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Internacional

O INTERNACIONAL, SEGUNDO O SORRISO DE JOSIE

por Marcelo Mendez


“Que saudade da Redenção

Do Fogaça e do Falcão

Cobertor de orelha pro frio

E a galera do Beira-Rio”

Ontem teve Grenal e eu lembrei da Josie.

Eu a conheci numa tarde de verão na Avenida Paulista, em que ela me encontrou com um vestido de flores, com os óculos da Audrey Hepburn e um sorriso no rosto que dobrou o sol daquele dia. A partir de então, deixou de ser um dia qualquer. Eu estava conhecendo uma amiga.

Ela queria meu livro de crônicas, marcamos ali num café pra eu entregá-lo a ela e então conversamos. Josie me falou do seu Rio Grande do Sul, de Porto Alegre e do Internacional, dela e do seu Pai. Contou-me que ele esteve doente e que durante a sua recuperação, o Internacional era o que os aproximava, foi o que ajudou o Pai se recuperar. Me emocionou.

Desde então, com a devida licença que peço aos milhões de Colorados, afirmo que quando penso no Internacional, penso no sorriso da Josie dobrando o sol da Avenida Paulista.

E o que foi o Internacional no Grenal de ontem, senão a emoção que rege os corações da Josie e do Pai dela? Não foi uma partida de exuberância técnica, o time não tem obrigação de tê-la, pelo contrário; A partir do instante que detectou sua limitação nessa seara, passou a se aplicar em outros fatores que ajudaram nessa arrancada de oito vitórias seguidas. Também não tem maiores aventuras táticas, outras modernidades do “New Football” que querem empurrar goela abaixo de geral, não:

O time de Abel Braga não pensa muito nisso, porque o entendimento de Abel Braga para o Futebol é outro, livre dessas coisas todas, que busca por outras soluções para o segundo tempo do jogo de ontem quando o Grêmio abriu o placar e ameaçou ser melhor que o Colorado. Abel vai no coração.

Seu time é montado de maneira comum, contando com o motorzinho Edenilson, com a boa fase de Patrick, com dois laterais que o senso comum entendeu que não serviam para Flamengo, caso de Rodinei e Moisés, dispensado do Corinthians. Pode parecer pouca coisa, mas é o básico que se equivale na hora que entra a forma como Abel Braga vê as coisas do futebol e do mundo.

Paizão da bola, sujeito digno, honrado e correto, falando a real na cara de seus jogadores, Abelão ganhou seu grupo e tem dos seus jogadores tudo o que eles podem lhes dar. É comovente ver a entrega desses caras na luta pra dar ao Inter uma alegria que não vem desde 1979, desde quando aquele timaço de Falcão e companhia inspirou esse verso da música “Deu Pra Ti” de Kleiton e Kledir, que abre essa crônica e que diz muito do que está acontecendo no Beira Rio.

Diz muito da Josie.

Minha amiga Gaúcha ontem ligou para o Pai dela depois do jogo. Ela em São Paulo, ele em Porto Alegre; Ambos riram, se emocionaram, prometeram que, assim que a pandemia passar, vão se ver, se abraçar, comemorar o título que a Josie acha que dessa vez não vai escapar. A prudência da profissão talvez me fizesse dizer que muita coisa pode acontecer no Brasileirão de 2020, que precisa ter cuidado e tudo mais, mas nesse caso, não vai ser possível. Eu não quero contrariar o coração em estado de graça da Josie.

Boa sorte ao Internacional na sua arrancada e que o melhor aconteça ao Colorado na sua saga pelo Título do Brasileirão e se ele vier não ficarei triste de maneira alguma, porque sei que a Josie vai comemorar com seu Pai e vai abrir o seu sorriso.

E o sorriso da Josie quando o Internacional vence é mais bonito que o pôr do sol na beira do Guaíba.

O ESTOPIM DO GRE-NAL DO SÉCULO

por Wendell Pivetta


Há 31 anos, o Internacional de Porto Alegre conquistava mais uma vitória em clássicos Gre-Nais, mas essa foi especial. Em um domingo de calor perto dos 40ºC, quase 80 mil espectadores presenciaram o aclamado Gre-Nal do Século. O colorado venceu o Grêmio por 2×1, dois gols do centroavante Nilson, e conquistou a vaga às finais do Campeonato Brasileiro e um lugar na Copa Libertadores da América. O feito entrou para a galeria das grandes vitórias em Gre-Nais.

Para os colorados, o Carnaval daquele 12 de fevereiro foi ampliado, e a partir daquele jogo, mesmo com um atleta a menos em campo e com a desvantagem do placar, o até então pouco conhecido treinador Abel Braga entrou para o vestiário e fez o Internacional retornar para o segundo tempo fulminante, iniciando uma história gigante.

O gre-nal do século foi o primeiro a valer vaga em âmbito nacional, além do Gaúchão, e depois veio outras disputas como na Copa do Brasil de 1992, quando o colorado também passou pelo Grêmio nas quartas de final e sagrou-se campeão ao superar o Fluminense na final. Em 1999, deixou o adversário para trás na Seletiva para a Libertadores. Nas edições de 2004 e 2008 da Copa Sul-Americana, o Inter também encontrou o Tricolor em fases eliminatórias e levou a melhor nas duas oportunidades. Recentemente, na Copinha, a rivalidade tomou conta logo no aniversário de São Paulo, e o colorado se sagrou campeão com seus jovens talentos.

Em 422 encontros, o Colorado venceu 156, empatou 134 e foi derrotado 132 vezes. São, portanto, 24 vitórias a mais sobre o Grêmio. O gre-nal do século marcou a trajetória da maior rivalidade do sul do país, e uma das maiores do país.

Internacional no Gre-Nal do Século: Taffarel; Luis Carlos Winck, Aguirregaray, Nenê e Casemiro; Norberto, Leomir (Diego Aguirre), Luis Carlos Martins e Mauricio (Norton); Nilson e Edu Lima.

DIA HISTÓRICO

por Wendell Pivetta


Dia 17 de dezembro é só o Sport Club Internacional que faz história.

Há 13 anos um clube gaúcho, vestido de branco, pintou o mundo de vermelho. Samurais gaudérios desbancaram o favorito clube catalão de Ronaldinho Gaúcho e uma esquadra multi campeã que menosprezou o olhar do capitão do clube gaúcho que, em um piscar de olho destemido ao apertar a mão de Ronaldinho, preparou seus colegas de equipe para a partida da vida deles.

Sangue foi derramado, literalmente pelo zagueiro Índio, começando ali a pintar o globo. No sul do Brasil era calor, Rio Grande do Sul estava paralisado naquela manhã de domingo, torcedores ansiosos mal podiam esperar pelo apito inicial de uma partida legendária para o futebol mundial. O clube do sul não tinha o estrelismo, tecnicamente era raçudo, porém jamais superior se compararmos os nomes, mas guardava na manga a sua experiencia de atletas como Iarley, anteriormente campeão do mundo com o Boca Juniors, fazendo a linha de frente com um jovem rapaz com um futuro promissor pela frente chamado de Alexandre Pato.

Ceará, lateral de máximo empenho físico, Edinho e Fernandão retornavam ao Brasil após passagem pelo futebol da França e demonstravam um conhecimento maior também. Era fácil naquele ano menosprezar o clube gaúcho, pouca informação se passava pelo passado de um clube roubado em 2005 no campeonato nacional, e que conquistara sua Libertadores em cima do atual campeão do mundo, o São Paulo. Os gremistas, rivais do colorado, falavam em massacre. Ficaram ainda mais fervorosos ao ver o clube gaúcho classificar na semifinal em um placar apertado, enquanto o todo poderoso Barcelona aplicava uma sonora goleada.

A cancha japonesa recebia em seu gramado o time iluminado, destemido e peleador, aonde numa boa roda de chimarrão quem conta sua versão da história só não é desmentido pois era um jogo televisivo. Galvão Bueno, Haroldo de Souza, Pedro Ernesto Denardini e demais comentaristas brasileiros que narravam aquele jogo não conseguiam esconder a magia maior do futebol, em que o atleta menosprezado pela torcida, mas protegido pelo seu treinador, entra no lugar de seu capitão e marca um gol que tem placa, tatuagem, quadro e a icônica frase: “me perdoa Gabiru”.

É, da tensão do início da partida, até o esplendor e alívio do apito final, um jogo de futebol se tornara o maior ato de fé, colocando nos incrédulos que o impossível é sim possível, e baldes de refrigerante dos colorados que apostaram sem medo na vitória contra os torcedores do rival.

O TIME QUE NUNCA PERDEU

por Luis Filipe Chateaubriand


Há 40 anos, direto do túnel do tempo, conhecemos o time que nunca perdeu.

Era o ano de 1979. 

O Internacional de Porto Alegre sagrava-se, de forma invicta, campeão brasileiro. 

O time era tão bom que não perdeu para ninguém!

Benitez; João Carlos, Mauro Pastor, Mauro Galvão e Cláudio Mineiro; Batista, Falcão e Jair; Valdomiro, Bira Burro e Mário Sérgio. 

Chico Espina funcionava como uma espécie de “décimo segundo titular”.

Timaço que era, o Colorado foi passando pelas fases de forma imponente: primeiro colocado de seu grupo na primeira fase, à frente do rival Grêmio, do Atlético Paranaense, do Coritiba e do Sport, entre outros; primeiro colocado de seu grupo na segunda fase, à frente de Atlético Paranaense novamente, Desportiva Ferroviária e Internacional de Limeira, dentre outros; primeiro colocado de seu grupo na terceira fase, à frente de Goiás, Cruzeiro e Atlético Mineiro.

Nas semifinais, um primeiro jogo sensacional com o Palmeiras, em São Paulo: os gaúchos saem perdendo por 1 x 0, empatam o jogo em 1 x 1, ficam novamente em desvantagem por 2 x 1, novamente empatam em 2 x 2 e, finalmente, viram o marcador para 3 x 2 – com direito a atuação de gala de Paulo Roberto Falcão.

No segundo jogo, um empate em 1 x 1, no Gigante da Beira Rio, garante a classificação para a final, contra o Vasco da Gama.

No primeiro jogo da final, no Maracanã, a inteligência tática do técnico Ênio Andrade coloca a equipe cruz maltina na roda, e o gigante gaúcho vence por 2 x 0, gols do reserva Chico Espina, nos domínios adversários.

No domingo a seguir, nova vitória sobre o heroico português, desta vez por 2 x 1. 

Título garantido, invicto.

Um time fora de série, que teve seus pilares na segurança do goleiro Benitez, na classe do jovem zagueiro Mauro Galvão, na intensidade do volante Batista, na lucidez do ponta esquerda Mário Sérgio e no toque refinado do príncipe Jair.

Mas, acima de todos, Paulo Roberto Falcão, o futebol cerebral, a classe no modo de jogar, a genialidade infinita. 

O cara que, a partir do ano seguinte, seria coroado “Rei de Roma”, simplesmente estraçalhou não apenas no jogo final, mas ao longo de toda a temporada.

E foi assim que o Internacional de Porto Alegre conquistou seu terceiro Campeonato Brasileiro em cinco temporadas, invencível, triunfante, altivo, o retrato da valente gente do sul de nosso país! 

Luis Filipe Chateaubriand acompanha o futebol há mais de 40 anos e é autor de vários livros sobre o calendário do futebol brasileiro.

NEM A DISTÂNCIA SEPARA

por Wendell Pivetta


Amor pelo clube do coração é algo inexplicável. Não existem fronteiras para dedicação do torcedor, ainda mais aquele que mora longe do estádio, que muitas vezes acaba falecendo e nunca teve a oportunidade de assistir o clube do coração na cancha futebolística. Algumas cidades ainda fazem excursões, porém o custo é alto, até porque os estádios ficam cada vez mais elitizados e não compreendem talvez que boa parte do público venha de longe.

No caso de hoje, conto a história da minha cidade, Tupanciretã, fixada no centro do Rio Grande do Sul, com a torcida Camisa Vermelha, que em média, 1 vez por mês marca presença no Beira Rio. Eliandro Amarante, criador do movimento, começou a divulgar e reunir pelos bares com transmissões dos jogos e via Whatsapp a ideia de ir para o estádio, ver pela primeira vez seu time de coração atuar no gramado que, ao vivo, era muito mais verdinho. A cidade costumava ir apenas uma vez ao ano para o estádio, e hoje a realidade já é outra, tendo em média um micro ônibus mensal, dobrando inclusive o quadro de sócio torcedor da cidade pelo Clube do Povo do Rio Grande do Sul.

A viagem tem o total de 800 quilômetros, cerca de 5 horas de viagem, para até então, ter participado de 13 jogos, nenhuma derrota e apenas um empate assistido que foi neste ano, diante do River Plate pela Libertadores da América (dados levantados antes da parada da Copa América). Famílias percorrem a longa estrada para vislumbrar o grande evento que é uma partida de futebol da capital, algo que não tem preço para os organizadores das excursões que passam semanas organizando e reunindo o dinheiro, contatando empresas com transporte, e garantido o ingresso de todos para dentro do jogo. 


Nossa primeira partida que a excursão vislumbrou foi o jogo Internacional 2×1 Corinthians pelo Brasileirão de 2018. Lotaram uma van de 15 pessoas, um dos transportes mais difíceis para percorrer 5 horas de viagem, porém naquela data o nosso país enfrentava a greve dos caminhoneiros, e a falta de gasolina era algo que cada vez mais iria se tornando realidade entre os transportes. Quando chegamos e entramos no estádio, era possível ver o aglomerado de pessoas, e sem perceber o sangue ia fervendo, o coração mal parava de bater e isso tudo só de entrar estádio a dentro, então, quando você passa pelo corredor, o Beira Rio no setor inferior conta com escadas para você subir até a parte do gramado, e subindo pela primeira, e ainda até hoje, não existe colorado que não se arrepia todo ao ver a imensidão do estádio, da beleza fenomenal do interior e aquele sol que bate no gramado e o torna ainda mais verde. O torcedor se sente completamente em casa. Sem falar as histórias do pré jogo, como por exemplo ao passarmos por dentro da Porto Alegre vazia, visualizamos o ídolo e ex-zagueiro Índio andando a pé para o estádio, ou no clássico gre-NAL que ao estacionarmos nosso ônibus, começamos assar a carne do almoço e fazer uma cantoria, logo chega torcedores de outra cidade, Horizontina, para tocar com nós e em menos de 2 minutos o local encher de torcedores vislumbrando do mesmo momento mágico.

Encarar frio, chuva, falta de sono e preços absurdos ao totalizar passagem, ingressos e alimentação realmente é algo que prova a força das excursões do interior do estado para assistir aos espetáculos, e a Camisa Vermelha de Tupanciretã é uma ótima representante destes momentos que só o torcedor passa.