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VOZES DA BOLA: ENTREVISTA EDU COIMBRA

15 / novembro / 2021


A bola, quicando de felicidade, sempre buscou encontrar em cada campo de futebol o valor de pés atenciosos e que fossem amorosos com ela. No peso da verdade, o que ela mais queria naqueles 90 minutos era carinho, atenção e alguém para tratar dela com cuidados especiais. De chamar de ‘meu bem’! A bola queria, por incrível que pareça, viver essa correlação de dar e receber, amar e compreender, estar e sentir, rir e chorar e gritar pelo gol marcado e silenciar por ele sofrido. O gol, àquela altura, era ‘mero detalhe’.

Amada ou odiada, alegre ou triste, percebida ou vilipendiada, a cada batida o coração dela transformava-se em apupos incontidos de quem queria dormir nas redes e sentir a ovação daqueles que estavam ali, sentados, nas arquibancadas arrefecidas por uma paixão incontrolável à volta dela.

Poucos jogadores de futebol tiveram essa percepção para atender as exigências da bola, matreira na essência pelos percalços já enfrentados ao longo de sua existência. Um deles foi Eduardo Antunes Coimbra, nome de batismo de Edu, que teve na abreviação um destaque no cenário nacional nos anos de 1960 e 1970. Franzino, o filho que ganhou do velho Manoel e da prendada Mathilde a camisa 10 do Flamengo quando deu seu primeiro choro em vida naquele 5 de fevereiro de 1947, personificou o diabo anos depois com a camisa número 9 rubra do América Football Club. Fez maldades na vida de tantos e quantos defensores, e exorcizá-lo, convenhamos, era uma missão impossível.

Entretanto, na história do Mecão, Edu não foi primeiro, segundo ou terceiro maior jogador da história do clube, mas foi único, em pluralidade, qualidade e leveza, encantos mil. Um camisa 10 invicto nas guerras da vida e convicto de si nas batalhas enfrentadas e vencidas em campo. Ser 10 bastou para quem pensou em ser mil.

Quando Deus criou o Homem e dele foi extraído uma costela para a criação da mulher, a bola viveu experiência similar ao ser coberta com pedaços de couro ao ser criada pelo governante chinês Fu-Hi no século IV antes de Cristo e, anos depois, projetada pelo americano Charles Goodyear em 1835. Projeção e criação estas que Edu ganhou em cada exibição de gala, seja no América, Vasco, Bahia, Flamengo, Colorado-PR, Joinville, Brasília-DF e Campo Grande, este último em 1981, dando adeus ao futebol quando o brilhante jogador saiu de cena e encenou outras tantas no banco de reservas como treinador.

“Jogador de grande agilidade, domínio de bola, imaginação, malícia e velocidade. Tudo marca Edu como um craque”, reconheceu o cronista, dramaturgo e escritor Nelson Rodrigues (1912-1980) deixando em nós, mas principalmente, nos americanos, a saudade eterna.

Edu marcou 179 gols que o transformam – de acordo com a diretora Eralda Savelli Guimarães do Departamento Histórico do clube – no maior artilheiro da história do América Football Club em seus 117 anos de existência, completados em 18 de setembro. Mas Edu, nosso personagem da vez na série Vozes da Bola, tão craque quanto o irmão caçula Zico, cravou seu nome do cenário futebolístico nesses capítulos à parte que a bola eterniza no coração daquele que é apaixonado por esse esporte.

Por Marcos Vinicius Cabral
Edição: Fabio Lacerda

Os irmãos Coimbra sempre caminharam juntos no universo da bola, inclusive, no time do Juventude. Como foi sua infância em Quintino?

Foi tão rica, tão benéfica e de grande utilidade para nós já na idade adulta, porque foi o maior aprendizado que tivemos na nossa infância. Eu costumo dizer, que Quintino Bocaiúva, o bairro em que fomos criados, e a Rua Lucília Barbosa, tão famosa aqui na casa 7, por ter sido o local onde nasceu o maior ídolo do Flamengo e do Japão, que é o Zico. Como houve uma evolução muito grande na nossa família, no início éramos irmãos do Antunes, depois do Nando, em seguida do Edu e agora todos nós somos irmãos do nosso caçula (Zico), o que nos enche de orgulho, apesar de cada qual ter sua própria história. E pelo fato do Zico ter nascido neste bairro, nesta rua e nesta casa, acredito eu que no futuro bem distante a rua onde fomos criados possa ser rebatizada – homenagem a uma das 50 maiores personalidades do mundo em todos os tempos. Aqui neste local foi a nossa fazendinha, nossa universidade e aqui foi o lugar onde corremos atrás de uma bola antes de tentar federar-se em um clube de futebol. Foi maravilhoso sob vários aspectos essa infância vivida no bairro até a chegada aos profissionais.

Seus pais eram contra você ser jogador de futebol?

Meu pai era totalmente radical. Não permitia que qualquer filho dele se transformasse em jogador de futebol. Na época, jogar futebol não era bem aceito pela sociedade, e ele nos incentivava a estudar para que tivéssemos o nosso canudo que era a formação em alguma profissão. Mas acontece que eram coisas paralelas na minha vida essa relação com os livros e com a bola. Entretanto, não tive como deixar de usufruir das duas coisas. E por este motivo, de conciliar bola e livros, que cada um de seus filhos se formou e continuou jogando futebol. Dos cinco filhos, quatro se tornaram jogadores de futebol. Para se ter uma ideia, meu avô, que se chamava Arthur – motivo pelo qual o Zico recebeu esse nome -, foi quem trouxe a cerâmica portuguesa para o Brasil e abriu uma fábrica aqui no bairro de Quintino e lojas espalhadas pelo Rio, quando saiu da cidade de Tondela, distrito de Viseu, situada na província Beira Alta, em Portugal. Já a mamãe nunca se opôs.

Como foi sua chegada no América?

Fui treinar com o meu amigo Paulo César Martins, o Puruca, no campo do Mavílis Futebol Clube, no Caju, Zona Portuária do Rio. Ele foi aprovado e eu não. Só que o avaliador do teste não gostava de gente mirrada, e eu era muito, muito, mas muito pequenininho. Não pesava 50 quilos. Eu lembro que ele anotava em uma prancheta os nomes dos garotos e perguntava para a gente:”Você, joga de quê?”. “E você aí?”. E na minha vez, ele me falou:”E você, joga em que posição?”. ‘Sou ponta de lança!’, respondi com o Dida, cracaço do Flamengo na cabeça, que atuava nessa posição e era nosso ídolo. Aí o avaliador disse:”Ou uma ou outra, escolhe uma para jogar!” Depois disso, fiquei meio desestimulado e ele pediu para eu levantar e ir treinar na ponta-direita. Nesse dia, treinei 10 minutos e foi muito. Já o Puruca, treinou de atacante, fez gol e foi aproveitado. Passado algum tempo, para ser mais preciso, em 1964, fui convidado por esse mesmo amigo para jogar uma partida. Desta vez fui bem, e dois anos depois, acabei sendo lançado. Foi interessante. Quem me lançou foi Lourival Lorenzi, e em 15 dias, fui usado por cada treinador nas categorias do profissional, aspirante, juvenil e infanto, ou seja, me tornei recordista mundial e entrei para o Guinness Book (Livro dos Recordes) por esse feito. Mas teve um treinador chamado La Paz, uruguaio e o auxiliar dele chamado Odales de Mattos, já falecidos, que foram importantes na minha carreira e que se encantaram com o meu futebol. Viviam falando para todo mundo do clube que nunca haviam visto alguém jogar futebol da forma que eu jogava. O Odales gostava tanto de mim e do meu rendimento dentro de campo que deu a um dos filhos o nome de Eduardo como forma de me homenagear, além, é claro, de seus elogios terem sido importantes para a minha permanência no clube. E até hoje, anos depois, lembro destas figuras com o maior carinho e que foram muito importantes na minha vida.

Sua primeira vez no Maracanã, foi na vitória por 2 a 0 contra o Vasco jogando pelos aspirantes do América. Como foi essa estreia?

Passou um filme na minha cabeça quando pisei no gramado do Maracanã pela primeira vez defendendo as cores do América. Por ser minha estreia, aquele sonho de criança estava sendo realizado e lembrei, por exemplo, das vezes em que eu e meus irmãos passávamos de trem pela Central do Brasil para ir na alfaiataria do meu pai, que ficava na Rua Teófilo Otoni, nº 156, Centro do Rio. Quando passávamos pela estação do Maracanã, aquela fachada linda do estádio com uma imponência espetacular, pensava:”Um dia, ainda vou jogar nesse lugar!”. E quando joguei pela primeira vez nos profissionais contra o Vasco da Gama, me senti realizado pelo simples fato de estrear. Mas nesta partida eu lembro que joguei muito bem.

Como foi ter jogado com seu irmão Antunes, vindo do Fluminense, no América, e terem sido vice-campeões da Taça Guanabara de 1967, numa épica decisão contra o Botafogo?

Gratificante e valioso. Por ser o irmão mais velho, ele tinha aquela coisa de ser protetor e sempre que podia me dar um passe para fazer um gol, ao invés dele marcar, ele me dava. O Antunes foi o grande nome da família, foi um mestre para os demais irmãos, e se hoje a família Antunes é sinônimo de ética e valores morais, é graças ao Antunes, nosso querido irmão. E ele atuando como atacante era brincadeira, pois basta dizer que fui artilheiro do Campeonato Brasileiro de 69, tendo Pelé, Rivellino, Tostão e Ademir da Guia como adversários. Lembro de um lance contra o São Paulo, em General Severiano, em que ele driblou todo mundo e ficou me esperando para eu fazer o gol. Mas a decisão tem um aspecto que muitos da imprensa até hoje não falam e entendo que isso não serve de justificativa para lamentar o vice-campeonato para o Botafogo que tinha um senhor time. Na semana que antecedeu à decisão, fomos fazer um amistoso contra o Tupi, lá em Juiz de Fora, e os jogadores do time mineiro levaram muito a sério. Foi uma pancadaria generalizada, uma verdadeira guerra. O América acabou se desgastando muito nesse amistoso e por estar com uma torção no tornozelo acabei participando do jogo e entrando em campo à ‘meia-bomba’ na decisão do Estadual de 67. No primeiro tempo ainda, o Botafogo perdeu o Jairzinho e conseguiu vencer por 3 a 2 na prorrogação, pois o América jogava pelo empate. Mas o Botafogo estava numa noite estrelada. O Paulo César Caju, iluminado, fez os três gols. Mas foi isso, mesmo com um jogador a menos, eles sentiram menos do que nós, que estávamos desgastados em virtude dessa ‘guerra’ campal contra o Tupi, poucos dias antes da decisão.

E como foram as primeiras atuações no Torneio Internacional Governador Negrão de Lima, em 1967, um quadrangular disputado no fim de maio por América, Vasco, Nacional de Montevidéu do Uruguai e Huracán da Argentina. Relembre as barbaridades que você fez dentro de campo.

Neste torneio eu estava inspiradíssimo e joguei muito bem. Inclusive, o Jornal dos Sports fez uma matéria comigo dizendo que eu era o ‘Pelé Branco’, fato que me deixou extremamente feliz, mas sabemos que Pelé só existiu um. No primeiro jogo contra o Huracán, fiz dois gols. Mas o gol que mais me emociona é o do Antunes contra o Nacional. Fiz um lançamento da lateral-esquerda do meu campo de jogo de curva para ele que deixou a bola passar, deu um drible para dentro no Emílio Alves, considerado um dos maiores ídolos do futebol uruguaio e tocou na saída do goleiro uruguaio Dominguez. Do outro lado, saí comemorando, já que estava acompanhando a jogada, e o Antunes do lado inverso ao meu, também enlouquecido comemorava. Naquela comemoração toda, nos encontramos no meio de campo, nos abraçamos e os torcedores, acredito que mais de 100 mil, começaram a aplaudir aquela jogada por se tratar de dois irmãos. Por isso, acho que foi o gol mais emocionante da minha vida em que presenciei no estádio do Maracanã, mesmo não sendo um gol marcado por mim. Já contra o Vasco, o América venceu por 3 a 1 e eu marquei os três gols da vitória, sendo o último, um golaço em que driblei todo time do Vasco e toquei na saída do goleiro. A bola foi entrando lentamente, e o Antunes acompanhando até ela cruzar a linha.

Qual a sensação em ter se tornado o melhor Sul-Americano em 1969, deixando Pelé, Rivellino e Tostão para trás?

A mesma sensação em ter me tornado artilheiro do Campeonato Brasileiro de 69, chamada pela Confederação Brasileira de Desportos de Taça de Prata ou Torneio Roberto Gomes Pedrosa. Eu nunca gostei de passar ninguém para trás, mas não gostava de ter alguém na minha frente (risos). Quando ia jogar pelo América, que na época era uma equipe de ponta, contra o Flamengo, Santos, Cruzeiro, Corinthians, ou outras quaisquer credenciadas no futebol brasileiro, eu falava para mim mesmo: “Eu vou ser o melhor em campo!”. Era difícil ser, mas conseguia. Enfrentava o Santos de Pelé na Vila Belmiro e ganhava o Motorádio. Certa vez, cheguei a ganhar dois contra o Corinthians de Rivellino.

Muitos achavam que você merecia estar no grupo de 22 jogadores convocados para a Copa do Mundo de 1970, no México, onde o Brasil se tornou tricampeão mundial. Na sua opinião, porque você não foi chamado?

Porque eu não jogava no Botafogo (risos). Os dois treinadores, João Saldanha e Zagallo, eram oriundos do clube alvinegro. Mas isso não justificava o fato deles não me conhecerem, e tampouco, conhecerem o meu futebol praticado naquele momento. Mas o pior de tudo era que na minha família havia presos políticos, como o meu irmão Nando, e alguns primos, que na época chegaram a ser noticiado. A família Coimbra foi muito visada nesse período da ditadura militar e quem mandava no futebol? Quem colocou Dario, a quem adoro de paixão e é como um irmão para mim, na seleção? Pois é. Os jornais da época dão conta que o presidente Emílio Garrastazu Médici exigiu a convocação do Dario, que tinha um apelo mais popular do que eu. Em virtude dessa intromissão do presidente o João Saldanha saiu. No Rio, apesar do grande prestígio que tinha, e a fase que atravessava, o Botafogo era sempre o mais visado pela tradição em ceder jogadores que se tornaram campeões do mundo nas Copas de 58 e 62. O Botafogo era um timaço, tanto que Rogério, Jairzinho, Roberto Miranda e Paulo César Caju, jogadores de frente, acabaram sendo convocados. Por isso, acredito que se estivesse jogando pelo clube, certamente, também seria convocado. Mas eu, Alex e o Carlos Alberto, representamos o América e acabamos ficando na lista dos 40 que foi enviada à Fifa. Mas se me perguntarem se eu fui campeão do mundo na Copa de 70, posso responder que sim, fui sim, mesmo sem jogar, pois meu nome está nessa lista (risos).

Você era ídolo do América e Zico, seu irmão, despontou no Flamengo, na reta do Carioca de 1974. Como foi enfrentar uma promessa que se tornaria o maior jogador do clube rubro-negro?

Interessante que nessa história tem uma coincidência bacana. No primeiro título do Zico nos profissionais do Flamengo, eu estava no Maracanã, à época, prestigiando o meu irmão mais novo. O jogo terminou empatado sem gols. Mas o Flamengo acabou se sagrando campeão, porque América e Vasco se enfrentaram na penúltima rodada, e a equipe de São Januário vencia por 2 a 1. Nos últimos minutos da partida, eu marquei de cabeça o gol de empate. Por que estou te contando isso? Se eu não fizesse esse gol de empate contra o Vasco, o Flamengo não seria campeão com o empate (risos). Com este gol, acabei ajudando o Flamengo e o meu irmão, mesmo que indiretamente, a serem campeões. Eu não torcia para o Flamengo, mas sim para o meu irmão Zico, pois sempre prezei pela honestidade na vida e não seria diferente no futebol. Digo isso, porque nossa infância foi toda torcendo pelo Flamengo, pelo nosso ídolo Dida, mas quando me tornei jogador de futebol, o time que eu mais gostava de vencer era o deles. Mas o Zico teve a partir dali uma ascensão assim como a minha, já que havia jogado no profissional e voltou para as categorias de base. Mas o Zico deu a sorte que saiu o Zagallo, que não o aproveitou como deveria. Assumiu o Joubert, que havia sido seu treinador na base e o colocou para jogar. Aí, só deu Galo.

Em 1975, seu passe foi negociado com o Vasco da Gama e você não conseguiu repetir seu grande futebol em São Januário. Por que o Edu do Vasco não foi o brilhante Edu do América?

Este negócio de não render ou não repetir o futebol no América é uma informação deturpada, falsa e fake news. Basta você procurar Sérgio Frias, um respeitado historiador do Vasco, que vai dizer tudo sobre a minha passagem por São Januário. Mas afirmo para os leitores do Vozes da Bola que eu fiz uma porrada de gols, disputei as finais do Super Campeonato e marquei gols contra o Fluminense, fiz gol de bicicleta mal anulado, sofri pênalti e fiz um dos gols mais bonitos da história do estádio do Maracanã que foi contra o Botafogo. Então, posso te assegurar que a minha passagem por São Januário foi brilhante. Certa vez, o Sérgio Frias me falou uma frase que até hoje não esqueço:”Edu, você o único jogador que colocou o Roberto no banco!”. Só aí, não precisa falar mais nada, não é? Estamos falando de um feito que ninguém havia conseguido que foi colocar o Roberto, maior jogador da história do clube, na reserva. Mas em um ano que estive jogando pelo Vasco, acabei sendo injustiçado pelo presidente Agathyrno Silva Gomes, que não foi correto comigo. Eu vivia grande fase no América e acabei sendo emprestado para o Vasco, mas não podia enfrentar o meu ex-clube. A diretoria vascaína me deu uma carta para eu jogar e garantiu a minha contratação no final do empréstimo. Resumindo: não me contrataram, a carta, juridicamente, não tinha valor algum, fui devolvido para o América, já que o Vasco alegou não ter dinheiro para comprar o meu passe com valor fixado e voltei desacreditado para o meu ex-clube. Pegou mal eu não poder jogar. Mas o Flamengo entrou na jogada e me contratou, graças a Deus.

O Flamengo contratou você e a família Antunes viveu a expectativa de vê-lo ao lado de seu irmão Zico em 1976. No entanto, essa expectativa seria frustrada pelo treinador Carlos Froner (1919-2002), que não pretendia escalar dois jogadores que ele considerava serem da mesma posição. O que tem a dizer sobre?

Eu quis muito reeditar no Flamengo com meu irmão Zico, o que eu e meu irmão Antunes fizemos no América, ou seja, jogar futebol, fazer gols, alegrar a torcida e transformar a dupla Edu-Zico como uma das maiores na história rubro-negra, assim como a dupla Edu-Antunes fez no América, ao lado de Joãozinho e Eduardo. Qualquer americano que se preze tem este quarteto guardado na cabeça e no coração. Mas não tive essa oportunidade no Flamengo e se me permite vou abrir um parênteses para dizer que o treinador Carlos Froner foi uma das pessoas mais íntegras que conheci nesse meio do futebol. Aprendi muito com ele enquanto fui atleta profissional e o seu olho a olho de quem sempre usou a verdade como lema de vida foi muito bom para mim. E ele foi taxativo quando cheguei ao clube ao dizer que eu disputaria a posição com um tal camisa 10 chamado Zico. Ora, o Zico já era o Zico! Mas falei brincando para o Froner:”Como vou deixar um irmão mais novo no banco? Ora, deixe-o jogar!” (risos). Mas eu acho que ele não foi feliz nessa escolha, pois era brincadeira o que eu estava jogando. Cheguei para jogar no meu clube de coração e jogar ao lado da maior estrela já naquela época. Imagina como seria a dupla? Nestes 24 jogos pelo clube, devo ter entrado umas duas ou três partidas como titular e marcado uns oito gols. É um número bom. No entanto, o melhor é que nas raríssimas vezes em que atuamos juntos, fizemos gols. O que causa espanto é que a pedido do treinador Carlos Froner, mesmo emprestado para o Bahia, e com viagem marcada para me apresentar no clube baiano, eu concentrei com os companheiros para a decisão da Taça Guanabara de 1976 contra o Vasco. Logo no começo do jogo, o Vasco já vencia por 1 a 0, gol de Roberto, de pênalti e entrei nessa decisão. Comecei a mostrar meu futebol. O gol de empate, foi uma jogada individual minha em que a zaga vascaína cortou um lançamento meu, a bola voltou em minha direção, ganhei na disputa com o Luiz Carlos, driblei um marcador e quando o outro veio para me dar combate eu enfiei entre os zagueiros para o Geraldo na direita que bateu forte e venceu Mazzaropi empatando o jogo, marcando seu último gol antes da fatídica operação de amígdalas a que foi submetido. Na prorrogação, estava muito bem, chutei uma bola na trave, criei boas chances de gol, mas acabamos indo decidir nos pênaltis. Lembro que na cobrança do Zico, cheguei no ouvido dele e disse:”Meu irmão, deixa eu bater, porque se eu perder, como vou me apresentar ao Bahia amanhã, não vai pesar tanto”. Pô, parecia que estava adivinhando. Ele bateu e perdeu. Em seguida, o Geraldo, o Assobiador, perdeu a cobrança dele também, e o Vasco foi campeão. Mas da maneira que entrei naquela decisão, e se o Flamengo tivesse sido campeão, talvez, eles desfizessem o empréstimo com o Bahia (risos).

Em 1977, deixou o Flamengo ao assinar compromisso com o Bahia, Colorado Esporte Clube-PR e jogou ainda pelo Joinville, Brasília e Campo Grande-RJ, onde encerrou a carreira como jogador. O que você atribui a essa sua queda em estar em um grande clube como o Flamengo e assinar com clubes modestos?

Em primeiro lugar, não considero nenhum desses modestos. No Bahia, fui tetracampeão estadual e é um clube que a própria história responde por si. O Colorado era uma das forças do futebol paranaense, o Joinville nem se fala! Brasília foi uma opção curta, já que estava pensando na minha futura carreira de professor de Educação Física. E o Campo Grande, que recebi o convite do meu amigo Mituca, foi simplesmente espetacular. Quase fomos campeões da Taça de Prata, e o Campo Grande na minha vida foi um presente que Deus me deu. Nosso time era bom e fazia frente com os grandes daqui do Rio. Eu coloco este belo clube como um time tão grande como os demais. Para mim, modesto sou eu, não os clubes. O único que eu concordo que seja um clube modesto é o Brasília, pois lá os considerados grandes são Gama e o Ceub, que tiveram uma ascensão nacional.

Após encerrar a carreira como jogador em 1981, você se tornou treinador de futebol e o ponto alto de sua carreira foi o vice-campeonato Brasileiro de 1984 no Vasco da Gama. Vencer aquele Fluminense tricampeão Carioca era tarefa difícil?

É uma pergunta que não fala do meu currículo como treinador de futebol e das minhas passagens vitoriosas que tive em alguns clubes. Não é citado nela, por exemplo, que fui campeão no Paraná, no Botafogo, títulos estaduais que são difíceis à beça de serem conquistados. Não fala da minha passagem pela Seleção Brasileira também. Mas o meu ponto alto não foi esse vice-campeonato Brasileiro contra o Fluminense como treinador, foi sim, um dos pontos preciosos na carreira, já que antes, logo na minha estreia, eu havia sido campeão da Taça Rio pelo América, numa competição em que fomos muito prejudicados pela arbitragem. Agora, nesse jogo específico, se você analisar o time do Fluminense com Paulo Vítor, Duílio, Vica, Deley, Romerito, Assis, Washington, Tato, Branco, que eu tive a felicidade de lançar na seleção, era um time de tirar o chapéu. Mas o Vasco era uma grande equipe também, tanto é, que foram dois jogos equilibrados. O Fluminense foi feliz no gol do Romerito na primeira partida. Na segunda partida, o Vasco, que era ao lado do Santos, a equipe com o melhor ataque da competição, jogou bem, e Arturzinho, vice-artilheiro com 14 gols e Roberto, artilheiro com 16, perderam oportunidades que não costumavam perder. Mas esses fatos aqui citados por mim comprovam a sua pergunta de que este vice-campeonato foi um ponto alto na minha carreira, pois minha equipe apresentava o futebol raíz, futebol em sua essência, aquela brasilidade que a torcida gosta de ver e que falta hoje em muitos times. Eu sempre introduzi isso nas equipes em que trabalhei, ou seja, o verdadeiro futebol brasileiro. Nunca imitei o europeu. Nunca! Jamais!

Curiosamente, no mesmo ano de 84, você dirigiu a Seleção Brasileira em três jogos amistosos. Por que este pouco tempo no comando da equipe brasileira?

Primeiro, recebi o convite do presidente Giulite Coutinho por ser o treinador revelação do Brasileiro. Segundo, o próprio me disse ao afirmar que seriam partidas festivas, embora eu tenha dirigido o Brasil com a intenção de permanecer no cargo de treinador. Nos três jogos, foram uma derrota por 1 a 0 para a Inglaterra, no Maracanã, um empate sem gols contra a Argentina, no Morumbi, e uma vitória contra o Uruguai com gol de Arturzinho, em Curitiba. Minha média ficou boa, já que enfrentei três potências do futebol mundial e consegui três pontos dos seis disputados. Mas tem um adendo aí, pois não contei com aqueles jogadores extraordinários da seleção de 82 que eram Zico, Sócrates, e o Leandro, que confessou-me ter jogado no sacrifício, pois o desejo dele era que eu permanecesse como treinador. Foi muito legal essa atitude da parte do Leandro. Mas a minha base, embora eu não pudesse contar com os que eu gostaria, foram os melhores do Campeonato Brasileiro de 84. Convoquei jogadores do Fluminense e Vasco, finalistas da competição, e alguns destaques no país como o Zenon, por exemplo. Ele foi convocado por mim nestas três vezes para jogar como titular da Seleção Brasileira, a quem dei a braçadeira de capitão contra a Inglaterra no Maracanã.

Qual a sensação em ter lançado na Taça Rio de 85, um certo baixinho chamado Romário?

Uma sensação normal de quem sempre teve a oportunidade de lançar grandes nomes do futebol. Um exemplo é o Jorginho, tetracampeão do mundo pela Seleção Brasileira em 1994 e que estava para ser dispensado do América quando ainda era juvenil. Teve Mário Tilico, Mazinho, Lira, Donato, o Rocha, que era do Joinville e depois acabou indo para o Palmeiras, ou seja, revelei alguns grandes jogadores. Mas é claro que pelo estrelato que conseguiu, o Romário tenha sido o de maior relevância dentre os nomes. Mas quando fui falar com Valinhos, treinador da base do Vasco, ele me disse que o Romário arrebentaria. No entanto, nos três jogos em que jogou sob o meu comando, não fez gols não. Mas era diferenciado, obediente taticamente, rápido, oportunista e tinha faro de gol. Mas ele passou pelo mesmo processo em que eu e o Zico passamos, de subir aos profissionais, voltar à base e depois se tornar profissional imediatamente. Mas tenho um orgulho imenso em ter lançado o Romário. E quem não se orgulha de lançar um dos maiores nomes da história do futebol brasileiro? Me orgulho sim, sem dúvidas!

Você tem algum ídolo no futebol?

O ídolo maior no futebol foi o Zico. Inclusive, certa vez o ‘Capetinha’ Edílson e o Vampeta falaram que o Zico é uma entidade que tem um carisma maior do que a do Pelé. Isso é um orgulho para nós da família Antunes. Mas na vida, o meu exemplo de homem, de aprendizado, de espelho, foi o mesmo dos meus irmãos, que foi um senhor chamado Edvaldo Alves de Santa Rosa, o Dida. Esse, para você ter uma ideia do que estou falando, quando a gente chegava perto dele, tremíamos na base (risos).

Você é um dos maiores ídolos do América Football Club, sendo, de acordo com o site www.futebol80.com.br, o segundo artilheiro da história do clube com 179 gols, marcados entre 1966 e 1974, e o Luisinho, com 192, é o primeiro. O que o América representa na sua vida?

Em primeiro lugar eu não sou o segundo, e sim o primeiro. Começa por aí! Vou te contar uma passagem rápida para você e os leitores entenderem: em janeiro de 2019, houve um evento que era a assinatura para o destombamento da sede social e a construção do Parque Shopping América, na sede do clube, que contou com a presença de dirigentes, sócios, atletas, ídolos do passado e a participação do ex-prefeito Marcelo Crivella. Em um determinado momento, a senhora Eralda Savelli Guimarães, diretora do Departamento Histórico do clube, levou para um lugar mais reservado eu e o Luisinho, que muitos dizem ser o maior artilheiro do clube. Ela falou: “Luisinho, pare com esse negócio de dizer que você é o maior artilheiro da história do América. Você não é! Quem é, é o Edu. Vamos respeitá-lo, por favor!”. O Luisinho se justificou dizendo que não era ele quem falava isso e sim a imprensa. O evento continuou, e na saída, ele confidenciou:”Acho que ela não gosta de mim”. Eu o respondi dizendo que não se tratava de gostar ou não gostar e sim de fazer o trabalho dela que é corrigir informações erradas que são veiculadas nos meios de comunicação. A mídia, da qual você faz parte, diz que o Luisinho – a quem tenho imenso respeito, que foi um grande jogador, exímio artilheiro do futebol brasileiro, pessoa a quem eu amei de paixão enquanto vivo esteve, que jogou comigo em 74 e se tornou importante no começa da minha carreira de treinador – é o maior artilheiro do clube. Mas não é! Não sou eu quem falo e sim os números, pois afirmo aqui para vocês do Vozes da Bola, muito sereno, com os pés no chão e credenciados pela grande historiadora do clube que é a ‘Dona’ Eralda, que tem todos os gols que marquei. Isso é um assunto em que jornalistas do Wikipédia, dos blogs da vida ou das fake news, tem que noticiar de forma correta por meio de uma apuração detalhada. No entanto, ‘Dona’ Eralda diz que o maior artilheiro da história do América chama-se Eduardo Antunes Coimbra, este que vos fala. Baseio-me na realidade dos fatos e não que eu queira criar polêmicas, muito pelo contrário. Eu quero a verdade dos acontecimentos. Eu quero usufruir daquilo que eu batalhei e construí dentro de campo que foram os gols que marquei e a história que fiz com a camisa do América. Prezo por isso e pela informação verdadeira. Apenas isso! O clube representa gratidão na minha vida. Deu-me a oportunidade de ser jogador e treinador de sucesso. O América Football Club está dentro do meu coração para sempre.

Nós, do Vozes da Bola, sabemos que você realizou intervenções cardíacas e gostaríamos de saber como anda esse coração sabendo que o América vive um dos piores momentos da história?

Bem, eu gostaria de estar lá no clube para ajudar a tirar o nosso querido América dessa situação, pois é um trabalho de amor que se faz pelos laços afetivos que envolvem a minha história com a agremiação tão importante na minha vida. Mas eu acho que os dirigentes deveriam aproveitar os profissionais que têm identidade com o clube e extrair disso coisas boas. A gente nunca vai deixar de querer bem ao América, de torcer por ele e quanto ao meu coração, ele está perfeito. Faço check-up geral todos os anos e meu coração está bonito, já que são 74 anos de pura fertilidade na carcaça e com minha saúde muito boa. Ainda quero e muito contribuir para o futebol de alguma forma.

Como tem enfrentado o Covid-19?

Um misto de tristeza e preocupação. Perdi amigos ligados ao futebol, ligados à vida, e perdi, recentemente um irmão, não pela Covid-19, mas a perda acabou me desequilibrando um pouco nesse período de pandemia. Essa Covid-19 fez muitas pessoas perderem seus empregos, oportunidades de fazerem negócios e ocasionou nas pessoas doenças psicológicas e uma depressão profunda em muitas delas. Eu perdi familiares também para essa doença e perdi oportunidades de trabalho. É a vida. Mas tem que existir sempre os cuidados com os protocolos de saúde já que o vírus está por aí. Acabamos enclausurados por causa da doença e, consequentemente, esquecidos. Mas no futebol, talvez, o nepotismo que mais deu certo foi com o meu irmão Zico, já que ganhamos títulos em todas as equipes que treinamos, inclusive na Seleção do Japão – campeão da Copa da Ásia e classificando o país para uma Copa do Mundo. Mas a doença nos causa uma enorme tristeza, pois está ceifando vidas no mundo inteiro. Uma pena.

Defina Edu em uma única palavra.

Perseverança. Não vou colocar idôneo porque tive muitos pecados na minha vida (risos).






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