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Futebol

ZEBRA: NOVO MICO-LEÃO-DOURADO DO FUTEBOL?

por Raphael Soledade e Rafael Maia

As zebras não são mais unanimidade no universo do futebol. Há até quem proclame a sua extinção. O ex-jogador Paulo Cézar Caju, tricampeão mundial naquela mágica seleção de 70, defende que “o futebol, hoje em dia, está totalmente parelho e as zebras perderam força. Na verdade, elas viraram o mico-leão-dourado do futebol, ou seja, estão em extinção.”.

Caju acredita em uma nova configuração das zebras. Para ele, devem ser consideradas não só se um time de menor expressão ou investimento leva a melhor sobre um time de maior estatura. Também ocorrem, na opinião do ex-meia ofensivo, quando um time grande numa fase superior perde para um congênere num momento ruim.

Muitos analistas e torcedores concordam – especialmente com a percepção de que as zebras caminham para raridade. Para o tricolor Carlos Eduardo Guimarães, “elas já não podem ser consideradas tão zebras”. Isso porque os clubes menores, argumenta, “estão cada vez mais fortes e empenhados. Através do marketing, conseguem patrocinadores e, consequentemente, capital para contratar bons jogadores, muitas vezes já experientes, tornando o time mais competitivo”.

Até para a frieza dos números, elas se tornam arredias. O matemático Henrique Serra aponta uma dificuldade “em criar amostras estatísticas para esse tema devido às variáveis envolvidas”. Ele pondera:

“Como caracterizar a zebra? A análise é feita sobre um recorte histórico de cada time ou simplesmente baseada na atualidade?”.

Nos debates em torno da caracterização da zebra, tradição, peso histórico – “camisa pesada”, dizem os boleiros – somam-se à performance recente do time e ao seu poder financeiro. Cada vez mais, estreita-se a relação entre a saúde financeira do clube e o rendimento esportivo. Mesmo assim, fracassos de equipes mais poderosas – esportivamente, economicamente, historicamente – não constituem necessariamente uma zebra.

Poderio financeiro afasta o improvável

Um time com maior poder de investimento e com uma melhor administração de recursos terá um caminho mais fácil para o sucesso esportivo, com inclinação mais recorrente ao favoritismo e maiores chances de disputar títulos – em competições mata-mata e, sobretudo, de pontos corridos. Assim, a zebra contemporânea se caracterizaria mais no caso do insucesso de Golias rico contra um Davi pobre ou menos abastado. O jornalista Leandro Dias, do canal no Youtube Netflu, observa:

– Hoje consideramos zebra quando um time com poder de investimento muito menor vence uma equipe de menor investimento. Em geral, esta equipe também tem menos tradição e torcida.

Dias acrescenta que outros aspectos na avaliação de um grande favoritismo – e, consequentemente, de uma zebra – dizem respeito ao nível técnico dos adversários e a um certo estio de craques no mundo:

– Não há mais grandes craques no futebol mundial: Cristiano Ronaldo e Messi já passaram dos 35 anos. Estão no final da carreira. O Neymar, que seria o terceiro, já tem mais de 30 e não se vê uma substituição no mesmo nível. Então, observa-se uma crise técnica que produz um certo nivelamento, em geral, entre as equipes em relação a anos anteriores, quando ficavam mais evidentes os grandes clubes, os clubes médios e os clubes pequenos.

O tipo de competição também conta para a incidência de zebras. Campeonatos mais longos, de pontos corridos, tendem a favorecer times melhores, com estruturas esportivas, administrativas e financeiras superiores.

– Por conta da distância financeira, é muito difícil um clube de menor investimento ganhar um campeonato de pontos corridos. Neste modelo de disputa, é preciso um elenco forte, homogêneo, para um clube brigar pelo título. Já no mata-mata, é um pouco menos difícil! – compara Dias.

Surpresas rondam a Copa do Brasil

​Tradicional competição mata-mata, a Copa do Brasil comprova, de certa forma, essa tese. Acumula algumas das grandes zebras do futebol brasileiro. Como os títulos do Juventude sobre o Botafogo, em 1999; do Santo André sobre o Flamengo, em 2004; e do Paulista sobre o Fluminense, em 2005.

Já nas últimas 20 edições do Campeonato Brasileiro da Série A, as zebras não levantaram caneco. Prevalece a regularidade que normalmente acompanha as equipes tecnicamente e economicamente superiores.

Nem a Alemanha está imune

A Copa do Mundo, torneio curto de caráter eliminatório, é historicamente mais convidativa à zebra. Ela passeou, por exemplo, no Mundial da Rússia, em 2018, com a desclassificação precoce da toda-poderosa Alemanha, campeã em 2014. Para o historiador Iugh Mattar, fundador do canal Futebol Coruja, surpresas deste tipo também se mostram mais comuns em Copas porque as táticas costumam se sobrepor às habilidades individuais. Sem contar que a maioria das seleções apresenta-se menos prodigiosa do que as principais equipes da elite europeia, formadas por craques de vários países.

As Ligas espanhola e, sobretudo, inglesa passaram a concentrar os protagonistas do futebol mundial, desfalcando até campeonatos tradicionais como o italiano. Mattar acredita que tal movimento tenha influenciado, de alguma maneira, aquilo que pode ser considerado uma zebra histórica: a tetracampeã Itália ficar de fora de dois Mundial seguidos (Rússia 2018 e Catar 2022). Ele ressalta:

“A Itália era um país com muitos craques jogando em seu país. Entretanto, eles foram se movendo para outras ligas. Atualmente, os principais estrangeiros são os argentinos Dybala e Lautaro, e eles não pertencem à prateleira dos melhores do mundo. Por isso, são sondados para se transferir para o Tottenham ou o Atlético de Madri, não para o Barcelona ou o Real Madrid”.

Mais uma do Gentil

O icônico Gentil Cardoso, treinador de diversos clubes do Brasil, criou e popularizou expressões marcantes no futebol: “caixinha de surpresas”, “o craque trata a bola de você, não de excelência”, “treino é treino, jogo é jogo”, “quem se desloca recebe, quem pede tem preferência”, “quem não faz, leva”. Também foi o pai da zebra.

Gentil treinava a Portuguesa, do Rio, quando usou pela primeira vez o termo, em 1964, antes de enfrentar o Fluminense pelo Campeonato Carioca. “Vai dar zebra”, profetizou. Imaginava que o destino pudesse trair o favoritismo tricolor.

O técnico fez referência ao jogo do bicho, do qual a zebra não faz parte, para destacar a possibilidade de um resultado improvável. E deu zebra na cabeça: Flu e Portuguesa empataram em 1 a 1. O animal passou a rondar os gramados como sinônimo do inesperado que – ontem, hoje, amanhã – acompanha o futebol.

Algumas zebras históricas:

1- Leicester City – Premier League 2016
O modesto Leicester fez o inimaginável em 2016: conquistou a Premier League com duas rodadas de antecedência.

2-Grécia – Eurocopa 2004
A Grécia chegou à final da Eurocopa 2004, passando pela França, Chéquia e venceu Portugal no último jogo.

3- Once Caldas – Libertadores 2004
Once Caldas foi uma das maiores zebras na Libertadores 2004. Desbancou times como Santos, São Paulo e Boca Juniors.

4- Santo André – Copa do Brasil 2004
Na conquista da Copa do Brasil 2004, o Santo André bateu o Guarani, o Palmeiras e, na final, o Flamengo.

5- Porto- Champions League 2004
O Porto arrematou a Champions League de 2004 passando por Manchester United, La Coruña, Lyon e Mônaco, na final.

PASSADO X PRESENTE

::::::: por Paulo Cézar Caju ::::::::

Certa vez, eu e Gerson Canhotinha de Ouro resenhávamos com a turma do Museu da Pelada quando Guilherme Careca, ironicamente, nos perguntou se os jogadores de antigamente conseguiriam atuar no futebol atual. Gerson, deu uma cortada radical: “Não jogaríamos de vergonha!”. Essa é uma questão totalmente sem sentido e a grande prova disso são os veteranos que seguem fazendo o seu pé-de-meia a cada rodada. Diego Souza fez um “de bicicleta”, Nenê continua carregando o Vasco nas costas, o Avaí acaba de anunciar Guerrero, Fábio vem salvando o Fluminense, o Corinthians está lotado de jogadores experientes, Miranda segue dominando os velocistas e Ganso vem jogando o fino da bola. E reparem o Ganso jogando, um toque só, parece estar em câmera lenta, como nos bons tempos do Canal 100. Mas alguns especialistas insistem com essa tese. Os jogadores atuais correm sem qualquer propósito, falta inteligência. Já dizia o genial Gentil Cardoso: “Quem se desloca recebe, quem pede tem preferência”. Ou também tem outra expressão famosa: “Quem corre é a bola”. Alguns atletas chegam a perder três quilos em um jogo e se formos avaliar sua atuação ela beirou a zero. Mas a mídia adora aquela chatice de “mapa do calor”. Por que insistem com essa chatice? É GPS, análise de desempenho e um monte de firulas. Tem chip em chuteira, uma penca de equipamentos tecnológicos, mas os jogadores sequer sabem dominar uma bola, fazer um cruzamento, bater uma falta. Os “velhinhos” atuais vão jogar até os 100 anos porque sabem tocar a bola, conhecem os setores do campo. O lateral Fábio Santos fez dois gols para o Corinthians e venceu o Galo, de Hulk. Dois veteranos que se destacam mesmo sem terem essa qualidade toda. Se eles conseguem, imaginem um Marco Antônio, de Vasco e Flu, e um Jairzinho Furacão!!! Meu Deus, o Jairzinho hoje faria 100 gols! A nova geração está lascada! Aprende a correr com os professores de Educação Física e o resto é o que acompanhamos nos estádios, uma lástima. E sabe porque não vai melhorar. Porque no intervalo das partidas, nas entrevistas, os jogadores repetem o discurso: “Agora, vamos para o vestiário ver o que o professor tem para falar”. Esqueçam, os professores não têm absolutamente nada a dizer!

Pérolas da Semana:

“A filosofia vai contra a dinâmica do jogo, tendo terceiro zagueiro jogando profundamente, dando tapa na bola e fazendo ligação direta no último terço do campo. Dessa forma, centraliza por dentro para morar no ataque ou encontrar o losango na frente”.

“Mais consistência na ideia para gostar do jogo e baixar a intensidade de um time reativo, azeitando os alas pelo lado do campo para encontrar o nove raiz. O objetivo é equilibrar a balança entre o emocional e o racional”.

Agora tem até torneio de X1. Nosso futebol está virando um circo mesmo!

TORCER CONTRA

por Rubens Lemos

Mente elasticamente aquele que, fulminado pelo fracasso do seu time, diz que não torce contra o maior adversário. É exercício sacana e desesperador. Tipo o pusilânime “se a gostosa não é minha, daquele idiota também não vai ser”.

É cívico torcer por time ruim. Cívico e masoquista. Desde sempre vascaíno, nem torço com fervor pelo meu ex-clube, há 22 anos, caricatura de uma linda história de craques e postura, a maior delas, a de ser o primeiro a aceitar negros jogando futebol no Brasil. O Vasco fez história libertária.

Na formação tipificada do vascaíno, há, em primeiro plano, o anti-flamenguista. É uma célula radical e equitativa ao sentimento de idolatria ao cruzmaltino. A repulsa ao Flamengo é um movimento crescente, pelo derrotismo intrínseco do Vasco e a piora gradual do comportamento dos rubro-negros.

Se você é Vasco, Botafogo ou o campeão carioca Fluminense, não pode tolerar as chateações urubulinas. Algumas que marcam uma vida como é o meu exemplo. A gozação flamenguista deriva para o mau gosto, o cinismo e o ódio.

Deixe-me contar o meu caso específico: em 1994, o Vasco foi tricampeão carioca pela primeira e última vez. Um belo time e uma conquista mórbida.

O craque chamava-se Dener Augusto de Souza. Um gênio do drible, 23 anos, comparado sem motivo a Pelé, mas o cara que teria sido o Rei de sua geração. Fazia da bola, prostituta obediente.

Dener costurava defesas em velocidade e habilidade que Neymar nunca sonharia em imitar parecido. Em busca da vitória. Era poético ao dizer que “o drible era mais bonito que o gol”.

Em sua estreia, contra o Newell’s Old Boys da Argentina, deixou boquiaberto Diego Armando Maradona, que bateu palmas para ele.

Dener costurou a zaga portenha aos gingados, fazendo marcador bater cabeça. E um dos lances mais acessados do Youtube. Lindo, lindo, lindo. Dener era extraordinário.

Depois de dar um show de bola contra o Fluminense, entortando o lateral-esquerdo Branco da seleção brasileira, Dener viajou a São Paulo para tratar da venda de seu passe ao futebol alemão. Saiu do Maracanã, jantou na capital paulista e voltou de madrugada num possante – para a época – Mitsubishi Eclipse.

A dor lancinante – a maior que senti como torcedor do Vasco – veio de manhãzinha da segunda-feira, 19 de abril. Dener morre asfixiado pelo cinto de segurança dormindo no banco do carona.

O motorista, que tinha envolvimento com traficantes de drogas e seria assassinado -, perdeu o controle do carro. Ainda hoje tenho saldo de lágrimas pelo choro convulsivo na morte de Dener.

O que fazem os flamenguistas? O imperdoável. No primeiro domingo sem Dener, Vasco x Flamengo com 98.027 pagantes no Ex-Maracanã, aquele das gerais, dos pobres desdentados formando um painel de classes sociais desenhando a democracia (perdida) no futebol.

Os dois times em campo (taí a foto acima). Antes do apito inicial, eis a deslealdade da massa rubro-negra, parodiando trechos do clássico carnavalesco Jardineira. Foi um ato asqueroso: “Ô vascaíno, por que estas tão triste/ Mas o que foi que te aconteceu/ Foi o Dener que bateu no carro/ Quebrou o pescoço e depois morreu”.

A punhalada cafajeste mexeu com os jogadores do Vasco, que perderam a única partida (1×2) da brilhante campanha na conquista inédita. O Vasco daria o troco com o baixinho William, canhoto sensacional em lugar de Dener, derrotando o Fluminense. Mas aquele coro covarde, nunca será perdoado.

Tenho inúmeros amigos flamenguistas, minha mãe era flamenguista, mas não dá para aguentar flamenguista de caráter apodrecido. O tal do Gabigol é o típico exemplar do jeito Flamengo de pisotear vencido. Provoca, exibe faixas, mexe com a torcida do rival.

Age o centroavante banal como se sua bola apenas razoável lhe desse o direito de compartilhar o espírito de porco que carrega sob a pele. Ou acima dela. A grandeza está no saber vencer e o Flamengo não sabe.

Daí me flagrar em êxtase, em qualquer olé sobre o Flamengo seja em decisão carioca, seja em jogo banal ou de baralho. O som da frase: Flamengo perdeu me faz bem. Nem quando uma namorada me deu o fora e descobri que tinha caspa , fiquei tão feliz.

FINAL DA COPA DE 62 CONTRA “O SÃO CRISTÓVÃO CHEIO DE PAULO AMARAL”

Treino da Seleção para a Copa de 62, em Nova Friburgo. Da esquerda para a direita, em pé: Garrincha, Nilton Santos, De Sordi,
Jurandir, Aldemar, Zagalo, Benê e Paulo Amaral. Agachados: Valdir, Jair Marinho, Zequinha, Rildo, Amarildo, Germano e Gilmar.

por José Carlos Faria

Assim Garrincha identificou o time da Tchecoslováquia, adversário do Brasil na final da Copa do Mundo de 62.

Eu tinha dez anos e acompanhei as partidas da Copa do Mundo de 62, no Chile, em uma “moderna” Rádio Vitrola Philco, embutida em móvel de pés palitos. Nela ouvi os meus primeiros LPs, da coleção “Músicas para Ouvir e Sonhar”, adquiridos por meu pai. No ano seguinte, eles foram substituídos pelo primeiro disco do conjunto de Liverpool – Beatlemania – gosto musical do meu irmão dois anos mais velho e flamenguista.

Nessa Copa, como torcedor do Fluminense, levei vantagem sobre ele, pois entre os vinte e dois selecionados havia três tricolores (Castilho, Jair Marinho e Altair) e nenhum rubro-negro, não importando que fossem reservas e não tivessem atuado em nenhum jogo.

No dia seguinte às partidas, a TV Excelsior mostrava, em preto e branco, os videoteipes completos dos jogos do Brasil, remetidos do Chile por avião. Um dos precursores do uso desta revolucionária técnica televisiva foi o programa “Chico Anísio Show”, que possibilitava aos diversos personagens do comediante contracenarem ao mesmo tempo. Nas noites de domingo, prenúncio das fatídicas segundas-feiras, só se ouviam pelas ruas os acordes de “Hino ao Músico”, prefixo musical do programa por anos e anos.

Nos videoteipes, reparava nos detalhes dos uniformes das seleções estrangeiras. Os times dos países socialistas (Hungria, Tchecoslováquia e Bulgária) tinham os escudos no meio da camisa, em vez de no lado esquerdo, junto ao coração. A seleção da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas – URSS – apresentava essas iniciais, no peito, em alfabeto cirílico – CCCP – que um gaiato traduziu para “Camarada, Cuidado Com Pelé”, como um alerta cifrado, quando enfrentassem o Brasil.

Morria de vontade de ir à Cinelândia, centro do Rio, onde ficava montado um enorme painel vertical representando um campo de futebol, coberto com lâmpadas. Pelos alto-falantes, a multidão atenta acompanhava a narração do jogo e o movimento da bola, indicado pelo acendimento sucessivo das lâmpadas.

O time que iniciou a Copa foi basicamente o mesmo da Suécia em 58, com os craques Gilmar, Djalma Santos, Nilton Santos, Zito, Didi, Vavá e Zagalo. A diferença foi dos zagueiros de área Mauro e Zózimo, que ocuparam o lugar de Beline e Orlando. Mauro, o capitão que levantou a taça Jules Rimet em 62, foi inscrito nas três edições anteriores – Brasil (50), Suíça (54) e Suécia (58) – sem participar de nenhum jogo. Conta-se que argumentou com a Comissão Técnica que seria a última oportunidade de disputar uma Copa e, assim, ganhou a posição.

Mané Garrincha foi o grande destaque da seleção, que perdeu o Rei Pelé no segundo jogo contra a Tchecoslováquia. Foi substituído por Amarildo, o “Possesso”, que logo na sua estreia contra a Espanha marcou os dois gols da nossa vitória por 2×1.

Na semifinal vencemos os donos-da-casa por 4×2, com dois gols de Garrincha, expulso no final, por ter chutado a bunda do seu implacável e violento marcador Eladio Rojas. No julgamento do Mané, o testemunho do bandeirinha uruguaio Esteban Marino, que havia denunciado o lance ao juiz peruano Arturo Yamasaki, poderia tirá-lo da final. Entretanto, “convencido” por dirigentes brasileiros, que já o conheciam, por ter apitado jogos pela Federação Paulista, não compareceu à sessão. Voou no dia seguinte ao jogo para Montevidéu, dizem que via Paris.

A final da Copa de 62 foi contra o “São Cristóvão, cheio de Paulo Amaral”, como Garrincha identificou a seleção da Tchecoslováquia, quando foi informado de que a nossa adversária seria a mesma equipe com quem empatamos em 0x0, nas oitavas-de-final.

O musculoso Paulo Amaral foi um dos precursores da preparação física no Brasil, e trabalhava na seleção desde a Copa anterior. Atuou, também, como técnico, inclusive na Itália (Genoa e Juventus), e comandou o meu tricolor na brilhante conquista do título brasileiro de 70.  Para o Mané, os tchecos tinham o porte atlético do preparador, o seu limitado futebol (chegou a jogar nos juvenis do Flamengo) e usavam uniformes iguais aos do time do São Cristóvão, conhecido como “os alvos”, com calções e camisas brancas.

A partida final foi acompanhada em casa, com a família, ouvindo meu locutor predileto, Clóvis Filho, da Rádio Continental. Sofri com o primeiro gol dos tchecos, de Masopust. Meu pai lembrou que, na final de 58, foram os suecos que abriram o placar, mas que acabamos vencedores por 5×2, o que me reconfortou.

Com gols de Amarildo, Zito (não confundir, com o Zico, que tinha na época apenas nove anos) e Vavá, viramos o jogo. Alguém deu a ideia de rasgarmos jornais e arremessarmos os papéis picados da varanda, para comemorar. Havia muitos deles acumulados, já que o “GAARAAFEEIIRO” não havia passado ainda. Esse grito extenso, com sotaque lusitano, anunciava sua presença nas ruas, arrastando sua pesada carroça cheia de garrafas e jornais velhos, que comprava, de casa em casa, para depois revendê-los.

Em meio à euforia após o jogo, uma surpresa foi ouvir a cantora Elza Soares, que iniciava um romance com o Garrincha, ser entrevistada no vestiário bicampeão. Há quase sessenta anos, uma mulher frequentar aquele ambiente exclusivamente masculino era completamente arrojado e inusitado.

Em minha segunda Copa do Mundo, o Brasil era bicampeão, o que significava para mim que seria o vencedor de todas as outras. Em 1966, na Inglaterra, com a eliminação do Brasil, logo na primeira fase das oitavas-de-final, essa lógica foi duramente quebrada.

* Expressão retirada do livro de Ruy Castro – “Estrela solitária – Um brasileiro chamado GARRINCHA”, pág. 261.

O AMIGO DE MARINHO CHAGAS

por Rubens Lemos

Os apresentadores do Jornal Nacional, Cid Moreira e Sérgio Chapelin, fizeram o suspense habitual dos anúncios de convocações da seleção brasileira naquela noite de 10 de maio de 1973. 

A massa de olhos grudados nas raras TVs em cores esperava a novela Cavalo de Aço, na qual o herói Rodrigo, vivido pelo ator Tarcísio Meira, lutava contra as injustiças cometidas pelo latifundiário Max, personagem interpretado pelo veterano Ziembinski e pelo amor da fazendeira Miranda, na pele de Glória Menezes.

Transmissões que paravam o país na trama assinada por Walter Avancini. Havia, no entanto, a expectativa pela confirmação das especulações sobre mudanças estruturais do técnico Zagallo no escrete canarinho, diante da luz radiosa do tricampeonato de 1970. Do Tri, estavam fora da seleção, o goleiro Félix, o zagueiro Brito, o lateral-esquerdo Everaldo, os gênios Gerson e Tostão e o Rei Pelé. 

Um ano antes, a seleção penou para ganhar a Mini-Copa, torneio sem graça em que a vitória na decisão sobre Portugal aconteceu somente aos 43 minutos do segundo tempo em cabeçada de Jairzinho que fez – de verdade ou não -, o General de plantão no Poder, Garrastazu Médici, se deixar filmar e fotografar com um lencinho no rosto, em aparente sinceridade no choro. Portugal atuara no então novíssimo Estádio Castelo Branco em Natal, com direito a show do astro Eusébio. 

Zagallo buscava novos nomes e, passava das 21 horas, o público vibrou em Natal e pipocaram os foguetões com a presença na lista do jovem camisa 6 Marinho Chagas, garotão precocemente ídolo do Botafogo (RJ). Marinho Chagas começava a saga que o consagraria na Copa do Mundo de 1974, da qual sairia melhor do planeta em sua posição. 

Os bares de Natal lotaram com os cabeludos e donos de potentes jubas black power comentando a presença do loiro suburbano natalense na seleção. O último potiguar convocado fora Dequinha, do Flamengo, nascido em Mossoró e presente na Copa de 1954. 

Muitos confundem Lula, ponta-esquerda do Fluminense e do Internacional como potiguar. Nunca foi. Nasceu em Pernambuco e veio morar em Natal, de onde saiu aos 18 anos para brilhar no Sudeste.

Pernambucano também era o goleiro Wendell Lucena Ramalho, 26 anos, titular do Botafogo e melhor amigo de Marinho Chagas no Rio de Janeiro. Quando Marinho chegou no Náutico, Wendell já estava no alvinegro e foi seu anfitrião e cicerone, dois cabras da peste vitoriosos no palheiro da bola nacional. 

Wendell e Marinho Chagas se apresentaram juntos ao técnico Zagallo numa seleção que faria um jogo contra a Bolívia no Maracanã, goleada brasileira por 5x0, antes de longa excursão pela África, Europa e Leste Europeu. 

Marinho Chagas não teve a menor dificuldade em barrar o refinado Marco Antônio, do Fluminense, exuberante na técnica, frágil emocionalmente. Tanto que perdeu a posição na campanha do tricampeonato para o esforçado Everaldo, do Grêmio. 

Wendell criou uma crise quando Zagallo definiu revezamento entre ele, o intocável e insuportável Leão e o discreto Renato, do Flamengo. Leão sempre saiu mal do gol, defeito que Wendell nunca teve, atento aos cruzamentos e melhor posicionado na grande área.

Marinho Chagas e o seu amigo nordestino se deram bem. Ou quase. Ambos figuraram na relação dos 22 convocados, divulgada a 18 de fevereiro de 1974. 

Wendell foi o titular na vitória de 1×0 sobre a Tchecoslováquia no Maracanã, gol de Marinho Chagas. Além de Clodoaldo, o esguio goleiro ficou fora do mundial por contusão e Leão, conhecedor da afinidade entre os dois botafoguenses, passou a perseguir Marinho Chagas.

Do Botafogo, em 1977, Marinho Chagas e Wendell partiram para o que restava da Máquina Tricolor do Fluminense, sem Rodrigues Neto, Gil, Paulo César Caju e Dirceu. 

Marinho Chagas, brilhante, seguiu ao Cosmos de Nova York. Wendell jogou em vários clubes, seguro, mas desmotivado. Treinador de goleiros no Tetra 1994, Wendell morreu subitamente na segunda-feira . Aos 74 anos. Marinho Chagas lhe abriu as portas do campo dos sonhos, onde não existe discriminação nem derrota.