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CÁDIZ

24 / agosto / 2020

por Valdir Appel


O avião que transportava a delegação vascaína pousou em Madri. 

Na lanchonete do aeroporto, os jogadores foram surpreendidos pelo ponta-esquerda Moraes, que pediu a garçonete, em perfeito portunhol:

– Por favorzito, dê-me una Cueca-Cueja!

Imediatamente, virou intérprete da rapaziada.

De Sevilha, os cruzmaltinos seguiram para Cádiz, em ônibus especial, para disputar o torneio Ramón Carranza, que reúne costumeiramente duas equipes espanholas e duas sul-americanas.

Sexta-feira, para entrar no fuso, o time foi treinar à noite e fazer o reconhecimento do gramado do estádio. Foi mais um recreativo descontraído do que propriamente um ensaio técnico.

Às 22h, com o sol ainda se pondo em Cádiz, o pessoal zanzava pelo hotel, sem sono; afinal, ainda eram 18h, na cabeça da rapaziada. 

O técnico Gentil Cardoso, velha raposa, confiando nos seus comandados verificou, às 22h30, que todos já haviam levado suas chaves da portaria do hotel, e concluiu que os jogadores haviam se recolhido aos seus apartamentos. 

Na verdade, todos saíram com suas chaves no bolso, a pé, pelas ruas da histórica cidade, em busca dos seus tradicionais bares. 

E, de bar em bar, grupos revezavam em volta das máquinas de jogos eletrônicos, novidade para a maioria, na época, disputando rodadas de cerveja com azeitonas sem caroço. 

Quem perdia, pagava.

A consequência veio no dia seguinte. 

Jogo contra o Real Madrid de Gento, maior estrela do time espanhol e lendário ponta-esquerda, já com seus 40 anos, em fim de carreira.

No vestiário, Ari, que marcaria Gento, fazia seu aquecimento bastante otimista:

– Hoje é mole, vou dar um  no velhão!

Ari foi substituído ainda no primeiro tempo, depois de levar um baile e três gols pelo seu setor. Gento também cedeu lugar ao jovem Amâncio, que deu show na segunda etapa, enquanto um gol solitário e de bela feitura do ponteiro Nado foi a única nota digna de registro da derrota histórica por 6 a 1.

No domingo, em disputa do terceiro lugar, nova derrota, agora para o Peñarol, de Figueiroa, Abadi e Spencer, por 3 a 1, com três gols de Pedro Rocha. 

O Valência se sagrou campeão, derrotando o Real.

A taça recebida pelo quarto lugar, foi apelidada pelos jogadores de Troféu Chacrinha. 

À noite, no hotel, alguém escondeu o troféu e provocou sérios transtornos. Até a polícia foi chamada, e a busca terminou dentro do saco de chuteiras dos jogadores, irritando profundamente o massagista Marinho, responsável pela bagagem, que nada tinha a ver com o caso. 

Alheios a confusão, Gentil, o goleiro Franz e o Dr. Marcozzi conversavam na porta do hotel e foram atingidos por um balde de água fria jogado em suas cabeças. 

Franz ainda argumentou que a água provavelmente era proveniente de algum toldo recolhido de uma sacada. Não convenceu muito porque não chovia há meses em Cádiz. Na verdade, todos sabiam que as sacanagens eram obras do Ananias e do Brito, mas ninguém entregava, por cumplicidade.

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