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Leandro

MALDITOS JOELHOS

por Marcos Vinicius Cabral


Nascido em 17 de março de 1959 em Cabo Frio, na Região dos Lagos, o menino de olhos esverdeados José Leandro de Souza Ferreira não imaginaria o que o futuro lhe reservava.

A paixão pelo clube da Gávea começou em 1969, na decisão do Carioca entre Flamengo e Fluminense.

No quarto, Leandro em companhia do pai, seu Eliziário, ouvia o jogo ao som do radinho de pilha.

– Vi meu pai muito triste, porque o Flamengo perdia para o Fluminense por 2 a 1. Depois do segundo gol tricolor, eu disse que iria ao banheiro, mas fui à sala ajoelhar e rezar pelo empate. Quando voltei, saiu o gol. Foi uma alegria imensa. Depois perdemos o titulo, mas me senti realizado por papai do céu atender ao meu pedido! – conta.

Depois disso a paixão foi crescendo, crescendo e crescendo.

E cresceu tanto a ponto de voltando da Praia do Leblon – no período de férias escolares – ir à contragosto com o primo Nonato à sede do clube marcar um teste.

Com um par de chuteiras maiores que seu número habitual, meiões enlarguecidos e desbotados pelo tempo e um short desproporcional ao seu corpo, se candidatou à vaga de lateral esquerdo.

Passou com sobras nos dois treinos que fez no campo da Base de Fuzileiros Navais da Ilha do Governador e ao lado de Vitor – cabeça de área que jogou nos quatro grandes clubes do Rio – foi selecionado por Américo Faria para treinar na Gávea.


– Ele costumava fazer as jogadas dentro de campo e olhar para o banco de reservas para ver se eu estava olhando. E como eu fingia que não via, sempre que terminava o jogo ele vinha me perguntar se eu havia gostado daquilo. Eu dizia que estava indo bem! – diz o ex-supervisor da seleção brasileira Américo Faria, de 73 anos.

E completa:

– Na minha longa carreira no futebol, foi, sem dúvida alguma, o jogador de maior talento com quem trabalhei.

Já como juvenil do Clube de Regatas do Flamengo, começou a despontar nas preliminares.

– Certa vez, finzinho da década de 70, fui ao estádio Caio Martins em Niterói, ver os dois jogos da decisão juvenil entre Flamengo e Botafogo. Mesmo tendo perdido as duas partidas e visto o alvinegro sagrar-se campeão, fiquei feliz com a atuação de um jogador. Seu nome? Um certo Leandro! –  relembra o metalúrgico Luiz Antonio Lorosa de 52 anos.

E foi aos poucos que Leandro foi conquistando seu espaço na equipe rubro-negra.

Apesar de quase ter ido para o Internacional no começo da carreira – foi reprovado pelo Departamento Médico do clube gaúcho por causa dos joelhos – se firmou na posição no qual é até hoje lembrado.


(Foto: Marcelo Tabach)

Com uma trajetória marcada por glórias nos inúmeros títulos conquistados na carreira, como os Brasileiros, Libertadores e Mundial na prolifera década de 80, era frequentador assíduo do Departamento Médico e da sala de musculação do clube.

Se ganhou o apelido de “peixe-frito” no mundo da bola, poucas não foram as vezes que fez trabalhos específicos na piscina.

Era muito sacrifício que a lateral direita lhe exigia.

Quando Júnior foi vendido ao Torino, em 1984, o Flamengo tratou logo de contratar um substituto para disputar com Adalberto a posição.

– Fui para disputar a titularidade com Adalberto na lateral esquerda e acabou o Mozer se machucando e ele (Leandro) pediu para ir para a zaga. Agradeci muito por ele ter feito isso e tenho a certeza que não entraria tão cedo na equipe, pois na direita era quase que impossível de eu entrar! – diz Jorginho, tetracampeão mundial em 1994.

E completa:

– Pra mim foi o melhor lateral direito que eu vi jogar do mundo. Eu o considero fora de série, um craque em quem sempre me espelhei.

E foi dessa forma que Leandro passou da lateral à zaga e continuou mostrando todo seu repertório de grande jogador.

Onde fosse colocado, o “peixe” jogava.

Trocou a camisa 2 – que passou a ser vestida por Jorginho – pela 3 em homenagem ao zagueiro Figueiredo – falecido em um acidente aéreo em Nova Friburgo – que era seu companheiro no Flamengo.

Com o novo número às costas, fez partidas épicas pelo rubro-negro, como o Fla-Flu do Leandro, em 1985, quando marcou um golaço.


– O que me impressionava no Leandro era sua elegância em campo. A mim parecia que ele flutuava sobre o gramado, com a bola docilmente subjugada junto aos seus pés. Vendo-o jogar, parecia que tudo era fácil! O drible, a condução da bola, o lançamento. Leandro executava cada um dos fundamentos com uma maestria que encantava a todos. O overlapping e o ponto futuro, inovações de Cláudio Coutinho, pareciam ter sido criadas para ele. Era fantástico ver que, de repente, do nada, o lateral aparecia na linha de fundo e num lançamento preciso deixava Nunes ou Zico na cara do gol. Se Zico foi o rei, Leandro era o príncipe! Quando Leandro parou de jogar, um bocado da magia do futebol se foi com ele. Mas é reconfortante saber que a admiração pelo ídolo persiste em todo rubro-negro que um dia teve o privilégio de tê-lo visto jogar! – frisa o professor universitário Maurício Vasquez de 57 anos e fã do jogador.

Mas se não fossem os malditos joelhos, teria ido mais longe na carreira.

Teria, por exemplo, disputado a Copa do Mundo no México, em 1986, já que era nome certo para ocupar a lateral direita como Telê Santana queria.

Porém, se negou a ir por achar que não seria útil naquela posição, embora muitos achem que foi por solidariedade ao corte de Renato Gaúcho.

Não tinha o vigor e nem os joelhos da Copa passada, a de 1982, na Espanha – já que aquele Brasil de Zico, talvez tenha sido ao lado da Hungria de Puskas em 1954 e da Holanda de Cruyff em 1974, as seleções mais injustiçadas no mundo ingrato da bola – mesmo com sua qualidade inquestionável.

Ainda teve fôlego para conquistar o Campeonato Brasileiro de 1987 e numa carreira vitoriosa, abandonou o futebol.

Em pouco mais de 10 anos como jogador (1978-1990), foi expulso uma única vez contra o Bangu, exatamente na sua última partida como profissional.

Leandro deixou saudades.

Deixou um legado no futebol inestimável e foi um divisor de águas naquela lateral direita.

Até hoje, passados 28 anos que pendurou as chuteiras, resiste ao tempo a genialidade de quem é considerado por muitos como o maior lateral direito de todos os tempos.

Hoje, 17 de março, o “Cavalo Manco” – como Carpegiani o chamava – faz 59 anos.

Vida longa e feliz aniversário!

LEANDRO, O ESTETA DA BOLA

É bem provável que jamais apareça um lateral-direito como Leandro no Flamengo. Foi estupendo, um ídolo. Neste sábado, 17, o craque faz anos. Nas linhas abaixo, uma crônica sobre a trajetória do Leandro.

por André Felipe de Lima


— Olhe, primo, acho que você não vem treinar no Flamengo porque tem medo.

— Medo?! — indagou, contrariado, o outro primo, que completou a resposta com uma altivez comum aos que nasceram para brilhar:

— Se você for lá comigo perguntar a hora e o local do treino, venho hoje mesmo.

O garoto não se intimidou. Entrou no clube, com o primo a tiracolo, e realizou o primeiro treino com a camisa que jamais deixaria de vestir ao longo da carreira. O menino, hoje um ídolo inquestionável, chama-se José Leandro de Souza Ferreira e se tornaria uma espécie de Nilton Santos rubro-negro. Tanto ele quanto o “Enciclopédia” do Botafogo jamais vestiram outra camisa que não fosse a do clube do coração. No peito de Leandro bate o escudo do Flamengo, no de Nilton Santos, o do Botafogo. Nenhum outro brasão rouba-lhes o amor.

Foi assim, em 1977, com essa compreensível empáfia juvenil, que Leandro ingressou no clube da Gávea para tornar-se o melhor lateral-direito da história do Flamengo, superando na mesma posição outro “imortal” rubro-negro, o grande Biguá, mítico craque dos anos de 1940 e de 50.

Neste sábado, dia 17, Leandro, um dos mais extraordinários jogadores que o futebol brasileiro já produziu, comemora mais um ano de vida.

Escrevo sobre Leandro porque o que vi jogar e posso afirmar sem pestanejar, meus amigos: era um assombro com a bola nos pés. Polivalente, jogava na lateral, na zaga, no meio-campo e até mesmo no ataque, lá na ponta-esquerda, se assim preciso fosse. Era um jogador completo. Verdadeiramente incomparável. Fez parte da maior geração de craques que o Flamengo já teve, com Zico, Adílio, Júnior, Andrade, Tita, Mozer, Marinho, Lico, Raul, Nunes. Um timaço campeão mundial em 1981. Um time que mais se parecia com uma galeria de arte. Cada craque, uma genuína obra-prima. Naquele mesmo ano, o das maiores glórias do Flamengo em todos os tempos, Leandro declarou: “Até hoje ainda sou um torcedor. Não me importo com o número, com a posição. Minha alegria é entrar e sentir a força dessa torcida”.


O que faziam aquelas pernas arqueadas, meus amigos, era algo fora do comum. Leandro driblava com estilo, técnica, maestria. Sim, Leandro foi um esteta da bola. Uma espécie rara de se ver nos gramados de hoje em dia. Sejam os daqui como os lá de fora. Na arquibancada, em jogos do Flamengo contra seus principais rivais, era comum ouvir o seguinte quando Leandro tocava na bola: “Vai jogar bem assim lá no cacete!”. Eu mesmo ouvi isso várias vezes no Maracanã ou em um bar debatendo sobre a rodada do fim de semana.

Leandro parecia deslizar sobre a grama tal a capacidade que ostentava para dominar a bola com os dois pés. Um ambidestro que Zico (sim, o Zico, um dos seus mais ardorosos fãs) definia como fora de série. Olhá-lo com a pelota de pé em pé nos iludia. Vê-lo jogar bola fazia com que acreditássemos ser o futebol a coisa mais fácil de fazer no mundo. Bola e Leandro eram, definitivamente, irmãos siameses, simplesmente indissociáveis.

Quando Leandro estreou pelos profissionais do Flamengo, em fevereiro de 1979, não imaginava que chegaria ao topo tão rapidamente e de forma fulgurante a ponto de muitos (este jornalista, inclusive) achá-lo o “melhor lateral-direito” da história do futebol brasileiro. Superior, sobretudo, a dois monstros sagrados da posição: Djalma Santos e Carlos Alberto Torres, que conquistaram, contudo, o que ele jamais conquistou: Copa do Mundo. Será que os dois “cobras” eram tão (ou mais) completos que Leandro? A polêmica é a alma da paixão futebolística. Solte-se, portanto, no ar o saudável debate.

O caminho de Leandro a partir de 1979 não foi moleza. Além de disputar a posição com Toninho, sofrera com várias contusões em 1980, ano do primeiro título nacional do Flamengo. No seguinte, durante o carnaval, seu Puma capotou, e por muito pouco não o matou. Mas as suas inconfundíveis pernas arqueadas, que tantas alegrias proporcionaram, pareciam ser as algozes do craque.


Pernas que representavam um manancial de felicidade pareciam escravizá-lo. Por causa delas (ou das dores que elas provocavam), Leandro por pouco não teve o passe negociado ao Internacional de Porto Alegre, em 1980. O negócio só não foi concretizado porque os médicos do clube gaúcho alegaram que Leandro sofria de uma calcificação incurável no joelho, uma sequela de uma operação de meniscos. Vaticinaram os “doutores” do Beira-Rio: “Esse aí vai ter vida curta no futebol”. Erraram, e feio, para a sorte do Flamengo.

Embora com muito futebol para dar e vender, Leandro sofria dores homéricas. Sempre as sentiu. Desde que começara no Flamengo. Disputou a Copa do Mundo de 1982, jogando naquela que está entre as quatro maiores Seleções Brasileiras da história, ao lado das de 1950, de 58 e de 70. Como nós todos, sofreu com a derrota para os italianos, mas também sofreu com as dores nos joelhos, das quais jamais se livrou. Não me recordo de um jogador de futebol sofrer longos e tortuosos anos com dor. O pior dos convívios, diria. Reinaldo, do Atlético Mineiro, talvez sejam um exemplo igual ao do Leandro. Mas, mesmo assim, não é comum.

Na Copa seguinte, em 1986, Leandro pediu ao treinador Telê Santana para jogar na zaga. Os joelhos já não mais aguentavam. O tal “Mal de Cowboy” estava liquidando-o. O futebol de Leandro estava lamentavelmente acabando. “Cada partida que Leandro disputa é uma obra de arte do departamento médico do Flamengo”, dizia Giuseppe Taranto, médico do clube em 1987. Segundo Taranto, só havia, segundo os conceitos da Ortopedia da época, duas maneiras para corrigir pernas arqueadas como as de Leandro: a primeira opção seria entre dois e cinco anos, ou seja, usar gesso ou dormir com aparelho ortopédico nesta faixa etária; o segundo recurso, bem mais penoso, consistiria em, até os dez anos, submeter-se a uma cirurgia que quebraria as pernas e as engessaria para corrigi-las. Leandro perdera as duas possibilidades. Talvez, não tenha se arrependido de perdê-las.

Em 1983, o craque dava sinais de que o esgotamento físico também o atingira mentalmente. Leandro dizia em entrevistas que desejava abandonar a carreira em 1986, logo o ano da Copa. Nem chegaria, portanto, aos 30 anos.

A vida pessoal vinha sendo inadvertidamente invadida por parte da imprensa. Prato cheio para torcedores de clubes rivais, que o perseguiam insistentemente, com gritos e até faixas ofensivas contra a honra de Leandro. Isso o deixava muito triste.


Após um jogo contra o Bangu, vencido pelo Flamengo, no final de 1983, torcedores do alvirrubro suburbano xingaram Leandro, que, no vestiário, apenas chorou. Afinal, era um ídolo do futebol nacional e não apenas do Flamengo. O mínimo que exigia dos torcedores era respeito.

Famoso, bom de bola e boa pinta, Leandro despertava a inveja alheia com muita facilidade e o suspiro de muitas moças de boas (e famosas) famílias. Neuzinha Brizola, por exemplo, filha do político Leonel Brizola, foi mais famosa pelo estilo, digamos, extrovertido que propriamente por ser filha do ex-governador do Rio. Foi ela também uma “fã” do Leandro a ponto de falar publicamente que esperava um filho dele. As filhas de políticos pareciam se alvoroçar por ele. Andréa Neves, irmã de Aécio Neves e, portanto, neta do ex-presidente Tancredo, foi outra figura pública que teve, em 1985, o nome proximamente associado ao do ídolo rubro-negro. Tornou-se corriqueiro falarem bem ou mal do Leandro, que era uma figura para lá de popular. Especulação com o seu nome era um dos esportes preferidos nos tempos em que brilhou com a camisa do Flamengo. Da arquibancada ou das páginas dos jornais, forjou-se o impoluto ídolo, mas poucos quiseram compreender ou mesmo conhecer o homem Leandro e, sobretudo, os ditames que o guiava em meio ao turbilhão do sucesso.

Semanas antes de a Copa do Mundo de 1986 começar no México, Leandro e Renato Gaúcho tomaram um chá de sumiço e voltaram de madrugada para a concentração da Seleção. Estavam em uma discoteca. O técnico Telê Santana, por mais que gostasse dos dois, não teve escolha e os cortou do escrete. Cortaria (é verdade…) apenas Renato, mas Leandro, demonstrando um senso de solidariedade e justiça, pediu a Telê que o cortasse também. Telê resistiu, afinal era fã incondicional de Leandro, como jogador e, sobretudo, como um homem com caráter irrepreensível.


Telê admirava o espírito amigo que Leandro sempre externou aos companheiros. Fosse no Flamengo ou na Seleção, o craque, embora muito tímido, era bacana com todos. Tele se preocupava com ele como se fosse seu próprio filho, mas não abria mão de tê-lo, como na Copa de 82, na lateral-direita. Mas Leandro não queria mais jogar ali por conta das intensas dores no joelho, especialmente o da perna direita. Preferia manter-se na zaga, na qual o jogo era mais lento e menos penoso para suas combalidas pernas. Introvertido, Leandro raramente (ou nunca, segundo a imprensa) tocava no assunto com Telê. Sem o diálogo, preferiu deixar a Seleção. “Não estávamos de porre, embora houvéssemos bebido. Se o corte era necessário, os dois deveriam ter sido cortados”, ponderara Leandro em uma das diversas entrevistas que concedeu após o episódio com Renato.

Bem antes de Telê saber, o desejo de Leandro em não mais ser lateral foi dito, em primeira mão, ao repórter Ronaldo Castro, que trabalhava na Rádio Tupi: “Não estou resistindo jogar na lateral. Já não tenho pique suficiente para ir e vir, meu joelho dói muito e não aguenta o esforço dos treinos físicos. Não posso ser lateral. Acho que vou embora porque Telê não me aceitará como zagueiro-central.”

Na noite do dia 8 de maio de 1986, Leandro estava devidamente vestido com o uniforme formal da CBF e com as malas prontas para viajar com a delegação da Seleção rumo à Toluca, no México. Na porta do apartamento em que morava com o primo Raimundo Nonato, que era contabilista da Varig, e o amigo José Marcos, o “Babau”, que era dono de uma loja de fotocópias, virou-se para Nonato e o amigo Vaguinho, presente no local, e exclamou: “Não vou mais!”. Vaguinho, sem entender patavina do que dissera o jogador, questionou: “Não vai para onde, Leandro?”. O craque foi pontual: “Para o México”.

Zico e Júnior, que já estavam no aeroporto, foram ao encontro de Leandro levados por um atônito Nonato. Zico argumentara com Leandro que ele próprio também representava uma inquietante incerteza na Copa. Estava mal fisicamente, mas que mesmo assim desejava estar no México. Leandro não coadunou com a tese do Zico. Os dois teriam se emocionado durante a conversa, mas Leandro mostrava-se inflexível. “Respeitem a minha decisão. Não posso ser lateral, não suportei o que foi feito com Renato e não me sinto em condições de falar com Telê”. Júnior esboçou uma última tentativa para que Leandro mudasse de opinião: “E seus companheiros de 1982? Temos tudo para conquistar a Copa, mas sem você fica bem mais difícil”. Não houve discurso que fizesse Leandro mudar de ideia. Naquela noite, o vôo 1046 da Varig decolaria com uma poltrona vazia.

Que pena Leandro não ter conversado abertamente com Telê sobre a possibilidade de jogar como beque na Copa de 86. Pena, sim, porque, caso ambos, ele e Renato, estivessem no México, o Brasil dificilmente deixaria de ir, pelo menos, à final.

Ao saudoso Tim Lopes e a José Antônio Gerheim, ambos, na ocasião, repórteres da revista Placar, Leandro desabafou: “Olha, sou muito fechado. Sofro, guardo tudo para mim, mas tem uma hora que não dá para segurar. Fui o culpado pelo que aconteceu naquele dia em que chegamos de madrugada à Toca da Raposa. Havíamos saído e, num determinado momento, Renato queria ir embora. Eu insisti para que ficássemos. Quando chegamos na Toca, havia três guardinha na porta e entramos. Ninguém pulou o muro, nem nada, ao contrário do que disseram. E evidentemente senti muito o corte de Renato. Senti e fiquei magoado com Telê.”

O episódio com Telê seria superado anos depois, com os dois, inclusive, trabalhando juntos novamente, no Flamengo. “Criado na Gávea, Leandro desenvolveu uma técnica refinada e, mesmo mudando de posição por questões físicas, marcou sua passagem pelo Flamengo como um dos grandes craques que passaram pelo clube”, assim declarou Flávio Costa, outro grande treinador da história do futebol brasileiro, em junho de 1989, quando Leandro se preparava para retornar ao time após mais uma penosa recuperação cirúrgica em um dos joelhos.


(Foto: Marcelo Tabach)

Leandro, o herdeiro de Biguá e muito superior a Jadir, Toninho ou Léo Moura, outros que trilharam (com maestria) a lateral-direita rubro-negra, foi excepcional. Sequer recordo de alguma pixotada em campo protagonizada por ele. Talvez a única falha gritante de Leandro foi, como o próprio confessou em entrevistas, um gol contra, na final do Campeonato Carioca de juvenis, em 1978. Mas o que representa um gol contra diante de tudo o que Leandro fez em campo e o representa para a memória do futebol nacional?

Leandro sempre soube o que fazer com uma bola de futebol. Por isso, raramente errava: “Fui um moleque fissurado em bola. Joguei até de pé gessado em peladas. Quando não tinha com quem brincar, ficava treinando na parede, aprendendo a matar no peito, dominar. E joguei oito anos de futebol de salão, em Cabo Frio (no litoral do Estado do Rio, para onde foi morar com apenas um mês de idade). Isso tinha de funcionar”. Ora, e como funcionou!

Devemos agradecer, porém, ao modesto clube Tamoio, de Cabo Frio, por revelar o gênio Leandro, o querido “Peixe-frito”, como o chamava o locutor Waldyr Amaral. Agradecer por apresentar ao futebol o Leandrinho da dona Cleuza e do rubro-negro Elisário. O Leandro, ídolo eterno da torcida do Mengão. Leandro… o esteta da bola.

LEANDRO ETERNO

Uma das filosofias do Museu da Pelada é dar um passo de cada vez. Após reunir um timaço de colaboradores e abastecê-lo nesse primeiro ano com conteúdo de qualidade chegou o momento do segundo passo. E ele vem carregado de ousadia. A ideia é salvar os acervos pessoais de nossos craques e profissionais ligados ao futebol, como técnicos, árbitros, supervisores e torcedores. O lateral Leandro, do Flamengo, foi o primeiro a ter suas matérias, fotos e recortes digitalizados, restaurados e salvos num cd, além de guardados numa belíssima caixa confeccionada pela encadernadora Chris Lee, da Manufatura. O objetivo é salvar o maior número de acervos, desprezados por clubes e museus físicos, e apresentaremos esse projeto a empresas com perfil para nos ajudar nessa empreitada. Mas, com ou sem patrocínio, seguiremos em frente.


Postamos esse vídeo hoje, justamente no aniversário de 58 anos de Leandro

Vale destacar que a ideia do presente surgiu meses antes – e por acaso -, no dia em que fomos a Cabo Frio entrevistá-lo. Quando o craque apresentou o seu acervo, com fotos, notícias, textos e recortes de jornais de cair o queixo, também chamou a atenção o estado daquelas eternidades, rasgadas, manchadas e desorganizadas.

Como um dos objetivos do Museu é preservar a memória do futebol-arte, propomos revitalizar aquela preciosidade, afinal de contas, um craque da importância do Leandro merecia, ao menos, um acervo digno. Sem pensar duas vezes, o lateral confiou na nossa equipe e nos entregou as bolsas e caixas rasgadas que guardavam todas as suas lembranças do futebol.

O trabalho durou quatro meses, pois foram mais de 1 mil matérias digitalizadas, mas, com certeza, um dos mais prazerosos nesse curto período de existência do Museu da Pelada. O documentarista Guillermo Planel foi o responsável por coordenar essa etapa.

– Não foi fácil, mas ficamos muito orgulhosos de organizar o acervo do Leandro, principalmente por ele ser idolatrado pelas torcidas e ser um ídolo mundial – resumiu Planel.


A segunda etapa, a da restauração, foi assumida pelas mãos mágicas de Chris Lee. Ela removeu as marcas de fita duréx das fotos e reduziu o amarelado das páginas dos jornais usando borracha ralada. Limpou foto por foto, colou todas as páginas rasgadas e guardou tudo em pastas divididas em ordem cronológica.

– No estado em que recebi o acervo não duraria mais de 30 anos – revelou.

Sabemos, no entanto, que essa é a realidade de muitos craques, dirigentes, árbitros, torcedores e personagens ligados ao futebol, que têm o acervo como a única lembrança do passado. Ciente da importância dessas eternidades, que nada mais são do que o resgate da poesia perdida do futebol, a equipe do Museu da Pelada encara esse desafio como uma missão de vida!


Orgulhoso, Leandro posa com o acervo restaurado

Ao receber o acervo restaurado, Leandro espantou-se com o resultado do trabalho.

– Agora sim, minha história eternizada e meus filhos e netos conseguirão levá-la adiante – agradeceu, emocionado.

Mal sabe ele que a restauração foi uma forma de agradecê-lo por tratar a bola com tanto carinho ao longo da sua brilhante carreira, uma façanha que merece ser eternizada!

VIDA LONGA AO “PEIXE FRITO”

por Marcos Vinicius Cabral


Leandro e Marcos Vinicius

O mês de março passou a ter um sentido especial na vida dos flamenguistas. Além de Zico e Júlio César Uri Geller, que aniversariaram no último dia 3, hoje é a vez de Leandro soprar velinhas.
 
Além da energia do terceiro mês do ano, vale lembrar que os anos 50 e 80 marcaram e muito os 40 milhões de torcedores da nossa Nação.
 
Os anos 50, porque foi a década que alguns desses heróis, ídolos do Flamengo, deram seu primeiro choro em vida, com exceções do goleiro Raul, nascido em 1949 e do zagueiro Mozer, nascido em 1960.  
 
Nessa epopeia, até chegar a década de 80 – o ápice na história do clube de 121 anos – aqueles atletas passaram por algumas experiências que os tornaram vencedores. Cada um dono de uma história de obstinação e de um profissionalismo irretocável, legado para as próximas gerações.
 
Graças ao meu avô José, que faleceu em 83, me tornei flamenguista ainda quando morava em Nova Friburgo. Era criança ao presenciar a maratona que ele fazia, mesmo doente, pra ouvir os jogos com seu companheiro: o radinho de pilha.
 
Meu saudoso avô, era apaixonado pelo Zico! Era uma obrigação minha retribuir e agradecer àquele jogador, que foi o maior camisa 10 que tive o privilégio de ver jogando.
 
No ano de 92, enquanto o ‘vovô’ Júnior pulava e saía comemorando feito criança seu gol, eu pulava também e comemorava aquele pentacampeonato. Meu Deus, como o Júnior jogou bola naquele ano!
 
Mas daquele belo time de 81, que colocou os ingleses do Liverpool na roda naquele 13 de dezembro, um, em especial, marcou de forma mais intensa e deixou marcas profundas em minha vida: José Leandro de Souza Ferreira, ou, simplesmente, Leandro!
 
Em 76, de férias no Rio, foi levado a contragosto por seu primo Nonato, que lhe arrumou chuteiras maiores que seus pés e um par de meiões enlarguecidos e, mesmo assim, aquele garoto de 17 anos encantou a todos e deixou uma boa impressão nos testes. 
 
Jogou na lateral esquerda na ocasião e treinou como se estivesse em Cabo Frio, no Tamoyo ou no Santos, clubes de sua cidade natal, onde deu seus primeiros chutes numa bola. Aprovado no Flamengo, virou sensação nos juvenis e alguns jogadores da equipe profissional faziam questão de chegar mais cedo à Gávea para vê-lo treinar.
 
– Era sobrenatural o que ele fazia naqueles treinos com a bola” – me contou, certa vez, Júnior, quando eu e Gustavo Roman o entrevistamos para a biografia do “Peixe Frito”.


Fotos: Marcelo Tabach

Por sua causa e por ser fonte de inspiração, comecei a jogar peladas no Barreto, em Niterói, com o número 2 mal costurado às costas. Lembro perfeitamente, com 9 ou 10 anos: ouvia no radinho os jogos do Flamengo para saber como ele havia jogado.
 
Nas vezes que atuou nas laterais – fosse direita ou esquerda – Leandro inovou na posição. Fez coisas sobrenaturais por ali, era mais uma opção ofensiva do que (mesmo sendo exímio marcador), um simples defensor. Foi a primeira vez que vi, com certa incredulidade, os pontas voltarem para marcá-lo.
 
Eu, que seguia à risca seus passos, me desdobrava naquela lateral de terra batida ou no cimento com imensas rachaduras na Praça do Barreto. Ali, naquela arena noturna, enfrentar Flavinho, Willian, Wellington, Boulevard e cia era uma missão impossível para qualquer garoto da minha idade.


Em cada domínio de bola, subia uma poeira que escondia nossos pés e, em cada chute, algumas pedras iam ferindo nossos dedos. Não foram poucas as vezes que sofri para marcar o Guina (apelido de Marcelo, garoto de extrema habilidade que era carinhosamente chamado assim pela família vascaína).
 
– Graças a Deus eu não marquei o Uri Geller – revelou, certa vez, ao Museu da Pelada, por não ter enfrentado o endiabrado ponteiro.
 
Eu não poderia dizer o mesmo, pois o Guina era a personificação do camisa 11 rubro-negro, fazendo diabruras com seus marcadores e para pará-lo, só dando com a mão. Foi a época que mais sofri nas peladas, mas quem mandou se espelhar no Leandro e querer jogar nas posições que o gênio das pernas arqueadas jogava?
 
Bem feito para mim!
 
Quando deslocado à cabeça de área, havia nele, a regularidade do Andrade, um monstro da posição; a habilidade do Falcão, simplesmente o Rei de Roma; e a eficiência do Cerezo, um dos maiores meio campistas do futebol brasileiro, que foi injustamente crucificado em 82, na Copa da Espanha.
 
Até hoje, não sabemos quem mais sofreu com a culpabilidade do fracasso em uma Copa do Mundo: Barbosa, em 50, ou Cerezo, em 82… Acredito que nem os deuses do futebol ousariam responder.
 
Mas, enquanto o Leandro era cabeça de área, eu tentando mostrar aptidão para o negócio, buscava (em vão), ter metade de sua desenvoltura, quando era obrigado a marcar Patinho (nome de batismo de Márcio), um moleque tão habilidoso quanto o Guina, porém, mais decisivo.
 
É, querer ser Leandro não é mole…

Já no meio campo, o lateral que, em 80, fora reprovado nos exames médicos pelo Inter/RS (graças a Deus), se saía tão bem distribuindo o jogo, lançando os companheiros, pensando nas jogadas, assim como arquitetando as táticas, que pela técnica contida em seu DNA, aquilo que para muitos era difícil, ele tornava fácil. Ali, me sentia melhor o imitando, com exceção de ter que marcar, o que nunca foi meu forte.
 
Apesar de ter sido referência em sua posição, Leandro foi compelido a se deslocar e ficar, em definitivo, com a camisa 3 (em homenagem ao zagueiro rubro-negro Figueiredo, falecido em um acidente aéreo em Nova Friburgo), na metade da década de 80.


Foto: Marcelo Tabach

Por conta dos problemas em seus joelhos, algumas características foram perdidas como o arranque, a velocidade, a polivalência… mas soube, como poucos, preencher os espaços vazios com uma colocação inigualável.
 
Na verdade, com suas limitações, formou com Edinho, uma zaga impenetrável e sagrou-se campeão brasileiro de 87. Em 90, só não disputou sua segunda Copa do Mundo, porque Sebastião Lazaroni não teve ‘culhões’ para levá-lo.
 
Seria sua segunda Copa, pois em 86, refutou ir ao México por achar que seus joelhos não suportariam jogar na lateral e, também, por solidariedade a Renato Gaúcho. Sorte a dele, que numa das piores Copas da história, teria que ficar à frente daquele sistema defensivo falido. Seria um desserviço ao grande jogador que foi. Graças a Deus, que o “Lazarônes” levou Ricardo Gomes, Mozer e Mauro Galvão, que com todo respeito, não tinham bola para botar o “Peixe Frito” no banco.
 
Conseguiu a proeza de, mesmo jogando apenas no Flamengo, em 415 jogos como profissional, ter sido expulso uma única vez, contra o Bangu, em 90, seu último ano de uma carreira vitoriosa.
 
Hoje, mesmo longe dos gramados há 27 anos, continua sendo para mim, referência até hoje nas minhas peladas, aqui em São Gonçalo. Portanto, nenhuma homenagem ao gênio das pernas tortas, seria suficiente para dizer o meu muito obrigado!
 
Que nesse 17 de março você desfrute seu aniversário na companhia de sua família, de seus pais, de seus amigos e possa sempre saber: de todos, você foi para mim e continuará sendo o maior!

CARTA AO ZICO

por Marcos Vinicius Cabral

Sempre fui apaixonado por futebol e no longíquo começo da década de 80, torcer para o Flamengo era uma árdua missão.

Não pelo time, muito pelo contrário, afinal de contas com Raul, Leandro, Marinho, Mozer e Júnior; Andrade, Adílio e Zico; Tita, Nunes e Lico em ação, dentro das quatro linhas, o sentimento de tranquilidade imperava de forma tão irrestrita que esses jogadores eram os caras a serem batidos naquela época.

Mas no bairro de Venda das Pedras – em que os ônibus circulavam de duas em duas horas -, da Região Serrana de Nova Friburgo, nas noites frias em que a fumacinha saía da nossa boca e do nosso nariz – tipo filme americano -, todos os aspectos conspiravam contra para torcer para o ‘Mais Querido’, menos um: seu José, meu avô materno!

Foi por ele e por causa dele, que mesmo tendo um pai vascaíno e uma mãe tricolor, me tornei rubro-negro.

Não me arrependo e sou grato ao meu querido avô!

Lembro perfeitamente quando havia jogo do Flamengo – naquele tempo não havia a facilidade de se assistir futebol como hoje – meu avôzinho pegava seu radinho de pilha, cor vermelha e com um escudo do Flamengo, sintonizava na Rádio Globo em que Waldir Amaral – criador do ‘Galinho de Quintino’ – narrava gols e mais gols, o que deixava o meu velhinho feliz, já que o mesmo se locomovia com muita dificuldade por ter uma barriga megalômana, em virtude de uma cirrose.

Portanto, eu ficava feliz – mesmo com 7 ou 8 anos à época – quando o Flamengo jogava, pois a alegria do meu cioso avô contrastava com a tristeza profunda causada pela doença no qual era acometido.

Não há como negar que o Flamengo fazia muito bem ao velho e que com a afirmação daquele belo time, que conquistou os maiores títulos da sua história, me tornei rubro-negro ali, no sofrimento e na alegria daquele senhor que foi a pessoa mais importante até hoje na minha vida.

Assim como a vida nos prega peças, Deus o levou para junto dele um pouco antes da final do Brasileiro de 83 – vitória suprema por 3 a 0 contra o Santos, num Maracanã apinhado de 155.523 flamenguistas – falecendo no mesmo mês em que o Brasil se enlutava pela morte precoce da diva da MPB, Clara Nunes.


Passados 34 anos incompletos de seu desaparecimento desse plano terrestre, até hoje me pergunto o que seria de mim – futebolisticamente falando – se não tivesse com ele, a oportunidade de conhecer o Flamengo?

Contudo, saber que ‘O Mais Querido’ fazia bem ao meu avô, era meu dever como neto, em retribuição ao que o clube produzia naquele que fora considerado um dos melhores pedreiros daquela região.

Desde então, me tornei flamenguista e me orgulho muito disso.


Não há como negar que o Flamengo é a minha ‘segunda casa’, como me confidenciou certa vez Leandro, gênio da lateral, que iniciou e terminou sua belíssima carreira no Flamengo.

Ou ainda, e porque não citar, a ‘segunda pele’, frase que se tornou famosa, após ter sido declarada por um dos jogadores que mais vestiu o manto rubro-negro: um certo Leovegildo.

Me considero um privilegiado por ser mais um dos 40 milhões de torcedores, que passou a amar esse clube da forma mais sincera possível.

Dos títulos brasileiros que a sua geração ganhou, me lembro de todos mas o de 83 se tornou especial para mim – até hoje tenho a certeza que aquele tricampeonato foi em retribuição ao amor que meu avô nutria por aquele timaço, além é claro, de marcar sua despedida do Flamengo e dele (meu avô), da vida.

Em contrapartida, o polêmico título de 87, em que até hoje se reluta muito em admitirem que o Flamengo foi campeão daquela competição, me marcou também.

Eu não tenho dúvida nenhuma, pois nos sagramos campeões dentro de campo, enfrentando equipes fortes em batalhas épicas, como nos dois jogos contra o Atlético Mineiro – um dos jogos inclusive está registrado neste quadro que terminei de pintar e lhe será dado de presente – e nas duas partidas da final, contra o poderoso e quase imbatível Inter/RS.

Mas sabe, Galo, gostaria muito que meu avô estivesse aqui presenciando muitos momentos na minha vida, como por exemplo os dois livros que publiquei; o livro do Leandro que estou desde 2013, com o Gustavo Roman escrevendo; o do Uri Geller, que comecei a escrever com o Ari Lopes, meu ex—chefe no jornal O São Gonçalo; com o nascimento de sua bisneta, minha filha Gabrielle; com minha formação em Jornalismo nesse fim de ano; do homem que me tornei… tantos motivos que me.levam a crer que ele se vivo estivesse, teria um imenso orgulho de mim.

Porém, nada se compararia a esse momento especial que é o de poder entregar esse quadro a você, o maior jogador que meus olhos tiveram o privilégio de ver jogar.


Certamente, ele caminharia com dificuldades até você, lhe daria um abraço, mesmo estando bem debilitado e lhe diria um muito obrigado.

Sei o quanto ele gostava de você!

Esse quadro representa muitas coisas que nele estão contidas e é mais que um simples quadro pintando por um módico artista.

Representa o resgate da minha infância, através da história de superação e luta do meu avô contra essa maldita doença, a cirrose, que atinge 150 mil brasileiros por ano, para ouvir os jogos do rubro-negro nas noites frias de Nova Friburgo.

Significa também, a realização de um sonho, que é conhecer o maior e melhor jogador nesses 121 anos do Flamengo e que me deu muitos motivos para lembrar do meu avô, nas inúmeras vitórias conquistadas.

E também, por ter em você a figura exemplar e extraordinária do ser humano!

Espero que goste pois aqui tem uma dose excessiva de carinho, perfeccionismo exacerbado, uma dedicação incomum e horas e horas de uma liturgia premente nas noites em que pintei nas madrugadas afora.

Valeu, Galo! Muito obrigado por ter feito meu avô feliz!

SRN