tá havendo greve lá.

Ah, por isso que não teve (mesa-redonda no domingo anterior)…

Exatamente. É um orgulho.

Tem greve…

É, exatamente. Nem saí de casa.

É dos jornalistas da TVE?

Não, é da TVE. Mas eu não quero furar greve de ninguém.

O que você acha que os comentaristas esportivos têm, quer dizer, qual é a autoridade que eles têm pra falar sobre futebol? Eles entendem mais de futebol do que o público em geral?

Não. Eles são jornalistas. Um dos setores do jornalismo é o comentário esportivo. Só isso. Ele não tem mais autoridade que ninguém. Às vezes até tem, porque você, sendo obrigado profissionalmente a se aprofundar em determinado assunto, você acaba geralmente entendendo mais do que os outros – até por razões emocionais, quer dizer… Uma coisa que eu acho muito curiosa, eu que sou há tantos anos comentarista esportivo, embora seja jornalista já há 30 e tantos anos, é que meus colegas comentaristas, o assunto principal deles é esporte, é futebol. Quando eu saio da televisão e pego uma carona no carro de um deles, a gente vem conversando, o assunto é futebol. Eu doido pra mudar de assunto até, muitas vezes (risos), mas eles querem comentar, querem reclamar, que o Otavio Pinto Guimarães (ex-presidente da Federação de Futebol do Rio e da CBF), que não sei quem, que tal time jogou errado… Eles continuam. As pessoas… se apaixonam. Agora, eles não são obrigados a ser melhor que os outros, nem sempre são, muitas vezes não são… Né?, eu acho  até que às vezes são ruins… Mas isso depende: um bom jornalista ou um mau jornalista. O cara que quer posar de mais conhecedor que os outros não é um bom jornalista. Isso não é uma forma de fazer um bom jornalismo. Porque o conhecimento sai naturalmente. Você não tem que forçar uma barra, né?

Então não tem requisitos especiais pra ser comentarista?

Eu acho que tem. Você deve estudar, deve ser estudioso, deve acompanhar os acontecimentos internacionais, os acontecimentos nacionais, os acontecimentos locais, e deve estudar, deve realmente se aprofundar.

Você tem essa preocupação de se atualizar com táticas, por exemplo?

Tenho, tenho, tenho, tenho. Eu sei sobre táticas, sobre arbitragem… Isso tudo. Eu tenho, modéstia à parte, uma boa biblioteca sobre… E leio e gosto. Até porque, se eu não lesse e não gostasse, não estaria escrevendo sobre isso, não é por questão de honestidade, é porque eu seria um mau jornalista. Eu estaria inventando coisas, né? Eu não, não… Eu faço questão de me aprofundar. Eu acho que várias outras pessoas também são assim.

Por que você acha que, para o público, é importante existir a figura do comentarista? Ou ela não é fundamental?

Olha, eu acho importante o comentarista, não só de esporte como de qualquer outro tipo de comentário. Eu acho que o público nem sempre tem condições de se nortear, ele precisa saber certas opiniões, até pra ter a sua. Ele não deve nem… Ele não é obrigado nem deve até seguir a opinião dos comentaristas, mas ele deve saber a opinião das pessoas para, enfim, saber qual o caminho a tomar. Eu escrevi muitos anos sobre música popular, esse foi meu assunto…

Esse livro que você tá escrevendo é sobre música popular?

É, é sobre música. É. É uma biografia do Almirante (Henrique Foréis Domingues, o Almirante, importante cantor, compositor e radialista da Era de Ouro do rádio. O livro saiu em 91).

“A maior patente do rádio”.

É. E através da biografia dele eu tô montando uma história da música popular e do rádio. É um livro que eu tô… apaixonado. Mas… Eu, quando escrevi sobre música, eu percebi em mim, e era claro, que o que eu botava pra fora era fruto de um gosto que não tava só em mim, que foi um pouco herdada das leituras que eu tive de certos, de outros comentaristas, né? Tipo Sérgio Porto, Lúcio Rangel… Evidentemente, essas pessoas me influenciaram. Eu li Mário de Andrade, e sem dúvida nenhuma o que eu sou hoje é um pouco fruto dessas leituras. Então eu acho que um comentarista não tem uma posição negativa, eu acho que até positiva, na formação… na formação da cabeça das pessoas.

Mas você acha que o comentarista forma cabeças ou ele só orienta?

Ajuda. Ele ajuda. Ele dá subsídios.

Embora às vezes o torcedor possa discordar dele.

Claro, mas não só pode como deve. Deve. Aliás, aquele que discorda é exatamente sinal de personalidade, sinal de independência intelectual.

Você acha que os comentaristas têm a função de auxiliar na evolução do futebol?

Não. O comentarista tem a obrigação de ser um bom jornalista. E mais nada. O comentarista não tem que resolver problema. Se ele quiser resolver problema do futebol, ele vá trabalhar na CBF, ou vai pra Federação ou vai pros clubes. Ele tem que ser um bom jornalista. Se o que ele produz é bom para o futebol, ótimo. Mas, se não for, não tem grande importância. Importante é que ele seja um bom jornalista. Seja honesto, fale o que pense e não fale besteira.

Sugerir caminhos você não acha…

Sugerir é uma… A sugestão é uma das atividades que o comentarista tem. Ele sugere, mas não vai resolver, ele sugere. Você se lembra que a CBF foi ocupada aí por um bando durante três anos (refere-se à gestão Otavio Pinto Guimarães e Nabi Abi Chedid) e teve a reclamação total dos jornalistas. E ficou três anos. (risos) A gente pagou aí por uma porção de besteiras, de modo que nós tamos pagando até agora. E… Mas não foram os jornalistas que tiraram eles.

Não, quando eu perguntei se o comentarista também tinha a função de ajudar, seria na tentativa de ajudar, não necessariamente no resultado. A tentativa pode às vezes…

Sem dúvida, sem dúvida. Eu tenho certeza de que alguns treinadores já tomaram atitudes decorrentes da opinião de comentaristas. SEI disso.

Bom, você é um vascaíno notório…

Modéstia à parte.

Na hora de comentar um jogo do Vasco, você se sente à vontade, você fica mais preocupado?… “Não posso…”

Olha, eu faço o possível pra ser isento na hora de comentar. Né? O ideal pra mim seria que toda vez que eu fosse comentar um jogo do Vasco, eu abrisse da seguinte maneira: “Olha, pessoal, eu sou Vasco, mas… dois pontos.” E aí… O ideal seria isso. Pras pessoas saberem, né? Não tô enganando ninguém.

Se bem que no seu caso nem é necessário, porque todo mundo sabe.

É. Mas eu, na hora em que comento um jogo Vasco x Botafogo, Vasco x Flamengo, Vasco x Fluminense ou lá quem for, eu faço O POSSÍVEL pra ser isento. O possível até… pra ter crédito junto ao leitor. Isso é uma coisa que não… É um crédito que eu não quero perder. Eu me lembro em 82, na eleição, uma coisa muito frequente que aconteceu comigo, na hora em que tava fazendo panfletagem de rua – mas eu vi muitas vezes: “Olha, eu vou votar em você porque você é Botafogo, hein?”. Eu ouvi Botafogo, bastante. Claro, Vasco eu ouvi mais. Mas ouvi Botafogo bastante, ouvi Fluminense e ouvi Flamengo. Gente pensando que eu era… Depois de 82, eu fui trabalhar em televisão, mais constantemente, e aí, como vascaíno aberto e tal, já nesta eleição não foi tanto. Mas ouvi gente dizendo “Você, apesar de vascaíno, e tal, fala bem do meu time, e tal…”. E o caso do Botafogo é até explicável porque o time do Botafogo é o meu assunto predileto de cronista. Porque o Botafogo é um tema riquíssimo! Imagina essa coisa… Eu, domingo passado, escrevi uma crônica sobre uma prova de matemática que o professor aplicou naquele Centro Anísio Teixeira aos alunos dele. E era uma prova que só falava do Botafogo, de matemática! E só falava do Botafogo! Então, quer dizer, o Botafogo é um clube que pelo drama que vive, de 21 anos sem título, provoca esse tipo de reação, de imaginação. Então eu adoro escrever sobre o Botafogo. (Curiosamente, o clube se sagrou campeão carioca dali a poucas semanas.)

Mas voltando ao tema do clube. Por exemplo, você já se pegou na situação de comentar um… Você já comentou em rádio um tempo, né, pouquinho?

Pouco, é, pouco.

Em televisão, comentar jogo na hora, nunca?

Na hora, já. Já.

Mas você já se pegou na situação de comentar uma partida do Vasco e depois assistir ao videotape e tal e reformular a sua opinião? “Não, o que eu comentei não era bem isso…”

Não. Não. Bom, pode acontecer, mas não em função do meu vascainismo. Pode acontecer. “Estava impedido.” Aí você vai ver, não estava. Mas uma opinião deformada por causa do vascainismo, modéstia à parte, nunca aconteceu. Nunca. Nem em jornal, nem em… lugar nenhum. Nem rádio nem televisão. Eu não… Eu procuro ser o mais honesto possível, merecia cartão amarelo, merecia cartão vermelho, foi impedido, essas coisas.

Você acha então que essa tentativa de ser isento…

É bem-sucedida, modéstia à parte.

E com relação a essas frases feitas que tem no futebol? Você falou agora do Botafogo, tem a famosa frase “Há coisas que só acontecem ao Botafogo”. E outras frases, do tipo “Quem não faz, leva”, esse tipo de coisa, o que você acha disso?

Eu acho que toda atividade tem chavões. Os seus chavões particulares. Eu evito repetir. O Nelson Rodrigues, que foi um brilhante cronista esportivo, quando queria dizer uma besteira dessas, ele se socorria de um personagem que ele inventou.

O Gravatinha, o Sobrenatural de Almeida?

Não, era uma vizinha gorda e patusca. Né? E eu, quando quero usar uma besteira dessas, eu digo: “Como diria a vizinha gorda e patusca do Nelson Rodrigues, quem não faz, leva”. (risos)

É, porque são frases que não… Elas não são verdadeiras, né? Nem sempre acontece.

Não…

E no entanto elas se mantêm…

Porque é fácil, é um chavão, e o segredo do chavão é esse. Porque qualquer frase, por mais sábia que ela seja, ela é discutível. “A união faz a força.” Nem sempre. A união faz a confusão também. Depende. É uma… Enfim… O Nelson Rodrigues, aliás, pra citar o mesmo autor, dizia: “Toda unanimidade é burra”, o que se contrapõe um pouco à ideia de que a união faz a força. Eu acho que não, a gente pode discutir. Eu não me louvo nessas frases e acho que ninguém deve se louvar pra passar o seu pensamento. Isso não. Ela pode ser citada como um enfeite, né, um toquezinho ali, um toquezinho aqui, mas sem se segurar nela como se ela fosse uma coisa importante.

Você acha que a imprensa esportiva cria ídolos?

(Silêncio) Eu me lembro uma vez, eu estava num restaurante, com o Nelson Rodrigues e outros, e o garçom falou assim: “Vocês… Esse Pelé foi inventado pela imprensa! Isso é coisa de imprensa! Ele é um jogador igual aos outros! Todo jogador é igual!” E o Nelson Rodrigues falou assim: “Ah, quer dizer que você acha que o Napoleão Bonaparte e o general Eurico Dutra são a mesma coisa porque os dois são generais?” Eu acho que pode ser que a imprensa de vez em quando force a barra de algum deles, mas eu não me lembro de um erro grave. Eu acho que nessa tendência da imprensa de criar ídolos está uma representatividade da opinião pública. Acho que É assim. Esse é um desejo da opinião pública, quer dizer, a opinião pública também acha que aquele cara caminha pra ser um ídolo, etc. Acho que às vezes a imprensa demora a descobrir o cara. Um cara que… tá na cara que o cara é bom, mas a imprensa… A não ser um troço escandaloso: Pelé… Garrincha… Zico… Tostão… Não adianta, tá na cara que vai ser ídolo, um jogador excepcional.

Mas você não acha que às vezes surge um jogador jovem, e o cara faz duas ou três boas partidas, e aí tem logo um que diz “Esse é craque!”.

Tem UM que diz, tem UM que diz… Acho que não é um consenso. Eu já quebrei a cara achando que o sujeito ia ser craque e não foi. Eu me lembro que escrevi uma crônica no Globo sobre o Pingo, do Campo Grande. “Eu não tenho a menor dúvida de que vai ser craque.” Eu vi dois jogos dele e fiquei impressionado com o cara. Não, não foi, quebrei a cara e tal. Mas em compensação, o Geovani, desde os primeiros chutes no Vasco, eu vi que é craque. E esse demorou pra reconhecerem. Muito. Até hoje ainda tem gente… Eu acho um jogador genial.

Você, quando escreve uma crônica no jornal… No jornal nem tanto, porque O Dia tem um público mais ou menos dirigido, mas quando você tá falando na televisão, aí sim fala pra um público diversificado. Na hora da linguagem a ser utilizada, como é que você…

A minha. É a minha. Não mudo, é a minha de sempre. A minha linguagem é o que eu uso no Dia, na televisão, na Câmara de Vereadores, onde eu estiver. É essa linguagem.

Mas você tem a preocupação de fazer uma linguagem, vamos dizer, democrática, pra que todo mundo entenda?

Não, eu SOU democrático, eu sou democrático.

Ou é o seu próprio jeito de ser que já?...

Eu sou como eu sou, eu falo como eu sou em qualquer lugar que eu estou. Eu não tenho nenhuma preocupação especial de falar as coisas.

Voltando um pouco à questão da isenção, na hora da seleção brasileira numa Copa do Mundo, é fácil ser isento? Ou é mais difícil?

Olha, há um momento em que a isenção é difícil. Você fica torcendo pra que o jogador do seu time seja convocado e seja escalado. Mas há um outro momento que fala mais alto, e aí a paixão clubística cede terreno ao chamado patriotismo, né? A pessoa acaba ficando mais brasileiro do que vascaíno, rubro-negro ou lá o que for.

E aí? Dá pra…

Ah, dá, tranquilo, tranquilo. Eu agora, por exemplo, do Vasco, eu não tenho a menor dúvida de que o Geovani tem que entrar, seja qual for o time. Acho que Mazinho pode brigar ali com o Branco. Acho que dá pra brigar. E acho que Bismarck, a médio prazo, vai dar um jogador excepcional. A médio prazo. Ainda não. Tá chegando lá. É um menino de 19 anos. Mas vai chegar, sem dúvida que vai. Na Copa de 94, eu tenho a impressão que ele vai ser o melhor jogador do mundo.

ENTREVISTA COM SÉRGIO NORONHA

por Mário Moreira


“Quanto mais friamente você vê o futebol, mais bonito ele fica”

Na segunda metade dos anos 70, Sérgio Noronha formava com Luciano do Valle a dupla titular das transmissões esportivas da Rede Globo. Um nos comentários, o outro na narração. Juntos, transmitiram, por exemplo, a Copa do Mundo de 78, na Argentina. Por razões óbvias, vem dessa época a grande popularidade do comentarista, que, no entanto, já vinha de uma carreira de destaque em veículos como O Cruzeiro, onde começou, Jornal do Brasil, Correio da Manhã e Última Hora.

Noronha foi o principal comentarista da Globo até 79, mas retornaria à emissora em outros períodos. Também fez parte, durante vários anos, da antológica mesa-redonda dominical na TVE, ao lado de Luiz Mendes, Achilles Chirol e outros craques do microfone.

Em maio de 1989, quando o entrevistei para minha monografia final no curso de Jornalismo na PUC-RJ, que versava sobre comentário esportivo, Noronha trabalhava na Rádio Globo, após passagem pela Tupi. E foi na sede da emissora, na rua do Russel, na Glória, que fui encontrá-lo para a entrevista, a primeira de uma série com quatro importantes comentaristas (duas delas, com João Saldanha e Achilles Chirol, já foram publicadas aqui no Museu da Pelada). Por ter sido a primeira, foi talvez a mais difícil para mim, jovem e tímido estudante, mas também a que ajudou a balizar todas as outras.

Em quase 40 minutos de conversa, Noronha deu uma verdadeira aula de jornalismo. E mesmo hoje, quase 30 anos depois, muitos dos temas continuam atualíssimos: a desorganização do futebol brasileiro, a escassez de público nos estádios, o preço dos ingressos (então cotados em cruzados…).

O mais importante, porém, são as considerações que ele faz sobre o papel do comentarista esportivo. “Entender de futebol todo mundo entende”, afirmou então. “O problema talvez seja a capacidade de verbalizar, de se explicar. Aí… muita gente não tem.”

Na entrevista, Noronha rejeita a tese rodriguiana de que é impossível apreciar o futebol de maneira desapaixonada. “Tanto mais friamente você vê, melhor é. Ele fica mais bonito, fica muito mais bonito (…) Quando você não está envolvido, você vê muito melhor o jogo. É muito mais agradável do que quando está envolvido.”

Hoje doente e afastado do jornalismo, Noronha completou 85 anos no último dia 28 de dezembro. É em sua homenagem que o Museu da Pelada publica abaixo esta inédita entrevista:

Eu queria que você primeiro contasse como começou no jornalismo esportivo.

Bom, eu comecei no jornalismo esportivo no Jornal do Brasil, fugindo de uma mudança no jornal… Entrou pra dirigir o jornal uma pessoa que a princípio eu não gostava, de quem acabei me tornando grande amigo – eu era copidesque do jornal, tirei dois meses de férias e na volta, para não trabalhar com essa pessoa, pedi pra trabalhar no Esporte. Aí fui ser copy do Esporte.

Porque no Esporte não tinha…

Não, porque tava um pouco longe dele. Eu não queria trabalhar diretamente com ele. Depois acabei me tornando grande amigo dessa pessoa.

E quando é que você começou a trabalhar como comentarista de esporte?

Comentarista? Setenta e… 75.

75? Onde?

TV Globo.

E quando foi que você sentiu que tinha condição e capacidade pra falar sobre futebol? Você já tinha essa ideia há muito tempo?

Já, eu fiquei como copy do Esporte muito tempo. O copy do Esporte tinha três copidesques: eram o Marcos de Castro, Armando Nogueira e eu. O Armando era copy e fazia uma coluna. Aí, quando o Armando tirava folga, eu fazia a coluna para ele. Escrevia a coluna para ele no Jornal do Brasil. E aí… Fiquei no Esporte durante bastante tempo. Depois voltei para Geral, fui ser secretário no jornal, mas fiquei no Esporte durante muito tempo, e fazendo coluna também.

E aí nessa época você já…. Você sempre achou que entendia de futebol pra falar sobre o assunto?

Eu acho que entender de futebol todo mundo entende.

Todo mundo entende? O que é entender de futebol?

Eu acho que todo mundo entende de futebol. Se você pegar um torcedor do Flamengo para ele ver um jogo Fluminense x Vasco, ele comenta o jogo direitinho pra você. Só não pode é torcedor do Flamengo ir ver jogo do Flamengo. Senão ele vê pênalti que não houve, pênalti contra ele ele diz que não foi… O jogo de domingo foi exemplo: houve um pênalti claro contra o Fluminense, todo mundo do Fluminense disse que não tinha sido pênalti, aí depois, vendo o videotape, ficou claro, aí eles reconheceram que tinha sido pênalti. Eu acho que o torcedor só não consegue ver o jogo bem quando o time dele tá envolvido; quando não é o time dele, ele vê muito bem. O problema talvez seja a capacidade de verbalizar, de se explicar. Aí… muita gente não tem.

Você acha que a essência do esporte mais ou menos todo mundo consegue analisar bem…

Consegue. O problema é verbalizar, primeiro explicar o que você viu, o que nem sempre é fácil, nem sempre as pessoas têm o vocabulário para isso, ou não conseguem organizar a sua cabeça e tal… Mas ver jogo de futebol todo mundo vê bem. É um jogo simples.

Você disse que o torcedor vê com uma certa parcialidade uma partida…

Claro.

Mas, por outro lado, os comentaristas também normalmente são torcedores, já foram torcedores de arquibancada, etc. Como é que é isso? Como é que você procura deixar de lado o seu lado torcedor…

Se você…

Você é vascaíno, né?

Eu não. Eu não torço mais por time nenhum não. Não tenho o menor interesse em torcer por time nenhum.

Você era vascaíno?

Não. Eu fui… Eu fiquei muito dividido uma época entre Vasco e Botafogo, mas não…

Na época de adolescência, você não….

Eu nunca tive uma definição muito forte, não. Agora, o comentarista sabe o seguinte: se ele vestir a camisa, ele cai no descrédito. Se ele começar a ser parcial o tempo inteiro, ele vai cair no descrédito. E não é bom para ele. Então ele prefere…. ele é levado a assumir uma linha independente.

Bom, mas tem certos comentaristas que assumem esse lado torcedor…

Assumem, mas comentam de forma isenta.

Você acha?

Eu acho. Eu acho. A maioria comenta de forma isenta.

Nelson Rodrigues era um que dizia, por exemplo,…

Mas isso não era um comentarista!…

Não, não… Ele dizia que não acreditava em neutralidade, que o futebol era um esporte essencialmente passional e que nesse sentido ele não via como….

Mas o Nelson Rodrigues não é exatamente a minha Bíblia, viu?

Bom… Não estou dizendo que seja a minha, estou dizendo a opinião dele. O que é que você acha?

É uma opinião que ele tem o direito de externar e que eu discordo. Eu discordo. Você pode ver esporte friamente. Aliás,…

É possível essa neutralidade?

Tanto mais friamente você vê, melhor é. Ele fica mais bonito, fica muito mais bonito para você vê-lo friamente, fica muito mais…Você vê coisas que não vê quando tá envolvido, apaixonado. Detalhes, posturas, a própria arbitragem do jogo… Quando você não está envolvido, você vê muito melhor o jogo. É muito mais agradável do que quando está envolvido. Eu… não gosto do envolvimento.

E qual deve ser o papel do comentarista esportivo no sentido de modificar o próprio esporte, da evolução do esporte? Tem esse lado também?

Não, eu não acredito que o comentarista tenha força para isso, ele não pode modificar nada. O que ele pode é exercer um trabalho de certa vigilância, né? Por exemplo, contra a violência, contra os arranjos, contras as más arbitragens e tal. Agora, ele não tem força pra mudar nada. Ele não tem força. Não acredito nisso.

Nem, vamos dizer, a crítica, uma certa unanimidade, por exemplo, em termos de seleção brasileira, no sentido de forçar ou fazer pressões pra convocação desse ou daquele jogador, ou de…?

Eu acho até que isso existe. Se o técnico for fraco, ele cede, né? Se ele for babaca, ele cede; se ele não for, ele não cede. O problema aí é do técnico. Pressão você sofre em todo lugar. Pressão você sofre na sua casa – de repente, o seu pai quer que você seja advogado, você não quer ser. Se você for babaca, você vai ser advogado, mesmo não querendo ser. Aí é um problema da personalidade do sujeito, pô. O cara faz aquilo… Eu uma vez disse pruma moça: “Ah, eu tava doido pra ligar pra você e não liguei, não sei por quê…”. Ela disse “Não estava. Se você estivesse querendo ligar pra mim, você ligava pra mim. Porque a gente faz exatamente aquilo que quer fazer. Quando você quer fazer uma coisa, você faz.” E é verdade!

Então o papel do comentarista se restringe a analisar o que viu…

O PODER do comentarista. O papel ele pode fazer o que quiser. Ele pode ser um comentarista capaz de achar que pode mudar o mundo. Não sei, pode ser até que ele… de repente seja capaz. Eu não vi até agora. O papel do comentarista é uma coisa muito individual, eu não posso traçar um perfil de como é que se deve comportar um comentarista. Eu tenho um comportamento, outros têm outro. O meu comportamento é um, que eu acho que é o que melhor se adéqua à minha maneira de ser. Outros comentaristas não, são mais… sei lá, participantes ou… Eu sou uma pessoa um pouquinho mais distante.

Como é que você se mantém atualizado com o futebol? Você tem essa preocupação também para comentar, estar em dia com a…?

Olha, eu leio todos os jornais, ouço a maioria dos programas esportivos…

E notícias do exterior? Costuma ler revistas?….

Não, só quando eu estou envolvido quando tem uma Copa do Mundo. Porque raramente eu tenho que falar sobre o exterior. Quando eu estava na TV Globo sim, aí eu tinha que fazer jogos de seleções estrangeiras, falar de times estrangeiros. Agora, na Rádio Globo não, o rádio faz muita coisa regional, né? O rádio é muito regional.

Qual é a grande diferença em comentar futebol para rádio, para televisão e escrever sobre isso em jornal?

São três veículos diferentes, três linguagens diferentes, três enfoques diferentes. É inteiramente diferente uma coisa da outra. Inteiramente diferente. Porque na televisão você está comentando sobre uma imagem que o telespectador está vendo, quer dizer, você corre o risco de ser óbvio.

Pois é, o que tirar daí? Como é que você sai dessa cilada?

Olha, eu não sei como é que se sai, agora, se os outros não sabem, o problema é deles…

Como é que você tenta sair?

Não, eu não tento, eu saio, eu sei como sair. Eu sei como sair. É extrair da imagem um comentário. Eu acho que a maioria dos comentaristas de televisão ainda não entendeu isso – por isso é que eles parecem muito óbvios. Porque na realidade, você tem que comentar a partir da imagem, e não a partir do global que você está vendo. O jogo que você está vendo no campo é um, o da televisão é outro. Você tem que partir daquele jogo da televisão, senão você dança. O rádio é uma fábula que você cria para um sujeito que não está vendo. Então o locutor de rádio é diferente, o comentarista de rádio é diferente. Você está contando uma história para pessoa que não está vendo uma história, um fato. Então você faz uma história em cima de um fato. É diferente. E no jornal, você escreve para o dia seguinte…

Pois é, e aí?

…depois que tudo passou, a paixão baixou…

O torcedor já viu, já ouviu e tal…

É… E é por isso que eu não aceito o jornal no dia seguinte se não diz se foi pênalti ou se não foi pênalti. A obrigação de um cara que comenta um jogo para um jornal é dizer se foi pênalti ou se não foi pênalti. Porque ele teve tempo de ver, de analisar, de pensar… O cara do rádio não, é em cima do lance. “Foi pênalti?”. “Bom, pareceu que foi….” Jornal, não: discute, vê na televisão de noite, na Redação… Eu acho que o jornal é em cima… Eu acho até que o jornal deveria partir sempre da suíte do jogo, e não do jogo em si. Acho que o jogo em si se esgotou, porque veja bem: você ouviu o rádio ou viu televisão. De noite, você viu mesa-redonda e os programas esportivos. O que é que o jornal vai fazer no dia seguinte? Repetir a mesma coisa? Acho que o jornal… Nesse ponto, a cobertura do jornal está fraca. Eu acho. O jornal ainda não descobriu que o enfoque dele é diferente.


Helio Arnaldo, Sergio Noronha, Silvio Luiz e Luciano do Valle, entre outros

Quando você faz um comentário no rádio, você está falando com um público muito diversificado, com pessoas das mais diferentes classes sociais e níveis intelectuais. Como é que você faz pra…

Ser simples. Ser absolutamente simples. Não ser muito popularesco, nem falar uma porção de gíria, uma porção de bobagem, nem também falar difícil. Ser absolutamente simples. Pensar exatamente isso: eu estou explicando uma história que foi contada por outro sujeito, eu estou explicando essa história que foi contada pelo narrador para uma pessoa que não viu. Então eu tenho que ser o mais simples possível, eu tenho que tentar até fazer com que ele visualize as coisas. Então isso é simples, isso não tem nenhum mistério não. Tem que ser simples, só isso. Se tentar enrolar, tentar ser muito complicado, ninguém te entende.

Agora, partindo sempre do pressuposto de que o torcedor entende a mecânica do jogo…

Ah, entende.

…pra poder visualizar o que você está falando.

Entende, entende, entende. A exceção é só em Copa do Mundo, mas essa exceção fica pra televisão. O rádio não incorpora isso não.

Pelo fato de não conhecerem os times e os jogadores?

Não, é porque na Copa do Mundo o público é um público atípico, né? Numa Copa do Mundo, você consegue na televisão meter 60 milhões de espectadores, 60 a 80 milhões. É gente pra burro, né? É evidente que esse não é o público normal do futebol. Então você tem que ter cuidado com o cara novo que não entende de futebol e você tem que explicar pra ele como é que é.

No jornalismo esportivo existe um certo número de frases feitas que se popularizaram, tipo “Há coisas que só acontecem ao Botafogo”, “O Fluminense é time de chegada”, “O América nada, nada e morre na praia”… Essas coisas são normalmente verdades? E elas influenciam pra que aquilo se repita? Ou você não…

Olha, não, isso é… É apenas… As pessoas têm uma certa marcação com o futebol, acusando de falta de imaginação. Isso é o jargão da profissão. Não tem o jargão médico? “Doente terminal.” “Paciente…” Como é que é?… Sei lá… “Atípico.” É o jargão de médico! Economia não tá cheia de jargão? “Mercado flutuante.” O jargão do futebol é a mesma coisa. É o jargão da profissão. Você usa certos… É como política: “Os partidos estão divididos”. É a mesma coisa. Apenas é o jargão que o futebol usa, tal como se usa na política, na economia, na medicina, na engenharia. A polícia não chama de “elemento”? “O elemento estava na rua tal…” Ninguém mais usa “elemento”, alguém usa “elemento”? Não. Só a polícia.

E “comboio”, né?

É, essas coisas. Isso é…

“Viatura”.

É, exatamente, “viatura”, coisa que vem do Exército, por exemplo. Acho que é só o jargão da profissão, da função. Não tem nada demais não.

Essas frases que eu citei fazem parte?

Fazem, do jargão, do dia a dia do futebol, como tem… Você não tem o jargão do surfista? Você pega dois surfistas conversando, “Não, porque o tubo, porque não sei quê…”. Então. Você não entende nada, mas é o jargão deles, a linguagem deles.

Uma outra questão: o futebol é, pra maioria da população, uma forma de lazer. O cara vai a um estádio de futebol como poderia ir ao cinema ou à praia. Agora, o comentarista esportivo é um cara que mais ou menos tenta racionalizar isso aí, interpretar e dar uma lógica na coisa. Isso chega a ser uma contradição, ou você não entende assim?

Você acha que devia ser um lazer também pro comentarista?

Não, não acho, mas do ponto de vista do público… Quer dizer, por que o público tem a necessidade de ter uma pessoa pra interpretar aquilo pra ele?

A necessidade que o público tem de ser informado. Existe comentarista – aí eu vou voltar – econômico… não é? Tem notícia econômica, entra um cara pra explicar notícia econômica. Existe o político… Não existe? Existe o esportivo!

Certo, mas a política e a economia…

O que que tem?

…não são parte da lazer da vida das pessoas. O futebol…

Sim, mas a informação não precisa ser lazer ou não. A informação é uma coisa que… O sujeito quer ter conhecimento das coisas. É uma atitude normal do indivíduo. O indivíduo quer saber coisas, ele quer saber coisas melhores. Até porque ele parte do pressuposto de que o comentarista e o repórter vão estar mais informados do que ele. Ele passou a semana inteira trabalhando, enquanto que eu passei a semana inteira interessado no treino do Vasco, do Fluminense.

Acompanhou…

Claro, então eu tenho subsídios que ele não tem. É como o economista. Você passa o dia inteiro trabalhando lá na sua obra. Aí de noite tem: “A taxa do over subiu”. “Porra, que merda é essa de taxa do over?”. Aí vem um cara: “A taxa do over é isso assim, assim, assim”. Mesma coisa: é chegar pra você: “Impedimento”. “Estava impedido porque saiu da posição, porque não sei quê, o fulano tava lá atrás…” É a mesma coisa. O comentarista é… A função dele é igual na política, na economia, em tudo, quer dizer: é a necessidade que você tem de ter informação.

Mas você disse agora há pouco que o público em geral entende o futebol, né?

Sim, ele entende do que tá vendo ali, mas os subsídios de tudo aquilo ele não tem. Ele não sabe quem se machucou, se havia se machucado anteriormente… A não ser o cara viciado, que lê jornal, que acompanha e tal, o cara não sabe.

Então o comentarista completa isso?

Completa, completa. Até pra ele discordar às vezes.

Pois é, exatamente…

Até pra discordar.

Às vezes o sujeito liga a televisão e diz “Esses caras não entendem nada, tá tudo errado”.

Claro, até pra discordar. Até pra discordar, pra discutir. Programa de entrevista tem muito isso, o sujeito liga numa entrevista pra discordar do entrevistado ou do entrevistador. Isso é normal, é normal. Isso é normal.

Quais os requisitos necessários para ser um bom comentarista de futebol?

Quais os requisitos necessários pra ser um bom profissional de informação? Primeiro: ser muito bem informado – quer dizer, qualquer sujeito que queira ser jornalista, ou radialista, ou lá o que seja, ele TEM que ser bem informado. Não é? Isso não tem… Tem que ler jornal todo dia – eu fico espantado quando vejo meninos que estão estudando aí e não leem jornal. Tem que ler jornal todo dia! Eu leio todos os jornais todo dia. Todo dia eu leio todos os jornais, ouço a maioria dos programas esportivos, quando posso. Segundo: ter uma noção da colocação da sua profissão dentro da sociedade. Saber o que significa ser um jornalista. Não é igual a ser médico, não é igual a ser engenheiro, não é igual a ser bancário, não é igual a ser pedreiro. Não é melhor do que nada disso não!, mas não é igual. Você tem que saber que não é igual. Tem características que são diferentes. É uma profissão que não tem folga, é uma profissão em que você é full-time. Você não pode, no seu dia de folga, passar diante de um prédio pegando fogo e não ligar pro seu jornal. “Olha, eu tô aqui na rua tal, tem um prédio pegando fogo.” E você começa a trabalhar ali, embora seja o seu dia de folga. Ter a noção de que é uma profissão desagradável, você não está ali pra fazer amigos, até pra fazer inimigos. Enfim… É… ter noção exatamente disso, do que que significa, socialmente, a sua profissão. E ser muito bem informado.

Mas no caso específico do comentarista esportivo…

O comentarista é apenas uma coisa a mais!, o comentarista não é um… importante. O comentarista é a segunda ou terceira pessoa em importância num jogo de futebol. O mais importante é o narrador. O comentarista tem que ter isso… Essas informações e mais, o máximo possível de distância do espetáculo – pra poder observar o espetáculo à distância. Se você sentar no Maracanã, botar a camisa do Flamengo pra comentar um jogo, pô… morreu. Claro, pô, no terceiro jogo ninguém acredita mais em você. Aliás, tem gente perdendo crédito por causa disso. Então é isso é que é preciso, quer dizer: distância, conhecimento, informação e distanciamento. E aí… capacidade de verbalizar. Ou você tem um bom vocabulário, ou então… E aí é que fracassa a maioria dos ex-jogadores de futebol: eles não têm vocabulário. Eles sabem ver um jogo às vezes, mas não sabem verbalizar o que viram.

Mas muitos se tornam técnicos de futebol.

Técnico é uma coisa, comentarista é outra.

Sim, mas pra explicar aos jogadores…

A linguagem é outra, inteiramente diferente. São profissões diferentes, funções diferentes. Se a linguagem do jornal é uma, a da televisão é uma, a do rádio é outra, imagina a linguagem do técnico: é muito mais diferente.

Ele lida com jogadores…

Claro, é outra coisa. É outra coisa. É inteiramente diferente. As pessoas confundem, não é a mesma coisa. Se me dessem um time pra treinar, eu não saberia treinar um time de futebol. Eu não sei treinar um time de futebol, eu sei analisar um jogo de futebol. Treinar um time de futebol eu não sei.

Como é que você tá vendo este momento do jornalismo esportivo brasileiro? Você acha que tá bem, você acha que pode melhorar em alguma coisa…

Não, eu acho que o país todo tá muito mal, né? Muito mal. E aí tem reflexo imediato em tudo. Acho que o futebol, por exemplo, tá sofrendo um reflexo muito grande da falta de dinheiro… Acabaram de aumentar a arquibancada pra cinco cruzados… Não é caro, agora, ninguém tem dinheiro! Eu conto sempre a história de um amigo meu que foi jantar num restaurante, comeu bem, tomou vinho, não sei o quê, aí quando veio a conta ele disse: “Pô, é muito caro”. O maître disse “Não, não é caro não, você é que ganha pouco”. Não é caro!

Sim, mas você tem que adequar ao público, né?

Qual o público do futebol?, eu não sei mais qual é!

É muito pequeno, de qualquer maneira.

Não.

Que vai ao futebol, pelo menos.

Primeiro porque o futebol brasileiro é uma coisa tão mal organizada, tão esculachada, tão esculhambada, tão primariamente dirigida por todos os dirigentes, sem exceção, que ele nem sabe exatamente qual o público que ele quer. O futebol não sabe se ele quer a classe A, a classe B ou a classe C. O futebol não fez uma pesquisa pra saber por que é que as pessoas não estão indo mais ao estádio – ninguém sabe, aí ficam sacando: é a violência, é não sei o quê, é o jogo ruim, é o jogador… Tudo saque! Não tem nenhuma pesquisa que diga isso. Não tem nenhuma pesquisa que diga. Clube de futebol não sabe nada, dirigente de futebol não sabe nada, são todos primários, são todos muito maus dirigentes, MUITO maus dirigentes… Às vezes o cara é bom pro clube dele, mas é péssimo pro futebol em geral… São muito passionais, não têm visão global da coisa, não têm visão geral do esporte em si. Então, não adianta chegar e “Ah, eu consegui um negócio do cacete pro Flamengo”, e aí arrebentei com o Fluminense e o Vasco. E daí? Daqui a seis meses, tá precisando do Fluminense e do Vasco. É besteira, é… Sabe? O futebol é muito mal dirigido! Você não pode ter um estádio como o Maracanã, cobrando a arquibancada a cinco cruzados, o mesmo preço pra toda a extensão daquela arquibancada. Você vai aos estádios europeus, os estádios italianos, tem cinco divisões de preços diferentes.

Só em arquibancada?

Só em arquibancada. Você não pode, no meio do Maracanã, sentado no meio, pagar o mesmo preço de quem tá atrás do gol. Outra coisa: não existe mais, em lugar civilizado, em país civilizado, estádio – do porte do Maracanã – com aquele degrau de cimento. Tudo já tem uma cadeirinha e tal. Eu acho que o futebol joga fora o público A achando que o público dele é C, e não é. Porque o público C vai de geral. O público C não tem dinheiro pra ir mais na arquibancada. Não tem dinheiro pra ir… Aliás, não tem dinheiro pra porra nenhuma! A realidade é essa. Então o futebol tá namorando o público C achando que “tá muito caro pro salário mínimo”. O salário mínimo não tem impacto pra nada, pô! Vai ter o que o salário mínimo no Brasil? A posição minha não é elitista não, ela é a realista. Eu acho que deveria ter lugar pro salário mínimo. Só que o país tá tão esculhambado  – discute-se um salário mínimo de 120 cruzados, como se fosse algum problema muito grande – que de repente você bota a cinco cruzados… Hoje cinco cruzados são 6% de um salário minimo a 80 cruzados. Então não pode ir mesmo. Seis por cento do salário bruto dele representa uma entrada de futebol, ele não vai poder ir. Então, se você passou pra cinco cruzados, você perdeu esse público todo. Agora, o futebol não tem noção disso, não analisa isso, não pensa nisso. “Ah, aumentaram pra cinco cruzados.” Se perguntar por que aumentaram pra cinco cruzados, não sabem dizer a você por quê.

Eu ouvi dizer uma história de que é porque queriam quatro, mais aí inventaram que não iam ter troco…

Você acha que alguma coisa pode ser dirigida assim? Não pode, né? Então, é muito mal dirigido, no geral… Eu… E é um dos motivos que me levaram a não ter o menor envolvimento passional com futebol. Eu não acredito em dirigente de futebol. E digo a eles isso cara a cara, eles sabem disso.

Pra terminar: quem você acha que vai ganhar o segundo turno (do Campeonato Carioca)?

Não tenho a menor ideia.

Não…

Não. Tem quatro candidatos!…

Não descarta ninguém?

Não. Amanhã deve ter um jogo do Vasco, difícil, contra o Americano em Campos… Outra coisa que eu não faço é adivinhação. (risos)

Não, eu não pedi pra você dizer quem vai ganhar, eu pedi pra você…

Acho que esse é um negócio também que mata muito o comentarista esportivo.

Ele fazer futurologia?

Ah… Porque o público cobra.

Mas quem você acha que tem mais chance, ou tá tudo igual?

Tudo igual.

Rigorosamente?

Tem uns times bons, outros times muito mal… Tem times que são bons no papel, como o do Vasco, e ruins no campo… Tem um time que é uma incógnita, que é o Botafogo, você não sabe se ele joga bem hoje, joga mal amanhã… É difícil, é difícil. Se fosse fácil, não era tão bom, né? (O Botafogo acabou ganhando o segundo turno e foi campeão carioca, após 21 anos, na decisão com o Flamengo.)

E o Brasil na Copa do Mundo, tem chance?

Tem, claro que tem.

Boas?

Claro, pô! Claro que tem, muito boas chances. É só ter organização.

Mesmo sendo na Europa (na Itália), ou isso não…

Menor problema, o Brasil já foi campeão na Europa.

Uma vez.

Bom…

É, foi o único também, em compensação.

Foi campeão na Europa, foi campeão no México… Não tem nenhum problema.

Time nós temos?

Claro quem tem. O time, o futebol, tem. Não tem nenhum problema não. Pode ser campeão. (O Brasil perdeu da Argentina nas oitavas-de-final e terminou a Copa em nono lugar.)

A desorganização atrapalha bastante…

Claro. Claro. Falta de calendário, falta de organização… Agora mesmo tá aí, uma esculhambação, um negócio dum jogo da seleção brasileira que é no dia seguinte ao Campeonato Carioca. Só que o jogo da seleção tá marcado há um ano! A Federação Carioca de Futebol é que marcou essa porra dessa rodada intermediária em cima do outro jogo..

E tá dando uma confusão danada…

Claro, porque tá entregue na mão de incompetentes, desonestos… Por causa disso. Aí você realmente não pode se interessar pelo futebol de maneira passional. Esse jogo da seleção brasileira, o aniversário da CBF, se não me engano, tá marcado há seis meses! Aí a Federação de Futebol do Rio de Janeiro marca um jogo pro dia anterior. Ela achava o quê? Que os clubes cariocas não iam ceder jogadores pra seleção?

Que nenhum clube carioca ia ceder…

Pomba, peraí! Peraí! Aí você vê como é desorganizado o futebol, como os caras são – como eu disse antes – incompetentes, mal intencionados e burros. Isso é uma prova! Esse jogo, essa discussão toda em torno de cede ou não cede jogador… É que a CBF tá tratando com luvas de pelica, porque, na realidade, a culpa é da federação. Ela não podia ter marcado uma rodada anterior a um jogo da seleção no dia seguinte. Só isso.

ENTREVISTA/ACHILLES CHIROL

“FUTEBOL SE MEDE PELA EFICIÊNCIA; O RESULTADO NUNCA É INJUSTO”

Por Mário Moreira


Para quem começou a acompanhar futebol no Rio de Janeiro nos anos 70 e 80, um programa era obrigatório: assistir nos domingos à noite à “mesa de análises e debates” da TV Educativa sobre a rodada do fim de semana. Na mesa-redonda, composta por nomes como Luiz Mendes, Sérgio Noronha e José Inácio Werneck, uma das atrações era a figura sempre serena de Achilles Chirol. Torcedor do América, Chirol tinha no equilíbrio, na clareza e no vasto conhecimento futebolístico suas principais características. Cada intervenção sua era um aula de comentário esportivo.

Para os mais antigos, porém, Chirol era cronista consagrado desde o final dos anos 50, quando começou a assinar uma coluna no Correio da Manhã. Ele passou ainda pelo Diário de Notícias, Jornal dos Sports e O Dia, do qual foi colunista até 1987. A partir de então, passou a dedicar-se exclusivamente à TVE. Foi também o jornalista oficial da delegação brasileira na Copa de 70.
Chirol morreu em 29 de setembro de 2011, aos 79 anos. Para homenageá-lo, seis anos e poucos dias após sua morte, o Museu da Pelada publica uma entrevista inédita do velho mestre, que realizei com ele no início de junho de 1989, para minha monografia de fim de curso na PUC do Rio (“A Paixão Clubística no Comentário Esportivo”).

Com a mesma simpatia que demonstrava no ar, Chirol me recebeu na sede da Eletrobrás, no Centro do Rio, onde trabalhava na assessoria de imprensa. Durante 45 minutos, discorreu sobre sua carreira, ética na profissão, a importância do comentarista, divergências com colegas, criação de ídolos, linguagem e outras questões relativas à atividade. E, claro, futebol.

Como você começou no jornalismo esportivo?

Achilles Chirol – Como todo mundo na minha época: sendo convidado ou tendo um conhecido dentro de um jornal. Na época não havia faculdade.

Em que época foi isso?

Achilles Chirol – Isso foi em 48. Parece que as faculdades só tiveram início na década de 50. Então eu conhecia… Eu conhecia não, eu tinha alguém que conhecia o editor de Esportes – na época não era editor, era chefe de seção – do Correio da Manhã e que estava aceitando pessoas jovens. Eu era muito garoto, tinha 16 anos apenas. Então ali eu iniciei a minha vida de foca, né? Fui iniciante durante algum tempo…

Você já foi chamado para trabalhar em esporte ou só no jornal?

Achilles Chirol – Não, eu entrei na Seção de Esportes, tinha mais afinidade com esporte. Porque na época a iniciação em jornalismo em geral se fazia pela Seção de Esportes ou pela Seção de Polícia, que eram consideradas assim secundárias, temas secundários dentro de um jornal. Então a pessoa geralmente aprendia dessa forma: ou no Esporte ou na Seção de Polícia. Eu não tinha NADA a ver com polícia, então comecei realmente no Esporte, até porque a pessoa interessada em mim era o chefe da Seção de Esportes. Na época, havia dois canais pra você ingressar numa Redação de jornal: ou através de conhecimento, como eu disse, ou através de promoção de pessoas que trabalhavam na revisão. Tanto que na Seção de Esportes eu encontrei já três ex-revisores – revisores que tinham alguma facilidade também de redação, porque não necessariamente quem faz uma revisão de texto escreve um bom texto. Mas aqueles mais aproveitáveis… A época era completamente diferente. Pra vocês hoje que têm faculdade, fica um pouco difícil entender o mecanismo. Mas era assim: você conhecia alguém ou era indicado por alguém, entrava e a partir dali você se defendia. Ou você se adaptava e evoluía, ou então estagnava, não dava praquilo e ia fazer outra coisa.

Em relação a jornalismo esportivo especificamente, há muita diferença daquela época para hoje em dia?

Achilles Chirol – A época atual não tem nada a ver com a época que eu vivi. A começar pelo lado moral. Eu digo pela conceituação de jornalismo. Aliás, isso é em todas as áreas, não é só no jornalismo esportivo. E eu entrei num jornal, o Correio da Manhã, que na época era o principal jornal do país. Era um jornal que derrubava governos, fazia ministros, e não sei quê e tal. Então havia uma linha muito rígida de orientação – claro, a partir da vontade do dono. O patrão é o patrão. Sempre foi assim. Era em 1948 e será em 2000. A linha é sempre do patrão. Mas, mesmo você seguindo, havia um certo padrão ético, pelo menos dentro do Correio da Manhã, que hoje em dia está um pouco desgastado. O controle era completamente diferente, a orientação era completamente diferente, o ENFOQUE das matérias era completamente diferente. A revolução de fato do jornalismo só veio a acontecer com a Última Hora, quando Samuel Wainer lançou a Última Hora, em que ele fez uma reforma gráfica e editorial. Daí chegou-se ao jornalismo atual, que também não difere muito do da época do Samuel Wainer. 

Quando foi que você começou a ser comentarista e colunista?

Achilles Chirol – Eu tive uma escalada, digamos assim, dentro da minha profissão. Eu posso dizer que atravessei todas as etapas até chegar a colunista. Eu fui repórter de setor, quando entrei… Primeiro eu fui aprendiz não remunerado. Corresponderia talvez hoje a um estagiário. Só que na época não era estágio. Você entrava pra fazer… Você ficava ali um ano, o patrão também não pagava instituto (atual INSS), não pagava coisa nenhuma, nenhum direito trabalhista, você… 

Ficava ali aprendendo.

Achilles Chirol – É. E, ao final de um ano, mais precisamente de 49, aí eu fui admitido como repórter de setor. E, dentro do Correio da Manhã, eu percorri a escala praticamente toda da carreira jornalística. Algumas funções inclusive não existem mais. Eu fui: repórter de setor, repórter, noticiarista, redator auxiliar e redator. Pra chegar a redator, eu devo ter levado aí uns… dez a doze anos.

Tinha toda uma seqüência a cumprir…

Achilles Chirol – Ah, era uma…. Muito dependente também da boa vontade, do chefe de pessoal, do chefe da Redação…. Não era uma coisa muito… Hoje em dia o cidadão é contratado pra ser repórter e vai morrer repórter. A menos que ele tenha uma ambição a mais, tenha um brilho a mais ou uma oportunidade a mais, que é o mais importante de tudo: é a oportunidade e pegar a oportunidade. Agora, eu tive alguns acidentes, ou incidentes, na minha carreira que facilitaram de certa forma a minha ascensão, digamos assim. Porque eu comecei fazendo basquete – eu era repórter, fazia a cobertura, na época havia muito interesse em basquete no Rio de Janeiro – e, dentro da Seção de Esportes do Correio da Manhã, eu em 1958, quer dizer, dez anos depois, eu passei de repórter de setor a chefe da Seção. Foi uma oportunidade que surgiu porque o então chefe já estava exercendo outra atividade fora do jornal e não se interessou mais pela chefia. E eu era – não sei nem se eu era o mais indicado, ou o menos indicado; o mais velho eu não era, eu garanto que eu era sempre o mais novo na seção; mais novo em idade, né?, porque com dez anos de profissão eu já tinha assim uma bagagem de experiência razoável. Já havia realizado viagens internacionais, quer dizer… Então eu passei a ser o editor de Esportes do Correio da Manhã em 1958 e foi quando eu passei também a assumir a autoria da coluna – porque nós tínhamos uma coluna de opinião. E a partir de 58 eu não parei mais. Fui colunista até… Fui colunista até dois anos atrás, quando eu ainda estava no Dia, fazendo uma coluna, e, por um desses problemas que hoje em dia estão… aí eu não consigo definir bem… Mas resolveram fazer uma reforma, e hoje em dia a reforma é feita em cima da idade do cidadão, e não talvez da sua… daquilo que ele ainda possa render. Eu sei que hoje em dia estão fazendo reformas em jornais, como ouço falar até do Jornal do Brasil. Os de mais de 30 anos já são considerados veteranos em excesso (risos)… Então…

Estão sendo postos de lado.

Achilles Chirol – É, exato. Então eu fui apanhado pela idade, talvez… Ou não sei – houve uma reforma, eu não discuto as reformas. A reforma é impessoal – ou melhor, é pessoal, na medida em que o cidadão que faz a reforma tem o poder de mando e de decisão. Então acharam que eu talvez já tivesse muito tempo de casa – eu estava com 12 anos já no Dia e só fazia lá a minha coluna. Então parei, quer dizer, há dois anos eu estou afastado de jornal e, se Deus quiser, espero não voltar. (risos)

Mas pelo menos de uns dez anos para cá você está na TVE, né?

Achilles Chirol – Bom, televisão pra mim foi um… Foi, sei lá… Isso sim, foi um acidente, não foi nem um incidente, foi um acidente. Eu não tinha nada a ver com televisão. Eu era um homem de jornal, um homem de Redação. Eu me sinto à vontade escrevendo. Dedilhando as pretinhas, como se diz, né?, com uma máquina de escrever, e quanto menos eletrônica, melhor. Mas há cerca de 12 anos a TV Educativa tava fazendo uma reformulação na área do Esporte e me convidou pra ir pra lá e eu fiquei até hoje. Não é o meu métier favorito não… 

Ah, você não gosta?…

Achilles Chirol – Não, não é o que me agrada não… Mas é o que estou fazendo profissionalmente, até pra sobreviver.

E qual a grande diferença entre comentar um jogo para a televisão e fazer uma coluna num jornal? Em rádio você nunca trabalhou, né?

Achilles Chirol – Em rádio, esporadicamente. Fiz alguns trabalhos, mas rádio também nunca foi nada que me seduzisse não. De fato, o trabalho de rádio… Não que eu tenha qualquer preconceito contra, de maneira nenhuma. Ouço muito rádio. O rádio é um grande veículo de comunicação instantânea e tal. Mas a diferença… Isto é, eu não tenha nada contra rádio, mas também não tenho nada a favor; quer dizer, então, fico na minha. 
A diferença é fundamental. Não há nada mais ingrato para um profissional de imprensa – eu digo de TV, não de imprensa; hoje em dia se fala em imprensa falada, escrita e televisada, coisa que eu realmente acho abominável; imprensa é IMPRENSA, televisão é televisão e rádio é rádio. Mas a diferença entre escrever um comentário e comentar um jogo – digamos, é o mesmo episódio, é o mesmo jogo –, a diferença é brutal. Não há como comparar uma coisa e outra. E também não há nada mais ingrato do que comentar um jogo de futebol pela televisão. 

Por quê?

Achilles Chirol – Porque você está comentando instantaneamente aquilo que está sendo visto. E você pode ser desmentido um minuto depois de fazer um comentário o mais criterioso possível, baseado naquilo que está acontecendo em campo. De repente acontece um contra-ataque, um gol, e aquilo tudo que você comentou foi pro inferno e você corre o risco de ser considerado um imbecil por quem está vendo. 

No jornal não tem esse problema.

Achilles Chirol – No jornal não, porque, quando acaba o jogo, você tem o jogo todo na cabeça. Você começa sua crônica por onde você quiser: começa pelo gol, começa por um passe, começa pelo resultado, começa pela aparente injustiça – eu nunca acho que resultado de futebol seja injusto, todo resultado é justo.

Mesmo quando há erro de arbitragem?

Achilles Chirol – A arbitragem pode influenciar, mas aí… Olha aqui, depois de ver… Eu outro dia estive fazendo um cálculo de quantos jogos de futebol eu já vi na minha vida, desde o tempo de torcedor, na era pré-Maracanã, quando só havia São Januário, e eu era garoto e ia pra São Januário. Então eu devo ter visto até hoje, calculo, entre 2.500 e 3.000 jogos de futebol. Até questiono a inutilidade desse tempo perdido. É muito tempo! Noventa minutos cada jogo… Você faz ideia de quanto tempo talvez eu tenha perdido na minha vida. Mas então, entre 2.500 e 3.000 jogos de futebol eu já vi. E poucos, poucos – a percentagem de resultados que se possam considerar injustos em face de uma arbitragem, por exemplo, é ínfima, é desprezível. No mais, o futebol é apenas um ato lógico do que aconteceu no campo. 

Quem teve mais capacidade de fazer gol saiu vencedor…

Achilles Chirol – Porque o futebol é um jogo de ataque e defesa. Tanto é importante o ataque quanto é a defesa. Então, se um time passou 89 minutos sendo atacado, o adversário não fez gol, e ele fez um contra-ataque e fez o gol, ele cumpriu a finalidade do jogo, que é a eficiência dentro dos 90 minutos num jogo de ataque e defesa. Ele se defendeu muito bem e aproveitou a única oportunidade que teve, atacou maravilhosamente bem e ganhou o jogo. Porque o resultado de um jogo de futebol não se mede pelo volume do jogo, pelo tempo em que um time esteve no campo adversário atacando; se mede pela eficiência, e a eficiência é o gol. Então, não há o que discutir. De saída, quando dois times entram em campo, um não é melhor do que o outro. Teoricamente, o Flamengo é muito melhor do que o Olaria – claro, não há termo de comparação. Mas, na hora em que o jogo começa, o jogo vai se desenvolver naqueles 90 minutos. Eles vão ter que provar, no jogo, quem é o melhor. E, pra mim, sempre ganha o melhor. 

Quando você começou como repórter esportivo, já tinha em mente que depois queria passar a comentar futebol?

Achilles Chirol – Não, isso foram etapas naturais. Porque, de qualquer maneira, mesmo no basquete, a minha atividade era comentar, porque eu ia ao jogo e descrevia o jogo. Mesmo não assinada, essa descrição do jogo era um comentário. Afinal de contas, eu já estou dando uma opinião. Se eu estou dizendo que o jogador Fulano de Tal jogou melhor que o outro, anulou o outro, que uma equipe foi muito bem dirigida, eu já estou fazendo um comentário. Afinal de contas, há um momento em que o repórter comenta. Ele não apenas relata fatos, ele dá uma opinião, isso é inevitável. Tanto que hoje muito jornais estão adotando o critério de fazer as matérias, mesmo de reportagem, assinadas. Quer dizer, o cidadão fica então com mais liberdade para expor a sua opinião.

Quando você comenta uma partida do América, que é o seu time,…

Achilles Chirol – É o meu time.

… você se sente à vontade pra comentar, ou comentando jogos de outras equipes é mais fácil? 

Achilles Chirol – Não, o América… 

Ou tanto faz?

Achilles Chirol – Eu não sei o que passa pela cabeça, por exemplo, de um comentarista que seja torcedor do Flamengo ou do Botafogo. Ou do Fluminense ou do Vasco.  Mas o comentarista que tem como seu clube do coração o América, ele já está por si só neutralizado. Não há nenhuma emoção a mais, não há nada que possa comprometer a sua… – ou influenciar, não comprometer, mas influenciar a sua análise, a sua maneira de ver. E há um detalhe também: o jornalista que, depois de mais de 30 anos de trabalho, ainda consegue misturar a sua preferência clubística com a sua atividade profissional, esse camarada não é um bom jornalista! Ele tem por obrigação neutralizar aquilo e ver a coisa com absoluta isenção, com absoluta tranqüilidade. 

É fácil deixar o coração de lado?

Achilles Chirol – É, depois que você adquire MUITA experiência e leva muita porrada na cara. Eu já vi quantas Copas do Mundo o Brasil perder? É preciso realmente… Eu acho que a evolução do jornalista, sob esse aspecto, se faz exatamente no dia em que ele vê o Brasil ser eliminado pela Itália na Copa de 82 e vê a equipe do seu jornal estupefata, parada, sem saber o que vai fazer, e ele, que no caso fui eu, chegar e dizer assim: “Gente, o Brasil perdeu, mas a Copa não terminou! Vocês têm que decidir agora o que vão fazer! Volta pra casa, o que talvez seja o melhor caminho, ou vai tratar de ver o resto da Copa, porra!”. É a isso que a gente chega naturalmente com a idade e… sei lá com quê, mas a gente tem que chegar a isso!
  
Então a experiência ajuda nisso?

Achilles Chirol – Ajuda, a experiência ajuda. É, eu acho que basicamente é isso. Porque a experiência é que leva ao equilíbrio. Você tem que assumir a responsabilidade que lhe cabe com o leitor! Ou com o espectador. Você não é responsável apenas diante de você mesmo – ou talvez nem seja responsável diante de você. A sua responsabilidade é o seu público. Então, em função desse público, você tem que sufocar tudo, porque o seu compromisso – e aí é a única forma que eu vejo de um jornalista exercer honestamente a sua profissão: é saber que ele não está ali para uma satisfação ou insatistação de ordem pessoal. Ele está ali pra cumprir um dever profissional.

Qual a necessidade, para o público, da existência da figura do comentarista?

Achilles Chirol – Ah, isso aí é um negócio maravilhoso!…

O comentarista sempre sabe mais que o público?

Achilles Chirol – Não, não é que o jornalista sempre sabe mais. De um modo geral, o torcedor sempre pensa que sabe mais do que o jornalista, embora ele não diga. Tanto que é comuníssimo… Enquanto eu fui apenas um jornalista, isto é, um homem de jornal, eu vivi protegido de certas aporrinhações e de certos… e de certas confrontações. Porque eu era uma cara pouco conhecida. O meu NOME era conhecido, a minha assinatura – Achilles Chirol – era conhecida no veículo em que eu trabalhava, eu era facilmente identificável junto a essa assinatura. Mas, depois que a minha cara começou a aparecer em televisão, eu não parei mais de ser abordado por tudo que é torcedor. Eu saio na rua e me sinto com a obrigação de dizer alguma coisa. Primeiro: pra não julgarem que eu seja um mascarado sem-vergonha. Segundo, porque eu acho que, se o cidadão está se dirigindo a mim, ele quer nem que seja uma frase, mas ele quer alguma coisa. E o número de torcedores que chegam pra mim e primeiro formulam a questão do ponto de vista deles e depois perguntam assim: “Você não acha?” – então ele tem a opinião dele! Agora, qual é a importância do jornalista? Talvez seja a seguinte: é que o torcedor comum ache, primeiro: que o jornalista tenha uma capacidade de ver o jogo de uma forma que ele às vezes não vê, ou normalmente não vê; e segundo: confrontar a sua opinião com a do próprio comentarista – ou para contestar, ou para ver um ângulo que ele de repente não viu, ou até para aceitar a idéia de que “Pô, realmente, o que esse cara tá dizendo tem fundamento”. Então o comentarista é um elemento – não é de orientação, digamos assim. Ele não tá dirigindo a opinião da torcida. Ele está vendo o jogo e transmitindo de uma forma que possa acrescentar um subsídio, um elemento qualquer, pra melhorar a cabeça do telespectador – estou falando agora como comentarista de televisão. Com alguns aspectos essenciais, fundamentais e inapeláveis. Primeiro: o espectador vê o jogo pelo olho da câmera. Ele vê onde está a bola; o resto do campo ele não vê. O comentarista que está dentro do campo está vendo o campo. Quando o jogo está se desenvolvendo num determinado setor do campo, em que a bola está presente, ele está, ou pode estar, olhando o desenvolvimento de certas peças do jogo, isto é, de jogadores, que não estão participando daquele lance diretamente, mas vão participar! Então é por isso que de vez em quando um comentarista diz o seguinte: “Aquele lado esquerdo está muito mal protegido”. O cidadão às vezes não está vendo, porque a bola tá do lado direito, do outro lado do campo. Mas ele já está advertido, porque, se houver alguma conseqüência ali, o espectador já sabe que aquilo está acontecendo com alguma freqüência e pode ser fatal no desenvolvimento de qualquer lance. Então acho que a função do comentarista de televisão não é analisar o lance – o lance o telespectador tá vendo! Ele vai julgar melhor do que ninguém se foi pênalti, se não foi pênalti, se foi fal, se não foi fal, se o juiz tá roubando ou não tá roubando! Acho que a função dele é transmitir alguma coisa a mais que o espectador não está vendo. 

Que ajude a explicar o que está acontecendo.

Achilles Chirol – E o que vai acontecer. Tá me entendendo? Então esse é um aspecto fundamental – eu não digo da necessidade; da NECESSIDADE -, mas do valor, do interesse… Eu não digo nem a importância, eu não sei se é importante ou não. Mas o papel, digamos assim, do comentarista, o papel é esse. Tá entendendo? E mais – aí é um outro aspecto. O comentarista em televisão nem sempre está acompanhando a bola. Pra ele entender o jogo, ele tem que olhar o campo. E o campo não significa… Talvez esteja entrelaçado com a referência que eu fiz anteriormente. Mas então às vezes a bola está se desenrolando num lado e o cara tá olhando pra outro! Tá me entendendo? E a outra tendência, e o outro aspecto. Isso eu acho que é o terceiro aspecto, que talvez seja mais ilustrativo da coisa – do casamento, digamos assim, da opinião do comentarista com a opinião do torcedor, em que isso aí possa ser valioso para o torcedor: é que o torcedor só vê o seu time! O torcedor do Flamengo, quando vai ver um jogo com o Vasco, se você perguntar depois se o Geovani (então meio-campista vascaíno) jogou bem, ele não sabe! A menos que o Geovani tenha feito três gols ou quatro gols! Ele está vendo o seu time! Ele só olha os jogadores com a camisa do seu time! O adversário, não. Ao passo que o comentarista está vendo os dois lados! É uma obrigação profissional. Então tudo isso é que pode conduzir à importância da presença de um comentarista num campo de futebol. Porque o comentarista não é a figura mais importante de uma transmissão. A única figura indispensável é o locutor. Porque o locutor está acompanhando os lances – aliás, há uma certa distorção na tarefa do locutor. A obrigação dele é identificar os jogadores que estão jogando, muito mais do que qualquer outra coisa. Ele não precisa opinar, ele não precisa dizer que foi uma falta violenta, porque o cara tá vendo. Ele pode fazer um reparo. Ou dizer “Olha, já aconteceu uma vez, tá acontecendo a segunda”. O cara (espectador) tá vendo o jogo, ele sabe dizer se a falta é violenta, se não é violenta, isso é elementar. Por isso que o negócio da televisão é um risco desgraçado. Principalmente pra quem não tem replay na cabine, como é o meu caso! Todo mundo tá pensando “Esse desgraçado tá lá, vendo vinte vezes!”. Eu não! Porque a TV Educativa não tem a maquineta que faz o replay do lance instantâneo. O replay tá sendo feito lá no estúdio. O jogo tá sendo transmitido pro estúdio, e o estúdio vai fazer depois o replay. Eu não tenho! Eu, pra julgar um lance, tenho que julgar em cima do laço, eu não posso esperar. E eu não tenho replay. E às vezes eu sou obrigado a me omitir: “Acho que foi” ou “Tenho dúvida”. O cara (espectador) não tá querendo saber… Mas ele tá vendo também. Ele vai ver melhor do que eu! Vai ver um monte de vezes, entende? Agora, então, o comentarista não é indispensável, nem o repórter de campo é indispensável. A figura indispensável numa transmissão de TV é o locutor. É ele que faz, que comanda, ele pode até ser o comentarista – só não pode ser o repórter, mas ele pode ser o comentarista. De forma que é isso.

O que dá ao comentarista a capacidade de perceber bem o que está de desenrolando num jogo, essa capacidade superior à de um torcedor?

Achilles Chirol – É isso tudo que eu falei. Torcedor que só vê o seu time, torcedor que só acompanha a bola… Você tá me entendendo? E o hábito. O hábito de ver o futebol sob um ângulo que o torcedor não vê. 

A isenção então é fundamental para compreender o jogo?

Achilles Chirol – Não, a isenção é parte do ofício. É parte da personalidade do jornalista. Jornalista que não for isento é um mau jornalista. Ele tá sendo desonesto com o torcedor. Se ele tá torcendo, ele não tá trabalhando pro torcedor, pro espectador. Perfeito?

Por outro lado, se o fato de os comentaristas terem que olhar os dois times sempre com isenção bastasse, não haveria divergência entre os comentaristas, não acha?

Achilles Chirol – Não, mas aí… Mas cada comentarista vê por um ângulo. É muito curioso isso. Mas, porra, aí é a cabeça de cada um, você tá me entendendo?, é a maneira de ver o futebol. Há jornalistas, por exemplo, ilustres jornalistas do Brasil, que defendem a tese de que o preparo físico é uma MERDA, que tá deformando o jogador brasileiro, e não sei o que e tal… Vai disputar um jogo sem preparo físico que você não sai dos 15 minutos! Você tá liquidado! Porque faz parte da evolução do futebol. Então esse cidadão, esse jornalista, esse ilustre jornalista, esse coleguinha, vai ver o jogo de uma maneira que eu não vou ver. É evidente! Então são os princípios que estão na cabeça de cada um, você tá me entendendo? O comentarista só não pode é se julgar o dono da porra da verdade! Ele não é! Ele é um elemento quase auxiliar, ele tá ali pra… Não adianta ficar cagando regra. Quanto mais simples, melhor. Tá me entendendo? Não adianta também descer a excessivos detalhes de tática e não sei o que e tal, porque o torcedor não vai pegar bulhufas sobre isso! Ele pode é dar uma ideia, deve dar uma ideia, de como cada time está jogando, a que pode conduzir isso. Mas não descer a detalhes que o torcedor não vai entender. Então cada comentarista pode ver o jogo de maneira diferente por isso, pelo que tá na cabeça dele, pelo que ele aprendeu. De repente ele aprendeu mal, você tá entendendo?, ou de repente não entendeu, ele viu a coisa errada. Isso é muito comum! Eu já cansei… Quase toda semana a gente tem debates e cada um viu uma coisa diferente! Tá entendendo? (risos)

Como você encara esse tipo de coisa? Um debate em que pessoas que teoricamente entendem do assunto e veem o jogo de uma maneira diferente. Um acha que o time A jogou melhor, o outro acha o contrário, o outro acha que o empate foi justo… Isso faz parte dessa variedade de formas de ver futebol?

Achilles Chirol – Faz parte. Faz parte. Até por uma questão de inteligência profissional. Você não pode concordar com tudo que o adversário tá dizendo – adversário que eu digo é o colega que está à mesa. Porque senão um vai ficar fazendo amém pro outro, porra. Vence aquele – ou melhor, brilha e aparece e tem a verdade na mão, ou tem a realidade do jogo, aquele que começou a falar. Não pode. Porque em cada jogo há elementos que um não vai ver, o outro pode perceber, você tá me entendendo? O ideal realmente é juntar três, quatro, cada um dar… Eu acho que o proveito desses debates em televisão é exatamente esse. Porque sempre vai haver um ângulo do jogo que alguém não percebeu, mas outro viu. Porque o jogo é uma intensidade brutal, você tá entendendo? Noventa minutos é um negócio que corre de uma forma incrível. E há jornalistas, por exemplo, que acham que só o jogador decide. Há aqueles que acham que a tática é mais importante. E há os que julgam que, pombas!, é do casamento de uma coisa com outra que você alcança o ponto ideal. Então isso é comum. É a divergência natural do debate, dependendo da cabeça de cada um.

O comentarista esportivo tem também a função de ajudar a modificar o futebol, a evolução do futebol?

Achilles Chirol – Ele é peça do negócio. Agora, eu quero saber quem é que está mudando o futebol, porque aqui no Brasil a coisa não tá mudando não, rapaz. Porque ninguém consegue mudar nada! (risos) 

Mas vocês tentam, não?

Achilles Chirol – A gente tenta! A gente tenta, em face daquilo que a gente vê. Porque o jornalista tem oportunidade de ver mais do que o torcedor, porque viaja, acompanha. Acompanha. E, por incrível que pareça, há jornalistas que leem publicações estrangeiras, sabem o que está acontecendo no exterior.

Você tem essa preocupação também?

Achilles Chirol – Eu tenho essa preocupação. Eu tenho uma preocupação, por exemplo, de conversar sempre, primeiro: com meu irmão (o preparador físico Admildo Chirol, morto em 1998), que está no exterior há muitos anos; com o Zagallo, que volta e meia tá no exterior; e com o Parreira, que tá há mais de dez anos fora daqui tendo um contato estreito com o futebol europeu. Porque eles lá veem tudo e viajam muito, estão muito mais perto da Europa do que nós, estão acompanhando tudo. Uma vez, por exemplo, eu recebi uma carta do Parreira me mandando uma cópia de um artigo que tinha saído numa revista francesa que falava num sistema que estava sendo experimentado – não, que tinha sido usado já, em caráter experimental, no Campeonato Europeu de Seleções. Isso foi em mil, novecentos e oitenta… e cinco? É, foi em 85, Campeonato Europeu de Seleções. Ou 84? (Foi esse o ano.) Que é o sistema 3-5-2 (usado então pela seleção da Dinamarca). O europeu passou a achar – o europeu pensa! O europeu pensa, raciocina, se debruça naquilo, ao contrário dessa maioria… Eu não sei nem o que falar, ou empregar… Olha aqui, não é brincadeira não: a TACANHEZ do treinador brasileiro é um negócio espantoso! Ele não sabe nada de nada do que tá acontecendo! E vai apenas copiando. É um negócio intuitivo de copiar. E sempre com medo de perder. Então, é a tal história: nada evolui. Ou as coisas demoram tanto pra evoluir que, quando nós chegamos a apreender uma coisa dessas, ela já está quase superada. Então esse sistema 3-5-2, o europeu raciocinou e disse assim: “Pô, pra que precisa de quatro pra marcar dois, se três marcam dois?”. Então pega um desses quatro, que são os zagueiros, bota no meio-de-campo e, ao mesmo tempo, acrescenta ao meio-de-campo três ou quatro jogadores que se juntam aos dois atacantes básicos do sistema e você ataca com sete, oito, e se defende eventualmente com quatro, cinco… Você faz uma sanfona… Que nada mais é do que o prolongamento do futebol que já se joga no mundo desde 1966. Nós já estamos em 89 e tem gente aqui que ainda não sabe disso! Tem gente que fala: “Ocupar os espaços, atacar com muitos e defender com todos…”. Mas isso é elementar! Então essa preocupação de pesquisar, de estudar e tal, a gente tem que ter. E eu acho que é por isso também que o jornalista esportivo – eu não digo todos, mas pelo menos alguns – tem condições de acompanhar melhor do que o torcedor, você tá entendendo?

Até porque é obrigação dele.

Achilles Chirol – É uma obrigação. O sujeito não pode parar na sua profissão. Aliás, em atividade nenhuma hoje, né? Ele tem que continuar evoluindo, senão ele vai ser engolido. 

O jornalismo esportivo incorporou uma série de frases feitas – aliás, outro dia, você na mesa-redonda falou numa…

Achilles Chirol – Citei uma. Eu tenho algumas. Eu tenho algumas…

“Há coisas que só acontecem ao Botafogo…”

Achilles Chirol – Não!… Tem frases lapidares!…

Mas tem uma que você disse outro dia, que era “Quem tem um não tem nada”…

Achilles Chirol – Eu vou chegar lá, eu vou chegar lá… E eu fiz aquilo como provocação, porque naquela mesa eu sei que havia pelo menos três coleguinhas que volta e meia dizem isso. E são coisas que a gente fica pensando. Um dia… “Quem não faz leva.” Quem não faz leva! Eu fiquei com esse diabo… Isso tem uns quatro, cinco anos que eu fiquei com esse diabo dessa frase na cabeça. Que diabo é isso, “Quem não faz leva”? Eu um dia me dei ao trabalho, num campeonato do Rio de Janeiro, de pegar jogo por jogo que eu vi e ir anotando cada ataque de cada clube pra saber o que é que acontecia. Então cheguei à notável conclusão de que quem não faz acaba fazendo – porque é tão grande o seu domínio que ele acaba fazendo; ele não faz na primeira, na segunda, na quinta, mas na sexta ele acaba fazendo – ou então ninguém faz, e o jogo termina 0 a 0. Você tá entendendo? Quer ver outra frase fantástica? O pessoal de rádio usa demais – a televisão também usa, é incrível! É: “A bola bateu na trave com o goleiro já vencido”. Mas é evidente, se era pra bater na trave, o goleiro já foi vencido, pô! Eles dizem isso todo dia na transmissão de um jogo de futebol. Bateu na trave e o goleiro já tava vencido. Mas é evidente que o goleiro já tava vencido, senão como é que ela ia bater na trave? Tem várias, você tá entendendo? Coisas que os caras vão inventando aí, que o torcedor repete, e tal, e são verdadeiras monstruosidades. (risos)

E acabam tomando o aspecto de verdade…

Achilles Chirol – Ah, assumem. Assumem porque começam a ser repetidas por pessoas de nome, de prestigio e tal, locutores e comentaristas e acabam virando verdade. Essa história de que há coisas que só acontecem ao Botafogo… Com quem que eu tava falando ontem? Com o irmão dessa moça (aponta uma colega de trabalho), que é botafoguense. Eu disse: “Há coisas que só acontecem ao Botafogo, sendo que este ano só está acontecendo a favor!”. É pênalti a favor, é o time que joga pessimamente e ganha, e não sei o quê, então tá acontecendo a favor… As coisas que só acontecem ao Botafogo este ano estão acontecendo a favor, todas! (Poucas semanas após a entrevista, o clube se sagrou campeão estadual após 21 anos na fila.) Então isso é coisa que a imprensa botafoguense, que sempre foi muito forte, inventou pra justificar uma série de coisas. “Há coisas que só acontecem ao Botafogo.” Alguma coisa tem que justificar 20 anos sem título. Então é o azar, é um juiz ladrão, é não sei que e tal, são as coisas que só acontecem ao Botafogo. E aí você foge, é muito fácil você fugir por aí, porque você foge do debate da qualidade do time. “Há coisas que só acontecem ao Botafogo.” Após 20 anos, de tanto se repetir, isso virou verdade, quando é uma mentira! (risos) Não tem nada a ver, pô! E as coisas que inventam aí de… cumé? Escrita. Que escrita? Que escrita?! Então um negócio que dura três, quatro anos é escrita? Pô, mas que negócio é esse? A escrita só existe até o dia em que ela é destruída. E um dia ela é destruída. Um dia os Estados Unidos ganham da Inglaterra, como ganharam (na Copa de 50). Quer dizer, então… É que o torcedor adora essas fantasias, essas coisas… Adora isso! E vai sendo alimentado. Eu sou um pouco mais realista. Então eu prefiro não entrar nessa não.

O jornalista esportivo cria ídolos?

Achilles Chirol – Olha, ele pode criar temporariamente. Mas o futebol é o negócio mais claro que existe. O Flamengo já tentou fazer 200 ídolos e não conseguiu. Porque no Flamengo tudo repercute muito – eu estou citando o Flamengo porque é o de maior repercussão. Não adianta: o ídolo se faz por si mesmo, porque o ídolo está sendo visto. No futebol, o ídolo está no campo jogando. Não adianta você inventar, dizer que o cara é um cracaço. Não adianta, porque ele vai ter que se provar por si e cada vez que entra em campo! Não adianta você tentar forjar um ídolo. Não adianta. É uma inutilidade.

Durante algum tempo pode funcionar?

Achilles Chirol – Pode funcionar durante um mês, sei lá, dois meses, um campeonato, um ano até. Mas não dá, o torcedor é implacável, o torcedor quer ganhar e quer ver o cara jogando. Se o seu jogador não joga bem, ele é o primeiro a destruir. O torcedor, sim: faz e desfaz, cria e destrói com a maior facilidade.

A diferença é de um jogo pro outro, né? O sujeito é craque num dia e no outro…

Achilles Chirol – Olha, meu amigo, o trabalho que me deu na Copa de 86 convencer os jornalistas portugueses que circulavam comigo de que o Josimar (lateral-direito do Botafogo e da seleção) era um jogadorzinho igual a um monte que havia no Brasil! O Josimar fez dois gols lá e achavam que ele era um craque. Eu dizia “Pô, vocês não conhecem o Josimar!”. Eles achavam que eu tava brincando. Me entrevistaram pra televisão portuguesa porque achavam que eu não tinha coragem de dizer isso. “Eu faço o que vocês quiserem, ele é um jogadorzinho.” E a prova de que ele é um jogador igual aos outros está aí, nem em seleção está mais. E volta e meia é chamado pra jogar na Europa, porque os caras ainda estão com aquele Josimar na cabeça. Mas nós, que vemos todo dia, sabemos que ele não é nada disso! O Jorginho (lateral do Flamengo na época e campeão mundial em 94) dá um banho de bola nele como jogador! O Josimar foi um acidente, acabou na seleção… Acabou porque não tinha outro! Aí ligaram pro Lídio Toledo, o Lidio me telefonou: “Como é que tá o Josimar?” “Ah, tá bem, fisicamente ele tá muito bem, e tal.” E chamaram o Josimar. Cadê o ídolo Josimar? – que aqui eu soube que chamaram de Josi, né?

É, Jôsi, Josias…

Achilles Chirol – Cadê o Josimar?  Não consegue ser ídolo nem no time dele. Então não adianta. Inventar em futebol não adianta.

Quando você comenta uma partida, está falando para um público bastante diversificado em geral. Pessoas mais humildes, mais cultas… Como você resolve isso na hora de falar, da linguagem?

Achilles Chirol – Falar a linguagem que todo mundo possa entender. Não adianta que gíria eu não vou falar nunca. Palavrão eu não vou falar. Isso faz parte da minha formação.

Isso é questão de personalidade, né?

Achilles Chirol – Ah, não, é formação. Eu disse a você: eu fui formado no Correio da Manhã. Quer dizer, então, eu vou carregar pro resto da minha vida aquela formação que eu tive dentro de uma Redação onde havia talvez os mais brilhantes intelectuais da imprensa brasileira. Então você acaba… adquirindo aquilo. Não adianta que eu não vou dizer – você nunca vai me ouvir dizer na televisão, ou no rádio, o que eu mais ouço hoje em dia: “porrada”, “sacanagem”… Não digo! Não faz parte do meu vocabulário. Eu nunca escrevi e nunca disse. Eu digo aqui pra você, posso usar um palavrão ou outro aqui pra você. Então a linguagem é fácil. É você falar a linguagem comum que todo mundo possa entender. Não descer ao chulo, à vulgaridade, e usar uma linguagem que todo mundo possa entender. Isso não é difícil, não! E quem diz “porrada”, quem diz “sacanagem”, tá dizendo por charminho, querendo embarcar numa onda jovem que já tá superada pra ele. Eu conheço vários deles aí, que estão nessa porque querem parecer jovens e são tão velhos quanto eu! (risos) Você tá entendendo? Nada disso. É gênero, é charme!

Por outro lado, as palavras às vezes começam como termos chulos e com o correr do tempo são mais aceitas.

Achilles Chirol – Mas não adianta, “porrada” eu não vou dizer! E, bom, a partir daí… Eu soube, por exemplo, que outro dia na Rádio Globo – quem me contou foi o Gérson (ex-jogador e comentarista) – a equipe recebeu um memorando dizendo “Segura a linguagem porque está demais”. Você tá entendendo? Se não der um freio nos caras, eles vão. Eles vão embora. Não tem limite, porque eles dizem que o torcedor gosta de ouvir isso, essa é a linguagem do torcedor. Eu não estou convencido disso não. Eu acho que o torcedor gosta de dizer palavrão na arquibancada, lá na arquibancada, da mesma forma que eu digo aqui pra você, digo no botequim ou conversando com o Pedrosa, meu amigo aqui (aponta um colega). Eu na minha casa não digo palavrão. Não digo, nunca na frente dos meus filhos eu vou dizer um palavrão. Agora sim, o meu filho tá com 14 anos, já tá na época de a gente trocar figurinhas, né?, num outro nível. Mas nunca na frente da mãe e da irmã. Isso é proibido dentro de casa! É uma PROIBIÇÃO minha! Porque não há necessidade. Você até acostuma o jovem a deformar a sua própria linguagem. Pra quê? Pra ser enfático?! Porra, não precisa! Guarda pra quando der uma topada na rua: aí diz “Puta que pariu, que dor!”. (risos) Mas, na linguagem de comunicação, é fácil se entender com o torcedor, com o leitor. É fácil! É só não usar… Primeiro, não complicar: não querer usar palavras, ou frases, ou metáforas ou seja lá o quer for que compliquem a vida do cara. Porque eu passei por tudo: eu fui do Correio da Manhã, eu fui do Jornal dos Sports, eu fui do Dia… Quer dizer, eu aprendi… Eu fui colunista 12 anos no Dia sem escrever “sacanagem” uma vez! (risos) Sem escrever uma gíria! E o público me aceitou, durante 12 anos. E é clube (classe) C e D!

Pra terminar: o Brasil no ano que vem, na Copa do Mundo, tem boas chances?

Achilles Chirol – O Brasil tá numa encruzilhada, e o que é que vem disso não se sabe. Se usar só os jogadores que estão no Brasil, não vai chegar a lugar nenhum porque é insuficiente a qualidade. 

Apesar de o Rui Porto (colega de Chirol na mesa-redonda da TVE, morto em 1990) achar que a seleção só deve usar jogadores que atuem no país…

Achilles Chirol – Não, o Rui tá fazendo gênero. Ele pegou um gancho pra ser diferente, deixa ele ir… Esse é um dos aspectos. O outro é o seguinte: você vai ter que usar jogadores que estão jogando no exterior, na Europa. Agora, você não pode avaliar hoje – isso está fora de cogitação, você só vai ver quando a bola começar a rolar – se esses jogadores estarão dispostos ao sacrifício que uma Copa do Mundo exige ganhando 60 mil dólares fora do Brasil, como é o caso do Careca (ex-centroavante do São Paulo, então no Napoli). O Careca ganha 60 mil dólares, há outros que ganham 40 ou 30 mil dólares. Quer dizer, verdadeiras fortunas anuais. Então, será que esses jogadores vão expor a perna? Será que esses jogadores vão dar tudo que podem? Será que o Careca jogaria com 40 graus de febre, como jogou na final, aquele jogo do Napoli na final da Copa da Uefa (contra o Stuttgart)? Não sei. E sem sacrifício não se ganha Copa do Mundo. (Um ano depois, na Copa, o Brasil foi eliminado pela Argentina nas oitavas-de-final e terminou em nono lugar.)