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Futebol

TORCER CONTRA

por Rubens Lemos

Mente elasticamente aquele que, fulminado pelo fracasso do seu time, diz que não torce contra o maior adversário. É exercício sacana e desesperador. Tipo o pusilânime “se a gostosa não é minha, daquele idiota também não vai ser”.

É cívico torcer por time ruim. Cívico e masoquista. Desde sempre vascaíno, nem torço com fervor pelo meu ex-clube, há 22 anos, caricatura de uma linda história de craques e postura, a maior delas, a de ser o primeiro a aceitar negros jogando futebol no Brasil. O Vasco fez história libertária.

Na formação tipificada do vascaíno, há, em primeiro plano, o anti-flamenguista. É uma célula radical e equitativa ao sentimento de idolatria ao cruzmaltino. A repulsa ao Flamengo é um movimento crescente, pelo derrotismo intrínseco do Vasco e a piora gradual do comportamento dos rubro-negros.

Se você é Vasco, Botafogo ou o campeão carioca Fluminense, não pode tolerar as chateações urubulinas. Algumas que marcam uma vida como é o meu exemplo. A gozação flamenguista deriva para o mau gosto, o cinismo e o ódio.

Deixe-me contar o meu caso específico: em 1994, o Vasco foi tricampeão carioca pela primeira e última vez. Um belo time e uma conquista mórbida.

O craque chamava-se Dener Augusto de Souza. Um gênio do drible, 23 anos, comparado sem motivo a Pelé, mas o cara que teria sido o Rei de sua geração. Fazia da bola, prostituta obediente.

Dener costurava defesas em velocidade e habilidade que Neymar nunca sonharia em imitar parecido. Em busca da vitória. Era poético ao dizer que “o drible era mais bonito que o gol”.

Em sua estreia, contra o Newell’s Old Boys da Argentina, deixou boquiaberto Diego Armando Maradona, que bateu palmas para ele.

Dener costurou a zaga portenha aos gingados, fazendo marcador bater cabeça. E um dos lances mais acessados do Youtube. Lindo, lindo, lindo. Dener era extraordinário.

Depois de dar um show de bola contra o Fluminense, entortando o lateral-esquerdo Branco da seleção brasileira, Dener viajou a São Paulo para tratar da venda de seu passe ao futebol alemão. Saiu do Maracanã, jantou na capital paulista e voltou de madrugada num possante – para a época – Mitsubishi Eclipse.

A dor lancinante – a maior que senti como torcedor do Vasco – veio de manhãzinha da segunda-feira, 19 de abril. Dener morre asfixiado pelo cinto de segurança dormindo no banco do carona.

O motorista, que tinha envolvimento com traficantes de drogas e seria assassinado -, perdeu o controle do carro. Ainda hoje tenho saldo de lágrimas pelo choro convulsivo na morte de Dener.

O que fazem os flamenguistas? O imperdoável. No primeiro domingo sem Dener, Vasco x Flamengo com 98.027 pagantes no Ex-Maracanã, aquele das gerais, dos pobres desdentados formando um painel de classes sociais desenhando a democracia (perdida) no futebol.

Os dois times em campo (taí a foto acima). Antes do apito inicial, eis a deslealdade da massa rubro-negra, parodiando trechos do clássico carnavalesco Jardineira. Foi um ato asqueroso: “Ô vascaíno, por que estas tão triste/ Mas o que foi que te aconteceu/ Foi o Dener que bateu no carro/ Quebrou o pescoço e depois morreu”.

A punhalada cafajeste mexeu com os jogadores do Vasco, que perderam a única partida (1×2) da brilhante campanha na conquista inédita. O Vasco daria o troco com o baixinho William, canhoto sensacional em lugar de Dener, derrotando o Fluminense. Mas aquele coro covarde, nunca será perdoado.

Tenho inúmeros amigos flamenguistas, minha mãe era flamenguista, mas não dá para aguentar flamenguista de caráter apodrecido. O tal do Gabigol é o típico exemplar do jeito Flamengo de pisotear vencido. Provoca, exibe faixas, mexe com a torcida do rival.

Age o centroavante banal como se sua bola apenas razoável lhe desse o direito de compartilhar o espírito de porco que carrega sob a pele. Ou acima dela. A grandeza está no saber vencer e o Flamengo não sabe.

Daí me flagrar em êxtase, em qualquer olé sobre o Flamengo seja em decisão carioca, seja em jogo banal ou de baralho. O som da frase: Flamengo perdeu me faz bem. Nem quando uma namorada me deu o fora e descobri que tinha caspa , fiquei tão feliz.

FINAL DA COPA DE 62 CONTRA “O SÃO CRISTÓVÃO CHEIO DE PAULO AMARAL”

Treino da Seleção para a Copa de 62, em Nova Friburgo. Da esquerda para a direita, em pé: Garrincha, Nilton Santos, De Sordi,
Jurandir, Aldemar, Zagalo, Benê e Paulo Amaral. Agachados: Valdir, Jair Marinho, Zequinha, Rildo, Amarildo, Germano e Gilmar.

por José Carlos Faria

Assim Garrincha identificou o time da Tchecoslováquia, adversário do Brasil na final da Copa do Mundo de 62.

Eu tinha dez anos e acompanhei as partidas da Copa do Mundo de 62, no Chile, em uma “moderna” Rádio Vitrola Philco, embutida em móvel de pés palitos. Nela ouvi os meus primeiros LPs, da coleção “Músicas para Ouvir e Sonhar”, adquiridos por meu pai. No ano seguinte, eles foram substituídos pelo primeiro disco do conjunto de Liverpool – Beatlemania – gosto musical do meu irmão dois anos mais velho e flamenguista.

Nessa Copa, como torcedor do Fluminense, levei vantagem sobre ele, pois entre os vinte e dois selecionados havia três tricolores (Castilho, Jair Marinho e Altair) e nenhum rubro-negro, não importando que fossem reservas e não tivessem atuado em nenhum jogo.

No dia seguinte às partidas, a TV Excelsior mostrava, em preto e branco, os videoteipes completos dos jogos do Brasil, remetidos do Chile por avião. Um dos precursores do uso desta revolucionária técnica televisiva foi o programa “Chico Anísio Show”, que possibilitava aos diversos personagens do comediante contracenarem ao mesmo tempo. Nas noites de domingo, prenúncio das fatídicas segundas-feiras, só se ouviam pelas ruas os acordes de “Hino ao Músico”, prefixo musical do programa por anos e anos.

Nos videoteipes, reparava nos detalhes dos uniformes das seleções estrangeiras. Os times dos países socialistas (Hungria, Tchecoslováquia e Bulgária) tinham os escudos no meio da camisa, em vez de no lado esquerdo, junto ao coração. A seleção da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas – URSS – apresentava essas iniciais, no peito, em alfabeto cirílico – CCCP – que um gaiato traduziu para “Camarada, Cuidado Com Pelé”, como um alerta cifrado, quando enfrentassem o Brasil.

Morria de vontade de ir à Cinelândia, centro do Rio, onde ficava montado um enorme painel vertical representando um campo de futebol, coberto com lâmpadas. Pelos alto-falantes, a multidão atenta acompanhava a narração do jogo e o movimento da bola, indicado pelo acendimento sucessivo das lâmpadas.

O time que iniciou a Copa foi basicamente o mesmo da Suécia em 58, com os craques Gilmar, Djalma Santos, Nilton Santos, Zito, Didi, Vavá e Zagalo. A diferença foi dos zagueiros de área Mauro e Zózimo, que ocuparam o lugar de Beline e Orlando. Mauro, o capitão que levantou a taça Jules Rimet em 62, foi inscrito nas três edições anteriores – Brasil (50), Suíça (54) e Suécia (58) – sem participar de nenhum jogo. Conta-se que argumentou com a Comissão Técnica que seria a última oportunidade de disputar uma Copa e, assim, ganhou a posição.

Mané Garrincha foi o grande destaque da seleção, que perdeu o Rei Pelé no segundo jogo contra a Tchecoslováquia. Foi substituído por Amarildo, o “Possesso”, que logo na sua estreia contra a Espanha marcou os dois gols da nossa vitória por 2×1.

Na semifinal vencemos os donos-da-casa por 4×2, com dois gols de Garrincha, expulso no final, por ter chutado a bunda do seu implacável e violento marcador Eladio Rojas. No julgamento do Mané, o testemunho do bandeirinha uruguaio Esteban Marino, que havia denunciado o lance ao juiz peruano Arturo Yamasaki, poderia tirá-lo da final. Entretanto, “convencido” por dirigentes brasileiros, que já o conheciam, por ter apitado jogos pela Federação Paulista, não compareceu à sessão. Voou no dia seguinte ao jogo para Montevidéu, dizem que via Paris.

A final da Copa de 62 foi contra o “São Cristóvão, cheio de Paulo Amaral”, como Garrincha identificou a seleção da Tchecoslováquia, quando foi informado de que a nossa adversária seria a mesma equipe com quem empatamos em 0x0, nas oitavas-de-final.

O musculoso Paulo Amaral foi um dos precursores da preparação física no Brasil, e trabalhava na seleção desde a Copa anterior. Atuou, também, como técnico, inclusive na Itália (Genoa e Juventus), e comandou o meu tricolor na brilhante conquista do título brasileiro de 70.  Para o Mané, os tchecos tinham o porte atlético do preparador, o seu limitado futebol (chegou a jogar nos juvenis do Flamengo) e usavam uniformes iguais aos do time do São Cristóvão, conhecido como “os alvos”, com calções e camisas brancas.

A partida final foi acompanhada em casa, com a família, ouvindo meu locutor predileto, Clóvis Filho, da Rádio Continental. Sofri com o primeiro gol dos tchecos, de Masopust. Meu pai lembrou que, na final de 58, foram os suecos que abriram o placar, mas que acabamos vencedores por 5×2, o que me reconfortou.

Com gols de Amarildo, Zito (não confundir, com o Zico, que tinha na época apenas nove anos) e Vavá, viramos o jogo. Alguém deu a ideia de rasgarmos jornais e arremessarmos os papéis picados da varanda, para comemorar. Havia muitos deles acumulados, já que o “GAARAAFEEIIRO” não havia passado ainda. Esse grito extenso, com sotaque lusitano, anunciava sua presença nas ruas, arrastando sua pesada carroça cheia de garrafas e jornais velhos, que comprava, de casa em casa, para depois revendê-los.

Em meio à euforia após o jogo, uma surpresa foi ouvir a cantora Elza Soares, que iniciava um romance com o Garrincha, ser entrevistada no vestiário bicampeão. Há quase sessenta anos, uma mulher frequentar aquele ambiente exclusivamente masculino era completamente arrojado e inusitado.

Em minha segunda Copa do Mundo, o Brasil era bicampeão, o que significava para mim que seria o vencedor de todas as outras. Em 1966, na Inglaterra, com a eliminação do Brasil, logo na primeira fase das oitavas-de-final, essa lógica foi duramente quebrada.

* Expressão retirada do livro de Ruy Castro – “Estrela solitária – Um brasileiro chamado GARRINCHA”, pág. 261.

O AMIGO DE MARINHO CHAGAS

por Rubens Lemos

Os apresentadores do Jornal Nacional, Cid Moreira e Sérgio Chapelin, fizeram o suspense habitual dos anúncios de convocações da seleção brasileira naquela noite de 10 de maio de 1973. 

A massa de olhos grudados nas raras TVs em cores esperava a novela Cavalo de Aço, na qual o herói Rodrigo, vivido pelo ator Tarcísio Meira, lutava contra as injustiças cometidas pelo latifundiário Max, personagem interpretado pelo veterano Ziembinski e pelo amor da fazendeira Miranda, na pele de Glória Menezes.

Transmissões que paravam o país na trama assinada por Walter Avancini. Havia, no entanto, a expectativa pela confirmação das especulações sobre mudanças estruturais do técnico Zagallo no escrete canarinho, diante da luz radiosa do tricampeonato de 1970. Do Tri, estavam fora da seleção, o goleiro Félix, o zagueiro Brito, o lateral-esquerdo Everaldo, os gênios Gerson e Tostão e o Rei Pelé. 

Um ano antes, a seleção penou para ganhar a Mini-Copa, torneio sem graça em que a vitória na decisão sobre Portugal aconteceu somente aos 43 minutos do segundo tempo em cabeçada de Jairzinho que fez – de verdade ou não -, o General de plantão no Poder, Garrastazu Médici, se deixar filmar e fotografar com um lencinho no rosto, em aparente sinceridade no choro. Portugal atuara no então novíssimo Estádio Castelo Branco em Natal, com direito a show do astro Eusébio. 

Zagallo buscava novos nomes e, passava das 21 horas, o público vibrou em Natal e pipocaram os foguetões com a presença na lista do jovem camisa 6 Marinho Chagas, garotão precocemente ídolo do Botafogo (RJ). Marinho Chagas começava a saga que o consagraria na Copa do Mundo de 1974, da qual sairia melhor do planeta em sua posição. 

Os bares de Natal lotaram com os cabeludos e donos de potentes jubas black power comentando a presença do loiro suburbano natalense na seleção. O último potiguar convocado fora Dequinha, do Flamengo, nascido em Mossoró e presente na Copa de 1954. 

Muitos confundem Lula, ponta-esquerda do Fluminense e do Internacional como potiguar. Nunca foi. Nasceu em Pernambuco e veio morar em Natal, de onde saiu aos 18 anos para brilhar no Sudeste.

Pernambucano também era o goleiro Wendell Lucena Ramalho, 26 anos, titular do Botafogo e melhor amigo de Marinho Chagas no Rio de Janeiro. Quando Marinho chegou no Náutico, Wendell já estava no alvinegro e foi seu anfitrião e cicerone, dois cabras da peste vitoriosos no palheiro da bola nacional. 

Wendell e Marinho Chagas se apresentaram juntos ao técnico Zagallo numa seleção que faria um jogo contra a Bolívia no Maracanã, goleada brasileira por 5x0, antes de longa excursão pela África, Europa e Leste Europeu. 

Marinho Chagas não teve a menor dificuldade em barrar o refinado Marco Antônio, do Fluminense, exuberante na técnica, frágil emocionalmente. Tanto que perdeu a posição na campanha do tricampeonato para o esforçado Everaldo, do Grêmio. 

Wendell criou uma crise quando Zagallo definiu revezamento entre ele, o intocável e insuportável Leão e o discreto Renato, do Flamengo. Leão sempre saiu mal do gol, defeito que Wendell nunca teve, atento aos cruzamentos e melhor posicionado na grande área.

Marinho Chagas e o seu amigo nordestino se deram bem. Ou quase. Ambos figuraram na relação dos 22 convocados, divulgada a 18 de fevereiro de 1974. 

Wendell foi o titular na vitória de 1×0 sobre a Tchecoslováquia no Maracanã, gol de Marinho Chagas. Além de Clodoaldo, o esguio goleiro ficou fora do mundial por contusão e Leão, conhecedor da afinidade entre os dois botafoguenses, passou a perseguir Marinho Chagas.

Do Botafogo, em 1977, Marinho Chagas e Wendell partiram para o que restava da Máquina Tricolor do Fluminense, sem Rodrigues Neto, Gil, Paulo César Caju e Dirceu. 

Marinho Chagas, brilhante, seguiu ao Cosmos de Nova York. Wendell jogou em vários clubes, seguro, mas desmotivado. Treinador de goleiros no Tetra 1994, Wendell morreu subitamente na segunda-feira . Aos 74 anos. Marinho Chagas lhe abriu as portas do campo dos sonhos, onde não existe discriminação nem derrota.

O FANTÁSTICO MUNDO DOS ESCUDOS

por Paulo-Roberto Andel

Anos atrás, quando tive a oportunidade ímpar de entrevistar Gilberto Gil, ele me disse da fascinação que tinha ao preparar seu jogo de botões com o escudo do Fluminense, motivo de sua paixão pelo clube. Depois pensei bastante e cheguei à mesma conclusão: não sei quando me tornei tricolor, mas eu já adorava o escudo do Flu. Curioso é que a afeição de Gil pelo time do Bahia vinha dos ídolos e não primordialmente do escudo, tais como o ágil ponta Marito e o goleiro Lessa. E eu, que sempre gostei do escudo do Bahia, logo cedo colecionei botões de galalite do clube.

Paixão, paixão mesmo, sempre foi só uma – o Fluzão -, mas gosto de escudos de times desde criança. Duas situações foram decisivas para isso.

A primeira quando passei a fazer as apostas de meu pai na loteria, algo em torno de 1978. Eu mal tinha dez anos de idade, mas fazia os jogos para ele. Vibrava quando me pedia para que fosse apostar, vejam vocês como é ser criança: eu torcia para que tivesse muita gente na fila de apostas, só para ficar vendo a parede da agência lotérica com calma. Era abarrotada por escudinhos de ponta a ponta. Eu adorava. Foi na parede da loteria, que pertencia ao Seu Carlos e funcionou por muitos anos no Shopping dos Antiquários, em Copacabana, que vi pela primeira vez o CSA, o Sampaio Correia, o Guarany de Sobral, o América do Recife e tantos outros times.

A segunda, quando passei a ler a revista Placar semanalmente. Além de ter tudo sobre futebol, ela sempre disponibilizou cartelas de escudinhos para os botões, que você recortava e colava. Na seção de cartas, volta e meia alguém pedia “Publiquem o escudo do Chuteirense”. A Placar atendia todo mundo sem falta. Tempos depois, a revista disponibilizou um álbum com os grandes clubes do mundo, cujas fotos eram os próprios escudos dos clubes. Imagine descobri-los num tempo sem internet e que por vários motivos, não eram publicados em nenhum outro lugar.

Tive uma decepção quando descobri que, nos anos 1970/80, vários times europeus não usavam o escudo do time em suas camisas de jogo. Como era possível? Pois é, mas com o tempo isso acabou, felizmente.

Já experimentou passar por uma banca de jornal de antigamente, daquelas que vendem jornais, revistas e miscelânea? Invariavelmente tem uma parede de adesivos e, claro, os escudos de times de futebol estão presentes.

Ver os escudinhos passeando no antigo placar eletrônico do Maracanã era um barato para qualquer criança, não somente dos times tradicionais mas também das equipes que raramente jogavam por aqui. O antigo Campeonato Brasileiro, com dezenas de times, favorecia essas descobertas, assim como é hoje nas fases iniciais da Copa do Brasil.

Curiosamente, eu não tenho uma coleção de escudos, exceto pelos meus times de botão. Adoro olhar tabelas antigas e atuais de campeonatos de todos os tipos. A Sul-americana é um barato porque volta e meia traz algumas equipes quase desconhecidas no Brasil – e, claro, tem sempre um escudo novo. O Google é um oceano de escudos.

Outra fonte para minha diversão é meu amigo Kleber Monteiro, grande escritor de futebol que faz um trabalho excepcional com camisas e livretos de clubes extintos. É fascinante ver escudos de times que nunca vi em ação, que já não existem mas, de algum modo, escreveram páginas da história. É um poço sem fundo de descobertas. Imagine o futebol do Rio nos anos 1910 e 1920, com a febre da formação de times e campos espalhados por toda a capital da República? Quantos e quantos times, quantas e quantas narrativas?

Por trás de cada escudo há vida, construção e luta, há dedicação e história. Tanto faz se é de um time de grande porte ou humílimo, se está em plena forma ou se foi extinto, se é familiar a milhões ou desconhecido: cada escudo traz uma referência própria, até mesmo quando foi claramente inspirado em outro. Se um dia tivermos uma exposição sobre escudos de times brasileiros, por exemplo, ali estará não apenas uma representação do esporte que tanto amamos, mas também um desenho da nossa própria vida brasileira desde o início do século XX.

Eu amo todos os escudinhos.

@pauloandel

ONDE ESTÃO OS FUROS DE REPORTAGEM?

por Elso Venâncio

Jorge Jesus ficou pouco mais de uma semana no Rio, deslumbrado com seu status de ídolo. A situação do conterrâneo português Paulo Souza, que desarruma o time mais do que arruma, fez aumentar o coro de “Volta, Jesus”. O treinador campeão da Libertadores de 2019 rodou a cidade, reencontrou amigos e jogadores, além do seu restaurante preferido. Na Sapucaí, durante todo o Desfile das Campeãs, era uma celebridade. Até ir ao encontro de dirigentes e jornalistas e chutar a ética profissional, pensando estar entre amigos, onde poderia abrir seu coração. Acabou virando uma espécie de “traíra” – termo muito usado no futebol.

Isso me fez sentir falta dos furos de reportagem. Essas entrevistas coletivas chatas, os treinos fechados e a falta de contato do torcedor com seus ídolos vêm adormecendo a imprensa. É estatística pra lá, estatística pra cá, mas… cadê a notícia?

Sim, até que há algumas. Só que repetidas ou requentadas. Não há mais a disputa saudável pela informação. Onde estão os GRANDES FUROS DE REPORTAGEM?

Durante um programa na TV, junto a Cahê Mota, que representa com brilhantismo na Globo a nova geração do Esporte, debatemos o tema. Ele explicou que hoje é tudo em tempo real. A redação cobra postagens imediatas, antes, durante e após os fatos. Ninguém tem paciência para suportar a ansiedade e trabalhar uma notícia.

Os chefes têm culpa no cartório. Não cobram mais boas informações. Veículo grande tem obrigação de INFORMAR COM EXCLUSIVIDADE. Hoje é muita gente atrás do computador, atenta aos twitters. O celular virou instrumento de trabalho, mas nada como a apuração olho no olho! Indo pra rua! Buscando “A Notícia”.

Jantei recentemente com meu amigo Sérgio Lobo, o Lobinho, do SporTV:

“Você tem o telefone do Landim?” – pergunto. “Você liga para o presidente?”

“Não. Não temos contato.”

Como assim? Argumento que Landim é um dos personagens do futebol dos mais agradáveis que conheço. É acessível e valoriza quem está ao seu lado. Lobinho ainda completou dizendo que o presidente Mário Bittencourt, do Fluminense, lê as mensagens e um assessor retorna.

As redes sociais aproximam as pessoas, atualmente contatamos qualquer um. Teve até o caso de um paulista que ligou para o Michel Temer quando ele era o Chefe do Executivo. E o Presidente da República, simplesmente, assim o atendeu:

“Sim, sou eu” – respondeu Temer.

No futebol, noto que há um abismo cada vez maior entre os setoristas, que vem diminuindo a cada dia, e quem comanda os clubes. O que dificulta ainda mais o vazamento das grandes notícias, aquelas capazes de abalar estruturas.

Em 1997, o “Maestro” Junior, que nunca se firmou como técnico, foi afastado após um empate do Flamengo com o Madureira, em Conselheiro Galvão. No tenso e acanhado vestiário, assim que eu o questionei sobre o jogo, ele declarou que não era treinador. Disse que estava apenas “colaborando”.

“Mas… como assim?” – perguntei, surpreso.

Não obtive resposta.

No início da madrugada, recebo a informação de que Evaristo de Macedo tinha ido para o apartamento do então presidente rubro-negro, Kleber Leite, no Posto 6, ao lado do Forte de Copacabana. Dei plantão por lá. A reunião, que contou também com Plínio Serpa Pinto e Michel Assef, só terminou depois das três da manhã. Porém, o Rio amanheceu ouvindo, pela Rádio Globo, o nome do substituto do recém-demitido “treinador”.

Sei que o momento é outro e que vida de repórter não é fácil. Mas a busca pela notícia tem que ser constante e não ficar restrita a comunicados oficiais ou coletivas de Imprensa.