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valdir appel

UM CAFÉ CONVIDATIVO

por Valdir Appel


No Recife, fiz amizade com o jornalista do Diário de Pernambuco, Amauri Veloso, hoje assessor de imprensa do Sport. O dia a dia do setorista do clube nos aproximou. Ético, limitava-se a divulgar as notícias do clube. Problemas extra-campo envolvendo jogadores ou problemas internos que pudessem manchar o nome do Leão eram abafados.

Amauri e eu tivemos a oportunidade de presenciar algo curioso. Um repórter novato do Diário de Pernambuco foi até o vestiário do leão, na Ilha do Retiro, e tomou um cafezinho que sempre ficava disponível, ao lado da água mineral, nos dias de jogos. Este foca e o nosso atacante Zezinho beberam o café quentinho. Eu e meus companheiros estranhamos o comportamento do Zezinho, após a degustação: não parava quieto no vestiário, agitava os braços, fazia agachamentos já durante a preleção do técnico, não via a hora de entrar em campo e jogar.

No primeiro tempo, o repórter do DP postou-se atrás do gol do Sport, acompanhando o ataque do Náutico. O rapaz, irrequieto, chamava a atenção de todos. Deslocava-se lateralmente na linha de fundo, enroscando-se com o fio do seu microfone e acompanhando todas as jogadas em cima. Em campo, Zezinho era o que demonstrava melhor preparo físico, só faltava bater escanteio e ir para a área cabecear. O público se divertiu o jogo inteiro com o atrapalhado repórter e vibrou muito com a disposição do atacante. Exagero à parte, sabe-se com certeza que os dois só dormiram 24 horas depois!

Pó mágico

Felizmente os demais jogadores não foram afetados pelo café. Eu nunca flagrei um doping espontâneo entre os companheiros. Mas, atividades de umbanda eram comuns e era bom respeitá-las. Colocar em dúvida as previsões dos macumbeiros de plantão podia quebrar uma corrente positiva. A maioria acreditava piamente. Eu só ficava impressionado com a quantidade de um pó vermelho que espalhavam pelo meu uniforme negro (calção, meias e camisa). O massagista Zé Ramos me aconselhava a usá-lo assim. Eu, que não sou bobo nem nada, ficava de bico calado, nem ousava sacudir o excesso de pó mágico. Porque eu não acredito em bruxas! Mas, que elas existem, existem!

(Recife 1969)

INAUGURAÇÃO DO ESTÁDIO MUNICIPAL DE BRASÍLIA

por Valdir Appel


Minha baixa na Polícia do Exército coincidiu com o término do período de testes que eu realizei no Vasco da Gama. Além de aprovar a minha contratação, o técnico Zezé Moreira também me integrou ao elenco que viajou para Brasília e Belo Horizonte, onde o Vasco realizou dois amistosos. Respectivamente contra Flamengo e Atlético Mineiro.

Desta forma, saí da caserna num dia e embarquei no outro rumo a capital federal como reserva do goleiro Amauri. Cabeça praticamente raspada, apenas um tufo louro no cocuruto, uma mala, paletó e uma gravata emprestada, eu destoava do restante dos jogadores impecáveis nos seus ternos pretos. Os MIBs de então. Vascaínos e rubro-negros viajaram juntos no mesmo avião para inaugurar o Estádio Municipal de Brasília.

O clássico carioca jogado em outras cidades despertava enorme interesse dos torcedores. A exemplo do que acontecia costumeiramente no Maracanã, o espaço nas arquibancadas era literalmente dividido ao meio. Foi um jogo emocionante onde o nosso centroavante Célio fez a diferença, marcando dois gols, garantindo a vitória por 2 a 1 sobre o arquirrival.

Almir descontou para o Flamengo. Zezé Moreira, entusiamado com a apresentação do time, mandou o tesoureiro pagar o meu bicho integral. Mesmo porque eu fui o único dos reservas a não ser utilizado. O prêmio representava muito mais do que o salário que eu ganhava até então.

(13 de maio de 1966) 

DOSES IMPRUDENTES

por Valdir Appel 


Paulo Mata protagonizou uma cena incomum num campo de futebol e que provavelmente, pela sua ousadia e despudor, abreviaram a sua curta carreira de técnico de futebol.

Dirigindo o Itaperuna, do interior fluminense, em jogo contra o Vasco da Gama pelo Campeonato Carioca de profissionais, arriou as calças no centro do gramado e mostrou sua branca bunda para todos os presentes no estádio em sinal de protesto contra a arbitragem, que segundo ele, prejudicava a sua equipe.

Nunca mais dirigiu time nenhum.

Este baiano já era bom de marketing nos anos 60. Deu charme carioca ao seu sotaque nordestino, lançou moda na zona sul com suas calças altas, camisas de grife e sapatos sem meias. Buscou seu espaço nos campos de futebol com garra e na sociedade com sua irreverência.

Tornou-se fiel escudeiro do zagueiro Fontana, um capixaba culto, educado e carismático, ídolo da torcida vascaína, passaporte para seu acesso aos círculos sociais e de forte referência na mídia esportiva.

Paulo presenciaria os últimos dias de Fontana em São Januário.

Em Salvador, o jogo contra o Bahia foi cancelado por causa das fortes chuvas que caíram sobre a capital baiana. O técnico Paulinho de Almeida liberou uma folga aos jogadores até as 23h.

A maioria voltou no horário, exceto três, que impuseram ao Paulinho uma vigília até às 3h da madrugada na porta do hotel. Aí deu um estalo no treinador que desceu para o bar que ficava no subsolo e…lá estavam: Eberval, Fontana e Moacir. Paulinho ainda teve tempo de ouvir:

– Garçom! Bota mais uma dose de uísque, por favor! Só não identificou o autor do pedido.

No dia seguinte a tensão era grande no ônibus que levaria os jogadores para o treino. Os “exxxpertos” da noite foram os últimos a embarcar.

Uma voz sacana quebrou o silêncio incômodo:

– Pelas minhas contas, cada dose ficou em 60 “paus”!

O cálculo do preço havia sido feito, tomando como referência a multa que cada um teria em seu salário, 40%.

Por falta de opção na lateral, Eberval jogou a partida seguinte e fez um gol de falta na vitória contra o Náutico do Recife. O mineiro Moacir pediu desculpas aceitas pelo técnico.

Fontana ainda resistiu dois meses até criar um novo atrito com o Paulinho de Almeida, quando se recusou a jogar uma partida decisiva contra o Internacional, alegando uma contusão minutos antes de o time entrar em campo.

Foi substituído por Moacir, mantido para a ultima partida conta o Santos. Fontana foi dispensado e negociado com o Cruzeiro. 

O Vasco ficou em 3º lugar na competição.

(Taça de Prata, 1968)

ERA 16 DE MARÇO DE 1969…

por Valdir Appel


O dia amanheceu, no Hotel das Paineiras. O sol se infiltrou entre os black-outs da janela do meu quarto, no segundo andar.

Três batidas fortes de dedos na porta convidaram a mim e ao meu colega Nado a abandonar as cobertas, esticar o esqueleto e pular de nossas camas.

Ali, pertinho do Corcovado, o frio inibia o desejo de levantar de qualquer um, e somente depois da higiene matinal a gente se animava a seguir em passos lentos para o salão onde nos aguardava um café fumegante acompanhado de saborosos produtos coloniais.

Pura rotina de concentração.

O prazo para fazer o desjejum terminava às 8h30. Depois, quem quisesse podia voltar pra cama. E era o que a maioria fazia.

Eu preferia ler o jornal e prosseguir na leitura de um livro, que já estava pela metade. Pra variar, o livro já estava com três orelhas, providenciadas pelo Acilino, que passou a marcar deliberadamente todos os livros que eu lia, a partir do dia que eu expliquei o motivo do uso do marcador de páginas.

O almoço foi o feijão com arroz de sempre: muita salada de tomate, bife grelhado, água mineral e uma gelatina de sobremesa – para rebater.

Depois de um breve footing, nos arredores do hotel para fazer o quilo, o técnico Pinga pediu que todos descessem com as suas bagagens, às 13h30.

Na sala de reuniões, fez uma breve preleção sobre o comportamento tático que o time iria adotar. Deixou claro que nos vestiários daria os detalhes individuais.

Nosso ônibus iniciou o lento processo de descida das Paineiras em direção ao Maracanã. O agito de bandeiras carregadas por alegres torcedores vestindo a camisa do Vasco, descendo dos trens da Central, dos ônibus, misturando-se aos pedestres, faziam prever um grande público para o clássico contra o Bangu.

Estávamos rodeados por dezenas de fiéis torcedores cruzmaltinos que acenavam sorridentes, batendo nas laterais do ônibus, desejando boa sorte.

Nos vestiários, a preleção, o aquecimento, a oração.

Subimos para o gramado. Estouro de fogos de artifício! Gritos de casaca: “Vaaascooo! Vaaascooo!”.

A massa vascaína tomava conta praticamente de todo o estádio, contrapondo-se a pequena torcida do Bangu.

O Vasco fez 1 a 0, com Adilson, numa falha do goleiro Devito, que novamente se atrapalhou com a bola num cruzamento, cometendo pênalti. Buglê, cobrou… e perdeu! Seu chute foi tão forte, por cima do arco banguense, que a bola foi parar nas arquibancadas.

O jogo estava difícil, bem disputado, e eu fazendo boas defesas e transmitindo confiança ao time. Aos 44 minutos da primeira etapa, Dé dominou uma bola de costas para a minha baliza, entre a marca do pênalti e a risca da grande área; girou o corpo e desferiu um sem-pulo espetacular no meu canto baixo, à direita.

Realizo um salto perfeito e encaixo firme a pelota!

Deu pra ouvir o comentário zangado do Dé:

– Filho da puta! Como é que pega uma bola dessas?!

Um longo aplauso veio das arquibancadas.

Ergui-me do gramado, com a bola nas mãos. Observei a saída da zaga e as colocações de Eberval e Silvinho, pelo setor esquerdo da minha área. O primeiro tempo estava para acabar, e decidi repor a bola nos pés do Silvinho.

O braço fez a alavanca e a bola saiu forte de minhas mãos. Perdi o equilíbrio: as pontas dos meus dedos tocaram de leve a bola, que mudou sua trajetória, indo chocar-se com força no meio do poste esquerdo do meu arco, morrendo no fundo das redes.

Apoiado em um dos joelhos, me senti impotente, com vontade de sair correndo pra buscar a bola, fazer voltar o lance, apagá-lo da minha mente!

Silêncio total no maior estádio do mundo…

Arnaldo César Coelho olhou para o bandeirinha e perguntou:

– O que houve?

Alguns torcedores (perplexos) fizeram a mesma pergunta aos torcedores que estavam ao seu lado.

O primeiro conforto veio do Mário, atacante do Bangu.

Os fotógrafos estavam desolados, também, porque baixaram suas câmeras depois da minha defesa, e não registraram o gol sobrenatural. Até o Canal 100, especialista em captar momentos históricos e cenas inusitadas do futebol, havia girado suas câmeras para as arquibancadas, e perdido o lance.

Arnaldo César encerrou o primeiro tempo sem sequer dar nova saída de bola.

Preparei-me para iniciar o que seria a maior travessia do Maracanã. Estava no gol, à direita da tribuna de honra, e meu vestiário estava do lado esquerdo.

Antes mesmo de chegar à linha da grande área, um batalhão de repórteres, empunhando seus microfones, já me cercava, perguntando:

– O que é que houve?

Minha resposta saiu rápida e definitiva, detendo outras perguntas:

– Um acidente de trabalho!

Continuei em frente. Aplausos tímidos da minha torcida tentavam me consolar; os colegas faziam o mesmo.

Fiquei entorpecido. Minha cabeça não parava de pensar nas consequências que poderiam advir daquele gol absurdo.

Cheguei próximo ao banco de reservas. Pinga, Evaristo Macedo, doutor Arnaldo Santiago e Carlos Alberto Parreira me aguardavam. Apressaram minha descida para o vestiário.

– Espero que ninguém esteja pensando em me sacar por falta de condições psicológicas! – disparei.

Pinga respondeu:

– Apenas desça, pra evitar maiores assédios.

Nos vestiários, Parreira – que também era o treinador de goleiros, tomou uma providência importante: pediu que eu fosse me refrescar, trocasse a camisa, e o acompanhasse.

Enquanto os demais jogadores relaxavam em suas cadeiras e ouviam novas orientações do treinador, passei o intervalo inteiro batendo bola com Parreira. Desta forma, ele tentava impedir que eu parasse pra pensar no desagradável episódio.

Como se isso fosse possível!

Na volta pro segundo tempo, Alcir me perguntou se eu estava tão tranquilo quanto aparentava. Respondi que estava bem e que iríamos ganhar o jogo.

Dentro do túnel, uma surpresa: o repórter volante de uma emissora de rádio me perguntou:

– Valdir, você vai voltar?

– Não! É sua mãe que vai pro gol, seu filho da puta!

Ao chegar na minha área, outro repórter me abordou. Colocou um fone de ouvidos em mim e me botou em contato com o goleiro Barbosa, que estava nas tribunas. Barbosa tentou me incentivar, dizendo que eu levantasse a cabeça, e que com ele havia sido pior – uma falha havia custado ao Brasil o título da Copa de 1950.

Agradeci ao grande goleiro. Se bem que a última coisa que eu estava interessado naquele momento era em comparações. Minha preocupação era fechar o gol e não permitir suspeitas sobre o meu equilíbrio emocional. Eu sabia que um segundo tempo ruim poderia significar o fim da minha carreira.

Joguei bem, mas o placar permaneceu igual.

Nos vestiários, tive que dar mil entrevistas, repetindo sempre como a bola me escapara das mãos ao arremessá-la. Até meu goleiro reserva, Pedro Paulo, tentou me convencer de que eu me arrependera ao fazer o arremesso, provocando o toque na bola que a fez girar e ir para as minhas próprias redes.

À noite, nas estações de TV, vi e revi centenas de vezes o tape do gol inacreditável e bizarro. Todos faziam questão de explicar o inexplicável.

O HOMEM DA PRANCHETA

por Valdir Appel


Joel deixou para trás os carrinhos de rolimã, as pipas, as bolas de meia e o juvenil do Olaria, da Rua Bariri. Mudou-se pra Tijuca, como os pais e a irmã, e foi contratado pelo Vasco. Não levou muito tempo pra se adaptar em São Januário. Foi logo botando as manguinhas de fora, impondo-se aos garotos do juvenil, assumindo a faixa de capitão e o comando do time do seu Célio de Souza em campo. Chegou prematuramente aos aspirantes e foi logo colocando faixa de campeão em cima do Flamengo, em 1967. 

No ano seguinte, o Vasco contratou Paulo Baltar, preparador físico, para ser auxiliar do técnico Paulinho de Almeida. Baltar introduziu inúmeras inovações nas atividades físicas dos jogadores, até então acostumados apenas aos exercícios calistênicos e corridas de curta e longa duração.

Primeiro trouxe com ele Hélio Viggio, professor de jiu-jitsu, que tentou nos ensinar alguma coisa de defesa pessoal e de como cair sem se machucar. Baltar gostava também de encerrar os treinos com uma série de exercícios abdominais. Munido de um porrete, circulava em volta dos jogadores. Ordenava que cada um deitasse, encolhesse as pernas e retesasse a barriga, depois desferia algumas porradas nos músculos abdominais da rapaziada. 

Até hoje não sei dizer se os músculos enrijeciam por causa dos exercícios ou pela visão do objeto de tortura.

Sua suprema criação foi a introdução do bambolê nas atividades. 

Amanheceu na Colina, distribuindo pelo gramado vários bambolês, formando figuras que proporcionavam aos atletas a execução dos mais variados exercícios. 

Jogo da velha, correr em ziguezague, saltitar com os dois pés, um pé de cada vez… 

No fim dos treinamentos, a diversão era garantida com a tentativa de cada jogador fazer o brinquedo girar em volta da cintura. 

Nei, cintura de pilão, rebolava feito sambista da Mangueira e não deixava a peteca cair, digo, o bambolê. 

Buglê e Moacir ficavam na deles, como bons mineiros: nem tentavam. 

Adilson, pernambucano macho, dizia que aquilo não era brinquedo de homem. 

Brito, tão duro como sua finesse, só enxergava o artefato no chão, como Joel, que arremessava o arco para cima e com força, sem, contudo, fazê-lo girar em volta dos duros quadris. O brinquedo beijava os seus pés antes do primeiro giro.

Esta prática não deu ao Joel mais mobilidade e traquejo, mas garantiu-lhe instantaneamente o apelido de Vassoura. Apelido este que seria reforçado, com o passar do tempo, por ser comprido, magro, e ter andar empertigado feito o Brito, de quem ainda herdou o hábito de fazer cara feia, dar esporro e meter o cacete em quem se aventurasse pela sua área. Não aliviava nos treinos e muito menos nos jogos. A diferença entre eles, é lógico, era a alta capacidade técnica do zagueiro Brito, que se notabilizaria pouco depois no México, onde sagrou-se tricampeão mundial pelo Brasil e foi eleito o jogador de melhor preparo físico da competição.

Fora de campo, Joel era um dedicado estudante, abstêmio, gostava de samba, de namorar e de automóveis. Com seu primeiro carro, um fusca azul, costumava fazer perigosas curvas nas imediações do Maracanã, fazendo pose de Emerson Fittipaldi ao som das músicas do Tim Maia. Autodenominava-se Joel Gogô, sem explicar porque, referência, talvez, ao som contagiante que tomou conta das rádios e boates do Brasil nos anos 1960. O embalo de Johnny Rivers at the Whiskey a Go Go precedia a febre que os Bee Gees e Os Embalos de Sábado à Noite causariam nas discotecas, praticamente 10 anos depois, pelo mundo afora.

Joel, com seu estilo viril, foi campeão carioca pelo Vasco em 1970 e brasileiro em 1974. Seu último clube foi o América, de Natal, onde conquistou alguns títulos potiguares antes de encerrar a carreira como jogador, formar-se em Educação Física e tornar-se um técnico de prestígio. 

Passou a ser conhecido como O Rei do Rio após a conquista do seu quinto título carioca, como técnico.