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Péris Ribeiro

TOSTÃO, O EDUARDO SEM MISTÉRIO

por Péris Ribeiro

Vanderlei, Fontana, Pedro Paulo, Wilson Piazza, Mário Tito e Raul ( em pé ); Natal, Zé Carlos, Tostão, Dirceu Lopes e Rodrigues ( agachados ). Cruzeiro, Pentacampeão mineiro/1969

Nascido em Belo Horizonte, há 75 anos, o cidadão Eduardo Gonçalves de Andrade deve ter lá, certamente, alguns bem guardados segredos. Tanto que procurou marcar as suas decisões, quase sempre, por uma elegante discrição. Deixando no ar – como negar? – um tentador ar de mistério.

Aliás, foi como Eduardo que fez-se médico, o que o levou a afastar-se do futebol por um bom par de anos. A ele só retornando, quando pôde voltar, enfim, a ser apenas o Tostão – apesar de passar a carregar, a partir de então, a incômoda fama de gênio transformado em mito. Certamente, um dos maiores da história da bola.

Mesmo assim, o mais incrível nessa história toda é que, foi como Tostão que desvaneceram-se alguns mistérios, talvez certos segredos, do enigmático personagem Eduardo. Tão somente porque, era lá no campo, que a gente tinha a sorte de presenciar o fulgurante talento de um gênio. Alguém capaz de enxergar como poucos uma defesa que se desguarnecia – e de surpreendê-la no ato.

Compondo uma dupla de sonhos com Dirceu Lopes, aquele garoto baixote, de pernas roliças, era realmente a típica cara daquele jovem Cruzeiro. Na verdade, a grande sensação dos tempos dourados do Mineirão. Um time vistoso e veloz, que prometia dar o que falar – e como deu! -, ali pela metade da década de 1960.

Com prazer, é sempre bom lembrar que foi esse Tostão ardiloso, e sempre atrevido, que tive o prazer de ver pela primeira vez, a acabar por inteiro com uma defesa. Justo a poucos metros de onde eu me encontrava. Explica-se: o Americano, campeão do velho Estado do Rio de Janeiro, fazia um bom papel na Taça Brasil/1966. E, como tal, cabia-lhe, naquela fase eliminatória, pegar o Cruzeiro, campeão de Minas, em dois jogos. O primeiro, logo em Campos, cidade do Norte Fluminense.

Com o Estádio Ary de Oliveira e Souza superlotado, tanto batalhei que acabei arrumando uma vaga em plena pista ao lado do campo. E foi dali que, boquiaberto, pude acompanhar a agonia do goleiro alvinegro Bocão, a um minuto de jogo. É que, ao percebê-lo adiantado, Tostão tentou encobri-lo lá do círculo do meio-de-campo mesmo. E Bocão, já inteiramente batido, só pôde torcer para que a bola descaísse sobre as suas redes. Não sem antes tirar uma farpa do travessão.

Pouco depois, ao tabelar com o campista Evaldo, eis que lá se vai o nosso Tostão, a pressentir que a zaga do Americano se descuidara da marcação. Então, em plena corrida, ainda dribla a dois adversários, sempre de cabeça erguida. E dá um nó descadeirante no zagueirão Zé Henrique, antes de colocar a bola com o pé esquerdo no fundo do gol. Mansamente…

Depois daquela vitória por 4 a 0, ainda veio uma nova goleada sobre o Americano, em Minas Gerias: 6 a 0. E, na decisão do torneio, duas retumbantes vitórias sobre o Santos de Pelé: 6 a 2 no Mineirão; e 3 a 2, de virada, no Pacaembu. O suficiente para que aquele jovem e surpreendente Cruzeiro, se consagrasse como o grande campeão da Taça Brasil / 1966. O que decretaria, dali em diante, o reinado de um baixinho discreto, porém onipresente. E que seria imortalizado, não muito tempo depois, como o “ Pé de Ouro de Minas” pelo narrador esportivo Waldir Amaral.

Por sinal, aquela histórica conquista de Tostão, Dirceu Lopes, Wilson Piazza e Cia, também significaria o ponto de partida para que, a cada tarde de domingo, o jovem time cruzeirense oferecesse verdadeiros recitais de bola em pleno Mineirão. Uma fase tão iluminada, que culminaria no recorde de 42 partidas invictas e no pentacampeonato estadual. Duas grandiosas façanhas daquele Cruzeiro espetacular. E que passariam a fazer parte, definitivamente, da própria lenda do futebol das Minas Gerais.

Quanto ao inacreditável Tostão, o que a sua genialidade iria lhe proporcionar seria a artilharia, por quatro anos consecutivos, do Campeonato Estadual. Mais o ambicionado status de principal destaque, naquele jovem time formado em 1965 no bairro do Barro Preto. O frenético Cruzeiro, Pentacampeão das Alterosas.
Porém, a glória mais festejada – além do título de campeão -, seria a de se ver apontado, por uma grande parte da crônica esportiva europeia, como o Maior Jogador da Copa de 1970, no México – aquela do Tri Mundial do Brasil.

Mesmo assim – quem sabe? –, apenas alguns meros detalhes, na filosofia de vida de um gênio surpreendente. Alguém capaz de enxergar o jogo, já em meados dos Anos 1960, de um jeito todo especial. E de, ali mesmo, enfatizar:

– Ora, o futebol é uma coisa simples. E a firula é só para ser usada como recurso essencial. Ou por jogadores superdotados, altamente habilidosos. No mais, basta ter um bom domínio de bola. E a percepção, a antevisão da jogada.

Simples, não?

EM BUSCA DA GLÓRIA PERDIDA

por Péris Ribeiro

Pavão, Chamorro, Jadir, Tomires, Dequinha e Jordan ( em pé); Joel, Paulinho Almeida, Indio, Dida e Zagalo ( agachados) Flamengo, Tricampeão Carioca (1953/54/55)

No badalado balneário de Atafona, o mais tradicional do município de São João da Barra, encravado no Norte do Estado do Rio de Janeiro, as bancas de jornais estampam, entre as principais manchetes daquela manhã, uma que, particularmente, mexe com a sensibilidade do antigo ponta-direita e meia-armador do Flamengo, Paulinho Almeida. É que, ali, está configurado o desaparecimento do velho amigo Dequinha – famoso pelo seu estilo clássico, como centro-médio -, morto na véspera, aos 68 anos, devido a uma cirrose hepática, em Aracajú, Sergipe.

Consta na matéria do Jornal do Brasil, que Dequinha morrera no esquecimento, triste e magoado, depois de ter sido o capitão e um dos heróis do tricampeonato do Flamengo, no início dos Anos 1950. Um título inesquecível, por si só. Mas, fundamentalmente, a primeira grande façanha de um time na história do Maracanã – o gigantesco e mágico estádio, que o carioca, orgulhosamente, só chamava de “ O Maior do Mundo”.

Abalado com o que lera, o que se percebe é que Paulinho remete ao passado em questão de segundos. E então sente, como que instantaneamente, estar de volta às radiantes tardes de domingo no seu velho Maracanã. O céu límpido e azul, o sol que convida a alegria, as arquibancadas coloridas de vermelho e preto, o ritmo pleno da festa…

Já, lá embaixo, o que se vê é mais um previsível show de bola dos garotos comandados pelo Feiticeiro Solich. Desta vez, a vítima é a Portuguesa. Que perde por 6 a 0 ainda na metade do segundo tempo, graças à facilidade de encontrar as redes de um Evaristo, um Índio, um Dida… E dele próprio, Paulinho – àquela altura, o artilheiro absoluto do Campeonato, com 17 gols.

Algumas semanas depois, era esse Flamengo avassalador de Don Fleitas Solich e Dequinha que se consagraria como tricampeão carioca. E se o infernal Dida iria se imortalizar como o herói dos 4 a 1 em cima do América, na decisão, quem levaria definitivamente a palma de maior artilheiro da competição seria mesmo ele, o não menos endiabrado Paulinho Almeida, com 23 gols.

Ainda saboreando a glória do inédito tri, eis que lá iria Paulinho, logo depois, desfrutar do seleto ambiente da Seleção Brasileira, ao lado do amigo de sempre, Dequinha, e ainda de Evaristo de Macedo e Pavão – formando assim o quarteto rubro-negro convocado para a excursão à Europa. E seria lá, no Velho Mundo, que Paulinho teria a honra de pisar a grama sagrada de Wembley, ao lado de craques notáveis como o mestre Didi, Gilmar, Canhoteiro, Zózimo, Dequinha e os dois Santos, os eternos Nilton e Djalma.

– Pois é, pode parecer frase feita, mas não é. Naquele tempo, sim, é que eu era um homem feliz! Era feliz, e sequer sabia… Não tinha disso, a mínima noção– disse-me ele, certo dia, numa daquelas mornas tardes de verão lá em Atafona. Quase que a parodiar, sem querer, o genial compositor Ataulfo Alves.

Naquela tarde longínqua – tenho certeza -, volvendo aos velhos jornais e às antigas revistas, e se debruçando demoradamente sobre os recortes das glórias no Flamengo, na Seleção Brasileira e no Palmeiras – pelo qual foi supercampeão paulista, em 1959, ganhando do Santos de Pelé na decisão -, o reencontro do antigo ídolo com o sucesso me parecia, isso sim, um misto de puro êxtase com uma certa aura de maldição.

Tempos depois, na inglória luta por uma aposentadoria que nunca vinha, o que veria Paulinho nas noites de insônia, senão o beque caído, o goleiro vencido, as redes balançando?

No vídeo-tape da memória – sou capaz de garantir -, só havia espaço mesmo para a torcida gritando o seu nome. A faixa de tricampeão pelo seu amado Flamengo, a reluzir-lhe no peito. A consumir-lhe as madrugadas, apenas o delírio da eterna paixão rubro-negra.

LABRUNA, UM MILONGUEIRO DE ESTILO

por Péris RIbeiro

Labruna é o maior artilheiro e o maior campeão da história do River Plate, com nove títulos argentinos

Foi um domingo de surpresas, aquele de 7 de julho de 1957. Tinha ido ao Maracanã para ver o campista Tite, escalado de saída na ponta-esquerda. Porém, o que acabei descobrindo foi uma dupla de crioulinhos que parecia jogar por música: Pelé e Moacir. Meu sonho era ver o Brasil humilhar a Argentina, aplicando-lhe um sonoro show, um autêntico banho de bola. Mas, encantado, tive mesmo foi de me curvar ante a arte inolvidável de Angel Amadeo Labruna.

Baixinho, bigodinho fino, como se cantor de “El Dia Que Me Quieras” e outros tangos de nomeada fosse, o camisa 10 do time platino mandou e desmandou naquele jogo inaugural da Copa Rocca. Imprimiu contra-ataques mortais, quando sentiu a defesa brasileira vulnerável. Desguarnecida. E ditou o ritmo daquele famoso “toco y me voy” – que sempre foi a nossa maior perdição -, no exato momento em que o bom senso dizia que, aqueles 2 a 1 para a Argentina, estavam pra lá de bom tamanho.

Naquela tarde de céu azul, sol radiante, o público de mais de 100 mil pessoas presentes ao estádio sonhava com uma forra dos 3 a 0. Placar sonoro com que os argentinos haviam nos humilhado no início do ano, na decisão do Sul-americano de Lima, lá no Peru. E o entusiasmo era até justificável, já que, 15 dias antes, o Brasil tinha levantado a Taça General Craveiro Lopes – presidente de Portugal -, com duas convincentes vitórias sobre o time luso: 3 a 0 em São Paulo; e 2 a 1 no Rio – gols dos campistas Tite e Didi.

Só que, após começar a pleno vapor, o time brasileiro tinha agora de ceder ao estilo cadenciado dos campeões da América do Sul. Uma cadência que começava nos gritos de guerra e passes sob medida do grande Nestor Rossi – um médio volante como poucos. Mas que só atingia o seu ápice, quando a bola chegava aos pés de Labruna.

Dono de um drible refinado com o pé esquerdo, em que se livrava do adversário como se nem mesmo saísse do lugar, o camisa 10 argentino sabia arquitetar um contra- ataque como ninguém. Ainda mais se partisse lá de trás com a bola dominada, em jogada individual. Ou então, se optasse pelas triangulações com Juarez, Herrera, Sanfilipo ou o infernal Corbatta, o ponta-direita.

No segundo tempo, com a entrada dos estreantes Pelé e Moacir, até que o Brasil deixou transparecer que ganhara ritmo de jogo, uma espécie de alma nova. E Pelé chegou a descontar para 2 a 1 – Corbatta e Juarez haviam feito Argentina 2 a 0, ainda no primeiro tempo. Mas, a partir dos 30 minutos, a ordem do comandante Labruna era simplesmente tocar a bola. O tão temido “toco y me voy”. E ponto final!

Três dias depois, com Luisinho, o Pequeno Polegar do Corinthians, em estado de graça, o Brasil obteve a tão almejada forra no Pacaembu: 2 a 0, gols de Pelé e Mazzola. E foi com aquele resultado, que conseguiu sair campeão da Copa Rocca, no saldo de gols.

Mesmo assim, para os meus olhos de garoto apaixonado pela magia do artista da bola, o que ainda contava era o que o genial Labruna havia aprontado no Maracanã. E dizer que, naquele mês de julho de 1957, ele chegava aos 39 anos de idade jogando aquilo tudo!

Recordista de conquistas e de longevidade nos campos, Don Angel Amadeo Labruna, na verdade, só parou aos 42 anos. Com a marca de 296 gols, em 512 partidas oficiais pelo River Plate. Além do mais, sagrou-se tricampeão sul-americano com a sua amada Argentina, sendo nove vezes campeão com o River – fazendo parte, inclusive, da mais que temida “La Maquina” dos Anos 1940.

Aliás, “La Maquina” deu ao River nada menos de cinco títulos nacionais -1941, 42,44,45 e 47. E, nela, o brilho começava com o gigantesco Carrizo no gol, passando pela imponência de Nestor Rossi no meio-de-campo. Porém, a culminância a nível de arte se refletia mesmo era no ataque – deveras, arrasador: Muñoz, Moreno, Pedernera, Labruna e Lostau. Com Di Stefano, então reserva de Pedernera, se contentando em entrar, apenas, em alguns jogos.

Milongueiro típico, chegado aos cassinos, noitadas regadas a tangos no mas puro estilo Carlos Gardel e um entusiasmado amante dos bons vinhos, o outro ponto fraco do velho Labruna eram as corridas nos hipódromos de Palermo e San Isidro. A ponto de trocar um jogo do seu amado River Plate – pelo qual ainda foi seu o seu técnico campeão, em 1975, revelando craques como o meia-armador Beto Alonso, o zagueiro Daniel Passarela e o goleiro Ubaldo Fillol – por um atraente programa turfístico.

E foi como milongueiro, turfista e uma instituição à parte dentro do próprio River Plate, que a morte veio buscá-lo, numa noite de 1983. O enfarte foi fulminante, já dentro do hospital. E a acompanhá-lo naquele instante, como que numa espécie de derradeiro adeus do River, estava o goleiro Fillol. Um grato afilhado que fora visitá-lo, e que tinha por ele venerações de um filho pelo próprio pai.
Genial sempre, Labruna acabou deixando várias frases históricas, pensamentos folclóricos. Mas uma análise, em especial, resume bem como ele enxergava as várias tendências e estilos dentro do futebol:

– Ora, a cadência é que dita o ritmo do jogo. Para se vencer, há que se ter, sempre, o domínio da jogada. Então, é como eu digo: “Toco y me voy!”, “Toco y me voy !”

tardes de zico…

por Péris Ribeiro

Zico, Andrade, Leandro e Júnior comemoram no Japão. Flamengo, Campeão Mundial de Clubes de 1981

Ah! Quantas saudades… E quem não as teria, se viveu um Maracanã em tarde de Zico?

De todas as que vivi, guardo um carinho especial por duas delas: as das decisões dos Campeonatos Brasileiros de 1980 e 1983. Tardes típicas de Rio de Janeiro. Com alma bem carioca. De céu azul profundo e sol aberto convidando à praia. E bandeiras e gritos de “Flamengo!”, “Flamengo!” tomando as ruas e sacadas. Da Zona Norte à Zona Sul.

Na decisão do Brasileiro de 80, Reinaldo, praticamente com uma perna só, parecia deveras enfeitiçado. E dava a entender que poderia, com a sua genialidade, impedir a conquista tão ansiada pela torcida rubro-negra – com um simples empate, o Atlético Mineiro seria o campeão.

Mas, em contraponto a cada gol do “9 de ouro” do Galo – e foram dois -, Zico esbanjava categoria e visão de jogo. E um inacreditável poder de decisão.

Na abertura da contagem, por exemplo, fez um primoroso lançamento em diagonal, como se medido fosse à fita métrica, para o artilheiro Nunes. E, pouco depois, exibia todo o seu senso de oportunismo, ao marcar o segundo gol após um tremendo bate-rebate dentro da área atleticana – e em que os seus reflexos apurados, e aquele raro poder de decisão, é que acabaram de vez com as chances de defesa do goleirão João Leite.

Já os 3 a 2 vieram numa jogada de pura raça de Nunes, quando vivíamos a angústia dos minutos finais. Mas foi a visão de um Zico vencedor, erguendo para a torcida em delírio o troféu de campeão, que me ficou para sempre no arquivo da memória.

  • Joguei machucado. Com o pé direito enfaixado, o tornozelo inchado. Doendo pra burro! Mas, pra ver o Flamengo campeão, faria qualquer sacrifício. A alegria dessa torcida me enlouquece – diria ele depois, na esfuziante comemoração dos vestiários.

Quanto à decisão de 83, seria a última antes da sua ida para a Itália. E, por isso mesmo, estava a merecer aquele público frenético de 155 mil pessoas – recorde, até hoje, em decisões de Brasileiros.

Àquela altura, convém dizer que aquele Flamengo já havia chegado ao seu auge. Tinha se consagrado, inclusive, como Campeão do Mundo de Clubes – e da Libertadores da América -em 1981. E vira Zico ser escolhido o Maior Jogador do Ano, na mesma temporada. Porém, não em uma enquete qualquer, em algum tipo de pesquisa banal. Mas, sim, na que realizara a famosa revista italiana “Guerin Sportivo”, uma das mais conceituadas de toda a Europa. O que significa dizer que, em 1981, Zico se destacara definitivamente como o maior Jogador do futebol mundial.

Pois agora, eis que lá estava ele, mais uma vez sem as condições físicas ideais, enlouquecendo a torcida rubro-negra. Simplesmente porque, em menos de um minuto, havia surpreendido a defesa santista e o goleiro Marola, inaugurando o placar. E, como em tantas outras vezes, utilizando-se daquele seu fantástico poder de conclusão, no ato de decidir uma jogada. Na verdade, o craque ideal no momento e lugar adequados.

E, daí para a frente, não seria outro, senão ele, quem comandaria um inesquecível baile no Santos de Pita, Paulo Isidoro, Serginho Chulapa e Cia. Um baile que fez a torcida cantar e dançar o tempo inteiro, aos gritos de “Mengo!, Mengo!” e “Flamengo campeão!”. Uma agitação que só fez aumentar após os 3 a 0, com dois belos gols de cabeça de Leandro e Adílio.

Paixão para sempre, da imensa nação rubro-negra, até hoje Zico é parado onde quer que vá, para uma interminável sessão de fotos, abraços e autógrafos. E demonstra, como Pelé, a compreensão permanente do que é ser um ídolo de verdade. O sorriso é sempre aberto, simpático, e do mais grato entendimento por aquele momento. É como se estivesse a cumprir, ali, a mais nobre das missões.

É que Zico sabe que, aquelas mãos que pedem um autógrafo, um aceno, e um simples afago, muitas vezes são as mesmas que, a cada domingo, pagaram com sacrifício o ingresso só para vê-lo jogar. Os olhos que solicitam um mero sorriso são os mesmos que acompanharam os seus dramas e vitórias. Seu joelho danificado. E a taça de campeão, que ele erguia sobre a cabeça, era como uma espécie de senha, capaz de liberar de vez a louca festa de uma multidão em transe.

Sabe, enfim, que é por causa desses rostos anônimos na multidão que ele um dia foi Zico, o rei do Maracanã. Estádio que se confunde com a sua própria história, e onde ele marcou nada menos de 333 gols, tornando-se o seu maior artilheiro. Um cenário, aliás, tão especial em sua vida, que também é dele o recorde de títulos por ali, com sete Campeonatos Cariocas, oito Taças Guanabara e três Campeonatos Brasileiros. E, contando com uma meritória dose de justiça, uma heroica Taça Libertadores da América. No caso, não só pela importância da grande conquista, mas, mais do que tudo, por ter ele, Zico, marcado os gols da vitória do Flamengo ( 2 a 1 ) sobre o Cobreloa chileno, na primeira partida da série decisiva da competição – realizada exatamente no mais famoso estádio do mundo.

E é com um fecho clássico para uma bela história, que nunca é demais dizer que Zico tem, até hoje, a mais plena consciência das tardes inesquecíveis que nos proporcionou. Particularmente, as das decisões dos Brasileiros de 1980 e 1983 – aquelas que teimo em não esquecer.

Como não consigo esquecer a sua imagem, após uma daquelas irresistíveis arrancadas em ziguezague – e que acabavam, sempre, no fundo das redes adversárias. No chão, aquele bando de zagueiros empilhados, zonzos com os seus dribles. E ele, camisa 10 às costas, os esvoaçantes cabelos louros ao vento, a soltar o grito louco da comemoração. Ali bem junto da galera, colado às gerais do estádio.

O Z de Zico, afinal, como o Z do Zorro. Tremulando, implacável, em meio às bandeiras rubro-negras. Eternamente justiceiro! E para sempre, vencedor!

O PORTENTOSO MAJOR PUSKAS

por Péris Ribeiro

Ainda verdinho, por volta dos 12 anos de idade – e vivendo, portanto, o limiar de todo o meu encanto para com o jogo da bola -, tive o prazer de conhecer de perto, em pleno Maracanã, a força criadora de um gênio de exceção chamado Ferenc Puskas.

Era verão de 1957, e naquele mês de janeiro, não poderia haver melhor proposta de amor eterno ao futebol do que ver, quase que noite após noite, a magia daquele time de camisas brancas que atendia por Honved de Budapeste. Tetracampeão do seu país e base da Seleção Húngara que assombrara o mundo, logo na primeira metade da década de 50, aquele Honved, podem crer, era uma senhora constelação. Um time repleto de estrelas. Grocsis, o goleiro, Bozsic, o médio-volante e os atacantes  Czibor e Budai, mais o cabecinha de ouro Kocsis – artilheiro da Copa de 54, com 11 gols -, entrariam em qualquer seleção do planeta.

Mesmo assim, não havia como duvidar que o astro número um do tetracampeão magiar era o seu jogador da camisa número 10. Aquele gordinho baixinho, de pernas roliças e cabelos escuros lisos repartidos do lado esquerdo, que se movia com uma leveza, maciez e rapidez impressionantes para alguém do seu porte físico.

Capaz de dribles desconcertantes em plena velocidade e dono de uma incrível habilidade na troca de passes curtos – além de muita visão para os lançamentos -, era nas finalizações, no entanto, que Puskas impressionava pra valer. Seus chutes de canhota ganhavam a força de um canhão – e , pior para os inimigos : nunca erravam o alvo.

Nas noites memoráveis daquele verão de janeiro, pude vê-lo comandar vitórias consagradoras sobre o Flamengo e o Botafogo. Mas o jogo que não me sai da memória é o da estreia do Honved. Um acontecimento que mexeu com o Rio. Tanto que até o presidente Juscelino Kubitschek estava lá. E oferecendo, de quebra, uma rica taça com o seu nome para ser entregue ao vencedor.

No início, até que a coisa ia muito bem. Só que se Puskas, Kocsis e cia. mostravam muito do que sabiam, quem, afinal, resolveu acabar com a festa foi a garotada  do feiticeiro Fleitas Solich. No final de tudo, o placar mostrava, para espanto geral, Flamengo 6 x Honved 4. E a noite de gala acabou sendo de Dida, Moacir, Paulinho  Almeida, Henrique e Evaristo de Macedo – que, como capitão do time, foi lá em cima abiscoitar o belo troféu das mãos do sorridente Juscelino.

Excursão encerrada, eis que tomo conhecimento de que Puskas, Kocsis e Czibor não mais voltariam ao seu país. Tudo por conta da boçal invasão das ruas de Budapeste pelos tanques russos. O destino então passa a ser a Espanha , o grande eldorado dos craques europeus. O refúgio certo para abrigar o talento de Kocsis e Czibor – foram bicampeões no Barcelona, ao lado do nosso Evaristo de Macedo – e, particularmente, do genial Puskas.

É aí que, com a camisa merengue do Real Madrid, aquele gordinho de pernas roliças e cabelos escuros lisos repartidos do lado esquerdo, volta a brilhar como nos velhos tempos do próprio Honved e da Seleção Húngara. Ainda mais por contar ao lado  com talentos luminares, bem ao seu porte e estilo, como o argentino naturalizado espanhol Alfredo Di Stéfano e o francês Raymond Kopa.

Pentacampeão espanhol pelo Real, Puskas ainda dá-lhe o título europeu da temporada de 60, com uma exibição monstruosa diante dos alemães do Eintracht Frankfurt. O Real ganha de goleada, 7 a 3, e Puskas liquida o jogo logo no primeiro tempo, com quatro canhonaços de pé esquerdo. É também campeão mundial interclubes ( Real 5 x  Peñarol 1, na decisão), e dá a si próprio, no final de tudo, um prêmio mais do que especial : o de artilheiro do Campeonato Espanhol por quatro vezes – três delas consecutivas.

Consagrado definitivamente como um dos maiores craques da história do futebol, Puskas, depois de encerrada a carreira, passou a dividir o seu tempo entre alguns negócios em Madrid – dentre eles, um animado restaurante. Com base nas delícias da gastronomia húngara, mas sem deixar de lado a farta comida espanhola – e seguidas viagens a Budapeste. Amante do bom vinho e da boa mesa, não havia, evidentemente, como não deixar de ficar mais roliço que no seu tempo de jogador. Ainda mais por fazer o tipo alegre, bonachão. Capaz de dar a vida por um bom papo.

Mesmo assim, o grande Puskas era capaz de deixar escapar, volta e meia, que uma espécie de aflição vinha perturbar- lhe o sono. É que a derrota daquela mágica Hungria – então a grande campeã olímpica, e invicta há mais de 30 jogos – ainda era capaz de invadir- lhe as madrugadas. Sempre em forma de pesadelo.

E é dele, uma definição no mínimo lapidar, sobre aqueles  trágicos 3 a 2 – Alemanha Ocidental 3 x Hungria 2 – do dia 04 de junho de 1954. Particularmente, depois de os húngaros terem massacrado os mesmos alemães por 8 a 3, na fase classificatória da competição.

– Olha, se a derrota do Brasil para o Uruguai, em 1950, foi um desastre, a da Hungria para a Alemanha foi pior. Foi um verdadeiro cataclismo!