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TODOS PRECISAMOS PEDIR PERDÃO A ABEL BRAGA

27 / janeiro / 2021

Por Marco Antonio Rocha


Ridicularizamos Abel Braga. Ironizamos Abel Braga. Jogamos no lixo tudo o que Abel Braga conquistou ao longo de décadas. Decretamos o fim de Abel Braga. Reduzimos Abel Braga a memes de Facebook e figurinhas de WhatsApp. A sanha da imprensa pelo julgamento travestido de análise imparcial e a compulsão das redes sociais pela condenação transformaram Abel Braga em uma caricatura do fracasso.

O massacre começou quando o treinador comandava o Flamengo. E talvez tenha sido esse seu maior pecado: estar no lugar errado na hora errada. Ou as críticas teriam sido tão duras se Abel estivesse à frente de outro time? O Flamengo realmente poderia jogar muito mais, algo que de fato aconteceu com a chegada de Jorge Jesus (e de um punhado de reforços incontestáveis, diga-se de passagem). A intensidade com que os rubro-negros passavam por cima de seus adversários, à moda portuguesa, era a mesma com que a imprensa triturava Abel a cada análise do novo Flamengo.   

Abel foi escorraçado do clube, apesar de ter sido campeão estadual, encaminhado a classificação na Copa do Brasil contra o Corinthians e terminado a fase de grupos da Libertadores em primeiro. Assim que assumiu a equipe, Jorge Jesus acabou eliminado pelo Athlético-PR, em um Maracanã lotado, e por pouco não seguiu o mesmo roteiro diante do Emelec, do Equador. Ah, se fosse o Abel…

Ainda sob contrato, viu a diretoria negociar com candidatos para substituí-lo. Já dispensado, teve que lidar com frases que o desqualificavam – vice-presidente de relações externas do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista, o Bap, ao comentar as entrevistas que Abel dava, disse que “a gente discutia que ele deveria estar de sacanagem; a gente pensava ‘ou ele bebeu, ou estava drogado’”.

Quando chegou ao Cruzeiro e ao Vasco, ainda naquele 2019, o técnico carregava sobre os ombros o estigma da derrota. E logo foi embora da Toca da Raposa e de São Januário. A redenção, àquela altura, parecia impossível. Mas ainda restavam acréscimos para buscar a virada nesse jogo: o Internacional voava no Brasileiro, até ser surpreendido pelo anúncio de Eduardo Coudet, que decidira trocar o Beira-Rio pelo Celta de Vigo, da Espanha. Caberia a Abel assumir a vaga do argentino, justamente no clube onde conquistara a Libertadores e o Mundial. Deu pra ti, baixo astral, vou pra Porto Alegre… Tchau!


Mas não demorou muito e o Internacional foi eliminado da Copa do Brasil pelo América-MG, nos pênaltis, e da Libertadores pelo Boca, da mesma forma, após uma vitória pouco provável em La Bombonera. Ah, se fosse no Flamengo…

O time despencava na tabela do Brasileiro e já parecia fora de combate quando passou a enfileirar vitória atrás de vitória. No domingo (24), alcançou a oitava consecutiva ao virar o clássico contra o Grêmio no minuto final, igualando o recorde de… Jorge Jesus. Sem festa da imprensa, sem pedidos para que assumisse a seleção, sem fazer parte de enquetes sobre o melhor técnico da história da Humanidade.  

Abel Braga e Internacional nasceram um para o outro. Quando o clube gaúcho parece perto de conquistar o Brasileiro após 41 anos, o técnico está no lugar certo na hora certa. E aí poderemos dizer que foi lindo, cara…

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