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Péris Ribeiro

A LENDA DA FOLHA-SECA

por Péris Ribeiro

Didi ainda jogava no Fluminense – pelo qual foi campeão carioca, em 1951 -, quando inventou a sinuosa e temida Folha – Seca
Em um belo dia de certezas, quando pedi-lhe uma definição que me soasse especial sobre o seu misterioso chute - bem mais famoso, por sinal, por criarem em torno dele toda uma aura de sedução e glamour -, Mestre Didi apenas fitou-me bem nos olhos. Para relatar-me em seguida, compassando suavemente as palavras:

- Era como se fosse uma folha de outono, sabe? Descaindo ao sabor do vento. Desgarrada; destino incerto ...

Ante tal definição - um tanto poética, outro quê com acentuado tom filosofal -, o que pude fazer foi viajar no tempo. E, só então, consegui reciclar aquela época. A época, e a própria história. E, mais um pouco: como a lenda, de repente se iniciou.
Hoje, há bem pouca gente que se lembre. Mas, tudo começou em um Fluminense x América, pelo Campeonato Carioca de 1955. Numa disputa de bola com Ivan - centro-médio clássico, mas viril no combate direto. E campeão do Torneio Rio-São Paulo, dois anos depois, como jogador do próprio Fluminense -, Didi acabou levando a pior. Saldo do lance: tornozelo direito avariado.

Como consequência, o nosso Didi acabou por se ver obrigado a curtir o estaleiro por um bom tempo. Tempo exato, no entanto, para que, entre o tratamento na enfermaria das Laranjeiras e a volta progressiva aos treinos, acabasse por descobrir uma maneira diferente no ato de chutar a bola. Um jeito que não sacrificasse a sua recuperação, numa região ainda magoada pelo bico da chuteira do centro-médio americano.

Observador engenhoso, que gostava de estudar os fatos até nos mínimos detalhes, o que Didi sacou logo é que poderia estar realmente criando um chute diferente. Na verdade, um estilo revolucionário de bater na bola. Ainda mais, porque tal chute era executado com a parte externa do pé direito - em torno da chamada linha dos três dedos. Mas  o que o deixava empolgado de verdade, era o trajeto que havia conseguido conceber, tão logo detonava o chute.

É que a bola, como que encantada, desandava a descrever curvas e rotações diferentes em pleno ar. Para, logo em seguida, desenhar uma semi-parábola, descaindo com força, incerta e cheia de graxa, num dos ângulos do gol, bem junto às traves. Tudo isso para desespero de Castilho, Veludo, Adalberto e Jairo - justo a fina-flor, em termos de goleiros, lá no Fluminense. E que se revezavam, treino após treino, na ingrata tarefa de testar aquela típica invenção made in Didi.

Finalmente, já tida como pronta e acabada, eis que a grande novidade acabou por ser testada oficialmente diante do pobre Julião, jovem goleiro do Bonsucesso. Um crioulo imenso, que ora fechava o gol; noutro dia, era capaz de papar os frangos mais inacreditáveis. Homéricos mesmo. E que naquela tarde, no estadinho da rua Teixeira de Castro, pensava, a cada chute de Didi, estar vendo coisas do outro mundo. Ou, no mínimo, “que andava variando da cabeça”, debaixo de um sol de mais de 40 graus que latejava em sua moleira. Ainda mais naquele caldeirão de fogo, que atendia por Zona da Leopoldina do Rio de Janeiro.
Um pouco mais de tempo passado, e eis que lá estava a estranha novidade a ganhar notoriedade de vez. Até mesmo, como arma mortal. Só que acabou por visar o seu passaporte, rumo ao sucesso internacional, em duas vias distintas. Em 1957, quando garantiu a ida do Brasil à Copa do Mundo da Suécia, no 1 a 0 diante do Peru, em um Maracanã superlotado. E em 1958, já em gramados escandinavos, quando provocou o desempate em 2 a 1, na eletrizante semifinal diante da França - que vencemos por 5 a 2.

Quatro dias depois, com o Brasil campeão do mundo pela primeira vez, e com o próprio Didi, majestoso, consagrado com todas as honras como o inspirado maestro do nosso time e o Maior Jogador daquela Copa inesquecível, era da vertiginosa Folha -Seca que ele voltaria a falar com imenso carinho.

E, talvez em pleno transe da grande festa, até se lembrasse em detalhes de como tudo havia começado.
Por exemplo: daquele Fluminense x América, e do tornozelo direito avariado na disputa de bola com Ivan; do espanto do pobre Julião, a ver coisas do outro mundo, no acanhado estadinho da rua Teixeira de Castro, a cada Folha - Seca que descaía no seu gol; e, finalmente, de Abbes, goleiro da França, quatro dias antes. A testar, sem sucesso, o poder de fogo de um chute que questionaria a física e a lógica, na intricada geometria do futebol.

REENCONTRANDO MARADONA

por Péris Ribeiro

Rei da Copa do México, Maradona é só alegria ao exibir a taça de ouro ao público que lotava o Estádio Asteca

Quando um emocionado Diego Maradona chegou junto ao balcão da Casa Rosada para, ao lado do presidente Raúl Alfonsín, erguer a Copa do Mundo à multidão em delírio, não havia questionamento que fosse sobre quem era a típica figura de um deus encarnado vivo para o povo argentino. Nem mesmo no mais venturoso dos sonhos.

Corria o ano de 1986, e Dieguito, naquele instante, era maior até que Gardel – ou Perón. E até ousaria dizer mais: nem Evita Peron, a santa redentora dos humildes, a eterna madona dos descamisados, seria capaz de vencê-lo num duelo em termos de idolatria popular.

Era a Maradomania, que se instalava de vez no coração de um povo profundamente apaixonado. E, convenhamos, havia motivo de sobra para tal. Tanto assim que a Argentina acabava de se sagrar campeã mundial pela segunda vez, em gramados mexicanos. E quem, senão Don Diego Armando Maradona, havia tornado aquilo possível?

Hoje, bem sei, os caminhos por ele trilhados acabaram sendo outros. Cada vez mais tortuosos. E é com infinito pesar, que me vejo descrer de vez da ilusão. Tão somente por chegar à conclusão de que, nunca mais, verei pelos campos a arte fulgurante de um jogador de sonhos. Capaz, só ele, de repetir o fenômeno Garrincha de 1962. Os dois dando uma Copa, praticamente sozinhos, aos seus respectivos países – Brasil e Argentina.

Porém, o que anda a me entristecer ainda mais é que, com esse futebol de negociatas escusas, e mais pobre ainda de craques – que dirá de gênios! -, teremos lá pelos gramados do Catar uma Copa de brilho duvidoso.

Mbappé? De Bruyne? Messi? Modric? Cristiano Ronaldo? Lewandowski? Neymar? Benzema? Harry Kane? Nenhum deles – asseguro-lhes – irá dar mostras da centelha de genialidade que, um dia, emanou da canhota mágica do rebelde Dieguito. E ainda irei mais longe. Em que pese o brilho de um Zico, um Platini, um Falcão, um Boniek, um Rummenigge, não houve termos de comparação entre eles e o iluminado Maradona, na maior parte dos Anos 80. Era ele, sim, Don Diego, o maior de todos naqueles tempos dourados!

Campeão pelo Barcelona, pelo Napoli e pelo Boca Juniors do seu coração, aquele irrequieto baixinho de cabelos encaracolados, nada mais fez que proporcionar a alegria das grandes conquistas às torcidas mais desafortunadas. Uma gente sofrida, carente anos a fio. Sempre vivendo tão longe, da doce comemoração de um título de campeão.

Aliás, ao erguer aquela Copa, ao lado do presidente Alfonsín – bem me lembro das imagens-, Dieguito vivia, muito mais que a emoção, o infinito orgulho de ser portenho. Tanto que dizia, sorriso aberto, lágrimas nos olhos:

– Essa é uma conquista definitiva, para engrandecer de vez o nosso país. É uma homenagem nossa, a todo o povo argentino. E também aos velhos craques do passado, heróis como, Stábile, Labruna, Di Stefano, Sívori…

Só que, maior que essas históricas legendas – e maior, ainda, que Pedernera, Nestor Rossi, Moreno, Rattin… -, será sempre ele, Maradona.

Sobre quem a mais feliz definição que encontro é a de, ao imaginá-lo bola atrelada ao mágico pé esquerdo, ver-lhe no gesto a grandeza do mais comovente dos poemas de Borges. Ou o frenesi desenfreado, do mais passional dos tangos de Gardel.

KOCSIS, O CABECINHA DE OURO

por Péris Ribeiro


Depois de brilhar no Honved, Kocsis também foi campeão e Ídolo no poderoso Barcelona espanhol

A primeira vez que ouvi falar dele foi no Mundial de 1954, na Suíça. E de uma maneira, no mínimo, arrebatadora! Afinal, cabeceador de verdade para mim, até então, era o espetacular Baltazar – bicampeão e artilheiro,lá no Corinthians paulista. 

Por sinal, um mulato forte, dono de uma impulsão extraordinária. E que andava brilhando tanto na Seleção Brasileira, que merecera, até, uma música do compositor Alfredo Borba, que dizia: “Gol de Baltazar/ Gol de Baltazar/ Salta o Cabecinha/ 2 a 0 no placar…”

No entanto, com Baltazar fora daquele jogo com cara de decisão, passei a confiar mesmo foi na valentia de Índio. Um centroavante que marcara 18 gols recentemente, levando o Flamengo, inclusive, a se sagrar campeão carioca, acabando com um jejum de nove anos do clube da Gávea. E foi assim que, nem de longe, poderia imaginar que um branquelo grandalhão, que usava a camisa 8, fosse acabar com a festa logo de saída.

Na verdade, foram dois golaços. Mas o segundo impressionou ainda mais, como se fosse um verdadeiro tiro de cabeça. Pinheiro, o nosso beque de área, ficou praticamente no chão, enquanto o branquelo grandalhão testava lá do terceiro andar, quase furando as redes de Castilho.

Mesmo assim, dias depois, e para espanto geral, aquela Hungria arrasadora, que havia enfiado 4 a 2 no Brasil e estava invicta há quatro anos, acabou perdendo o Mundial para a Alemanha de Rahn e Fritz Walter. Um time que lhe era infinitamente inferior.

Apesar da surpresa, o que sei bem é que, a imagem que me ficou através de velhos filmes e fotos em preto e branco, foi a daquela Hungria maravilhosa. A Hungria,campeã olímpica de 1952. A Hungria de Puskas, Czibor, Boszik, Grocsis, Hidekguti e daquele grandalhão forte e branquelo – não por acaso, o artilheiro da Copa, com 11 gols. Seis deles de cabeça.

Tempo vai, tempo vem, e lá pelo verão de 1957, quase três anos depois, o fato histórico é que consigo vê-lo, finalmente, jogando ao vivo. E vi-o com o sensacional Honved de Budapeste, tetracampeão húngaro, em pleno cenário do Maracanã. Para só então tomar conhecimento de que o seu nome, por inteiro, era Sandor Kocsis Péter – o super temido artilheiro Kocsis. Pesadelo dos goleiros de todo o mundo.

Matador nato, o que logo percebi nele é que, como poucos, sabia se colocar em posição de chute dentro de uma área. E como chutava forte e colocado com os dois pés, o caminho das redes era a sequência natural para as suas finalizações. Além do mais, tinha grande habilidade no toque de bola – que executava com vertiginosa rapidez.

Quanto as cabeçadas… Bem, aí realmente era um espetáculo à parte. Ainda mais por possuírem a força de um chute. E variarem tanto de repertório, que ora eram desferidas de cima para baixo, rente ao chão. Outro tanto, preferiam ganhar o ângulo imprevisto. E, não raro, atiravam o goleiro para trás, com bola e tudo. Propositalmente.

Com a cruel invasão de Budapeste pelos tanques russos, em 1956, eis que lá se vai Puskas, após a excursão ao Brasil, rumo ao Real Madrid, onde iria formar dupla com Alfredo Di Stéfano. Já Kocsis, prefere o arqui-inimigo Barcelona. Não sem antes emitir uma frase sentida, porém definitiva:

– Amo muito o meu país. Mas quero, para sempre, a liberdade de jogar por puro prazer. Isso é tudo o que desejo!

E unindo a ação às palavras, forma com o brasileiro Evaristo de  Macedo, os espanhóis  Luisito Suarez, Basorae Rammalets e os compatriotas Czibor e Kubala, um dos maiores  Barcelonas da história. Um esquadrão tão poderoso, que ousou ser bicampeão nacional logo em cima do Real Madrid de Puskas, Di Stefano, Santamaria, Didi eGento.

Com a vida finalmente em paz, eis que, certo dia, o destino se interpõe mais uma vez na trilha de Kocsis. E, tal como em 1956/57, cruelmente. Um câncer amputa-lhe a perna direita. E o velho goleador , tomado pelo mais profundo desalento, joga-se do sétimo andar do seu apartamento, em plena capital da Catalunha.

Na época, fez-se uma comoção e tanto em Barcelona. Enlutou-se o universo da bola. Porém, desde aqueles tempos ficou em mim uma espécie de cisma. E, ainda hoje, acredito que onde houver um artilheiro a estufar as redes, lá estará a imagem onipresente de Kocsis. Com toda a certeza, a abençoar- lhe a festa épica do gol.

O MAIOR DE TODOS

por Péris Ribeiro


Lima, Zito, Dalmo, Calvet, Gilmar e Mauro (em pé), Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe (agachados)

Em toda a história do futebol, nunca um time teve um reinado tão longo e glorioso como o Santos da Era Pelé. Foram 15 belos anos – ou seja, uma década e meia. De 1958 a 1973. Tempo suficiente para que o esquadrão da Vila Belmiro encantasse o mundo definitivamente, chegando ao inacreditável recorde de 49 títulos de campeão – 27 deles, pelo menos, em competições internacionais. E 29, em torneios oficiais.

Um detalhe marcante em toda essa apaixonante história é que, apesar de haver se consagrado como o primeiro Bicampeão Mundial de Clubes, nas temporadas de 1962/63, o ano dourado do Santos do Rei Pelé e Cia foi mesmo o de 1968.

Afinal, nele foram conquistados nada menos de oito títulos – outro recorde histórico. Figurando como maiores destaques, o Campeonato Brasileiro – na época, chamado de Torneio Roberto Gomes Pedrosa. Ou Robertão -, o Octogonal Internacional do Chile, o Pentagonal de Buenos Aires e as Recopas Sul-Americana e Mundial de Clubes.

Exibindo, onde quer que jogasse, o tão proclamado estilo refinado dos seus craques, o que aquele Santos sempre fazia questão de deixar evidenciada era uma espécie de comprometimento nobre. E esse comprometimento falava do dever – e da seriedade – de entrar em campo para  ganhar os seus jogos. E, ganhando, isso significava ser campeão quase sempre. Daí as muitas conquistas, o rosário de títulos pelos cinco Continentes.

O que talvez pareça incrível é que, apesar das dores musculares e de algumas contusões que, volta e meia, acabavam por incomodá-lo – além dos tradicionais resmungos de contrariedade, pois o excesso de jogos era cada vez mais frequente -, nem o próprio Pelé, muito menos Coutinho, Gilmar, Dorval, Pepe, Zito ou Mauro Ramos de Oliveira, eram capazes de dizer “não” aos mais variados tipos de competições em que viviam se metendo.

É que tudo aquilo era de lei, não havia como fugir. E o que eles tinham então a fazer, felizes ou não, era vestir o uniforme imaculadamente branco santista e entrar em campo. Afinal, era isso o que os cruéis e rigorosos contratos exigiam. Menos mal, é que o time seguia ganhando quase sempre. Daí aqueles estranhos títulos que, de repente, o consagrado Esquadrão da VilaBelmiro passou a exibir. Era Santos, campeão do Octogonal de Santiago do Chile, pra lá; Santos, campeão do Hexagonal de Buenos Aires, pra cá; Santos, campeão do Pentagonal de Guadalajara, no México…

– Pois é, minha gente, eu sei bem como tudo isso é difícil. Mas, mesmo em meio a todas essas dificuldades que temos sempre de superar, nunca deixamos de amar o futebol como a melhor coisa do mundo. E é esse sentimento, que procuramos passar aos povos que conhecemos. Jogue a gente em que estádio jogar – disse Pelé, certa vez, mesmo extenuado após mais uma vitória do Santos, cumprindo outra alucinante maratona de jogos por vários países da Ásia.

Aliás, dentre as muitas façanhas obtidas naqueles anos dourados, o Santos do Rei Pelé foi bicampeão do Torneio de Paris e tricampeão do Torneio Internacional de Santiago do Chile. E sagrou-se, ainda, campeão dos Torneios de Buenos Aires, Cidade do México, Nova York, Caracas e Kingston, na Jamaica.

Porém, em 1961, eis que, de uma hora para outra, surgiu enfim um desafio de peso pela frente. É que a Juventus, bicampeã italiana, dizia-se em melhor fase que o time brasileiro. E ainda tinha acabado de ver o seu camisa 10, Sívori, escolhido o “Bola de Ouro “ da Europa, na famosa enquete da revista “France Football”.

Mesmo assim, mesmo com toda aquela pompa, o fato real é que a Juva não foi páreo em momento algum para o Peixe. E, no jogo decisivo, uns sonoros 2 a 0 – gols de Pelé e Dorval – foram mais que suficientes para o Santos ser campeão do aguardado Torneio Itália/ 61.

É bem verdade que, pela imponência que emanava do estilo único daquele mágico Santos, aqueles eram os típicos torneios para serem disputados, sempre, em Paris – em pleno Parc des Princes.  Quando muito, em Roma, Madrid, Cidade do México ou Lisboa. Mas, e os múltiplos – e quase sempre escusos – interesses dos cartolas e empresários? O que fazer, senão seguir na irracional roda-viva por países e estádios, enfrentando adversários cada vez mais inesperados?

Afinal, era dos cartolas e empresários, apenas deles e mais ninguém, a ideia de umnovo Pentagonal na longínqua Costa Rica. E ainda houve quem programasse uma surpreendente chegada à, então,desconhecida cidade de Kingston. Sendo que foi lá, sob um calor de mais de 40 graus, que o exaurido time brasileiroparticipou do modesto Torneio Triangular da Jamaica. Por estranha e  infeliz ironia, a competição que iria proporcionar o último título internacional de campeão, ao inigualável Santos de Pelé e sua troupe de gênios.

Passados, hoje, nada menos de 50 anos daquele formidável  legado de glórias, o que fica nos remoendo a imaginação é uma certa  inquietude, uma  incômoda impressão. Talvez, a dolorosa certeza de que aquele mágico Santos, o Santos do Rei Pelé e do capitão Carlos Alberto Torres, de Clodoaldo, Edu, Lima, Toninho Guerreiro, Ramos Delgado e tantos outros artistas da bola, poderia muito bem ter durado um tanto mais. O que matou-o, foi a ganância dos cartolas.

Como consolo, o que ficou para os que o viram jogar – como negar? – foi um verdadeiro presente dos deuses. Porém, para os que não o viram, não custa nada imaginar. E sonhar, sonhar …    

O PODER DO FUTEBOL

por Péris Ribeiro


Momento de pompa: a rainha Elizabeth II entrega a valiosa Copa Jules Rimet ao

Capitão inglês Bobby Moore

I) O ano é o de 1962. E, por aqui, a crise é iminente! Tanto que, em Brasília, um presidente balançado parece irremediavelmente sem saída.

Porém, graças às irrefreáveis pernas tortas do genial Mané Garrincha, o Brasil sai do Chile bicampeão mundial. 

E João Goulart – o presidente ameaçado – se sustenta um tanto mais no poder.

II) Ainda o Chile. Ainda a Copa do Mundo de 1962. Extasiado com o que via, o pouco afeito Presidente andino Jorge Alessandri apenas pergunta:

– Ele, esse Garrincha… De que planeta ele vem, afinal?

III) Por sua vez, tão afeita às cerimônias repletas de pompa, a Rainha Elizabeth parecia particularmente feliz, naquela tarde de sábado. E não esconderia, tempos depois, que ali andou vivendo um de seus inesquecíveis momentos de soberana.

É que em pleno Estádio de Wembley, debaixo das palmas quase ensurdecedoras da multidão, havia acabado de passar às mãos do jovem capitão Bobby Moore a lendária Copa Jules Rimet.

Inglaterra, campeã do mundo de 1966!

God …save the Queen!

IV) O clima é de terror. O nazismo apavora. Então, como que numa tentativa de amenizar o gigantesco pesadelo daquela II Grande Guerra, um jogo de futebol opõe onze combalidossoviéticos de Kiev e onze saudáveis alemães do III Reich.

Só que, aí, é o inesperado que rouba a cena. Surpreendentemente, os de Kiev vencem. E, como prêmio pela suprema audácia, são fuzilados sumariamente. Em plena praça pública.

Mas, como que saído do nada, eis que o orgulho soviético se sobrepõe. Os onze mártires viram heróis. Ali mesmo! Naquela mesma praça pública! E tornam-se definitivamente, em símbolos da luta pela liberdade de um povo há anos oprimido.

V) Mais de três décadas são passadas. E o que se vê, naquela noite, é uma alegria incontida tomar conta da imensa União Soviética. É que o surpreendente time do Dínamo – até então, orgulho apenas da gente da cidade de Kiev, na Ucrânia –, acaba de se sagrar campeão mais uma vez.

Só que, agora, o seu feito assume proporções inimagináveis. Tudo porque, desta vez, o Dínamo foi bem mais longe. É o grande campeão da Copa das Copas de toda a Europa.

O herói do momento é um habilidoso camisa onze: veloz, driblador e artilheiro. É o loiro Oleg Blokhin, que mostra um jogo capaz de encantar multidões. Porém, naquele exato instante, o que existe no coração de cada soviético é um sentimento que vai além. Bem mais além.

É como se em meio à loucura de uma festa que parece não ter fim, todos fizessem uma longa viagem no tempo. Em cada coração, o que ecoa é uma profunda e respeitosa reverência aos onze mártires de Kiev.

A bestialidade inominável dos soldados de Hitler, acaba de perder a sua derradeira batalha.