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CENTENÁRIO DO BIGUÁ, O PRIMEIRO ‘DEUS DA RAÇA’ RUBRO-NEGRO

22 / março / 2021

Biguá foi, antes de Leandro surgir, o maior e o melhor lateral-direito da história do Flamengo. Para o craque dos anos de 1940, não havia bola perdida e sobravam fãs, como Carlito Rocha, o memorável cartola botafoguense, que um dia apertou-o contra o peito e disse: “Pena que no futebol haja poucos iguais a você”

 por André Felipe de Lima


Biguá, 100 anos de um dos maiores mitos da história do Flamengo (Acervo André Felipe de Lima)

Torcedores rubro-negros na faixa dos 40 anos cresceram vendo o zagueiro Rondinelli, o que marcou, de cabeça, o gol do título estadual de 1978 sobre o Vasco, como o “Deus da raça” do Flamengo. Mas, na década de 1940, um outro defensor rubro-negro, o ex-lateral-direito Biguá, merece a primazia sobre o apelido. Mário Rodrigues Filho[1] foi um dos que reconheceram a disposição de Biguá: “Era tido como um índio. Se não fosse o cabelo de boneca japonesa seria tomado por preto. Era baixo, atarracado, de pernas grossas, de poltrona. Mas, tocando no chão, subia feito uma bola de tênis. Quando se enfurecia parecia um daqueles indígenas dos poemas de Gonçalves Dias. Ou melhor, um apache ou sioux de fita americana, de machado em punho para escalpelar um pale face” [pele branca – referência a luta dos indígenas nos EUA]. Moacir Cordeiro — assim se chamava Biguá — nasceu em Irati, interior do Paraná no dia 22 de março de 1921. Tinha personalidade. Foi marcador implacável, mas não era técnico. Ao lado de Modesto Bria e Jaime de Almeida formou uma eficiente linha média do Flamengo dos anos de 1940. Para o extraordinário ponteiro esquerdo Félix Lostau, de La máquina do River Plate dos anos de 1940, Biguá foi o seu melhor marcador[2].

Filho de Manoel Cordeiro e de Maria Julia Cordeiro, italiana de nascimento, Biguá era o caçula de oito irmãos. O pai, Biguá perdeu quando mal completara um ano de vida, da mãe, despediu-se em 1936.[3] Tinha dois anos quando ele, com a mãe e os irmãos, mudaram-se para Curitiba. Com oito anos, ingressou na escola. Fora matriculado no Grupo Escolar Barão do Rio Branco, na rua Silva Jardim. Atraíam-no mais a bola de meia no recreio e a merenda que lápis, caderno e livros. Enquanto Biguá não queria muito com os estudos, seu colega de colégio, Jackson, o mesmo que se tornaria ídolo do Atlético Paranaense, dedicava-se tanto à bola de meia quanto ao conhecimento.

A professora Carmem Silva não deixou Biguá esmorecer e acabou ajudando-o a concluir o curso primário. Com a morte da mãe, em 1936, coube à Dídimo, o terceiro da série de irmãos de Biguá, cuidar do caçula. Para evitar que o garoto parasse os estudos, tratou de matriculá-lo imediatamente no Instituto Santa Maria, na rua 15 de novembro. A permanência por lá foi curta. Durou até o final de 1936. Biguá era um aluno relapso e, por conta disso, sofria castigos e reprimendas incessantes. Como Biguá não queria saber de escola, Dídimo levou-o para trabalhar na Casa Gueiros, que também ficava na rua 15 de novembro.[4]

O menino Biguá começara como office boy, recebendo um salário de 100 mil réis por mês. Mas a bola era sua vida. Em 19337, o “caboclinho” já defendia o time infantil do Atlético Paranaense. Sempre como “half” direito. Durante aquele primeiro contato oficial com o futebol lhe “batizaram” com o  apelido “Biguá”, por ser bravo em campo, igualmente a um outro jogador do mesmo nome, veterano no futebol local.


Ao lado do amigo Mário, no Água Verde: o começo da carreira no Paraná (Reprodução: A Vida do Crack)

Com 17 anos, Biguá queria jogar bola, mas o irmão mais velho e tutor do rapaz não queria mais vê-lo correndo atrás de bola. Os dois brigaram feio e Biguá abandonou o emprego e, o que foi pior, a casa onde morava com o irmão, na rua Tiradentes, centro curitibano. A decisão de Biguá preocupou todos os familiares, que só se acalmaram quando souberam, que o rapaz refugiara-se na casa de Juracy, sua outra irmã a quem chamava desde pequenino de “Caleca”. À casa da irmã chegou com uma trouxa de roupas e ouviu dela um sermão. Juracy o aceitaria mas sob uma condição: que fosse obediente e trabalhador. Passaram-se alguns dias, conseguiu um emprego em uma fábrica de móveis, como lixador, recebendo cinco cruzeiros por dia. O futebol? Impossível abandoná-lo. Biguá, em dias de jogo do Atlético, saía do trabalho mais cedo.[5]

Mesmo com o salário melhorado para 8 cruzeiros diários, Biguá decidiu abandonar o emprego e seguiu para o alistamento militar no 5º Regimento da Base Aérea de Curitiba. Permaneceu na caserna durante 23 meses ganhando a miserável quantia de 56 cruzeiros mensais. Nem mesmo estando nas esferas militares conseguia esquecer a bola. Em 1940, Biguá era figura certa no time da Base Aérea. Seu companheiro de time era o então tenente Luiz Gastão Lessa Bastos, que chegaria a major e, tempos depois assumiria a direção de atletismo do Flamengo.

Naquele mesmo ano em brilhava no time dos “milicos”, Biguá seguiu para o Água Verde. Não demoraria ser o titular da lateral direita.

Em 1939, Biguá tentava se firmar no time de profissionais do Savóia, clube que depois mudaria o nome para Água Verde. Mas o esforço parecia ser em vão.

O rapaz era tão bom de bola que o Coritiba insistiu com os dirigentes do Savóia que o emprestassem para um amistoso contra o Corinthians[6]. O Coxa derrotou o Timão por 1 a 0 e Biguá, jogando de médio esquerdo, parou o ponta Lopes, que era da seleção brasileira. Prestando serviço militar na base aérea de Curitiba, Biguá foi convidado, em 1941, pelo então tenente Gilberto Aquino para jogar no Rio de Janeiro.

Aquino prometeu-lhe apresentá-lo ao técnico do Flamengo, Flávio Costa. Como tinha medo de avião, Biguá embarcou num trem rumo ao Rio enquanto Aquino seguiu de avião para então capital federal. Ao chegar ao Rio, Aquino recebeu-o na estação D.Pedro II e hospedou-o em sua residência na Ilha do Governador. Somente uma semana depois Biguá fez seu primeiro passeio pela cidade em direção à rua Campos Sales. Mais precisamente rumo ao campo do América FC, onde já jogava o amigo Cecílio, companheiro de Curitiba e titular do Alvirrubro carioca.

Influenciado por Cecílio, Costa Velho, técnico do time da rua Campos Sales, pediu para que Biguá calçasse a chuteira e vestisse o uniforme para um treino. Velho olhou para o rapaz, que media pouco mais de 1 metro e 55 centímetros e almejava ser zagueiro, e disse: “Não dá”. Biguá perguntou a Cecílio se poderia voltar no dia seguinte, o amigo respondeu: “Não, Biguá, não volte. O homem disse que você não é de nada.”[7]

Acompanhado pelo seu “padrinho”, o brigadeiro Aquino, Biguá seguiu para a Gávea, onde foi aceito e teve o registro confirmado pela Federação Metropolitana de Futebol no dia 4 de outubro de 1941. “Fiquei vários dias aguardando a chance para treinar. Enquanto isso, ficava batendo bola com Yustrich. Levei dias, já morando na concentração, indo de manhã e de tarde para esperar minha oportunidade. E Yustrich ia pegando meus chutes.”[8]

Reportagem de José Luiz da Silva Pinto[9], de 1951, confirma a dificuldade de Biguá para afirmar-se no Flamengo. “Ninguém fazendo fé nele. Aliás ninguém podia mesmo acreditar que aquele rapaz viesse a dar alguma coisa no futebol, com aquele ar desengonçado, aquelas pernas incríveis”. Segundo o texto de Silva Pinto, o então técnico do Flamengo na época, Flávio Costa, lançou Biguá somente três meses após ele aportar na Gávea. Mas Biguá não teve vida fácil no início no rubro-negro. Os médicos constataram um problema de nascença no tornozelo do jogador. Ele não esmoreceu e, após um treino espetacular, Flávio Costa mudou o conceito equivocado sobre aquele rapaz, com traços nitidamente indígenas. E era assim que a torcida passou a tratá-lo carinhosamente: “Índio”.


Com o notório massagista Johnson, do Flamengo (Reprodução:A Vida do Crack)

Com a contusão do titular Jocelyn, Biguá estreou entre os titulares no dia 26 de outubro de 1941 contra o Madureira. O Flamengo saiu de campo com o placar favorável [2 a 0]. “De repente veio a chance. Jocelino [na verdade, Jocelyn] e Artigas machucados, Flávio me escalou na equipe reserva para enfrentar o Fluminense. A ala esquerda do tricolor era Pedro Nunes-Hércules. Perdemos por 3 x 2, mas no jôgo seguinte eu estava entre os titulares, enfrentando o Madureira. Aí não saí mais e tive uma emoção muito forte no outro Fla x Flu, o famoso da Lagoa, quando empatamos por 2 x 2 e o Fluminense foi campeão.”[10]

Em 1942, Biguá viveu um drama. Após um exame, ouviu do médico do Flamengo Nilton Paes Barreto que não poderia mais jogar futebol, caso insistisse poderia morrer a qualquer momento, inclusive dentro do campo. O sopro no coração configurara-se sombria perspectiva para Biguá, que vivia o ápice da carreira. Logo após o trágico vaticínio do médico, Biguá, aos prantos, dirigiu-se à concentração disposto a arrumar as malas para tomar um trem rumo à Curitiba. Ação impedida pelo amigo Jaime de Almeida. A imprensa ignorava o que estava acontecendo nos bastidores do clube. Questionava os motivos que levaram Biguá a não entrar em campo contra o América, jogo que teria o clube Alvirrubro como vencedor [2 a 1].

O ESCRITOR E O CRAQUE

Mário Filho, o primeiro a chamar Biguá de “índio”, relatou um episódio que teria acontecido durante uma viagem de ônibus em que estavam ele, Biguá, e o escritor José Lins do Rego, rubro-negro fanático.

Rego preocupara-se com a situação de Biguá e decidiu levá-lo a um cardiologista renomado, o médico Genival Londres. O escritor acreditava piamente que o craque de nada sofria. Biguá, não. “Se o médico escutou o sopro é porque havia o sopro, o sopro estava lá dentro”. Paciente, Zé Lins retrucou: “Qual sopro qual nada, Biguá. Se você tivesse sopro não estaria conversando aqui comigo, estava era debaixo da terra, há muito tempo.”

Biguá ficou meio ressabiado, mas, como acreditava que Zé Lins também era “doutor”, pediu ao escritor: “Por quê o doutor Zé Lins do Rego não me escuta o coração?”. Pacientemente, Zé Lins teve de explicar que era “doutor” em outra coisa. Biguá ficou cabisbaixo e pensou ser seu caso perdido. “Quer dizer que é o só um palpite que o senhor tem?”. Dali em diante Biguá não chamava mais o Zé Lins de “doutor”. Era Zé Lins e pronto. Mas a psicologia do “doutor-escritor” funcionara. Afinal, se Biguá pulava, saltava, cabeceava e chutava petardos de fazer inveja a um tanque de guerra, logo a história de sopro não passaria de um susto.

O médico, segundo Mário Filho, prescreveu um exame singular para acabar de vez com aquele papo de “sopro”. Biguá seguiu à risca as recomendações médicas. Zé Lins sempre por perto, espreitando-o e interferindo quando necessário, recorreu novamente a sua “psicologia”, com todo o enlevo oriundo de um romancista ímpar, convencendo o médico de que Biguá saltava mais alto que o teto do consultório. Batata. O doutor Genival levantou-se, e convencido disse: “Zé Lins, se é como você conta, o Biguá pode jogar futebol”. Concluído o incomum “exame”, para Biguá restou-lhe o alívio de um inocente.


O cronista Mario Filho foi o primeiro a chamá-lo de “Índio” Biguá (Reprodução:A Vida do Crack)

Aos poucos Biguá afastou a depressão e convenceu-se de que poderia continuar jogando bola. Ignorou o parecer médico e permaneceu no Flamengo.[11]

Permaneceu para a alegria de muitos torcedores, especialmente uma senhora, cujo nome nunca se soube qual, mas cuja história foi revelada pelo cronista Mário Filho: “Biguá conquistou simpatias, não faltou quem quisesse protegê-lo. Uma senhora, certa vez, obrigou o marido a chamar Biguá. Biguá veio, desconfiado. A senhora disse, com voz maternal: ‘Olha aqui Biguá, se o Flamengo ganhar, você venha buscar uma camisa de seda’. O Flamengo ganhou, Biguá não se esqueceu da promessa, acabando o jogo, como quem não quer nada foi colocar-se dentro do raio visual da torcedora. A senhora percebeu Biguá, chamou-o outra vez, apertou-lhe a mão. Biguá sentiu cócegas de uma nota bem dobrada, agradeceu, saiu correndo para o vestiário. Lá, abrindo a mão, ele viu uma cédula de vinte cruzeiro. ‘Eu se fosse você — Jurandir [goleiro do time] abriu a boca — voltaria e pediria o resto’. ‘Se eu voltar sou capaz de ficar sem o peru [o “bicho” pago por fora aos jogadores após cada partida]. E com o peru, eu já posso mandar o monograma’.”

DUELOS INESQUECÍVEIS COM O AMIGO VASCAÍNO CHICO

Biguá era simples e até ingênuo. E foi essa simplicidade que o fez querido na Gávea e até em outros clubes e torcidas e adversárias. Nunca houve um senão em relação a sua passagem no Flamengo. Nem mesmo um gol contra que deu a vitória [e o título do primeiro turno] ao Vasco, 2 a 1, em São Januário, no dia 16 de setembro de 1945, abalou a imagem de Biguá. Para o torcedor do Flamengo, o jogador era quase um Deus, e aquele jogo foi o momento mais emocionante em toda a carreira de Biguá, não pelo gol contra, evidentemente que não, mas sim pelo dia em que percebeu o quanto representava para o torcedor do Flamengo.

Biguá teve a inglória missão de marcar o ponta-esquerda Chico. Em jogo estava o título do turno e meio caminhando andado rumo ao “tetra”. Entre 1942 e 53, como destacou a revista Placar, em 1978, Biguá e Chico travaram duelos memoráveis.


Com Esquerdinha e o cartola Gilberto Cardoso no intervalo de um jogo no Maracanã, em 1952 (Reprodução: Esporte Ilustrado)

Aquele jogo contra o Vasco poderia coroar a extraordinária geração formada por Biguá, Pirillo, Zizinho, Vevé, Modesto Bria… um timaço cantado em sambas de Wilson Batista e reverenciado sem nenhuma parcimônia por Ary Barroso nas transmissões radiofônicas. Mas o jogo que Biguá imaginara ser sua maior tragédia na carreira foi lembrado por ele e Chico como uma final incomum. A partida estava próxima do fim. No placar, um a um. De repente, o atacante vascaíno Lelé avança. Biguá, de costas para o gol, observa Chico. Lelé chuta com violência. A bola explode na trave e, no rebote, acerta a nuca de Biguá. A bola regressa caprichosamente para o arco do Flamengo. O craque cai e é contido pela rede das traves. Um gol contra que tirou o “tetra” do Fla e deixou Biguá tonto e sob um choro compulsivo. Logo ele, tão querido pela turma da Gávea, seria o algoz do próprio time…

“A própria torcida do Vasco não festejou o gol com muita alegria, em respeito ao drama que eu vivia. E a primeira mão que se ergueu para me ajudar foi a do meu grande adversário, Chico. Ele me levantou, me abraçou com carinho, me consolou”. Recordações de Biguá, publicadas pela revista Placar, que reavivaram a memória do ex-ponta vascaíno. “Eu fui lá ajudá-lo, disse-lhe que erguesse a cabeça, porque ele não tinha culpa nenhuma. A dor de Biguá me feria. Naquele momento, chorei junto com ele. Naquela época o futebol tinha rivalidade dentro do campo, assim mesmo, se respeitando os adversários”.

O mais emocionante viria depois, fora do estádio:

“Eu não sabia como sair do campo. No vestiário, com companheiros me consolando, eu só pensava na hora de sair e encarar a minha torcida. Queria que o mundo acabasse. Disse que não ia sair. Aí veio o querido José Lins do Rêgo, pegou no meu braço e disse: — Você vai sair comigo, Biguá. — Saí e quando vi estava no meio da torcida do Flamengo, todos gritando Biguá, Biguá, Biguá. Fui carregado para fora do estádio e confesso que chorava como uma criança.”[12]

Biguá era mesmo duro na queda. Como descreveu à revista Placar[13], o craque não se intimidou com as ameaças de jogadores do São Paulo dias antes de o clube paulista enfrentar o Flamengo:


No fim da carreira, antes de um jogo com o São Cristóvão. Na foto, além de Biguá, o juiz Mário Vianna e um jogador do clube da rua Figueira de Melo não identificado (Reprodução: Revista Grandes Clubes)

“Uma vez, em São Paulo, o Pardal disse que ia me quebrar a perna, instigado por Leônidas [da Silva], que queria me ver com medo. Mas eu não corri. E disse a ele que o esperaria para uma forra no jogo do Rio. Engraçado: na véspera desse jogo, sem ter chovido ou feito frio, Pardal amanheceu com um terrível ‘resfriado’.”

Até o surgimento de Leandro no time campeão mundial, em 1981, Biguá era considerado o maior lateral-direito do rubro-negro carioca de todos os tempos. Os que o viram jogar, afirmam que Biguá foi o primeiro lateral a defender e apoiar o ataque. Uma ousadia condenada pela maioria dos treinadores da época, mas que, de certa forma, foi herdada pelo próprio Leandro, nos anos de 1980, e por Leonardo Moura, também ídolo do Flamengo nos anos de 2000.

Titular absoluto nas equipes do Flamengo que conquistaram o primeiro tricampeonato carioca para o clube em 1942, 43 e 44. Quem o admirava era o zagueiro Domingos da Guia, que já em final de carreira no Corinthians convidou Biguá para trocar a Gávea pelo Parque São Jorge. Quase aceitou. Prevaleceu a paixão pelo Fla. “E no dia em que o Corinthians jogasse contra o Flamengo, como é que eu ficaria?”.

Na seleção carioca, Biguá também era o dono da lateral-direita. No escrete nacional, teve poucas oportunidades e nunca conseguiu se projetar como merecia.

Após a estupenda conquista rubro-negra, em 1944, o Flamengo começou a perder espaço para o Fluminense e, sobretudo, para o Vasco, com o poderoso Expresso da vitória. Em novembro de 1945, no final da temporada, Biguá confrontara-se com mais um drama de saúde, não tão preocupante como o sopro no coração, de 1942, mas que poderia colocar um ponto final na carreira do jogador: o médico do Flamengo, o ortopedista Paulo de São Thiago, identificou um cisto no calcanhar esquerdo de Biguá considerado grave para a medicina da época. “É uma lesão rara e muito grave porque conduz à fratura. E neste caso, uma vez fraturado o osso, o tratamento, por melhor que fosse, não poderia nunca fazê-lo retornar à vida de profissional de futebol.”


A despedida, um chute sem força para arquibancada, as chuteiras para Carlinhos e o abraço de Carlito Rocha (Reprodução: Revista Grandes Clubes)

Biguá foi operado no dia 21 de novembro daquele ano, no Hospital da Beneficência Espanhola. O médico raspou o cisto ósseo e retirou um fragmento do osso da perna esquerda para enxertá-lo na cavidade onde antes havia o cisto. O craque ficou três meses no estaleiro, mas sua recuperação foi considerada excepcional.

Em 1951, já sem o futebol de outrora, Biguá foi perdendo o posto de titular no Flamengo. Naquele estágio, o melhor seria pedir à diretoria do Flamengo que o liberassem para que não amargasse definitivamente a reserva. Biguá estava desolado, não queria deixar a Gávea, mas, com o passe livre, tinha como opção o clube que o revelou, o Água Verde. Voltaria para sua cidade natal e descansaria. Mas tudo mudaria com uma notícia alvissareira: o retorno de Flávio Costa ao Flamengo, que se preparava para uma excursão à Europa, cujo retorno para o clube foi incalculável.  O Rubro-negro venceu 10 jogos e Biguá fora deslocada para a zaga, formando dupla com Pavão.

No ano seguinte, durante embate contra o Vasco em jogo do primeiro turno do campeonato estadual, Biguá sofreu uma ruptura dos ligamentos do joelho direito que custou-lhe três meses fora dos gramados. Leone substituiu-o na lateral-direita e não mais deixou o posto. Em 1953, o amigo Jaime de Almeida substituiu Flávio Costa, que fora para o Vasco, e deu nova chance à Biguá para que recuperasse a posição. Mas tudo se complicaria para Biguá com a chegada de Fleitas Solich à Gávea. “Eu vinha querendo desistir. O Solich começou a perseguir os veteranos. Acabei brigando com ele por causa do [Modesto] Bria e resolvi parar.”[14]


Ser “capa” de revistas esportivas era algo constante para Biguá (Reprodução: O Globo Sportivo)

Do banco de reservas, Biguá chorou ao ver os mais jovens conquistarem o campeonato estadual de 53. O jogo de despedida de Biguá, contra o Botafogo, no dia 3 de novembro de 1953, foi uma das passagens mais bonitas da história do Flamengo. Pegou uma bola e chutou para torcida guardá-la como emblema daquele dia inesquecível. A torcida aplaudiu-o efusivamente. Após uma volta olímpica no gramado do Maracanã, o craque entregou suas chuteiras ao novato meia Carlinhos, o futuro “Violino”, como seria chamado ao longo da década de 1960. Após Biguá “passar” a chuteira para Carlinhos, o craque tentou chutar uma bola para a arquibancada, mas foi tão sem força que a pelota caiu na geral. De tão emocionado, Biguá correu em direção ao primeiro túnel que viu. Era o do Botafogo. Carlito Rocha, o folclórico cartola alvinegro, apertou-o contra o peito e disse: “Pena que no futebol haja poucos iguais a você”.

Carlinhos honrou a história de Biguá e fez a mesma coisa com Zico, em 1970. A tradição continuou com o “galinho”, que passou a chuteira para o jovem promissor Pintinho, em 1989. Pintinho? Pois é… dele a torcida sequer lembra a fisionomia. O tradicional hábito foi esquecido[15].

Biguá disputou 380 jogos oficiais pelo Flamengo. Venceu 225 e empatou outros 75. Marcou apenas sete gols. Não foi somente nos campos que o lateral tornou-se famoso. Era um pé-de-valsa, diziam. Como descreveu a revista Placar, em edição de 1978, Biguá foi um frequentador assíduo dos bares e dancings da antiga Lapa, que não dispensava uma boa roda de bate-papo regada a chope nos bares da antiga Galeria Cruzeiro.

‘SOFRIA MUITO MAIS ENFRENTANDO O VASCO’


Biguá “campeão”. Isso era normal na carreira do craque (Reprodução: O Globo Sportivo)

Biguá casou-se com uma mineira de Carangola que morava em Porciúncula. “Pois é. Fui a um baile na Tijuca e conheci a Lourdes. Depois fui até Carangola e quando voltei o Ari Barroso, com aquele jeito só seu, foi dizendo: — Conheceu a família em Minas, tem que casar. Como eu era fã dos concursos de danças, o Ari tentava me convencer que tinha que casar. E, finalmente acabei casando em 51.”[16]

Com o dinheiro conquistado com o futebol, Biguá comprou uma casa e terrenos em Curitiba[17]. Investimentos que, bem administrados, poderiam garantir-lhe um futuro tranquilo. Mas isso não aconteceu. Em dezembro de 1957, o jornal Diário Carioca publicou que Biguá estava tão mal financeiramente a ponto de se candidatar a um emprego de gari na Prefeitura do Rio de Janeiro. A informação, que um amigo do jogador garantia ser verídica, causou constrangimento ao jogador e ao jornal, que acabou desmentindo o suposto pedido que seria feito ao vereador Couto de Sousa. No começo daquele mesmo ano, o Flamengo cedeu um espaço em sua sede para Biguá empreender uma mercearia que se chamava “Tricampeão”. O negócio durou pouco tempo.

Mas Biguá tinha amigos de fé. Foi um presente de Gilberto Cardoso, ex-presidente do Rubro-negro, um bar/ mercearia na sede do Morro da Viúva, no bairro do Flamengo, que ajudou Biguá a se manter, com dificuldades, durante muitos anos. O ex-craque foi também funcionário do antigo INPS [Instituto Nacional de Previdência Social], no final dos anos de 1960 e começo dos 70, como chefe da seção de Leitura de Microfilmes da Dataprev, a Central de Processamento de Dados na Previdência Social.

O ex-lateral viveu seus últimos anos em uma pensão. Completamente incógnito caminhava pelas ruas. Poucos, mas muito poucos mesmo o reconheciam. Em março de 1984, um susto: Biguá, por ser sonâmbulo, rolou da escada da casa de uma sobrinha, em Porciúncula, no interior do estado do Rio, e teve a clavícula quebrada. “Mas foi só um susto. Eu sofria muito mais quando estava enfrentando o Vasco.”


No traço do genial e inveterado rubro-negro Otelo Caçador (Acervo André Felipe de Lima)

Em dezembro de 1988, outro susto, infelizmente com desfecho trágico: internaram-no no Instituto Nacional do Câncer, no Centro do Rio de Janeiro. Após 30 dias de sofrimento, no dia 9 de janeiro de 1989, Biguá perdeu a luta para um câncer no cérebro e para a diabete. Morreu pobre, abandonado pela maioria dos “amigos” e esquecido pela torcida para a qual tanta alegria e orgulho de ser rubro-negro proporcionou. Ao seu lado, apenas a esposa Lourdes Machado Cordeiro, com quem Biguá morava no bairro do Flamengo, na zona sul da cidade. Em seu enterro, no Cemitério São João Batista, havia poucos e genuínos companheiros, como o eterno rival e compadre Chico, Flávio Costa, Ademir de Menezes e Modesto Bria, que assim o definiu, em depoimento ao escritor Edilberto Coutinho: “Era ele quem sacudia a galera. Era um ídolo”. A mais pura verdade.

Uma vez perguntaram a Biguá sobre o que ele sentia por vestir a camisa do Flamengo. A resposta foi singela e inocente, bem ao estilo que conquistou a torcida rubro-negra: “Se eu fosse rico, jogava de graça no Flamengo”.

[1] RODRIGUES FILHO, Mário. O Negro no futebol brasileiro. Editora Mauad: Rio de Janeiro, 2003, p.267.

[2] ALVES, Ivan. Uma nação chamada Flamengo. Edição Europa: Rio de Janeiro, 1989, p.160.

[3] ABREU, Edgard de, CARVALHO, Arthur de, BARBARIZ, Irapuan, e PINHEIRO, Mauro. “Biguá, sua família, seus amores“. Revista Vida do crack, ano I, nº 2, Editora Brasilidade: Rio de Janeiro, junho de 1953, p.7.

[4] Idem, p.14.

[5] Ibidem, pp. 20-1.

[6] A.D. “Biguá, a glória de ser Flamengo“. Revista Grandes clubes Brasileiros/ Flamengo. Rio Gráfica Editora, Rio de Janeiro, 1971, pp.100-2.

[7] Idem.

[8] Ibidem.

[9]O fenômeno Biguá”, publicada em O Globo Sportivo, no dia 22 de setembro de 1951, p. 14.

[10] A.D. “Biguá, a glória de ser Flamengo“. Revista Grandes clubes Brasileiros/ Flamengo. Rio Gráfica Editora, Rio de Janeiro, 1971, pp.100-2.

[11] ABREU, Edgard de, CARVALHO, Arthur de, BARBARIZ, Irapuan, e PINHEIRO, Mauro. “Biguá, sua família, seus amores“. Revista Vida do crack, ano I, nº 2, Editora Brasilidade: Rio de Janeiro, junho de 1953, pp. 41-4.

[12] A.D. “Biguá, a glória de ser Flamengo“. Revista Grandes clubes Brasileiros/ Flamengo. Rio Gráfica Editora, Rio de Janeiro, 1971, pp.100-2. Nota do editor: O jogo contra o Vasco, naquele dia 16 de setembro de 1945, valeu pelo campeonato carioca. Berascochea, aos 10 minutos do primeiro tempo, marcou para o Vasco. Zizinho empatou aos 25 minutos do segundo tempo e Biguá, dez minutos depois, garantiu a vitória vascaína com um gol contra.

[13] A.D.. “Biguá”. Editora Abril/ Revista Placar, seção “Álbum“, edição nº 07, São Paulo, 1º de maio de 1970, p. 34.

[14] A.D. “Biguá, a glória de ser Flamengo“. Revista Grandes clubes Brasileiros/ Flamengo. Rio Gráfica Editora, Rio de Janeiro, 1971, pp.100-2.

[15] Como sinaliza Ruy Castro em seu livro “Flamengo: o vermelho e o negro“, Ediouro, 2005.

[16] A.D. “Biguá, a glória de ser Flamengo“. Revista Grandes clubes Brasileiros/ Flamengo. Rio Gráfica Editora, Rio de Janeiro, 1971, pp.100-2.

[17] ABREU, Edgard de, CARVALHO, Arthur de, BARBARIZ, Irapuan, e PINHEIRO, Mauro. “Biguá, sua família, seus amores“. Revista Vida do crack, ano I, nº 2, Editora Brasilidade: Rio de Janeiro, junho de 1953, p.66.

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