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Copa do Mundo

FINAL DA COPA DE 62 CONTRA “O SÃO CRISTÓVÃO CHEIO DE PAULO AMARAL”

Treino da Seleção para a Copa de 62, em Nova Friburgo. Da esquerda para a direita, em pé: Garrincha, Nilton Santos, De Sordi,
Jurandir, Aldemar, Zagalo, Benê e Paulo Amaral. Agachados: Valdir, Jair Marinho, Zequinha, Rildo, Amarildo, Germano e Gilmar.

por José Carlos Faria

Assim Garrincha identificou o time da Tchecoslováquia, adversário do Brasil na final da Copa do Mundo de 62.

Eu tinha dez anos e acompanhei as partidas da Copa do Mundo de 62, no Chile, em uma “moderna” Rádio Vitrola Philco, embutida em móvel de pés palitos. Nela ouvi os meus primeiros LPs, da coleção “Músicas para Ouvir e Sonhar”, adquiridos por meu pai. No ano seguinte, eles foram substituídos pelo primeiro disco do conjunto de Liverpool – Beatlemania – gosto musical do meu irmão dois anos mais velho e flamenguista.

Nessa Copa, como torcedor do Fluminense, levei vantagem sobre ele, pois entre os vinte e dois selecionados havia três tricolores (Castilho, Jair Marinho e Altair) e nenhum rubro-negro, não importando que fossem reservas e não tivessem atuado em nenhum jogo.

No dia seguinte às partidas, a TV Excelsior mostrava, em preto e branco, os videoteipes completos dos jogos do Brasil, remetidos do Chile por avião. Um dos precursores do uso desta revolucionária técnica televisiva foi o programa “Chico Anísio Show”, que possibilitava aos diversos personagens do comediante contracenarem ao mesmo tempo. Nas noites de domingo, prenúncio das fatídicas segundas-feiras, só se ouviam pelas ruas os acordes de “Hino ao Músico”, prefixo musical do programa por anos e anos.

Nos videoteipes, reparava nos detalhes dos uniformes das seleções estrangeiras. Os times dos países socialistas (Hungria, Tchecoslováquia e Bulgária) tinham os escudos no meio da camisa, em vez de no lado esquerdo, junto ao coração. A seleção da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas – URSS – apresentava essas iniciais, no peito, em alfabeto cirílico – CCCP – que um gaiato traduziu para “Camarada, Cuidado Com Pelé”, como um alerta cifrado, quando enfrentassem o Brasil.

Morria de vontade de ir à Cinelândia, centro do Rio, onde ficava montado um enorme painel vertical representando um campo de futebol, coberto com lâmpadas. Pelos alto-falantes, a multidão atenta acompanhava a narração do jogo e o movimento da bola, indicado pelo acendimento sucessivo das lâmpadas.

O time que iniciou a Copa foi basicamente o mesmo da Suécia em 58, com os craques Gilmar, Djalma Santos, Nilton Santos, Zito, Didi, Vavá e Zagalo. A diferença foi dos zagueiros de área Mauro e Zózimo, que ocuparam o lugar de Beline e Orlando. Mauro, o capitão que levantou a taça Jules Rimet em 62, foi inscrito nas três edições anteriores – Brasil (50), Suíça (54) e Suécia (58) – sem participar de nenhum jogo. Conta-se que argumentou com a Comissão Técnica que seria a última oportunidade de disputar uma Copa e, assim, ganhou a posição.

Mané Garrincha foi o grande destaque da seleção, que perdeu o Rei Pelé no segundo jogo contra a Tchecoslováquia. Foi substituído por Amarildo, o “Possesso”, que logo na sua estreia contra a Espanha marcou os dois gols da nossa vitória por 2×1.

Na semifinal vencemos os donos-da-casa por 4×2, com dois gols de Garrincha, expulso no final, por ter chutado a bunda do seu implacável e violento marcador Eladio Rojas. No julgamento do Mané, o testemunho do bandeirinha uruguaio Esteban Marino, que havia denunciado o lance ao juiz peruano Arturo Yamasaki, poderia tirá-lo da final. Entretanto, “convencido” por dirigentes brasileiros, que já o conheciam, por ter apitado jogos pela Federação Paulista, não compareceu à sessão. Voou no dia seguinte ao jogo para Montevidéu, dizem que via Paris.

A final da Copa de 62 foi contra o “São Cristóvão, cheio de Paulo Amaral”, como Garrincha identificou a seleção da Tchecoslováquia, quando foi informado de que a nossa adversária seria a mesma equipe com quem empatamos em 0x0, nas oitavas-de-final.

O musculoso Paulo Amaral foi um dos precursores da preparação física no Brasil, e trabalhava na seleção desde a Copa anterior. Atuou, também, como técnico, inclusive na Itália (Genoa e Juventus), e comandou o meu tricolor na brilhante conquista do título brasileiro de 70.  Para o Mané, os tchecos tinham o porte atlético do preparador, o seu limitado futebol (chegou a jogar nos juvenis do Flamengo) e usavam uniformes iguais aos do time do São Cristóvão, conhecido como “os alvos”, com calções e camisas brancas.

A partida final foi acompanhada em casa, com a família, ouvindo meu locutor predileto, Clóvis Filho, da Rádio Continental. Sofri com o primeiro gol dos tchecos, de Masopust. Meu pai lembrou que, na final de 58, foram os suecos que abriram o placar, mas que acabamos vencedores por 5×2, o que me reconfortou.

Com gols de Amarildo, Zito (não confundir, com o Zico, que tinha na época apenas nove anos) e Vavá, viramos o jogo. Alguém deu a ideia de rasgarmos jornais e arremessarmos os papéis picados da varanda, para comemorar. Havia muitos deles acumulados, já que o “GAARAAFEEIIRO” não havia passado ainda. Esse grito extenso, com sotaque lusitano, anunciava sua presença nas ruas, arrastando sua pesada carroça cheia de garrafas e jornais velhos, que comprava, de casa em casa, para depois revendê-los.

Em meio à euforia após o jogo, uma surpresa foi ouvir a cantora Elza Soares, que iniciava um romance com o Garrincha, ser entrevistada no vestiário bicampeão. Há quase sessenta anos, uma mulher frequentar aquele ambiente exclusivamente masculino era completamente arrojado e inusitado.

Em minha segunda Copa do Mundo, o Brasil era bicampeão, o que significava para mim que seria o vencedor de todas as outras. Em 1966, na Inglaterra, com a eliminação do Brasil, logo na primeira fase das oitavas-de-final, essa lógica foi duramente quebrada.

* Expressão retirada do livro de Ruy Castro – “Estrela solitária – Um brasileiro chamado GARRINCHA”, pág. 261.

ECOS DE 1982

por Paulo-Roberto Andel


Parece que foi ontem, mas vai fazer quarenta anos. Está fazendo.

Dirigida desde 1980 por Telê Santana, a Seleção Brasileira era a equipe nacional mais respeitada do mundo. Jogando no mínimo uma vez por mês, o Brasil sofreu apenas duas derrotas no período – uma para a URSS no comecinho do trabalho e outra para o Uruguai na final do Mundialito.

Em 1981, a Seleção encantou o mundo definitivamente, ao vencer Inglaterra, Alemanha e França em seus respectivos domínios. A respeito da Alemanha, o Brasil já tinha derrotado os então bicampeões mundiais por 4 a 1 naquele mesmo Mundialito e voltaria a vencer no Maracanã, às vésperas do embarque para a Copa da Espanha. E não foram apenas vitórias, mas shows de bola sobre adversários espetaculares do porte de Keegan, Breitner, Rummenigge, Hansi Muller, Tigana, Tresor, Platini e outras feras.

A Seleção não fazia partidas, mas exibições. Dava gosto em ver. Dribles, passes, tabelas, lançamentos. Naquele tempo se popularizou a expressão futrbol-arte, mas no fundo era apenas o futebol em sua essência, como deveria ser para deixar os torcedores felizes. Futebol de talento, de capacidade e ofensividade, de fazer o adversário se preocupar com o jogo dias e dias antes.

Quando saiu a convocação final, não havia maior prova do grande momento do futebol brasileiro. Ficaram fora da lista final cracaços como Adílio e Mário Sérgio, afora outros nomes que sequer foram cogitados numa lista com 22 convocados – não é exagero dizer que o Brasil poderia colocar 44 jogadores se o regulamento permitisse.

É certo que cada um tem seus gostos e preferências, portanto alguns convocados passaram a ser mais contestados com o tempo. Noutros casos, há quem diga que alguns reservas da Seleção estavam em melhor fase do que os titulares. E o desfecho da Capa de 1982 levou a críticas naturais. Mas nunca é demais lembrar: no início da Copa, o Brasil não era favorito ao título apenas para os brasileiros, mas para o mundo inteiro. Fizemos por merecer com quase dois anos de ótimas partidas, algumas contra as mais poderosas seleções de outros países.

Há quarenta anos, eu era um garoto de treze apaixonado pelo Maracanã, louco para ir às Laranjeiras e fazia de tudo para economizar minha minúscula mesada para ir aos jogos. Fui a muitos, muitos, e em todos eles eu tive a certeza e o orgulho de que jogávamos o melhor futebol do mundo. Quando vejo hoje a reação das pessoas aos jogos da Champions League, lembro que era o que sentíamos pelos nossos jogos locais e os da Seleção Brasileira. Se o desfecho da Copa ficaria longe dos meus sonhos, nada vai tirar o brilho daquelas partidas de 1978 a 1982 na minha memória do Maracanã, nem o início da Era Telê, que começou com o maravilhoso Palmeiras de 1979, que jogava tão bonito a ponto de levar seu treinador à Seleção mesmo sem os títulos paulista e brasileiro.

Ultimamente o que não falta é gente querendo mudar o passado, mas é bom que se diga: a Seleção do Seu Telê jogou demais. Demais.

NUNCA MAIS SEREMOS OS CAMPEÕES DO MUNDO DE 1950

por Arnaldo Jabor

Texto publicado originalmente Folha de São Paulo em 30 de junho de 1998


O pintor Antonio Peticov me gelou a espinha ontem. Mandou-me o seguinte e-mail: “O Brasil ganhou a Copa em 1994. Antes disso, ganhou também em 1970. Some 1970 com 1994 e o resultado será 3964. A Argentina ganhou a Copa em 1986. Antes disso, ganhou também em 1978. Some 1986 com 1978 e o resultado será 3964. A Alemanha ganhou a Copa pela última vez em 1990. Antes, ganhou também em 1974. Some 1990 com 1974 e o resultado será 3964. E, agora, aqui está o que assusta. A Inglaterra ganhou a Copa em 1966. Some 1966 com 1998 e o resultado será 3964!”.

Será que uma Fifa intemporal já traçou nosso destino de derrotas? Sinto um frio na espinha, igual ao frio que senti quando meu avô me levou ao Maracanã pela primeira vez, há muitos anos.

Todo mundo torcia e gritava, e eu percebi, em pânico, que, enquanto todo mundo olhava o jogo, eu olhava os torcedores. Tive um arrepio de horror. “Sou louco?”, pensei. “Por que não estou vendo o jogo, como todo mundo? Por que estou olhando-os viver? Percebi que minha entrada na vida seria rala e difícil. Até hoje estou assim, “olhando os torcedores”.

Futebol para mim sempre foi um trauma. No colégio, aos dez anos, fui agarrar no gol. A bola entrou bem no cantinho da trave e foi considerado “frango” (a gíria era recentíssima). Caí na humilhante segunda divisão, composta de gorduchos, pernas tortas, veados e babacas molengas. Eu era comprido e trêmulo.

Depois, estou na praia da Urca, legendária arena de times famosos: o Arsenal, o Lavaibola, o Ipiranga. Eu adorava o Ipiranga. Nunca jogava, claro. Ficava olhando. Faltou um jogador na hora da partida. “Dá a camisa pra ele!”, gritou o capitão. Todo orgulhoso, ostento a camisa verde e vermelha e chego a fazer umas embaixadas para esquentar. Silvinha, na amurada, me olhava.

Quando vai começar o jogo, chega o Ceará, dono da posição. “Tira a camisa”, gritou o capitão. Até hoje, sofro a dor desse momento. Silvinha, pálida, fingiu que não viu meu fracasso. Eu, para me salvar, me joguei ao mar e não sei se chorei debaixo d’água, pois o sal de meus olhos se misturou com a água da Urca.

Não me levaram ao famoso Brasil x Uruguai em 50. Mas me lembro de meu avô, chorando e dizendo: “Só se ouvia o som dos pés das pessoas descendo as rampas. Ninguém falava. Só se ouviam os sapatos”. “O silêncio era ensurdecedor”, esse foi o oxímoro usado para descrever aquele dia.

Meu amigo Paulo Perdigão, escrevendo sobre esse dia terrível em seu livro “Anatomia de uma Derrota”, tem a tese de que o Brasil seria outro país se tivéssemos ganho “aquela” Copa, “naquele” ano. Talvez não tivesse havido a morte de Getúlio nem a ditadura militar.

Eu penso como ele. Perdigão acha (e eu também) que as outras Copas não chegaram a sarar as feridas daquele dia. A vitória em 50 teria sido essencial para o progresso nacional.

Ele escreve: “Foi uma derrota atribuída ao atraso do país e que reavivou o tradicional pessimismo da ideologia nacional: éramos inferiores por um destino ingrato. Tal certeza acarretou nos brasileiros a angústia de sentir que a nação tinha morrido no gramado do Maracanã…”. E aí ele diz a frase rasgada de dor: “Nunca mais seremos campeões do mundo de 1950!”.

A partir desse dia, associei futebol e país, numa “tabelinha” histórica. As taças de 58 e 62 marcaram um momento de abertura econômica e de progresso cultural jamais vistos. JK, Brasília, bossa nova, cinema, teatro, reformas populares em um país novo. Mas a esperança seria arrebentada em 64, pelo golpe.

A Copa de 70 teve para mim um sabor amargo e doce, que fazia sorrir o ditador Médici, legitimando a tortura e a morte de heróis. A taça de 70 foi outro oxímoro: uma “alegria dolorosa”. Eu imaginava os torturadores e seus torturados no “pau-de-arara”, todos torcendo pelo Brasil. A vitória em 70 veio animar o torto “milagre brasileiro”, que nos mergulhou em buracos de dívidas impagáveis.

Depois, vieram: a derrota das eleições diretas, a morte de Tancredo Neves, que teve o mesmo gosto de absurdo do Brasil x Uruguai; depois, os “anos Sarney”, quando parecia que o Brasil nunca mais sairia do buraco, descrente até mesmo da liberdade, com a falência do Estado e a descoberta de que a “democracia real” não existia dentro das instituições, nos alicerces do país.

Depois desse período letárgico, com gosto de conto-do-vigário, os brasileiros deprimidos chamaram o “bonapartismo narcísico” de Collor para “salvá-los” mais uma vez… Acho até que Collor nos “ajudou” com seus erros, que foram tantos, que nos acordaram do fracasso passivo que já durava havia 40 anos, desde a derrota de 50.

O impeachment e os caras pintadas foram o “trailer” da vitória de 94, com o governo FHC raiando com “novas palavras”. Quase no mesmo mês, derrotamos a inflação e viramos tetracampeões. Um novo tempo estava começando!

Mas aí chego a hoje, dia em que escrevo esta coluna, depois do jogo Brasil x Chile. Vi o quê? Vi uma vitória não merecida, com um time de craques sem completar jogadas, com uma trama de jogo hesitante.

Vi um time parecido com o tempo político que estamos vivendo. Tudo para dar certo e não dando, saídas esperançosas e frustrações imediatas, falta de penetração, falta de gols, um “bom senso” de classe média de Zagallo, que tira o brilho da coragem, jogadores seduzidos pela economia global da Nike, como, aliás, o próprio país.

E aí um terceiro arrepio me gela a espinha. E se não der certo a idéia de país a que FHC e o mundo nos levam? E se a Inglaterra, com seus “hooligans”, for campeã, como reza a profecia de Peticov? Vejam: 1966 + 1998 = 3964.

Que quer dizer esse número fatídico? Que destino nos está reservado? Conseguiremos entrar no ano 2000 de cara nova? Tenho medo que não. Talvez nosso destino tenha sido traçado pelo gol de Ghiggia. Deus nos proteja. Acho que nunca mais seremos campeões do mundo de 1950…

1970 – O ANO DA CONQUISTA DO TRI E DO RIO QUE PASSOU EM MINHA VIDA

por Victor Kingma


Todos os amantes do esporte costumam se lembrar, e até contar com detalhes, daquela conquista ou vitória importante do seu time ou da seleção, mesmo passados tantos anos. 

Afinal, o Brasil é o país do futebol, movido pela paixão dos torcedores pelo seu clube do coração e pelo escrete nacional, principalmente nos anos de Copa do Mundo.

Entretanto, dificilmente nós, boleiros, nos lembraremos do que de importante acontecia no país ou no mundo, naqueles anos das grandes conquistas.

Nesse texto, estarei abordando exatamente esse tema. 

Como era a vida e os costumes em 1970, ano da memorável conquista do tricampeonato?

Naquele ano pela primeira vez os torcedores puderam assistir pela televisão aos jogos da Copa do Mundo através de um pool de emissoras formado por Globo, Tupi, Bandeirantes e Record. 

Definido por sorteio, os locutores de cada emissora narravam um tempo do jogo. Geraldo José de Almeida (Globo), Walter Abraão e Oduvaldo Cozzi (Tupi) e Fernando Solera (Bandeirantes e Record) se revezavam nas transmissões.

Os respectivos comentaristas eram João Saldanha, Rui Porto/Geraldo Bretas, e Leônidas da Silva.  

A seleção, com craques consagrados como Carlos Alberto, Rivelino, Gerson, Jairzinho, Tostão e Pelé encantava o mundo com uma equipe mágica e se tornava tricampeã mundial de futebol, no México. 

Nos dias dos jogos do Brasil os torcedores, em suas casas ou aglomerados em frente às TVs espalhadas pelas praças, vibravam com cada gol da seleção. 

Um bordão ficou famoso naquela Copa, na narração vibrante de Geraldo José de Almeida, da TV Globo: 

– Olha lá, olha lá, olha lá, no placar!

Tudo isso embalado pela música ufanista de Miguel Gustavo que tocava nas rádios o dia todo:

“Noventa milhões em ação,

Pra frente Brasil

Salve a seleção!”

Contrastando com a alegria do futebol, na política o Brasil vivia tempos sombrios. A ditadura militar implantada no Brasil em 1964, onde ocorreu a ruptura democrática e a tomada do poder civil com a deposição do presidente João Goulart, vivia o auge da repressão política/cultural, no governo Médice. Direitos fundamentais dos cidadãos foram retirados e os brasileiros proibidos de se manifestarem livremente.  

Na música o movimento da Jovem Guarda, após o auge na segunda metade dos anos 60, estava quase no fim e Roberto Carlos, sua maior expressão, iniciava uma nova etapa em sua carreira, fazendo grande sucesso com a canção “Jesus Cristo”, a primeira música religiosa gravada por ele – e que passaria a ser uma constante em seus discos. 


Ainda na música a canção mais tocada em 1970 foi o clássico de Paulinho da Viola, “Foi um Rio que Passou em Minha Vida”, uma exaltação à sua escola de samba, a Portela. Considerado um dos melhores sambas de todos os tempos.

O ano ficou marcado ainda por ter ocorrido o fim dos Beatles, o mágico quarteto de Liverpool formado por John, Paul, George e Ringo.  

Nas publicações esportivas a Revista Placar, lançada em março, próximo à Copa, era um sucesso entre os leitores. 

Na televisão a grande atração era a novela Irmãos Coragem. O Brasil parava às oito horas da noite para assistir na TV Globo, e ainda em preto e branco, o folhetim de Janete Clair que contava a saga dos irmãos João, Duda e Jerônimo, interpretados respectivamente por Tarcísio Meira, Cláudio Marzo e Cláudio Cavalcante.


O filme Love Story levava multidões aos cinemas para assistir a história do amor proibido de dois jovens de classes sociais diferentes e…

Nas ruas e nos bailes de fim de semana, os jovens, um tanto alienados em relação à política e influenciados pelos hábitos de seus ídolos, trajavam calças boca de sino, sapatos plataforma e cabelos tipo Black Power. 

                  Naquele tempo era assim.

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INTERVENÇÃO GARANTE O TETRA

Parreira e Zagallo não queriam Romário em 1994

por Elso Venâncio


Romário fez o jogo de sua vida contra o Uruguai, pelas Eliminatórias da Copa do Mundo dos Estados Unidos, em 19 de setembro de 1993. Uma das maiores atuações individuais de um jogador em toda a história da seleção brasileira.

O atacante só foi chamado por duas razões: absurda pressão nacional e intervenção do presidente da CBF, Ricardo Teixeira, que obrigou a comissão técnica a convocá-lo.

Parreira e Zagallo não o queriam, já que no ano anterior, em 16 de dezembro de 1992, o Baixinho reclamou por ficar na reserva. Careca e Bebeto foram titulares contra a Alemanha, em Porto Alegre. Romário sentou no banco ao lado de Renato Gaúcho e só entrou no fim do jogo. “Nunca fui reserva e sou melhor que os dois juntos”, extravasou o artilheiro que assombrava a Europa. A frase deixou os técnicos de olhos arregalados. Ambos procuraram o craque em seu quarto no hotel, após o jogo, para um puxão de orelhas.

Naquele momento, Romário foi riscado das Eliminatórias e, consequentemente, da própria Copa.

Zagallo era enfático:

“Desagregador. Temos que cortar o mal pela raiz.”

Parreira, mais diplomático:

“Vamos aguardar. Só o tempo dirá se ele volta.”

Ninguém esperava tamanha crise. O Brasil tinha sido eliminado da Copa América do Equador, ao perder nos pênaltis para a Argentina, e capengava nas Eliminatórias. Chegou a ser derrotado pela Bolívia em La Paz, fato inédito. Na penúltima rodada, Brasil, Bolívia e Uruguai se encontravam empatados, com 10 pontos ganhos. A seleção corria riscos, podendo ficar fora de um Mundial pela primeira vez na História.

Romário, no PSV-Eindhoven, da Holanda, era uma máquina de fazer gols. No começo de 1993, foi comprado a peso de ouro pelo Barcelona, que era dirigido pelo genial Johan Cruyff. No novo clube, mal chegou o Baixinho desandou a fazer o que mais sabia: gols. Era um atrás do outro. Um mais belo do que o outro.

Em sua estreia, na abertura do Campeonato Espanhol, os campeões da Champions League venceram o Real Sociedad por 3 a 0. Três de Romário. Parreira e Zagallo, a contra gosto, recuaram, baixando a guarda em relação à rixa estabelecida entre eles meses antes.

Romário desembarcou na semana do jogo contra o Uruguai, após estranho corte de Müller, e mudou o astral na Granja Comary. A confiança estava de volta e o otimismo em Teresópolis só foi quebrado devido à humilhação sofrida por Barbosa, 43 anos após o “Maracanazo”.

O ex-goleiro recebeu um cachê para ser levado pela BBC, de Londres, a Teresópolis com a finalidade de fazer um registro dele ao lado de Taffarel. Eu acompanhava tudo de perto e vi o constrangimento de Barbosa. Aos 72 anos de idade, ele foi impedido por Parreira de falar com o então titular da camisa 1 da seleção.

Zagallo se comportou de forma mais humana. Não era de agradar ninguém, mas foi ao encontro de Barbosa. Os dois conversaram por certo tempo. Barbosa sempre lembrava que, no Brasil, a pena máxima por qualquer delito era de 30 anos, mas ele pagava a dele havia mais de 40 por um crime que jamais cometeu. Apenas levou um gol que impediu o país de comemorar, em casa, o seu primeiro título mundial.

Veio o tão esperado jogo! O placar eletrônico anunciava: 101.670 pagantes, fora os eternos penetras. Maracanã lindo, entupido de gente. Clima tenso, com muita gente da imprensa trazendo à tona os fantasmas de 1950.

Em campo, Romário mostrou toda a sua genialidade. Marcou os dois gols da partida. O primeiro, de cabeça. O segundo, driblando o gigante goleiro Siboldi. Ainda chutou na trave, deu lençol, passou a bola por entre as pernas de um marcador. O normalmente contido Sérgio Noronha, “Seu Nonô”, me puxou pelo braço e sussurrou:

“Esse baixinho é foda! Foda!!!”

Sem sombra de dúvidas, foi um momento histórico que abriu caminho para que a seleção conquistasse, no ano seguinte, mesmo a duras penas, o seu quarto título mundial. Uma conquista entalada na garganta do povo nacional havia 24 anos.

O Brasil tinha à época os dois maiores atacantes do mundo e isso fez toda a diferença: Bebeto e Romário. Os dois já haviam arrebentado na Copa América de 1989. Pena que não continuaram brilhando juntos após o Tetra.

Em 1995, Parreira se afastou do comando. Zagallo assumiu, mas a rixa não teve fim. Romário, mesmo sendo o melhor do mundo, padeceu meses sem ser convocado. No ano seguinte, Olimpíadas de Atlanta. Zagallo descartou Romário para levar Aldair, Rivaldo e Bebeto como os três jogadores acima de 23 anos, o que a Fifa ainda permitia. Bebeto foi o artilheiro da competição, junto com o argentino Hernán Crespo, mas o Brasil, eliminado pela Nigéria, ganhou apenas a medalha de bronze.

Em 1997, Zagallo acusou Romário de simular contusão e o barrou na decisão da Copa América, contra a Bolívia, escalando Edmundo em seu lugar. Um ano depois, cortou o Baixinho da Copa do Mundo da França após o atacante realmente se contundir durante um jogo do Flamengo em Friburgo. Romário chorou. Garantia que se recuperaria a tempo de jogar o Mundial. Não o ouviram. O craque voltou às pressas ao Brasil e, provando que tinha razão, jogou pelo Flamengo durante o Mundial, inclusive marcando gol. A seleção perdeu a Copa para a anfitriã do torneio.

Após a derrota acachapante – França 3×0 –, Romário abriu uma boate na Barra da Tijuca colocando na porta dos banheiros caricaturas de Zagallo e Zico, então coordenador técnico da seleção no Mundial e responsável direto por lhe noticiar seu corte. Os desenhos? Zagallo sentado na privada – como quem quer dizer que fez merda – e Zico segurando o rolo de papel higiênico – dando a ideia de que coube ao Galinho limpar aquela “cagada”. O caso parou na Justiça.

Romário ainda poderia ter ido à Copa do Mundo da Coréia e do Japão, mas Felipão o preteriu após longa conversa com Ricardo Teixeira, depois de o Baixinho ter se recusado a disputar um amistoso. Ronaldo, às voltas com graves contusões, mesmo sendo uma incógnita, teve seu nome confirmado na competição. E menos mal que voltou ao Brasil com a taça na mão e a artilharia da Copa, sagrando-se pela terceira vez o melhor jogador do mundo.

Mas que o país queria ver em campo a dupla Ro-Ro, ah, isso todo mundo queria. O Brasil foi penta, mas a conquista teria sido bem mais bonita com os dois juntos no ataque.