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serginho 5bocas

RENATO GAÚCHO

por Serginho 5Bocas


Renato Gaúcho é um personagem emblemático do futebol brasileiro. Você pode até não gostar do jeito dele ou até mesmo do seu futebol, na maior parte das vezes individualista, mas nunca ficaria indiferente a este jogador.

Provocador, falastrão, egoísta, são inúmeras as formas de falar mal dele, mas também há um lado humano que não dá para esquecer: por onde passou, ajudou amigos e funcionários mais humildes dos clubes, muitas vezes com recursos próprios.

Apreciador da noite, bebia todas e saía com as mais belas mulheres, mas, no dia seguinte, puxava a fila do treino físico e, por isso, ninguém conseguia falar dele. Fez fortuna com o futebol que Deus lhe deu e depois foi ser um treinador vencedor, com o mesmo sucesso do tempo de jogador, um predestinado à gloria.

Foi ídolo de várias torcidas, mas no Grêmio ele foi o maior, barrando o lendário Lara e virando estátua de bronze na esplanada da Arena. Muito jovem, já era o ídolo da torcida e não decepcionava seus fãs. Dizem, inclusive, que a galera chegava cedo para ver a preliminar de juvenis e Renato já chamava a atenção pelos dribles insinuantes e a sua vontade de ganhar.

No Olímpico, fez história: campeão gaúcho, vice-campeão brasileiro, campeão da Libertadores e do Mundial Interclubes. Neste último, marcou simplesmente os dois gols do time na final contra o Hamburgo, da Alemanha, em 1983, e fez os gringos de “joãos”, encarnando um Garrincha, respeitando as devidas proporções. Naquele dia, deu tudo certo para o jovem ponta-direita, que desmontou a zaga alemã.


Renato foi o grande nome do Brasil nas Eliminatórias para a Copa do Mundo do México (1986), consagrando o centroavante Casagrande com seus cruzamentos. Contudo, por conta da constante indisciplina dentro e fora do campo, o treinador Telê Santana decidiu cortá-lo do grupo que foi a Copa. Ruim para Renato, pior ainda para o Brasil. Renato estava “voando baixo” e seria fundamental numa Copa com jogos disputados na altitude e diante de um sol de meio-dia, quando boa parte dos principais dos titulares já estava em final de carreira e faltava fôlego.

Ele jogou e também foi ídolo de Flamengo, Botafogo, Cruzeiro e Fluminense, com ótimas atuações nos clubes e poucos momentos de brilho pela Seleção. Ainda assim, ele foi campeão da Copa América de 1989 no Brasil e esteve no grupo que jogou a Copa da Itália, em 1990, ambas como reserva.

O trauma por não ter sido convocado em 1986 foi demais e parece que ele ficou marcado por aquele episódio para sempre, mas Renato ficará na memória de quem gosta de futebol como um jogador de muita raça, força, habilidade, cruzamentos e, claro, gols decisivos. Podem até dizer que ele era “fominha”, com uma parcela de razão, mas nunca “amarelão”.

Muitos vão dizer que ele era muito individualista, mas, quando estava disposto a cruzar para os companheiros, era brincadeira. Caio, na final da Libertadores de 1983 contra o Peñarol, Casagrande, nas Eliminatórias da Copa de 1986, e Bebeto, na fase final da Copa União de 1987, deitaram e rolaram com seus cruzamentos sempre perfeitos, tirando do goleiro.


Para se ter uma noção da sua grandeza, Renato foi eleito o melhor ponta-direita de cinco Campeonatos Brasileiros e, em um deles, ganhou o prêmio de melhor jogador da competição pela renomada crítica da Revista Placar. Nesses anos todos de Campeonato Brasileiro, não me lembro de outro ponta ter vencido o prêmio tantas. No entanto, não conseguiu escrever seu nome na Copa do Mundo e isso acabou minimizando o seu verdadeiro tamanho.

Ele não chega a ser um completo injustiçado no futebol, mas bem que merecia melhor sorte. Foi o último dos grandes e autênticos pontas que vi jogar, inclusive sendo o primeiro vencedor do troféu “Alegria do Povo”, concedido pela Revista Placar aos maiores dribladores da extrema direita, numa homenagem a quem mais se aproximava do “Anjo das Pernas Tortas”.

É muito difícil aceitar as escolhas dos outros! Fui e sou fã do Telê, mas ele aprontou cada uma com a gente por conta de suas convicções, que vou te contar! Não levar o goleador em 1986 foi uma decepção gigantesca para mim e um crime para o Brasil e a Copa do Mundo. Imagino a cara de pavor dos gringos, vendo Renato partir para dentro e enfileirar os adversários. Talvez o “Casão” fosse o artilheiro da Copa e Maradona tivesse um concorrente à altura, pelo menos naquele momento, acreditem.

Recentemente, foi responsável por criar uma polêmica quando se comparou ao craque Cristiano Ronaldo, o CR7. Disse que queria vê-lo jogando com três ou quatro meses de salários atrasados como se joga no Brasil e disparou que, se jogasse ao lado dos colegas de CR7 no Real Madrid, também faria estragos ainda maiores nas defesas.


Muitos riram do Renato, mas, sem querer comparar números, acho que o que ele quis dizer é que é muito mais fácil você ter sucesso quando está sendo suportado por uma máquina vencedora e ao lado de companheiros de nível de seleção, do que quando você integra um time que nunca havia conquistado nada. Renato simplesmente reverteu a situação do Grêmio, colocando este time em um outro patamar. Talvez, se CR7 tivesse conquistado alguma coisa pelo Sporting, de Portugal, poderia facilitar as nossas comparações, mas fica aqui o esclarecimento para reflexão e futuras resenhas.

Essa é minha singela homenagem ao Renato, o ex-padeiro e o gaúcho mais carioca que conheci. Me tornei fã pela sua vontade de vencer e por todo o talento demonstrado com o manto rubro-negro na Copa União de 1987, quando ele gastou tanto a bola, que levou o prêmio Bola de Ouro, por ter sido o melhor jogador do campeonato.

Renato foi singular, um forte, que nasceu “vaca premiada”. Fico me perguntando que esse cara podia ter aprontado em 1986! Vai saber…

MESTRES NA BATIDA DA BOLA

por Serginho 5Bocas 


Houve um tempo em que bons batedores de falta no Brasil nasciam nos cantos dos paralelepípedos e nas frestas das calçadas, igual capim, era aquela surrada história de onde se planta, dá. É uma história antiga e repleta de talentos, um legado extenso de batedores extraordinários que me deixa curioso, se estou certo, mas quase posso afirmar que nunca, em lugar nenhum do planeta, nasceram tantos mestres na batida da bola como no Brasil.

Para se ter uma ideia da oferta de talentos, nos anos 50 e início dos anos 60, quem dava as cartas e assombrava a galera eram Jair da Rosa Pinto e Pepe, com fortes petardos que desmontavam defesas e o Mister Didi, com a leveza das folhas secas.

No final dos anos 60 e início dos 70, Pelé que não era especialista nesta matéria, batia bem de várias formas e marcou vários gols, incluindo em Copas do Mundo. Rivelino e Nelinho soltavam seus mísseis cheios de curvas deixando enlouquecidos os pobres dos arqueiros. Ailton Lira, Dicá e Zenon eram daquela estirpe de classe total na batida. 

No final dos anos 70 e início dos anos 80, Zico e Roberto Dinamite enlouqueceram goleiros com gols de falta “a rodo”, semanalmente e às vezes mais de uma vez numa só partida. Edér ia dizimando os adversários com suas bombas certeiras, bem de longe, já que, para ele, meio de campo era meia lua.


Logo em seguida, ali pelo final dos anos 80 e início dos 90, Branco surgiu derrubando e botando pra “ninar” repórter atrás do gol. Neto e Marcelinho Carioca davam curvas impressionantes na bola, raríssimas de se ver ou prever a trajetória.

No final dos anos 90 e início dos anos 2000, Juninho Pernambucano batia com uma precisão incrível que parecia fácil, Roberto Carlos enviava seus torpedos violentíssimos sem dó nem piedade e Marcos Assunção batia na bola com muita categoria e jeito.

Nos anos 2000 em diante, os últimos moicanos foram Rogério Ceni com uma incrível precisão e fome de gols para um goleiro e Ronaldinho Gaúcho com categoria absurda e inventando batida por baixo da barreira, um assombro. 

Depois de apresentar essa turma toda, com a saudade boa de quem viu boa parte deles em ação na sua plenitude, tentei buscar as razões para tamanha escassez deste tipo de jogada, que sempre foi tão brasileira, sempre alegrou demais a nossa galera e que sempre mostrou ao mundo a nossa inventividade. O que pode ter acontecido para deixarmos a bola ficar murcha?

Dizem que os jogadores de hoje não gostam de ficar treinando batidas de faltas após o horário normal dos treinos, hora extra nem pensar. Talvez tenha um fundo de verdade, já ouvimos constantemente vários destes grandes batedores explicando que ficavam após o horário dos treinos batendo faltas adicionais e muitas vezes sem auxiliares ou goleiros para ajudar na tarefa. Eles tentavam simular situações de jogo, para que na hora “H”, acertar o gol fosse como “bater cartão” na empresa, tamanha a facilidade, dada a exaustão das repetições dos movimentos.

Outros dizem que os fisiologistas de hoje, tão em voga nos clubes que de tão importantes nas equipes de futebol, dizem quem deve ser escalado e quem deve ser poupado, porque a musculatura pode estourar daqui a alguns instantes, um exagero.

Se o ritmo e a intensidade dos jogadores nas partidas ficou tão puxado que nem treinar batidas de faltas podem ser executadas, talvez devessemos rever se o tempo das partidas não deveria diminuir ou se o número de jogadores deveria ser maior para se desgastarem menos, correndo menos quilômetros. 

Não sei se há uma dose de exageros destes especialistas do esporte, mas que se for verdade, pode estar “matando na raiz” um “expertise” tão brasileiro, que chego a pensar que a solução é treinar os goleiros. Sim, afinal de contas, um dos maiores batedores de falta de todos os tempos foi Rogério Ceni. Se hoje os goleiros são obrigados a saber sair jogando com os pés, porque não encontrar entre eles, os caras que podem trazer de volta a nossa supremacia neste quesito da modalidade.

O que não consigo entender com clareza é que, mesmo o futebol atual sendo mais intenso, por outro lado a medicina avançou espantosamente e recupera os jogadores com incrível rapidez. Lesões que antigamente encurtavam facilmente as carreiras, hoje tem solução rápida e eficaz, é só ver quantos atletas de várias modalidades estão jogando por mais tempo, esticando seu tempo de vida esportiva. 


Talvez o problema seja mesmo a falta de talentos, bater faltas com perfeição não é só treinamento constante, existe o fator talento, dom ou como queiram chamar a qualidade nata de nossos antigos jogadores e isso é límpido que a queda de talentos foi vertiginosa. Já foi o tempo em que na hora da falta, tínhamos dois, três ou mais especialistas rondando a bola para confundir e matar de medo o goleiro adversário, hoje é só um monte de enganador que chutam oitenta, noventa bolas para acertar uma, dá até dó de ver.

Confesso que não me conformo, porque como era bom quando saia uma falta contra o adversário e você tinha um cara “especial” para batê-la. Por outro lado, também era um inferno ver seu time cometer a falta e ter que secar muito para a bola não entrar quando a fera estava do outro lado.

Agora. Para matar a saudade com elogios, vou elencar dez grandes mestres desta arte, explicando o porquê de cada um estar nela, mas ressaltando que só entrou na lista quem teve um longo legado, quem metia medo e só os que eu realmente vi bater na bola. Peço desculpas aos ausentes por não tê-los visto ou pelo pouco tempo que estiveram assombrando pelos campos, mas quero lembrar que a lista está em ordem alfabética e não de preferência, ok? 

EDER entra na relação, sem dúvida nenhuma, pela força e efeito de sua batida. Ficou famoso na Copa de 82 pelo chute forte, mas também pelo colocado. Lembro de quantas vezes, vi fazendo gols de muito longe, às vezes um pouco depois da linha do meio de campo, impressionante;

JUNINHO PERNAMBUCANO tinha uma precisão e uma forma diferente pela elegância de bater na bola. Nem preciso falar daquela falta contra os argentinos do River Plate, histórica, perfeita e que só poderia ser desferida por quem tem “culhões”, nos momentos decisivos;


MARCELINHO CARIOCA entra na relação pela variedade e formas. Batia de qualquer lugar do campo e as curvas que a bola fazia eram diferenciadas, coitados dos goleiros, enganou muita gente com seu chute com pé pequeno, um espanto.

NELINHO talvez tenha sido o melhor chutador de longe com curva de todos os tempos. Para ele não tinha distância, o duelo de suas curvas com Manga foi histórico na final do Brasileiro de 1975. Seu gol contra a Itália na decisão do terceiro lugar da Copa de 78, apesar de não ser de falta, foi de outro planeta, Zoff pensou que ia sair, só que entrou;

NETO também batia na bola com força, seu gol de longe contra o Flamengo no Maracanã foi de almanaque, Gilmar não contava com a última curva. Durante uns 4 ou 5 anos foi o maior batedor de faltas do Brasil;

RIVELINO era um monstro na batida com força. Largou o “aço”, digo, suas patadas atômicas em duas Copas do Mundo e reza a lenda, que deixou um goleiro argentino quase desmaiado, após uma tentativa de encaixar uma bola chutada por ele de muito longe, dizem que o crucifixo do cordão que o goleiro usava, ficou marcado no peito, o bigode era sinistro;


ROBERTO DINAMITE já tinha no sobrenome o predicado explosivo. Começou batendo forte e depois, com o tempo, talento e a experiência, começou a se dedicar a batida mais colocada, mas em qualquer das duas formas, era certeza de gols, um monstro, fez muito gol deste jeito na carreira.

ROGERIO CENI entra pela sua incrível capacidade de executar o movimento da batida de falta, da mesma forma e por muitas vezes com extrema perfeição. O São Paulo venceu muitas partidas pelos gols de falta que fez. Ceni fez mais gols na carreira que muitos centroavantes e quebrou o paradigma do goleiro só ficar embaixo das traves. Ele assuntou muitos treinadores que temiam pela sua volta ao gol quando não acertava, mas foram poucas.

RONALDINHO GAÚCHO foi escolhido pela categoria, leveza e arte de criação na batida de falta. Aquela por baixo da barreira em um jogo fantástico contra o Santos, foi de extrema inventividade, talento e confiança em uma partida de altíssimo nível e rendimento, coisa de bruxo.


ZICO sua batida clássica era com a bola subindo, fazendo a curva e descaindo no ângulo, um primor. Fazia gols de falta igual a gente chupa uma laranja. Na Itália fez tantos gols de faltas, logo na primeira temporada que até na mesa redonda na TV RAI, foi motivo de resenha para discutir como pará-lo. Teve gol de falta em Copa do Mundo, em final de Libertadores, dois gols de falta em um jogo só, mas talvez o seu gol de falta mais emblemático, seja aquele contra o Santa Cruz, na Copa União de 1987. E afinal de contas, muitos já devem ter ouvido esse refrão: “…é falta na entrada da área, advinha quem vai bater, ê, ê, ê….é o camisa 10 da gávea…”

Fico por aqui, na esperança que novos batedores surjam e calem este rabugento, que dizem as más línguas é somente um velho saudosista, talvez seja mesmo, mas que deixamos de ver aqueles gols de almanaque, deixamos. 

Os torcedores agonizam, mas que maré!

Um forte abraço

Serginho 5bocas

PAOLO ROSSI, FORJADO PARA VENCER

por Serginho 5Bocas


Paolo Rossi foi no mínimo diferente, digamos que um jogador abençoado ou então me diga se você já viu um jogador ser convocado para uma Copa do Mundo vindo de grandes atuações na segunda divisão de seu País? Ele foi. Bearzort apostou nele durante toda a sua carreira e sempre o levou para a Copa do Mundo, contrariando a tudo e a todos. 

Começou a carreira cedo e muito cedo, perdeu os seus meniscos, a proteção dos joelhos. O atraso da medicina daquela época fez com que os médicos não lhe curassem totalmente e pior: vaticinassem que a sua carreira não passaria dos 28 anos. Ele se arrastou pelos gramados até os 31, mas em alto nível foi bem próximo ao que os doutores do bisturi previram, infelizmente.

Um cara que jogou poucos jogos e que fez poucos gols, que ficou afastado do futebol por 2 anos por problemas com a máfia da loteria italiana e que por conta de lesões nos joelhos encerrou sua carreira precocemente, fez o que fez. Temos que respeitar, certo?

Paolo não teve durante a carreira muitos títulos, nem muitas artilharias que pudessem justificar o seu tamanho, mas teve a suprema glória de ser artilheiro, campeão e melhor jogador de uma Copa do Mundo em 1982. Aliás, em Copas do Mundo foram 9 gols, é muita coisa. Devo destacar que seu jogo não era gracioso, como os brasileiros gostam de ver (ou gostavam), mas era poderoso, e apesar de poucos recursos, econômico, era preciso e decisivo no maior palco da terra.

Paolo ainda teve, a glória eterna de vencer um time mítico, como uma ave fênix que ressurge das cinzas, time que ele mesmo chamava de “marcianos”, por jogarem de memória e que segundo ele, poderiam jogar de olhos vendados. Mas nada disso o intimidou e ele fez a sua parte, com louvor.

Há os que se impressionem com as bolas de ouro que a FIFA distribui de forma infame e política e os que reconhecem o valor de cada tipo de jogador com o seu próprio jogo. Quando lembro do bambino, não tenho lembranças dele como um grande craque, feito os que que eu vi naquela época e em todas as épocas, lembro de um cara talhado e forjado para vencer as mais duras batalhas, um cara de um toque só, do oportunismo, da colocação, mas sem medo e com uma confiança estratosférica e nesse campo meu amigo, ninguém segura, ou alguém será capaz de me mostrar um DVD dos melhores lances da carreira dele, que ultrapassem dez minutos de exibição?

A Copa do Mundo é madrasta não é a mamãe, ela é um jogo bruto, um mata-mata brutal, não dá tempo de respirar, não é garantia de glória para os melhores, mas para os mais fortes ou talvez adaptáveis, numa visão análoga ao que diria Darwin. A dona Copa reservou um lugar de honra em seu camarote para Paolo Rossi e ele não se fez de rogado e lá, onde muitos sucumbiram, ele carimbou seu nome na eternidade, se tornando ao lado de Vieri e de Roberto Baggio, um dos três maiores artilheiros italianos em Copas do Mundo de todos os tempos.

A Itália possui quatro títulos mundiais, mas nenhum deles se compara ao vencido e liderado pelas atuações marcantes do “Pablito” em 1982. Paolo Rossi, para os italianos é visto como um herói, um David que derrubou um Golias, são marcas indeléveis de um título para lá de improvável, do jeito que os italianos mais gostam de saborear, com muita transpiração e pouca inspiração.

Rossi ficará para sempre numa galeria onde já habitam gente do porte de Klose, Gerd Muller, Fontaine, Kocsis, Klinsmann, Lineker, entre outros grandes artilheiros que não perdiam tempo jogando bola, precisavam fazer gols.

PIU PIU, O MATADOR DE PENEIRAS

por Serginho 5Bocas


Vocês sabem o que é uma Peneira? É a prova dos nove dos moleques candidatos a craques da bola, pois é lá que o jogo fica em seu estado mais bruto na vida dos jovens postulantes a craques e onde morrem ou nascem sonhos e esperanças daqueles que sonham em ser jogador de futebol.

Não há espaço para palavras educadas e motivadoras. Ao final do treino é aquela hora do momento mais temido, quando o homem da prancheta decide e diz quem fica e quem volta para casa. 

O ex jogador Cafu, que foi recentemente eleito o melhor lateral direito do futebol mundial de todos os tempos pela revista France Football, foi um caso extremo de resiliência no campo das peneiras. Reprovado em mais de dez delas, sempre voltava e tentava novamente. Um dia ele foi lá e a coisa aconteceu e o resto todos já conhecem. Muita gente boa ficou pelo caminho, porque não tinha paciência para aturar os destratos dos negligentes avaliadores ou porque não davam importância mesmo. O certo é que querendo ou não querendo, tem que passar pela duríssima prova de fogo.

A vida dos meninos é tão difícil que para vocês terem uma ideia, Pelé precisou de uma forcinha do ex-craque da seleção brasileira Waldemar de Brito e Zico precisou do aval do radialista Celso Garcia. Imaginem os simples mortais? Mas vamos ao moleque da hora…

Moleque de rua, de paralelepípedo, das tabelinhas com as paredes, das paradas de bola para esperar a moça ou o carro passar, somos nós, somos todos nós, quando olhamos com carinho para a infância que passou. Piu Piu era bola-bola, gastava ela com amor, não era o melhor de todos, nem era o mais habilidoso, o mais driblador, mas era impávido, determinado, chato de ser vencido. Tinha qualidade no passe, visão de jogo, batia forte e com direção na bola e tinha uma vontade absurda de vencer. 

Ainda menino, no auge de seus 11 anos, Piu Piu não tinha medo de cara feia, nem de cara grande, os temidos “galalaus”. Jogava suas peladas contra os caras bem mais velhos e grandes e num domingo desses de manhã, foi jogar um time contra o Vitoria do Lins, um clube de futebol de salão do subúrbio do Rio de Janeiro. Perderam nas três categorias (mirim, infantil e infanto), mas Piu Piu e o amigo Caolha foram chamados para fazer testes no clube. Passaram, mas não seguiram com a experiência, porque tinham medo de andar de ônibus à noite. Apesar da peneira superada, “queimou a largada” na primeira peneira superada.

Cinco anos depois, lá estavam juntos novamente, Piu Piu e Caolha fazendo um teste no infanto-juvenil do time de futebol de salão do clube Ríver de Quintino. Dessa vez, passaram e seguiram em frente, jogaram o segundo turno do Carioca daquele mesmo ano, no longínquo 1983. Outra peneira vencida, desta vez mais fácil.

No ano seguinte, Piu Piu se sentindo desprestigiado no clube de Quintino, foi fazer teste numa peneira no Grajaú Tênis Clube e mais uma vez passou no teste, chegando a disputar algumas partidas amistosas e uma ou duas do Carioca do campeonato juvenil. Mas novamente alguma coisa não vingou, ele era cabeça quente demais, não engolia sapos e decidiu jogar aquilo tudo para o alto e se dedicar aos estudos.

Neste intervalo de tempo, ocorreu o fato mais inusitado. A mãe do padrinho de Piu Piu trabalhava como doméstica na casa do jogador Júnior, do Flamengo, sim do Leovegildo. Dona Dolores pediu ao craque da seleção, o famoso lateral, mas que ainda não era o nosso maestro, para dar uma carta de apresentação que permitisse o afilhado do filho dela fazer um teste no Flamengo.

Júnior escreveu a carta pedindo ao Joel, ex-ponta direita do Flamengo, que desse a chance a ele de fazer um teste no campo conhecido como 8º GAC, um quartel na Vila Militar onde estava rolando uma peneira.

Carta recebida e quase ignorada por não acreditar que o Júnior daria esta moral. Passado o susto inicial, foi falar com seu pai, que lhe deu um valioso conselho, mas que infelizmente foi ignorado:

– Filho, pega um ônibus para lá um dia antes, para você ver onde é, para depois não errar o endereço.

Piu Piu deu de ombros e achou que era preciosismo demais de seu pai. “Quem não escuta cuidado, escuta coitado”, já dizia o velho ditado. No dia marcado, Piu Piu pegou o ônibus 689 “Meier-Campo Grande” e foi para o maior desafio daquele garoto de 14 prestes a fazer 15 anos.

Na cabeça era um misto de ansiedade, medo e vontade de ver como é que seria. Imagina só passar no teste e falar com a galera da rua que agora era jogador do Mengão, putz!

Piu Piu pegou o ônibus e quando chegou próximo da Vila Militar, perguntou ao cobrador e depois ao motorista se conheciam o campo do 8º GAC e ambos nunca tinham ouvido falar dele. Frustração e um frio na barriga, lembrou na hora do velho pai e já pensava o que diria para ele se não encontrasse o campo. 

Desceu do ônibus um pouco mais a frente e saiu perguntando para algumas pessoas sem sucesso, ninguém sabia onde era o campo. Resignado, triste e um pouco menos tenso, porque não faria mais o teste, pegou o mesmo ônibus no sentido contrário e um estranho sentimento rondava sua mente. Sentira tanta ansiedade e medo que agora voltar para casa parecia uma coisa bem tranquila.

Aí, aconteceu a coisa mais marcante dessa história toda. Piu Piu se sentou próximo ao cobrador, num banco mais alto, que ele gostava de ficar, para ver melhor a rua e não enjoar com o balanço do ônibus e quando já estava saindo da Vila Militar, viu um Quartel a sua direita e teve quase a certeza que estava escrito no muro GAC. Não deu pra ver se tinha um 8º antes, foi muito rápido e imediatamente, virou-se para olhar por cima do muro e lá avistou alguns meninos jogando bola em um campo gramado.

– “É ali, Piu? – Seu cérebro indagou em milissegundo a pergunta cruel.

Agora havia uma decisão a ser tomada urgente, o que fazer? Descer do ônibus e sair correndo, se desculpar pelo atraso e tentar fazer o teste ou deixar pra lá, seguir seu destino e arrumar uma desculpa para contar em casa, para seu pai e sua mãe.

Optou pelo caminho mais confortável. Sentiu um terrível medo do insucesso, coisa nunca experimentada, talvez por ser no seu clube de coração. Talvez tenha imaginado o tamanho daquilo tudo e seu cérebro não parava de pensar em todas as possibilidades de fracasso.

À medida que o ônibus ia se distanciando do endereço de seu sonho, Piu Piu ia ficando triste e talvez com uma ponta de arrependimento de não ter voltado e ter realizado o grande teste de sua vida. O que poderia ter acontecido? Nunca irá saber.

Hoje, Piu Piu diz que o que passou, passou, mas sente lá no fundo, uma tristeza de não ter a certeza se dava ou não dava para ele. Faltou coragem, talvez experiência ou até mesmo um padrinho naquela fatídica empreitada, para lhe dar aquele último empurrão. No aconchego do seu travesseiro, quantas vezes ele já pensou que tem tanta gente que não joga nada e virou profissional, porque logo ele, que era um matador de peneiras, não se tornaria um jogador de futebol? Nunca vai saber.

Se houvesse na vida de Piu Piu um momento “De volta para o futuro” (ou para o passado), com o “Marty McFly” e o “Dr. Emmett Brown”, astros marcantes daquele filme inesquecível, lhe dando uma nova chance de reescrever o seu caminho, voltando no tempo momentos antes de entrar naquele ônibus. E se ele pudesse ter as informações e a orientação para realizar aquele teste, do seu próprio “eu”, será que ele seria feliz? Será que também encontraria a sua namorada de novo, que depois virou esposa e teria os seus filhos, que tanto ama? Será que realmente teria uma carreira de sucesso nesse esporte ou teria uma contusão grave ou ainda seria esquecido na penúria de um time pequeno? Ninguém pode responder, nem mesmo ele tem a certeza de que tentaria de novo, a conta já está fechada.

O mundo das peneiras é feito muito mais de momentos triste do que felizes, um funil apertadíssimo separa os homens dos meninos, muita gente boa fica pelo caminho, é lugar para casca grossa, a bola vira prato de comida e não dá tempo para dúvidas. Reparem que raramente vemos jogadores de futebol de origem rica ou de classe média alta, em sua grande maioria, são os meninos mais carentes que vingam, aquele que não tem plano “B”, não há escola para oferecer outro caminho, empresa da família ou qualquer outra opção para largar o objetivo e partir para outra, é dá ou desce.

A história do Piu Piu não é única, tampouco inédita. Na verdade ela é baseada em fatos reais, ocorridos com o Serginho 5bocas ou se preferirem, com o “Piu Piu”, da Dona Jalderia (sua mãe), do Seu Domingos (seu pai) e de seus queridos irmãos Jorge, Geraldo, Marcos (in memoriam), Graça, Dolores e Consuelo.

Ô tempo bão!

O ÚLTIMO TANGO

por Serginho 5Bocas


Se tem um jogador que proporcionava emoções viscerais, esse era o cara. O que tinha de futebol nos pés, continha na mesma dose o drama. Sua carreira foi uma verdadeira montanha russa, sua vida tinha aqueles rompantes de alegria e logo em seguida, descia vertiginosamente para uma amargura, uma tristeza que podia dançar, feito um tango. Mas não há como ficar indiferente a tudo o que ele fez.

Início prematuro de um prodígio idolatrado, aos 15 anos já jogava nos profissionais do Argentino Juniors. Nome quase certo para a Copa do Mundo de 1978, Menoti brecou equivocadamente, uma pena. Em 1979 conduziu a Argentina ao título do mundial de juniores em companhia de Ramon Dias e já era titular absoluto da seleção argentina dos profissionais. Lembro de um jogo no Maracanã em 1979 pela Copa América, quando o Brasil venceu por 2×1, Maradona ainda muito jovem, prestes a fazer 19 anos, comandava as ações da seleção, carimbando todas as bolas e parecendo um veterano, já sabia tudo de bola e mais um pouco, Leão que o diga. Tudo parecia dar certo, a sua vida estava em alta.

Veio a Copa de 1982 e nela toda a expectativa de ver a sua genialidade se confirmar facilmente em um time de craques e com ele voando baixo, mas não aconteceu. Estava em excelente companhia, na equipe campeã do mundo, ao lado de gente como Ardilles, Bertoni, Passarela, Kempes, Fillol e Ramon Dias, mas fez apenas uma bela partida contra a Hungria na primeira fase e ficou devendo no resto da competição, apesar de ter sido duramente marcado, às vezes até violentamente. Saiu por baixo, ao se despedir com uma entrada desleal na barriga de Batista do Brasil, que o levou a ser expulso.

Foi para o Barcelona e sofreu uma de suas piores contusões, ficando fora dos campos por muito tempo. Jogou pouco tempo por lá e não teve um time a sua altura para conquistar títulos e buscou outros rumos, pois não estava num bom momento. Acabou indo para o eldorado italiano, por uma montanha de dinheiro, foi parar onde se jogava o melhor campeonato da terra naquele momento, no Napoli, mas voltamos às Copas.

Mesmo com Maradona, durante as Eliminatórias da Copa de 1986, a Argentina passou um sufoco danado para se classificar diante da seleção do Peru, em dois jogos cascudos. Em Lima, vitória do Peru e na Argentina, um empate suado e conquistado no finzinho da partida, que classificou os hermanos para o México. Foi no limite, quase ficam de fora, quem poderia imaginar que eles seriam campeões?


Veio a Copa de 1986 e a Argentina bem abaixo de suas tradições em termos de qualidade técnica. Um time de operários com um baita mestre de obras. Comando de uma eminência parda, que não convocou o ex-parceiro Ramon Diaz, barrou Passarela e só faltou escalar os onze. Maradona fez de tudo naquela Copa, foi o seu apogeu. Fez jogadas de almanaque e uma jogada que seus fãs perdoam e lembram com a maior cara de pau, mas que não tem nada de esportivo ou de belo: o gol de mão contra os desafetos ingleses. A campanha em si não foi brilhante e nem tivemos um futebol vistoso, exceto por ele, que brindou a todos, com um futebol espantoso, decisivo, arrebatador e raras vezes visto nos campos em tão curto espaço de tempo. Ali, nos campos mexicanos, ele levantou defunto da tumba e tocou o topo do mundo, estava no mais alto nível que um jogador de futebol poderia atingir, um “nirvana” que nem ele mesmo conseguiria atingir de novo.

A Copa passou, Diego pediu reforços ao Napoli e chegaram Careca, Alemão, Bagni, Mauro, Di Napole e Carnevale. No comando das picapes o maior jogador do mundo e na retaguarda um povo sofrido, carente e apaixonado, quanta simbiose! Quanta sinergia! Para um clube que não ganhava nada, Maradona deu musculatura de sobra e os caras venceram o campeonato italiano, a Copa Itália e a Copa Uefa. Estava sobrando na turma, a gangorra estava favorável, era um semi Deus naquele momento para aquele povo.

Veio a Copa de 1990 e tudo levava a crer que Maradona ia carimbar outra estrela na camisa, mas foi uma viagem insólita, cheia de altos e baixos, pra variar. No grupo da primeira fase foi sofrível, perderam na estreia para Camarões e na vitória contra a União Soviética, Maradona fez um pênalti, colocando a mão na bola, quando o jogo ainda estava 0x0. Se fosse marcado a penalidade, poderiam nem se classificar na repescagem como um dos melhores terceiros lugares, como ocorreu. A gangorra estava em baixa.

Veio as oitavas e cruzaram com os brasileiros por conta da má campanha inicial. Tomaram um vareio de bola na única partida em que o Brasil de Lazaroni jogou bem, mas os argentinos foram agraciados com uma bola de gênio de Maradona, que após se livrar com sua habilidade de vários defensores brasileiros, lançou nos pés de Caniggia e daí pro gol, improvável e desolador, coisa de Dom Diego, toca o enterro aos trancos e barrancos.


Veio as quartas e contra a Iugoslávia, após o empate no tempo regulamentar, Maradona perdeu um pênalti mal batido, mas Goicocheia salvou o dia, defendendo dois, o gênio era iluminado e tinha anjo da gurda. Na semifinal contra a Itália, arrancaram um empate suado e nos pênaltis novamente a estrela de Goicocheia resolveu, pegando mais dois pênaltis. Tava difícil convencer na bola, mas a Argentina ia chegando na final. Um cai não cai intermitente e trôpego. 

Veio a final contra a Alemanha, em um dos jogos mais feios desta pobre Copa e desta vez o pênalti, batido por Brehme, ajudou o lado alemão. Saldo final: Maradona medalha de prata e um choro no pódio que comoveu a todos pela sinceridade. O gênio era humano.

A boa fase do Napoli acabou com a explosão de um caso de doping nem 1991. Maradona não era nem sombra daquela fera que todos se acostumaram a ver, sumiu do mapa, mas aí veio um chamado urgenge, ele fez um regime “turbo” e em tempo recorde, lá estava Dieguito de novo, fininho e voando prontinho para a Copa de 1994.

Veio a Copa e logo na estreia contra a Grécia, Diego fez um gol e parecia se divertir de novo. A gente voltou a ver a qualidade dele sobressaindo sem esforço, como de costume, mas aí veio a Nigéria e um “sorteio” meio maroto, pronto! Lá estava ele novamente, envolvido em outro caso de doping. El Pibe, fez uso de efedrina, um remédio para emagrecer, que não faz ninguém ficar genial ou dar um drible, mas é substância proibida e o sonho acabou ali. Brigar com a FIFA nunca vai dar bom resultado. Aquele foi o último suspiro de genialidade do menino das favelas, do gênio da esquerda imortal, da canhota perfeita. 


Maradona adorava o Brasil e os brasileiros, fã declarado e escancarado de Rivelino, amigo de fé de Careca, atendia com prontidão todos os convites das “peladas” de Zico. Na derrota de 3×1 para o Brasil na Copa América de 1989, humildemente pediu a camisa de Bebeto após ver o baianinho dar aquele sem pulo de cinema. Aquela Copa América em que ele quase fez o gol que Pelé não fez do meio de campo, impedido por uma trave. Na Copa de 1990, trocou de camisa na única vez que nos venceu na vida e desfilou com a camisa canarinho feliz da vida. Contra o Brasil não costumava se dar bem e só fez um gol em 1981, no empate de 1×1, durante o Mundialito no Uruguai. 

Maradona não foi rei como Pelé, passava longe da perfeição da realeza, mas tinha a altivez de um líder carismático, conhecia e dominava a sua força brutal, os caminhos da vitória e sabia que a sorte também estava ao seu lado. Lutava como nunca e se fosse preciso se matava em campo e por isso, a torcida o adorava. Diferente de Messi, não se abatia com infortúnios, erguia a cabeça e voltava mais possesso ainda para alcançar a glória eterna e por isso virou Deus na Argentina.

Não foi o maior artilheiro, nem o cara que venceu mais bolas de ouro ou que colecionou mais títulos relevantes, mas sempre esteve nos corações dos torcedores. Dom Diego fez o que quis nos gramados com a sua canhota genial e infernal, nunca seguiu regras, para o bem e para o mal. Este foi o seu legado e a sua sina, partiu fugaz e deixou uma legião de fãs como num melancólico tango.