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FINAL DA COPA DE 62 CONTRA “O SÃO CRISTÓVÃO CHEIO DE PAULO AMARAL”

10 / junho / 2022

Treino da Seleção para a Copa de 62, em Nova Friburgo. Da esquerda para a direita, em pé: Garrincha, Nilton Santos, De Sordi,
Jurandir, Aldemar, Zagalo, Benê e Paulo Amaral. Agachados: Valdir, Jair Marinho, Zequinha, Rildo, Amarildo, Germano e Gilmar.

por José Carlos Faria

Assim Garrincha identificou o time da Tchecoslováquia, adversário do Brasil na final da Copa do Mundo de 62.

Eu tinha dez anos e acompanhei as partidas da Copa do Mundo de 62, no Chile, em uma “moderna” Rádio Vitrola Philco, embutida em móvel de pés palitos. Nela ouvi os meus primeiros LPs, da coleção “Músicas para Ouvir e Sonhar”, adquiridos por meu pai. No ano seguinte, eles foram substituídos pelo primeiro disco do conjunto de Liverpool – Beatlemania – gosto musical do meu irmão dois anos mais velho e flamenguista.

Nessa Copa, como torcedor do Fluminense, levei vantagem sobre ele, pois entre os vinte e dois selecionados havia três tricolores (Castilho, Jair Marinho e Altair) e nenhum rubro-negro, não importando que fossem reservas e não tivessem atuado em nenhum jogo.

No dia seguinte às partidas, a TV Excelsior mostrava, em preto e branco, os videoteipes completos dos jogos do Brasil, remetidos do Chile por avião. Um dos precursores do uso desta revolucionária técnica televisiva foi o programa “Chico Anísio Show”, que possibilitava aos diversos personagens do comediante contracenarem ao mesmo tempo. Nas noites de domingo, prenúncio das fatídicas segundas-feiras, só se ouviam pelas ruas os acordes de “Hino ao Músico”, prefixo musical do programa por anos e anos.

Nos videoteipes, reparava nos detalhes dos uniformes das seleções estrangeiras. Os times dos países socialistas (Hungria, Tchecoslováquia e Bulgária) tinham os escudos no meio da camisa, em vez de no lado esquerdo, junto ao coração. A seleção da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas – URSS – apresentava essas iniciais, no peito, em alfabeto cirílico – CCCP – que um gaiato traduziu para “Camarada, Cuidado Com Pelé”, como um alerta cifrado, quando enfrentassem o Brasil.

Morria de vontade de ir à Cinelândia, centro do Rio, onde ficava montado um enorme painel vertical representando um campo de futebol, coberto com lâmpadas. Pelos alto-falantes, a multidão atenta acompanhava a narração do jogo e o movimento da bola, indicado pelo acendimento sucessivo das lâmpadas.

O time que iniciou a Copa foi basicamente o mesmo da Suécia em 58, com os craques Gilmar, Djalma Santos, Nilton Santos, Zito, Didi, Vavá e Zagalo. A diferença foi dos zagueiros de área Mauro e Zózimo, que ocuparam o lugar de Beline e Orlando. Mauro, o capitão que levantou a taça Jules Rimet em 62, foi inscrito nas três edições anteriores – Brasil (50), Suíça (54) e Suécia (58) – sem participar de nenhum jogo. Conta-se que argumentou com a Comissão Técnica que seria a última oportunidade de disputar uma Copa e, assim, ganhou a posição.

Mané Garrincha foi o grande destaque da seleção, que perdeu o Rei Pelé no segundo jogo contra a Tchecoslováquia. Foi substituído por Amarildo, o “Possesso”, que logo na sua estreia contra a Espanha marcou os dois gols da nossa vitória por 2×1.

Na semifinal vencemos os donos-da-casa por 4×2, com dois gols de Garrincha, expulso no final, por ter chutado a bunda do seu implacável e violento marcador Eladio Rojas. No julgamento do Mané, o testemunho do bandeirinha uruguaio Esteban Marino, que havia denunciado o lance ao juiz peruano Arturo Yamasaki, poderia tirá-lo da final. Entretanto, “convencido” por dirigentes brasileiros, que já o conheciam, por ter apitado jogos pela Federação Paulista, não compareceu à sessão. Voou no dia seguinte ao jogo para Montevidéu, dizem que via Paris.

A final da Copa de 62 foi contra o “São Cristóvão, cheio de Paulo Amaral”, como Garrincha identificou a seleção da Tchecoslováquia, quando foi informado de que a nossa adversária seria a mesma equipe com quem empatamos em 0x0, nas oitavas-de-final.

O musculoso Paulo Amaral foi um dos precursores da preparação física no Brasil, e trabalhava na seleção desde a Copa anterior. Atuou, também, como técnico, inclusive na Itália (Genoa e Juventus), e comandou o meu tricolor na brilhante conquista do título brasileiro de 70.  Para o Mané, os tchecos tinham o porte atlético do preparador, o seu limitado futebol (chegou a jogar nos juvenis do Flamengo) e usavam uniformes iguais aos do time do São Cristóvão, conhecido como “os alvos”, com calções e camisas brancas.

A partida final foi acompanhada em casa, com a família, ouvindo meu locutor predileto, Clóvis Filho, da Rádio Continental. Sofri com o primeiro gol dos tchecos, de Masopust. Meu pai lembrou que, na final de 58, foram os suecos que abriram o placar, mas que acabamos vencedores por 5×2, o que me reconfortou.

Com gols de Amarildo, Zito (não confundir, com o Zico, que tinha na época apenas nove anos) e Vavá, viramos o jogo. Alguém deu a ideia de rasgarmos jornais e arremessarmos os papéis picados da varanda, para comemorar. Havia muitos deles acumulados, já que o “GAARAAFEEIIRO” não havia passado ainda. Esse grito extenso, com sotaque lusitano, anunciava sua presença nas ruas, arrastando sua pesada carroça cheia de garrafas e jornais velhos, que comprava, de casa em casa, para depois revendê-los.

Em meio à euforia após o jogo, uma surpresa foi ouvir a cantora Elza Soares, que iniciava um romance com o Garrincha, ser entrevistada no vestiário bicampeão. Há quase sessenta anos, uma mulher frequentar aquele ambiente exclusivamente masculino era completamente arrojado e inusitado.

Em minha segunda Copa do Mundo, o Brasil era bicampeão, o que significava para mim que seria o vencedor de todas as outras. Em 1966, na Inglaterra, com a eliminação do Brasil, logo na primeira fase das oitavas-de-final, essa lógica foi duramente quebrada.

* Expressão retirada do livro de Ruy Castro – “Estrela solitária – Um brasileiro chamado GARRINCHA”, pág. 261.

4 Comentários

  1. Ronal Braga

    Muito legal….todos os detalhes foram ótimos
    …….

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  2. José Carvalho

    Naquela época, o video tape estava começando e dava a impressão de que o jogo era muito lento. Alguns comentaristas aqui no Brasil criticavam a lentidão da seleçáo, que, entretanto, ia ganhando os jogos. O Nelson Rodrigues então escrevia que “o video tape é burro”.

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  3. Paulo

    Esta matéria me emociona muito, visto que nasci neste ano de 1962 em outubro. No anode 1970, com sete anos, tive a oportunidade de ver o Brasil ser campeão em uma tv colorida, com aquele time fantástico.

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  4. Mauricio Kaufman

    Bela crônica!

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