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Vozes da Bola

VOZES DA BOLA: ENTREVISTA SÁVIO

texto: Marcos Vinicius Cabral | edição: Fabio Lacerda


Sávio, um dos maiores dribladores do futebol brasileiro é aquele tipo de jogador que causava expectativas na torcida por suas inúmeras qualidades, e na maioria das vezes, o capixaba de dribles curtos, longos, desconcertantes e gols, fazia jus ao jargão rubro-negro: “Craque, o Flamengo faz em casa”. Era o tipo de jogador que valia pagar o ingresso.

Natural de Vila Velha, Sávio chegou ao Flamengo, em 1988, aos 14 anos. A partir dali, era natural e desafiador olhar para o plantel profissional, campeão da Copa União com diversos jogadores com passagem pela Seleção Brasileira, e vislumbrar que um dia levantaria a torcida do Flamengo jogando no time principal.

Aos 18 anos, Sávio é puxado ao time profissional pelo ex-craque como jogador e técnico, Carlinhos, apelidado de Violino, e torna-se campeão brasileiro atuando ao lado de Júnior, jogador que mais vezes vestiu o Manto Sagrado. O Anjo LoIro, entre categoria de base e profissional, teve a Gávea como casa. Até 1997, Sávio encantou com sua técnica aliada à leitura e inteligência de jogo. Era a flecha que disparava insinuante para cima dos zagueiros e laterais.

Sávio foi campeão carioca em 1996 após um ano de muita frustração com um time repleto de jogadores acima da média. E a cereja do bolo foi o ataque formado por ele, Romário e Edmundo, um ano antes. Não deu certo! Mas já pararam para imaginar se desse? Somente os ‘Deuses do Futebol’ teriam condições de explicar o inexplicável: por que o Ataque dos Sonhos virou um pesadelo?

No ano que deixou o Flamengo para juntar-se ao Real Madrid, em 1997, Sávio e a torcida podem ter tido a mesma sensação ou até mesmo uma lacuna deixada. Mas se o título do segundo campeonato nacional mais importante do Brasil não chegou antes da despedida – vice campeão para o Grêmio numa partida no Maracanã que o ponta-esquerda foi substituído por Lúcio depois de caçado em campo – , nove anos depois estava Sávio no time que venceu o Vasco da Gama no Maracanã, em 2006, quando, assim como ele, outrora, Obina caiu nas graças da torcida.

Aos 23 anos, Sávio torna-se merengue. E a partir daí, marcou seu nome na galeria de craques de um dos maiores clubes do planeta. Entre 1998 e 2002, Sávio continuou deitando e rolando. Desta vez, sendo campeão em profusão.

Sávio não deixou saudades somente no Real Madrid, clube pelo qual é o terceiro brasileiro com mais temporadas, atrás somente dos laterais-esquerdos, Roberto Carlos e Marcelo.

Em Zaragoza, a quinta maior cidade da Espanha e localizada a 300 quilômetros das vizinhas Barcelona, Madrid e Valência, Sávio também fez história e os títulos conquistados com a equipe possuem um grau de importância muito expressivo para o ex-jogador. Ser campeão da Copa Del Rey sobre o poderoso ex-clube e da Supercopa da Espanha, ambos em 2004. Foi um período curto no Zaragoza. O suficiente para marcar território no coração dos torcedores.

Nosso 43º personagem do Vozes da Bola, é o Anjo Loiro da Gávea, que fez um inferno na vida dos marcadores que muitas vezes apelavam para a violência.

1 – Como foi a infância de Sávio Bortolini Pimentel em Vila Velha no Espírito Santo?

Maravilhosa. Depois do meu horário da escola, passava a maior parte do meu tempo brincando nas ruas, mas jogar bola era minha paixão. Lembro bem que havia um campo ao lado da casa em que cresci. Minha infância foi boa porque tive a bola como minha melhor amiga. Para ser sincero, praticamente, eu dormia com essa ‘minha amiga’ (risos) quase todas às noites. O meu pai era um torcedor apaixonado pelo Fluminense, tricolor roxo, e eu cresci em uma família que mesclava botafoguenses, tricolores e flamenguistas. Ou seja, não teria como não gostar de futebol. Comecei jogando no Fluminensinho daqui de Vila Velha, time que era formado por garotos considerados bons de bola e que meu pai era o treinador. Em seguida, fui para a Associação Desportiva Ferroviária, clube grande daqui do estado. Comecei a disputar competições importantes na época. Despertei a atenção de alguns clubes como o Bahia, o Botafogo e o Vasco. No entanto, essas oportunidades acabaram não se concretizando. O destino me direcionou para o Flamengo com apenas 14 anos de idade.

2 – Como foi ter sido revelado nas divisões de base da Desportiva Ferroviária-ES?

A Desportiva Ferroviária representa muito para mim. Sou torcedor apaixonado, onde tudo começou. Joguei três anos e me orgulho em dizer isso, pela importância de realizar o meu sonho. Depois que recebi o convite do Flamengo, aos 14 anos, percebi que era a hora de ir embora e tentar alçar voos maiores para a carreira. Mas o início de tudo, eu devo a Desportiva, e é, sem dúvida, um clube inesquecível na minha vida e na minha carreira de jogador de futebol.

3 – Como foi sua chegada ao Flamengo em 1988?

Muito difícil. Imagine, você sair de uma cidade pequena como Vila Velha e chegar à ‘Cidade Maravilhosa’ para jogar em um clube do tamanho do Flamengo com apenas 14 anos? É complicado! Ver tantos jogadores chegando e ver a concorrência acirrada nos testes acaba se tornando algo especial. Mas não consegui nada sozinho. Tive o apoio de muitas pessoas, principalmente para fazer o deslocamento até o clube, já que eu morava longe. Foi uma rotina muito difícil para um adolescente de 14 anos. O Flamengo, à época, não dispunha da estrutura que tem hoje. Muito longe do que vimos nos dias atuais. Além das conduções para treinar, os locais mudavam muito. Tudo era estranho. Eu tive uma família a quem considero como meus pais, que me acolheu 18 meses. Esta família que me refiro era como a minha em Vila Velha no sentido de ser bem estruturada, sólida e unida. Nesse tempo, passei a morar na concentração do clube e acabei ficando lá por seis anos. Então, foi uma chegada difícil, houve obstáculos, lutas e situações novas que não estava acostumado. Agradeço a todos os profissionais do clube que passaram na minha vida nesse período.

4 – Após a aposentadoria de Zico, todo bom jogador que surgia na posição do Galinho de Quintino vinha a comparação. Você passou por esta situação nada cômoda?

Não somente eu, mas outros jogadores conviveram com este tipo de comparação que é um fardo para qualquer jogador que está subindo ao profissional. Acontecia muito isso, principalmente, nas décadas de 1980 e 1990. Para mim, confesso aos leitores do Museu da Pelada, em nenhum momento isso me incomodou. Muito pelo contrário. Fortaleceu-me dentro do clube, pois eu tinha um método de viver cada dia diferente dentro da Gávea. Necessitava conquistar meu espaço para eu chegar ao time de cima sendo o Sávio com minhas características, com o meu futebol, com o meu aprimoramento para aperfeiçoar alguns fundamentos. Agora, ser comparado a um dos maiores camisas 10 do futebol mundial e maior ídolo do clube, aconteceu para me fortalecer. O Zico sempre foi uma referência para mim. Espelhei-me nele e isso foi motivo de felicidade, dedicação e superação. O lado positivo da comparação foi a força interior que desenvolvi e a cada treino, a cada dia, ser melhor. Obviamente, a comparação foi muito complicada. Procurei ver esta situação com um olhar de responsabilidade pela grandeza do Zico. E foi um diferencial para a minha carreira.

5 – Por que Sávio, Romário e Edmundo, considerado o melhor ataque do mundo, não deu certo no centenário do Flamengo, em 1995?

Até hoje essa é uma pergunta difícil de ser respondida. Por que o ataque, considerado o dos sonhos, não deu certo? É necessário um entrosamento entre plantel, comissão técnica, dirigentes, para que a gestão administrativa refletisse dentro do campo. O Flamengo passava por muito problemas econômicos, e o atraso no pagamento dos salários eram constantes. A reformulação, em profusão, do elenco, foi outra situação que dificultou o entrosamento do time. O extra campo foi outro grande problema daquele plantel. Mesmo com todas as dificuldades, conseguimos chegar à final do Campeonato Carioca, na Supercopa dos Campeões, em que ganhamos sete dos oitos jogos, muito em virtude da individualidade de alguns jogadores daquela equipe, mas infelizmente não deu. A parceria com o Romário, na minha opinião foi positiva, Nós dois totalizamos 140 gols em 106 jogos. Particularmente, gosto de destacar isso todas às vezes que falo desse assunto. A pressão foi inexplicável, uma vez que a expectativa dos dirigentes e torcedores recaíram no ano do centenário do clube.

6 – Em um amistoso realizado no Japão, você e Romário chegaram a trocar empurrões. O que houve ali?

Naquele episódio, transformaram um pequeno atrito em algo que parecia ser de outro mundo. Eu e o Romário discutimos durante a partida que estendeu até o vestiário. O clima ficou ruim, mas passou! Na verdade, morreu ali. No futebol isso é tão normal, mas naquela época, tudo que envolvia o nome de Romário, ganhava grande proporção. O ocorrido foi motivado pelo andamento da partida na qual estávamos perdendo no primeiro tempo. O importante foi o carinho recíproco ao longo de três anos. Muito respeito um com o outro. Romário sempre foi muito profissional.


7 – Durante o Pré-Olímpico de Atlanta em 1996, você foi destaque na Seleção Sub-23, deixando Ronaldo Fenômeno no banco de reservas. Conte essa história.

A minha história com a camisa da Seleção Brasileira começou dois anos antes, quando fui convocado e joguei um amistoso contra a Islândia, em Florianópolis. Vencemos por 3 a 0 a partida que visava a preparação para a Copa do Mundo dos Estados Unidos em 1994. Mas apesar de estar vivendo uma grande fase no Flamengo, o grupo para disputar aquele Mundial já estava definido pelo Carlos Alberto Parreira. Depois da conquista do tetracampeonato, tive uma sequência na Seleção pré-olímpica e na principal. Mostrei evolução a cada jogo com a ‘amarelinha’ e mantendo a regularidade. Sobre ser titular e ter o Ronaldo Fenômeno no banco, eu sabia da qualidade dele e do momento de aparição para o futebol. Ele havia assinado contrato com o Barcelona depois de fazer chover na Holanda vestindo a camisa do PSV. Mas, eu prefiro lembrar com carinho sobre nosso convívio. Fomos companheiros de quarto em toda as Olimpíadas. A experiência de dividir quarto com ele foi maravilhosa, e nossas conversas sobre o futebol, família, futuro, seleção e Europa, eram muito legais. Eu tenho um carinho muito grande pelo Ronaldo, um atleta exemplar, um jogador diferenciado e foi um orgulho em tê-lo enfrentado e jogado ao seu lado também.

8 – Como surgiu o apelido Anjo Loiro?

É uma história engraçada. No meu primeiro gol marcado em um Fla-Flu, o saudoso Januário de Oliveira me chamou de Diabo Loiro. Ele era mestre na arte de improvisar. Mas esse apelido acabou incomodando a avó da minha esposa, senhora Nair, que é uma pessoa muito religiosa e sentiu-se incomodada com o apelido. Certa vez, em um shopping, no Rio de Janeiro, elas encontraram o Januário. A avó da minha esposa dirigiu-se a ele, e educadamente, pediu que não chamasse-me mais de ‘Diabo Loiro’. Ela disse para ele que eu era um anjo (risos)! No jogo seguinte, eu marquei um gol, e o Januário trocou o pseudônimo. Eu conseguia ser ‘cruel’, um dos bordões do Januário de Oliveira, sendo anjo.


9 – Como foi jogar ao lado de Roberto Carlos, Raul, Redondo, Seedorf, Figo, Zidane e Casillas, naquele timaço do Real Madrid que ganhou três Champions League e um Mundial?

Confesso que o início foi muito difícil. Foi apreensão, nervosismo e ansiedade ao chegar a um clube da grandeza do Real Madrid na temporada 1997/98. Lembro que a responsabilidade era enorme, já que há 32 anos, o clube não conquistava uma Liga dos Campeões. Imagina, a pressão que era jogar naquele clube! Foi desafiador jogar pelos merengues. Jogar com estes jogadores citados e outros tantos craques foram momentos inesquecíveis. Na primeira temporada, conquistamos o título e acabamos com o jejum. Sou torcedor do Real Madrid até hoje e me emociono toda vez que lembro do clube e desses momentos que passei lá no estádio Santiago Bernabéu. Foram cinco temporadas e conquistamos as principais competições. Fui bem recebido por todos, e graças a Deus, fui muito querido pela exigente torcida madrilenha. Fui feliz. Fui campeão. Escrevi meu nome na história do clube. Sou o terceiro jogador brasileiro que mais vezes vestiu a linda camisa branca do Real Madrid sendo superado somente pelos laterais-esquerdos Roberto Carlos e Marcelo.

10 – Você jogou um ano com Zidane, considerado o maior jogador do futebol francês de todos os tempos. Como foi essa experiência?

Sim. Foi minha última temporada no clube. A experiência em ter jogado com Zinedine Zidane, que vivia seu auge, foi muito rica e muito boa. Zidane é um cara sensacional, uma pessoa muito tranquila e, apesar de ter convivido com ele apenas por uma temporada, aprendi muito. Por se tratar de ter desfrutado pouco dessa convivência, eu busquei aprender, observá-lo nos treinamentos, ver o seu profissionalismo e o exemplo dele como pessoa fora de campo. Bastou um ano jogando com ele para eu enriquecer minhas questões pessoal e profissional. Zidane foi um profissional digno de ser chamado de craque.


11 – Sávio, você conquistou a Champions pelo Real Madrid em 1997/98, 1999/2000 e 2001/02. Foi o melhor momento na carreira?

Conquistar grandes títulos jogando pelo Real Madrid, realmente, foi o momento inesquecível. Não é fácil disputar cinco Liga dos Campeões e ganhar três. Em termos de maturidade, experiência, aprendizado e de evolução dentro de campo, não tenho a menor dúvida que foi o melhor momento da minha carreira. Se for falar de momento individual, eu não saberia te responder, sinceramente. O Real Madrid foi muito bom, tanto que eu tive a felicidade de cair nas graças dos torcedores madrilenhos. Mas com todo respeito ao que vivi no Real Madrid, nada se compara ao período que joguei no Zaragoza, onde fiquei três anos, disputei três finais e em duas sagrei-me campeão. Mas não posso esquecer meu auge individual no Flamengo que foi também marcante para a minha carreira.

12 – Você foi imortalizado no Real Zaragoza, onde conquistou os títulos da Copa do Rey da Espanha – sobre o Real Madrid – e da Supercopa, em 2004. Qual sua relação com os Blancos?

O Real Zaragoza foi algo muito especial na minha carreira. Individualmente, foi o meu melhor momento na Europa e fizemos um time forte, competitivo. A minha chegada, assim como a do zagueiro Álvaro, do Gabriel Milito, do David Villa, e o Leonardo Ponzio, que já estava no clube, criou uma consistência com jogadores de muita qualidade. Foram três temporadas e chegamos em duas finais – Copa do Rei e na sequência conquistamos a Super Copa da Espanha contra o Valencia, que era o atual campeão espanhol, na temporada 2003/2004. Por estes motivos, eu afirmo, sem sombra de dúvidas, que o Real Zaragoza foi um clube que me marcou, não só pelos títulos, pela coletividade de um grupo maravilhoso, pelo ambiente. A diferença é que, por exemplo, quando você vai jogar em um clube como o Real Madrid, automaticamente, cria-se sempre a expectativa da conquista de títulos. No Real Zaragoza é diferente, pois não há essa expectativa. Não só eu, mas vários jogadores daquele grupo, foram imortalizados como grandes ídolos da história do clube. É motivo de muito orgulho e fico lisonjeado em ter defendido as cores deste clube.

13 – Em junho de 2006, você voltou ao Flamengo, disputou apenas dez partidas e não marcou nenhum gol. O que houve?


Foi uma decisão muito pessoal. Eu havia perdido meu pai meses antes e foi um momento extremamente delicado para mim. Eu necessitava ficar mais perto da minha família, principalmente, da minha mãe. Eu lembro que estava com contrato vigorando por mais um ano com o Zaragoza. A rescisão foi com o clube espanhol foi conturbada, pois os dirigentes não queriam me liberar. Mesmo assim, decidi voltar para apenas um clube no Brasil: o Flamengo. Sei que chegaram propostas de outros clubes do Brasil, mas nem quis escutar. O Flamengo vivia um momento muito ruim, financeiramente falando. Voltei ciente do momento que o clube atravessava, mas não sabia que o problema era maior do que eu pensava. Nessa minha volta, em princípio, minha meta era encerrar a carreira no meu clube de coração, mas fiquei sem receber durante o primeiro semestre. A convivência não era das melhores e percebi nos bastidores que pessoas não estavam satisfeitas com a minha volta. Logo, a sequência para 2007 ficou insustentável e decidimos pela rescisão contratual.

14 – Sávio, o que você atribui o fato de nunca ter disputado uma Copa do Mundo?

Eu não tenho resposta. Todo jogador vive essa expectativa e quando você vem desempenhando um papel de destaque individual ou coletivo pelo clube em que está jogando, é normal acreditar que vai chegar a sua hora de defender seu país, vestindo a camisa da Seleção Brasileira. Mas isso nunca aconteceu e te garanto que não abalava meu emocional. Eu conseguia superar, dar sequência à minha carreira e isso acabou me fazendo mais forte para que eu, dentro do clube, pudesse melhorar e jogar mais. Jogar uma Copa do Mundo foi um sonho não realizado. Aguardei a minha vez e, em duas Copas do Mundo, acho que tinha condições de disputar: na França em 1998, e na Coreia do Sul e Japão, em 2002.

15 – Você era um ponta-esquerda insinuante que fazia gols. Qual foi o lateral mais difícil que você enfrentou e por quê?

Era o meu estilo de jogo. Eu tinha uma característica de jogo muito pessoal, própria. Eu fazia questão de não mudar porque achava que era característica nata. E uma dessas características que eu tinha era o drible, principalmente, em alta velocidade que acabava quebrando a marcação de alguns defensores bons tecnicamente e aqueles chegavam mais duro, que eram mais viris. Eu começava a driblar muito pelo lado esquerdo e depois fui me aprimorando em fazer as jogadas pelo meio, intermediária adversária. Os técnicos exploravam essa característica que eu tinha para vencer a tática do adversário.

16 – Antes de encerrar a carreira, em 2011, você jogou no Real Sociedad, Levante, Desportiva Ferroviária-ES, Avaí e o Anorthosis, do Chipre. Como avalia essas passagens por esses clubes?

Chegou um momento na minha carreira que, aos 33 anos, comecei a escolher o clube em que eu queria jogar. Isso me trouxe consequências, como abrir mão da parte financeira e, por outro lado, como forma de retribuição, algo pessoal como jogar três meses na Desportiva Ferroviária, que para o futebol local, foi algo muito positivo. Em seguida, surgiu a oportunidade de voltar para o futebol espanhol e jogar no Real Sociedad. No meu último ano na Espanha, aceitei um desafio ainda maior e fui jogar no Chipre. Foi uma experiência enriquecedora, pois joguei minha sexta e última Champions League em um clube desconhecido no cenário futebolístico e disputar uma competição dessa magnitude. Fiquei marcado no futebol cipriota. Para mim também foi muito bom ter jogado no Anorthosis, pois na fase de grupos, nós quase classificamos, e eu acabei sendo o jogador com o maior número de assistências da primeira fase, disputando pelo clube de baixo investimento diante dos grandes da Europa. Mas acho que nessa experiência, consegui deixar algo novo e diferente para o clube e marcar, junto com meus companheiros, o clube com esse feito, já que o Anorthosis tornou-se o primeiro clube do Chipre a chegar na fase de grupos da Liga dos Campeões, derrotando o Olympiakos da Grécia.


17 – Quem foi o seu melhor treinador?

Tive alguns bons treinadores como o espanhol Vicente del Bosque, o alemão Jupp Heynckes e o holandês Guus Hiddink, mas o melhor treinador que tive foi o Paulo Autuori no Flamengo, em 1997. Era um cara sensacional, de uma clareza enorme dentro e fora de campo, e que me ensinou muito enquanto estivemos trabalhando juntos.

18 – E o seu ídolo no futebol?

Zico. Um cara que eu me espelhei dentro de campo e sempre falo que eu era Zico Futebol Clube e passei a ser Flamengo depois. Quando o conheci, admirei ainda mais, e hoje, tenho nele um grande amigo, uma pessoa sensacional e que me fez enxergar o futebol de uma outra maneira. E sou grato a ele por isso.

19 – Como vê a crise sanitária do coronavírus no mundo?

Expectativa, ansiedade e tristeza. É difícil, em um âmbito geral, a gente analisar o que está acontecendo. Eu acho que ninguém esperava algo parecido com um vírus desse que veio para mudar muitas coisas na vida de todos nós. Devemos sim, pedir a Deus, conforto para os que perderam seus amigos e entes queridos. É muito difícil mensurar isso tudo de uma forma tão simples e em palavras. Eu tenho pessoas próximas que viveram e presenciaram momentos difíceis por causa do coronavírus, e nos resta orar a Deus para que isso passe o mais rápido possível. Precisamos, não só o Brasil, mas o mundo, viver o normal de novo!

20 – Defina Sávio em uma única palavra?

Definir o Sávio em uma palavra é muito difícil (risos). Muito complicado responder a pergunta, mas eu acho que sou um cara tranquilo, muito tranquilo por sinal, caseiro, de família, amigo, muito profissional e exigente demais comigo mesmo. O profissionalismo para mim era a base para se conquistar as vitórias, e o Sávio era isso.

VOZES DA BOLA: ENTREVISTA JOÃO LEITE


“Não se mexa!”, ordenou ‘Seu’ Waldemar para o filho. João, com a bola encaixada nos braços, e sem entender nada, olhava surpreso vendo o pai correr para dentro de casa trazendo ‘Dona’ Geralda pelo braço para mostrar aquela cena em um campinho perto da casa da família Leite.

 “Meu amor, veja, João será um grande goleiro!”, exclamou, sorrindo e feliz da vida o então policial militar e segurança do gabinete de Juscelino Kubitschek (1902-1976), governador do estado de Minas Gerais.

“Meu pai foi um grande incentivador da minha carreira de jogador de futebol e um conselheiro por toda a minha vida. É uma cena que até hoje costumo lembrar e sempre me emociona”, disse o deputado estadual João Leite (PSDB-MG) e ex-goleiro do Atlético Mineiro aos repórteres Marcos Vinicius Cabral e Fábio Lacerda do Museu da Pelada, ao voltar no tempo e ver a efusiva alegria de seu pai ao lado de sua mãe.

Mas, se o menino João Leite saiu da Vila Oeste, subúrbio de Belo Horizonte, e com muito esforço, trabalho e fé em Jesus Cristo, tornou-se o jogador que vestiu 684 vezes a camisa do Atlético Mineiro, derrotas e vitórias tornaram-se o pêndulo de uma carreira inesquecível para os atleticanos. Embora, tenha jogado as luvas para a aposentadoria, aos 29 anos, João Leite, provavelmente, será insuperável no que diz respeito a envergar a camisa alvinegra das Alterosas. Seu primeiro título foi aos 21 anos. E daí para frente, cansou de dar volta olímpica no Mineirão.

Segurança, frieza, tranquilidade e uma elasticidade incomum, o camisa 1 atleticano tinha virtudes inesgotáveis embaixo do travessão e atitudes admiráveis fora delas. Adorava surpreender o mundo espiritual e venceu o diabo algumas vezes quando proibido pela Confederação Brasileira de Desportos (CBD) de usar a frase ‘Cristo Salva’ na camisa, passou a distribuir Bíblias antes dos jogos do Atlético Mineiro. Como fez quando defendeu a seleção brasileira, ao distribuir dois exemplares do livro mais lido do mundo para os colegas Harald Schumacher, goleiro alemão e Rodolfo Rodríguez, arqueiro uruguaio. Se os converteu, ninguém sabe, mas a semente fora plantada pelas mãos que tantas vezes defendeu e evitou gols e mais gols de atacantes endiabrados.

“Eles poderiam proibir Jesus na minha camisa, mas jamais seria proibido em ter Jesus em meu coração”, afirmou nesta entrevista o pregador da palavra do Senhor da Primeira Igreja Batista de Belo Horizonte.

João Leite – fã de Chapinha, goleiro do Alvorada do Vila Oeste, de Gilmar, bicampeão nas Copas do Mundo de 58 e 62, a quem sempre ouvia pelo rádio realizando defesas nos jogos, de Mazurkiewicz, Mussula, Careca, Zolini, Renato, este campeão do primeiro título do Atlético Mineiro do Campeonato Brasileiro em 1971 e Ortiz, que foi a grande influência na carreira – chega para ser o 43º personagem do Vozes da Bola. 

Afinal de contas, dezembro é o mês do nascimento do menino Jesus de Nazaré, e o mês em que o Clube Atlético Mineiro quebrou um jejum de 50 anos e se tornou campeão novamente do Brasil. Desta vez, em dose dupla, pois o Vozes da Bola crava o título da Copa do Brasil para o Atlético Mineiro.

Por Marcos Vinicius Cabral

Edição: Fabio Lacerda 


Segundo mais velho entre cinco irmãos, e filho de ‘Seu’ Waldemar, um guarda civil aposentado e já falecido, e de ‘Dona’ Geralda, uma doméstica, você vem de uma família bem simples da Vila Oeste, periferia de Belo Horizonte. Quais as lembranças que você tem da sua infância?

As melhores. Era um tempo em que podíamos ficar na rua jogando bola o dia inteiro e tínhamos na Vila Oeste, subúrbio de Belo Horizonte, muitos campos de futebol, onde os amadores jogavam. Meu pai era um deles, e quando chegava em casa, ficava me treinando, pois chutava bolas para eu defender. Foi daí que surgiu a paixão pela posição de goleiro e mesmo com uma infância difícil, meu pai era policial militar, ganhava pouco, mas nunca nos faltou nada. Deus nos abençoou muito e conseguimos vencer!

Como foi trocar, aos 15 anos, as aulas no Colégio Dom Silvério pelos treinos nas escolinhas de futebol do Atlético Mineiro e não ter sido aproveitado?

Foi minha primeira incursão tentando jogar no Atlético Mineiro, meu clube de coração. No entanto, não fui bem-sucedido. Insistente, voltaria anos mais tarde para ser aprovado e fazer parte dos juvenis do clube. O Atlético era uma fábrica produtiva de bons goleiros. Nesta época, eu vestia a camisa do Alvorada da Vila Oeste, time que meu pai, primos e tios jogavam. Muito jovem, à época, ficava todo feliz quando meu pai me treinava para que eu pudesse aperfeiçoar os fundamentos na posição. O mais legal de tudo era quando eu chegava em casa e contava com uma riqueza de detalhes impressionante para a minha mãe (risos).

O futebol sempre esteve presente na sua vida e foi jogando no Alvorada da Vila Oeste, time da família, em um campinho de várzea que Waldemar, seu pai, observou a forma como você ‘encaixava’ as bolas. Conte a história de previsão do seu pai que afirmava que você seria um goleiro de muita qualidade. Conte esta história.

Meu pai foi ponta de lança do Alvorada da Vila Oeste, era policial no tempo da guarda civil, e segurança do governador Juscelino Kubitschek, que viria a se tornar presidente da República. Quando chegava do Palácio da Liberdade, onde realizava a guarda do governador, ele vinha com aquela farda azul bonita, retirava do corpo, guardava com extremo cuidado, colocava um calção, e mesmo cansado, ia me treinar em um campinho perto de casa. Ele chutava e eu ficava defendendo. Um dos chutes foi difícil para defender e eu encaixei a bola. Meu pai se surpreendeu porque esperava que eu fosse dar rebote ou ‘bater roupa’. Lembro como se fosse hoje! Quando eu caí com a bola no chão, ele me olhava perplexo e em seguida ordenou: “Não se mexa!”, e saiu correndo para dentro de casa trazendo minha mãe pelo braço e com muito entusiasmo mostrou aquela cena. Eu permaneci ali, olhando os dois sem entender nada com a bola encaixada e ele falou de forma profética apontando para mim: “João será um grande goleiro!”. Foi uma cena emblemática e memorável. Sempre me emociono ao lembrar deste momento. 

Como foi sua chegada ao profissional como goleiro do Galo, aos 21 anos, em 1976?

Subi para ser o quarto goleiro da equipe profissional. Ou seja, eu era a última opção. Era muito jovem, mas não me restava outra coisa a fazer que não fosse treinar. E treinei. E treinei muito duro. De repente, o Atlético contrata o argentino Ortiz que vinha de uma escola respeitadíssima nos anos de 1970. Com ele, confesso que aprendi e me ajudou muito. Quando ele foi emprestado para o Comercial de Ribeirão Preto, eu assumi a titularidade. Para se ter uma ideia, desse time, nove jogadores eram da base do clube, e isso foi bom, porque eu já conhecia os jogadores treinados pelo Barbatana, nosso treinador da base, e depois pelo Telê Santana da equipe principal.

Ainda em 1976, você assumiu a camisa 1 substituindo o argentino Miguel Ángel Ortiz, machucado, e se tornou um dos destaques do time que acabou sendo vice-campeão Brasileiro invicto. Quais as recordações que você tem daquele time e o que você acha que faltou para o título?

O Telê saiu e o Barbatana assumiu o comando do Atlético Mineiro. Surgiu a oportunidade de jogar numa equipe formada por amigos. Foi um time impressionante e eu costumo brincar que aquele Atlético Mineiro era para ser multado por excesso de velocidade (risos). Infelizmente, foi um ano difícil para nós, jogadores, porque terminamos o Campeonato Brasileiro daquele ano invictos, com a defesa menos vazada, tendo Reinaldo como artilheiro da competição e fomos derrotados pelo regulamento. Sim, pelo regulamento! Fomos para uma final contra o São Paulo, empatamos no tempo normal, e na prorrogação. Perdemos nas cobranças de pênaltis. No mundo inteiro, desde sempre, os campeonatos são de pontos corridos e aqui no Brasil, historicamente, alguns clubes foram prejudicados e acabaram não sendo premiados e merecedores do título por ter mais pontos e ser mais regular como foi o nosso caso.

Como surgiu o apelido ‘Goleiro de Deus’?


Foi um sonho que Deus colocou em meu coração, quando entreguei minha vida para Jesus ainda jovem, aos 21 anos. Senti que era um chamado de Deus em minha vida e dava bíblias aos meus companheiros para que eles pudessem conhecer um pouco da palavra do Senhor. Não satisfeito, coloquei na minha camisa a frase “Cristo Salva”, copiando os dizeres que o ex-piloto Alex Dias Ribeiro também colocava no carro dele de Fórmula I. Neste período, a Confederação Brasileira de Desportos (CBD) proibiu a frase na camisa em que eu utilizava nos jogos. Lembro até hoje da entrevista que dei para a imprensa em que um dos repórteres me perguntou: “João Leite, o que você vai fazer já que proibiram Jesus na sua camisa? Eu respondi: “Eles podem proibir Jesus na minha camisa, mas jamais seria proibido de ter Jesus em meu coração!”. Então, comecei a distribuir bíblias dentro de campo para os meus adversários.

Sabemos que ao lado de Baltazar, o ‘Artilheiro de Deus’, você é considerado o criador do grupo dos Atletas de Cristo. Como se deu sua conversão e como surgiu a ideia de criar o grupo religioso no futebol?

Em 1979, eu conheci o Baltazar, ‘Artilheiro de Deus’, numa viagem que o Atlético Mineiro fez ao Rio Grande do Sul. Ele me ligou e marcamos um encontro, e nesta ocasião, ele falou do amor por Deus. Em seguida, conheci Eliana Aleixo, capitã da seleção brasileira de voleibol na Olimpíada de Moscou, em 1980, e que se transformou no amor da minha vida. Foi com ela, com o Baltazar e com outros atletas que demos início ao ‘Atletas de Cristo’ que permanece até hoje e está em 70 países. Para ter uma ideia do que estou falando, Portugal, é hoje, o país com mais seguidores de Jesus. E para honra e glória de Deus, o ‘Atletas de Cristo’ é um movimento que começou lá atrás e continua cada vez mais sendo expandido pelo mundo todo.

É verdade que você foi o primeiro evangélico a entregar uma Bíblia Sagrada ao goleiro adversário, antes do início dos jogos, e outras duas para os reservas? E que você parou com a iniciativa quando o massagista do Cruzeiro jogou um dos exemplares na cabeça de um bandeirinha que teria marcado impedimento inexistente durante um clássico entre o Galo e a Raposa, em 1978, no Mineirão?

Verdade. Fui um dos primeiros a entregar Bíblias para adversário. Fiz isso, inclusive, na Argélia, onde o Islã é a religião predominante. Teve uma vez em que eu pedi aos jogadores do Atlético Mineiro, mesmo não sendo seguidores de Jesus, para distribuírem bíblias para o adversário em uma partida na Romênia. Tudo isso foi importante, não para engrandecer o João Leite, mas sim o senhor Jesus, digno de toda honra e adoração, entende? O mais legal disso tudo é saber que alguns daqueles jogadores que eu dei uma bíblia como presente, hoje, estão servindo a Deus, como é o caso do Ivan, ex-jogador do Cruzeiro, que recebeu uma bíblia, em 1984, e veio falar comigo após eu ter pregado em uma igreja na cidade de Formiga, interior de Minas Gerais, onde havia sido batizado. Há dois anos, fiz uma live, e o Luiz Antônio Toledo, ex-goleiro do Cruzeiro e do São José do Rio Preto, mostrava a Bíblia que eu dei a ele há anos. Recentemente, ele partiu, mas estava na presença do Pai e isso nos conforta saber. Sobre este episódio foi interessante o que aconteceu naquele dia. Eu dei uma Bíblia para um jogador do Cruzeiro e vi que ele entregou para o massagista e este levou consigo para o túnel e colocou no banco de reservas. Na frente deste túnel havia o bandeirinha e vi quando ele assinalou impedimento no gol do centroavante Roberto Cézar, se não me engano. Um dirigente do Cruzeiro, chateado com a anulação do gol, jogou um objeto que acertou em cheio na cabeça dele. Era a Bíblia. No intervalo, alguns repórteres começaram a catar as folhas que ficaram espalhadas pelo gramado. Mas tudo ficou bem e depois de alguns dias, dei a este mesmo jogador outra Bíblia., já que o massagista arremessou na cabeça do bandeirinha.

Você chegou a ser convocado algumas vezes por Telê Santana, então, comandante da seleção brasileira. No Mundialito do Uruguai, de 1979 para 1980, você foi o goleiro titular naquela competição em que o Brasil foi vice-campeão ao perder a final para o Uruguai. Podemos dizer que foi seu melhor momento com a camisa amarela?

O primeiro treinador a me convocar foi o Cláudio Coutinho, em 1979. Depois, o Telê Santana assumiu e me deu a oportunidade de substituir o Carlos que se contundiu no empate por um gol contra a Argentina. Em seguida, permaneci nos jogos no Mundialito na vitória contra a Alemanha por 4 a 1, e na derrota para o Uruguai por 2 a 1 na final. Esse foi o meu melhor momento com a camisa da seleção, mas acho que fui infeliz na preparação para as Eliminatórias da Copa do Mundo de 1982 em que ficamos 30 dias na Colômbia e eu fraturei a mão. Posteriormente, acabei sendo cortado e não voltei mais a jogar pela seleção do meu país. Mas acho que os três goleiros que o Telê escolheu foram boas, pois o Waldir Peres, Carlos e Paulo Sérgio viviam grande momento em seus clubes.

Na década de 1980, você perdeu as contas de quantas vezes o Atlético-MG foi prejudicado pela arbitragem?

É verdade. Confesso, que apesar dos recursos que a tecnologia nos permite, até hoje, eu não consigo rever alguns jogos em que fomos prejudicados pela arbitragem. As semifinais do Brasileiro de 1980, o jogo contra o Flamengo em que tivemos cinco jogadores expulsos na Libertadores de 1981 com José Roberto Wright sendo o juiz daquele confronto. A partida contra o Coritiba em que a bola entrou e o gol acabou sendo anulado em pleno Mineirão, nas semifinais do Brasileiro, em 85, foram algumas das injustiças cometidas contra o Atlético Mineiro.


Se você foi bem no Mundialito, e já era treinado pelo Telê Santana, a sua não ida à Copa da Espanha, podemos dizer, foi a maior frustração na carreira?

Pois é, fui bem no Mundialito, mas não fui tão bem assim em um jogo contra a Colômbia que era preparativo para a Copa do Mundo… Minha performance não foi a almejada e o Waldir Peres acabou sendo titular, que era muito bom goleiro, diga-se de passagem. E houve também o episódio da fratura da minha mão e acabei sendo cortado. Mas o interessante é que fui em uma partida contra a Venezuela, reserva do Waldir Peres, mesmo com a mão quebrada (risos). Quando terminou o jogo, o Marola, então, goleiro do Santos, foi chamado para o meu lugar. Mas o Brasil foi bem representado na Copa da Espanha e foi um pecado que aquele timaço não tivesse uma sorte melhor em gramados espanhóis. Maior frustração não foi não ter ido à Copa do Mundo, mas sim a derrota na final do Campeonato Brasileiro de 1977, que fora decidido em 5 de março de 1978 contra o São Paulo. Nossa equipe era invicta, o Reinaldo era o artilheiro da competição, nossa defesa a menos vazada, dez pontos à frente do nosso adversário, e mesmo com tantos atributos, ficamos pelo caminho. Então, ser vice-campeão, foi a minha maior frustração em toda carreira.

É verdade que você foi expulso uma única vez em toda sua carreira na vitória por 2 a 1 contra o Araguari-MG, ao tentar evitar uma agressão ao lateral Alves e, sem querer, acertou um soco em um diretor do clube adversário?

Em toda a minha carreira fui expulso apenas uma vez, exatamente, nesta partida entre Atlético Mineiro e Araguari, em que tentei proteger o nosso lateral-direito Alves de ser agredido. Foi assim, o Alves fez uma falta dura no ponta-esquerda adversário, e na inocência, ficou de costas para o banco do Araguari. Coisas de futebol! Os jogadores e todos os membros da comissão técnica invadiram o campo para agredi-lo. Sendo que um diretor foi o primeiro a tentar bater no Alves e quando vi, corri ficando no meio deles, tentando evitar a agressão gratuita. Eu o contive com o peito e ele tentando acertar o Alves que se escondia atrás de mim, e o árbitro mineiro, Avilmar Gaspar dos Reis, enérgico e muito bom juiz, entendeu que eu não deveria me envolver naquela confusão e me deu cartão vermelho. Até hoje, passado tanto tempo, discordo daquela expulsão, e se eu não fizesse o que fiz, o Alves seria agredido por aquele diretor do time adversário.

Você esteve em campo em um dos jogos mais polêmicos da história do futebol mundial que foi o confronto entre Atlético-MG e Flamengo no dia 21 de agosto de 1981, no estádio Serra Dourada, pela Copa Libertadores. O que você tem a dizer sobre aquele jogo e sobre a arbitragem de José Roberto Wright?

Aquele jogo realizado no Serra Dourada deixou uma tristeza muito grande, não apenas em nós, jogadores, mas principalmente, na nossa torcida. Aquilo foi marcante, pois tratava-se de um jogo extra que decidiria o Grupo 3 da Libertadores de 1981. O que me impressionou foi a Confederação Sul-Americana ter escalado um árbitro carioca para o jogo tendo árbitros bolivianos, argentinos, peruanos, paraguaios, uruguaios, chilenos, gaúchos, paulistas, baianos, sergipanos à disposição. Enfim, uma péssima escolha! Para se ter uma ideia do que estou falando, o avião que partiu do Rio de Janeiro para a cidade de Goiânia, trouxe a delegação do Flamengo e o Wright, até então, árbitro da Federação Catarinense. Sentimo-nos muito prejudicados, e se você rever o jogo, vai notar, lamentavelmente, um Wright visivelmente alterado dentro de campo. Foi uma tristeza enorme para o futebol brasileiro o que aconteceu naquele 21 de agosto de 1981.

Na Copa União de 1987, o Flamengo novamente cruzou o caminho do Atlético Mineiro e a equipe comandada por Zico saiu vitoriosa em um grande jogo por 3 a 2. Quais as suas recordações daquela partida?

Com Telê Santana no comando da equipe atleticana, chegamos bem-preparados para conquistar a Copa União de 1987. Nossa time era muito qualificado e com valores individuais muito bons. Naquele confronto contra o Flamengo, na semifinal, estávamos invictos até então, e nosso destino foi decidido em dois jogos muito difíceis. Fomos muito bem na derrota por 1 a 0 no Maracanã, e no jogo de volta, no Mineirão, com 30 minutos de jogo, o Paulo Roberto, nosso lateral, foi expulso. Mas nada a reclamar daquele jogo, já que sabíamos que o Flamengo tinha uma grande equipe com excelentes jogadores. Mas volto a afirmar que, mais uma vez, o regulamento do Campeonato Brasileiro não premiava as equipes mais regulares como era a nossa que ficou pelo meio do caminho.

Quem foi o goleiro que foi sua fonte de inspiração no futebol?

Foram vários! Desde o Chapinha, goleiro do Alvorada do Vila Oeste, que acompanhei desde a infância, passando pelo Gilmar, goleiro bicampeão nas Copas do Mundo de 58 e 62, quando ouvia no rádio as defesas que ele praticava nos jogos, o Mazurkiewicz, Mussula, Careca, Zolini, e Renato, campeão em 1971 do Campeonato Brasileiro. Mas o Ortiz, esse foi especial, e uma grande influência na minha carreira, pois era de uma escola respeitável. Ele passou ser minha grande influência, sem dúvida! 

Como o goleiro João Leite se sente sendo o recordista de títulos mineiros e o jogador que mais vestiu a camisa do Atlético em 684 oportunidades: venceu 11 vezes o campeonato estadual, além de participar da conquista da Copa Conmebol de 1992?

Muitas pessoas falam que, hoje, o futebol, é melhor, que o jogador ganha muito mais dinheiro e cada vez mais cedo faz sua independência financeira. Mas eu não troco nada do que vivi no futebol. Vestir a camisa 1 do time do meu coração, conquistar os títulos, fazer jogos inesquecíveis e entrar para história do Atlético Mineiro, é um orgulho e uma honra muito grande.

Você defendeu o Vitória de Guimarães, de Portugal, o Guarani e o América-MG. Como foram essas passagens em sua carreira?

Não posso dizer que a minha passagem por Portugal foi boa, pois naquela época, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e a Federação de Portuguesa de Futebol (FPF) haviam rompido relações e brigado em virtude da não liberação do Valdo, atleta do Benfica para disputar as Olimpíadas de Seul, em 1988. Nisso, a CBF, em represália, não permitia a minha transferência para o Vitória de Guimarães. E quando ocorreu, em virtude de uma séria lesão, acabei atuando pouco no clube português, onde havia o excelente Neno – in memoriam. Na volta ao Brasil, no Guarani, apesar do belo time, não posso considerar uma boa passagem também, já que fui reserva do bom goleiro Sérgio Neri. E no América Mineiro, o Procópio com o Heleno, preparador físico, me convidaram e aceitei o desafio. Foi especial essa minha passagem no clube em que teve uma geração fantástica comigo, Palinha, Ronaldo Luiz, Gutemberg, Euller e outros bons jogadores contratados a pedido do Procópio como Éverton e Jatobá. Mas foi legal também a conversão dos meninos, já que 17 atletas se renderam a Cristo e muitos são amigos e se tornaram grandes pregadores da palavra.

Seu falecido pai previu que você seria um grande goleiro. E agora, o que você prevê para o seu filho, o goleiro Helton Leite, que joga na Europa, no Benfica?

Essa previsão do meu pai me deixou muito emocionado e agora com meu filho Helton Leite, a emoção é a mesma. Helton, meu filho, é um grande goleiro. Recentemente, o Benfica o comprou do Boavista, e ele me ligou e falou: “Papai, o número da minha camisa vai ser 77, em homenagem ao meu avô, que morreu com 77 anos!”. Bonita homenagem!

Como você vê este título de campeão brasileiro do Atlético Mineiro?

Muita alegria. Foi criada uma expectativa muito forte em Minas Gerais, e em todo o Brasil com esta conquista do Galo, né?  Foi um título muito merecido e buscado há anos em várias finais de Campeonatos Brasileiros disputadas e sempre batendo na trave. Para mim, como ex-jogador deste imenso clube e que estive em muitas outras tantas decisões, é uma alegria imensurável, não só para mim, mas para a torcida do nosso querido Atlético Mineiro.

Como tem enfrentado o isolamento social por causa do coronavírus?

Tenho cuidado não só da minha saúde, mas da minha família em geral, já que tenho filhos e quatro netinhos. Todos presentes na igreja e estamos assistindo aos cultos de maneira remota. Tomei as duas doses da vacina. Levamos a sério o cuidado, e apenas o Helton, lá em Portugal, teve Covid-19, já que minhas filhas – uma inclusive mora no Canadá com marido e filhas – não tiveram. Curioso, foi que o Helton, antes de um jogo, testou negativo e depois positivo. Mas ele superou bem e venceu a doença.

Como você definiria João Leite em uma única palavra?

Um homem medroso, e ao mesmo tempo, forte por estar na presença do Senhor Jesus.

VOZES DA BOLA: ENTREVISTA EDU COIMBRA


A bola, quicando de felicidade, sempre buscou encontrar em cada campo de futebol o valor de pés atenciosos e que fossem amorosos com ela. No peso da verdade, o que ela mais queria naqueles 90 minutos era carinho, atenção e alguém para tratar dela com cuidados especiais. De chamar de ‘meu bem’! A bola queria, por incrível que pareça, viver essa correlação de dar e receber, amar e compreender, estar e sentir, rir e chorar e gritar pelo gol marcado e silenciar por ele sofrido. O gol, àquela altura, era ‘mero detalhe’.

Amada ou odiada, alegre ou triste, percebida ou vilipendiada, a cada batida o coração dela transformava-se em apupos incontidos de quem queria dormir nas redes e sentir a ovação daqueles que estavam ali, sentados, nas arquibancadas arrefecidas por uma paixão incontrolável à volta dela.

Poucos jogadores de futebol tiveram essa percepção para atender as exigências da bola, matreira na essência pelos percalços já enfrentados ao longo de sua existência. Um deles foi Eduardo Antunes Coimbra, nome de batismo de Edu, que teve na abreviação um destaque no cenário nacional nos anos de 1960 e 1970. Franzino, o filho que ganhou do velho Manoel e da prendada Mathilde a camisa 10 do Flamengo quando deu seu primeiro choro em vida naquele 5 de fevereiro de 1947, personificou o diabo anos depois com a camisa número 9 rubra do América Football Club. Fez maldades na vida de tantos e quantos defensores, e exorcizá-lo, convenhamos, era uma missão impossível.

Entretanto, na história do Mecão, Edu não foi primeiro, segundo ou terceiro maior jogador da história do clube, mas foi único, em pluralidade, qualidade e leveza, encantos mil. Um camisa 10 invicto nas guerras da vida e convicto de si nas batalhas enfrentadas e vencidas em campo. Ser 10 bastou para quem pensou em ser mil.

Quando Deus criou o Homem e dele foi extraído uma costela para a criação da mulher, a bola viveu experiência similar ao ser coberta com pedaços de couro ao ser criada pelo governante chinês Fu-Hi no século IV antes de Cristo e, anos depois, projetada pelo americano Charles Goodyear em 1835. Projeção e criação estas que Edu ganhou em cada exibição de gala, seja no América, Vasco, Bahia, Flamengo, Colorado-PR, Joinville, Brasília-DF e Campo Grande, este último em 1981, dando adeus ao futebol quando o brilhante jogador saiu de cena e encenou outras tantas no banco de reservas como treinador.

“Jogador de grande agilidade, domínio de bola, imaginação, malícia e velocidade. Tudo marca Edu como um craque”, reconheceu o cronista, dramaturgo e escritor Nelson Rodrigues (1912-1980) deixando em nós, mas principalmente, nos americanos, a saudade eterna.

Edu marcou 179 gols que o transformam – de acordo com a diretora Eralda Savelli Guimarães do Departamento Histórico do clube – no maior artilheiro da história do América Football Club em seus 117 anos de existência, completados em 18 de setembro. Mas Edu, nosso personagem da vez na série Vozes da Bola, tão craque quanto o irmão caçula Zico, cravou seu nome do cenário futebolístico nesses capítulos à parte que a bola eterniza no coração daquele que é apaixonado por esse esporte.

Por Marcos Vinicius Cabral
Edição: Fabio Lacerda

Os irmãos Coimbra sempre caminharam juntos no universo da bola, inclusive, no time do Juventude. Como foi sua infância em Quintino?

Foi tão rica, tão benéfica e de grande utilidade para nós já na idade adulta, porque foi o maior aprendizado que tivemos na nossa infância. Eu costumo dizer, que Quintino Bocaiúva, o bairro em que fomos criados, e a Rua Lucília Barbosa, tão famosa aqui na casa 7, por ter sido o local onde nasceu o maior ídolo do Flamengo e do Japão, que é o Zico. Como houve uma evolução muito grande na nossa família, no início éramos irmãos do Antunes, depois do Nando, em seguida do Edu e agora todos nós somos irmãos do nosso caçula (Zico), o que nos enche de orgulho, apesar de cada qual ter sua própria história. E pelo fato do Zico ter nascido neste bairro, nesta rua e nesta casa, acredito eu que no futuro bem distante a rua onde fomos criados possa ser rebatizada – homenagem a uma das 50 maiores personalidades do mundo em todos os tempos. Aqui neste local foi a nossa fazendinha, nossa universidade e aqui foi o lugar onde corremos atrás de uma bola antes de tentar federar-se em um clube de futebol. Foi maravilhoso sob vários aspectos essa infância vivida no bairro até a chegada aos profissionais.

Seus pais eram contra você ser jogador de futebol?

Meu pai era totalmente radical. Não permitia que qualquer filho dele se transformasse em jogador de futebol. Na época, jogar futebol não era bem aceito pela sociedade, e ele nos incentivava a estudar para que tivéssemos o nosso canudo que era a formação em alguma profissão. Mas acontece que eram coisas paralelas na minha vida essa relação com os livros e com a bola. Entretanto, não tive como deixar de usufruir das duas coisas. E por este motivo, de conciliar bola e livros, que cada um de seus filhos se formou e continuou jogando futebol. Dos cinco filhos, quatro se tornaram jogadores de futebol. Para se ter uma ideia, meu avô, que se chamava Arthur – motivo pelo qual o Zico recebeu esse nome -, foi quem trouxe a cerâmica portuguesa para o Brasil e abriu uma fábrica aqui no bairro de Quintino e lojas espalhadas pelo Rio, quando saiu da cidade de Tondela, distrito de Viseu, situada na província Beira Alta, em Portugal. Já a mamãe nunca se opôs.

Como foi sua chegada no América?

Fui treinar com o meu amigo Paulo César Martins, o Puruca, no campo do Mavílis Futebol Clube, no Caju, Zona Portuária do Rio. Ele foi aprovado e eu não. Só que o avaliador do teste não gostava de gente mirrada, e eu era muito, muito, mas muito pequenininho. Não pesava 50 quilos. Eu lembro que ele anotava em uma prancheta os nomes dos garotos e perguntava para a gente:”Você, joga de quê?”. “E você aí?”. E na minha vez, ele me falou:”E você, joga em que posição?”. ‘Sou ponta de lança!’, respondi com o Dida, cracaço do Flamengo na cabeça, que atuava nessa posição e era nosso ídolo. Aí o avaliador disse:”Ou uma ou outra, escolhe uma para jogar!” Depois disso, fiquei meio desestimulado e ele pediu para eu levantar e ir treinar na ponta-direita. Nesse dia, treinei 10 minutos e foi muito. Já o Puruca, treinou de atacante, fez gol e foi aproveitado. Passado algum tempo, para ser mais preciso, em 1964, fui convidado por esse mesmo amigo para jogar uma partida. Desta vez fui bem, e dois anos depois, acabei sendo lançado. Foi interessante. Quem me lançou foi Lourival Lorenzi, e em 15 dias, fui usado por cada treinador nas categorias do profissional, aspirante, juvenil e infanto, ou seja, me tornei recordista mundial e entrei para o Guinness Book (Livro dos Recordes) por esse feito. Mas teve um treinador chamado La Paz, uruguaio e o auxiliar dele chamado Odales de Mattos, já falecidos, que foram importantes na minha carreira e que se encantaram com o meu futebol. Viviam falando para todo mundo do clube que nunca haviam visto alguém jogar futebol da forma que eu jogava. O Odales gostava tanto de mim e do meu rendimento dentro de campo que deu a um dos filhos o nome de Eduardo como forma de me homenagear, além, é claro, de seus elogios terem sido importantes para a minha permanência no clube. E até hoje, anos depois, lembro destas figuras com o maior carinho e que foram muito importantes na minha vida.

Sua primeira vez no Maracanã, foi na vitória por 2 a 0 contra o Vasco jogando pelos aspirantes do América. Como foi essa estreia?

Passou um filme na minha cabeça quando pisei no gramado do Maracanã pela primeira vez defendendo as cores do América. Por ser minha estreia, aquele sonho de criança estava sendo realizado e lembrei, por exemplo, das vezes em que eu e meus irmãos passávamos de trem pela Central do Brasil para ir na alfaiataria do meu pai, que ficava na Rua Teófilo Otoni, nº 156, Centro do Rio. Quando passávamos pela estação do Maracanã, aquela fachada linda do estádio com uma imponência espetacular, pensava:”Um dia, ainda vou jogar nesse lugar!”. E quando joguei pela primeira vez nos profissionais contra o Vasco da Gama, me senti realizado pelo simples fato de estrear. Mas nesta partida eu lembro que joguei muito bem.

Como foi ter jogado com seu irmão Antunes, vindo do Fluminense, no América, e terem sido vice-campeões da Taça Guanabara de 1967, numa épica decisão contra o Botafogo?

Gratificante e valioso. Por ser o irmão mais velho, ele tinha aquela coisa de ser protetor e sempre que podia me dar um passe para fazer um gol, ao invés dele marcar, ele me dava. O Antunes foi o grande nome da família, foi um mestre para os demais irmãos, e se hoje a família Antunes é sinônimo de ética e valores morais, é graças ao Antunes, nosso querido irmão. E ele atuando como atacante era brincadeira, pois basta dizer que fui artilheiro do Campeonato Brasileiro de 69, tendo Pelé, Rivellino, Tostão e Ademir da Guia como adversários. Lembro de um lance contra o São Paulo, em General Severiano, em que ele driblou todo mundo e ficou me esperando para eu fazer o gol. Mas a decisão tem um aspecto que muitos da imprensa até hoje não falam e entendo que isso não serve de justificativa para lamentar o vice-campeonato para o Botafogo que tinha um senhor time. Na semana que antecedeu à decisão, fomos fazer um amistoso contra o Tupi, lá em Juiz de Fora, e os jogadores do time mineiro levaram muito a sério. Foi uma pancadaria generalizada, uma verdadeira guerra. O América acabou se desgastando muito nesse amistoso e por estar com uma torção no tornozelo acabei participando do jogo e entrando em campo à ‘meia-bomba’ na decisão do Estadual de 67. No primeiro tempo ainda, o Botafogo perdeu o Jairzinho e conseguiu vencer por 3 a 2 na prorrogação, pois o América jogava pelo empate. Mas o Botafogo estava numa noite estrelada. O Paulo César Caju, iluminado, fez os três gols. Mas foi isso, mesmo com um jogador a menos, eles sentiram menos do que nós, que estávamos desgastados em virtude dessa ‘guerra’ campal contra o Tupi, poucos dias antes da decisão.

E como foram as primeiras atuações no Torneio Internacional Governador Negrão de Lima, em 1967, um quadrangular disputado no fim de maio por América, Vasco, Nacional de Montevidéu do Uruguai e Huracán da Argentina. Relembre as barbaridades que você fez dentro de campo.

Neste torneio eu estava inspiradíssimo e joguei muito bem. Inclusive, o Jornal dos Sports fez uma matéria comigo dizendo que eu era o ‘Pelé Branco’, fato que me deixou extremamente feliz, mas sabemos que Pelé só existiu um. No primeiro jogo contra o Huracán, fiz dois gols. Mas o gol que mais me emociona é o do Antunes contra o Nacional. Fiz um lançamento da lateral-esquerda do meu campo de jogo de curva para ele que deixou a bola passar, deu um drible para dentro no Emílio Alves, considerado um dos maiores ídolos do futebol uruguaio e tocou na saída do goleiro uruguaio Dominguez. Do outro lado, saí comemorando, já que estava acompanhando a jogada, e o Antunes do lado inverso ao meu, também enlouquecido comemorava. Naquela comemoração toda, nos encontramos no meio de campo, nos abraçamos e os torcedores, acredito que mais de 100 mil, começaram a aplaudir aquela jogada por se tratar de dois irmãos. Por isso, acho que foi o gol mais emocionante da minha vida em que presenciei no estádio do Maracanã, mesmo não sendo um gol marcado por mim. Já contra o Vasco, o América venceu por 3 a 1 e eu marquei os três gols da vitória, sendo o último, um golaço em que driblei todo time do Vasco e toquei na saída do goleiro. A bola foi entrando lentamente, e o Antunes acompanhando até ela cruzar a linha.

Qual a sensação em ter se tornado o melhor Sul-Americano em 1969, deixando Pelé, Rivellino e Tostão para trás?

A mesma sensação em ter me tornado artilheiro do Campeonato Brasileiro de 69, chamada pela Confederação Brasileira de Desportos de Taça de Prata ou Torneio Roberto Gomes Pedrosa. Eu nunca gostei de passar ninguém para trás, mas não gostava de ter alguém na minha frente (risos). Quando ia jogar pelo América, que na época era uma equipe de ponta, contra o Flamengo, Santos, Cruzeiro, Corinthians, ou outras quaisquer credenciadas no futebol brasileiro, eu falava para mim mesmo: “Eu vou ser o melhor em campo!”. Era difícil ser, mas conseguia. Enfrentava o Santos de Pelé na Vila Belmiro e ganhava o Motorádio. Certa vez, cheguei a ganhar dois contra o Corinthians de Rivellino.

Muitos achavam que você merecia estar no grupo de 22 jogadores convocados para a Copa do Mundo de 1970, no México, onde o Brasil se tornou tricampeão mundial. Na sua opinião, porque você não foi chamado?

Porque eu não jogava no Botafogo (risos). Os dois treinadores, João Saldanha e Zagallo, eram oriundos do clube alvinegro. Mas isso não justificava o fato deles não me conhecerem, e tampouco, conhecerem o meu futebol praticado naquele momento. Mas o pior de tudo era que na minha família havia presos políticos, como o meu irmão Nando, e alguns primos, que na época chegaram a ser noticiado. A família Coimbra foi muito visada nesse período da ditadura militar e quem mandava no futebol? Quem colocou Dario, a quem adoro de paixão e é como um irmão para mim, na seleção? Pois é. Os jornais da época dão conta que o presidente Emílio Garrastazu Médici exigiu a convocação do Dario, que tinha um apelo mais popular do que eu. Em virtude dessa intromissão do presidente o João Saldanha saiu. No Rio, apesar do grande prestígio que tinha, e a fase que atravessava, o Botafogo era sempre o mais visado pela tradição em ceder jogadores que se tornaram campeões do mundo nas Copas de 58 e 62. O Botafogo era um timaço, tanto que Rogério, Jairzinho, Roberto Miranda e Paulo César Caju, jogadores de frente, acabaram sendo convocados. Por isso, acredito que se estivesse jogando pelo clube, certamente, também seria convocado. Mas eu, Alex e o Carlos Alberto, representamos o América e acabamos ficando na lista dos 40 que foi enviada à Fifa. Mas se me perguntarem se eu fui campeão do mundo na Copa de 70, posso responder que sim, fui sim, mesmo sem jogar, pois meu nome está nessa lista (risos).

Você era ídolo do América e Zico, seu irmão, despontou no Flamengo, na reta do Carioca de 1974. Como foi enfrentar uma promessa que se tornaria o maior jogador do clube rubro-negro?

Interessante que nessa história tem uma coincidência bacana. No primeiro título do Zico nos profissionais do Flamengo, eu estava no Maracanã, à época, prestigiando o meu irmão mais novo. O jogo terminou empatado sem gols. Mas o Flamengo acabou se sagrando campeão, porque América e Vasco se enfrentaram na penúltima rodada, e a equipe de São Januário vencia por 2 a 1. Nos últimos minutos da partida, eu marquei de cabeça o gol de empate. Por que estou te contando isso? Se eu não fizesse esse gol de empate contra o Vasco, o Flamengo não seria campeão com o empate (risos). Com este gol, acabei ajudando o Flamengo e o meu irmão, mesmo que indiretamente, a serem campeões. Eu não torcia para o Flamengo, mas sim para o meu irmão Zico, pois sempre prezei pela honestidade na vida e não seria diferente no futebol. Digo isso, porque nossa infância foi toda torcendo pelo Flamengo, pelo nosso ídolo Dida, mas quando me tornei jogador de futebol, o time que eu mais gostava de vencer era o deles. Mas o Zico teve a partir dali uma ascensão assim como a minha, já que havia jogado no profissional e voltou para as categorias de base. Mas o Zico deu a sorte que saiu o Zagallo, que não o aproveitou como deveria. Assumiu o Joubert, que havia sido seu treinador na base e o colocou para jogar. Aí, só deu Galo.

Em 1975, seu passe foi negociado com o Vasco da Gama e você não conseguiu repetir seu grande futebol em São Januário. Por que o Edu do Vasco não foi o brilhante Edu do América?

Este negócio de não render ou não repetir o futebol no América é uma informação deturpada, falsa e fake news. Basta você procurar Sérgio Frias, um respeitado historiador do Vasco, que vai dizer tudo sobre a minha passagem por São Januário. Mas afirmo para os leitores do Vozes da Bola que eu fiz uma porrada de gols, disputei as finais do Super Campeonato e marquei gols contra o Fluminense, fiz gol de bicicleta mal anulado, sofri pênalti e fiz um dos gols mais bonitos da história do estádio do Maracanã que foi contra o Botafogo. Então, posso te assegurar que a minha passagem por São Januário foi brilhante. Certa vez, o Sérgio Frias me falou uma frase que até hoje não esqueço:”Edu, você o único jogador que colocou o Roberto no banco!”. Só aí, não precisa falar mais nada, não é? Estamos falando de um feito que ninguém havia conseguido que foi colocar o Roberto, maior jogador da história do clube, na reserva. Mas em um ano que estive jogando pelo Vasco, acabei sendo injustiçado pelo presidente Agathyrno Silva Gomes, que não foi correto comigo. Eu vivia grande fase no América e acabei sendo emprestado para o Vasco, mas não podia enfrentar o meu ex-clube. A diretoria vascaína me deu uma carta para eu jogar e garantiu a minha contratação no final do empréstimo. Resumindo: não me contrataram, a carta, juridicamente, não tinha valor algum, fui devolvido para o América, já que o Vasco alegou não ter dinheiro para comprar o meu passe com valor fixado e voltei desacreditado para o meu ex-clube. Pegou mal eu não poder jogar. Mas o Flamengo entrou na jogada e me contratou, graças a Deus.

O Flamengo contratou você e a família Antunes viveu a expectativa de vê-lo ao lado de seu irmão Zico em 1976. No entanto, essa expectativa seria frustrada pelo treinador Carlos Froner (1919-2002), que não pretendia escalar dois jogadores que ele considerava serem da mesma posição. O que tem a dizer sobre?

Eu quis muito reeditar no Flamengo com meu irmão Zico, o que eu e meu irmão Antunes fizemos no América, ou seja, jogar futebol, fazer gols, alegrar a torcida e transformar a dupla Edu-Zico como uma das maiores na história rubro-negra, assim como a dupla Edu-Antunes fez no América, ao lado de Joãozinho e Eduardo. Qualquer americano que se preze tem este quarteto guardado na cabeça e no coração. Mas não tive essa oportunidade no Flamengo e se me permite vou abrir um parênteses para dizer que o treinador Carlos Froner foi uma das pessoas mais íntegras que conheci nesse meio do futebol. Aprendi muito com ele enquanto fui atleta profissional e o seu olho a olho de quem sempre usou a verdade como lema de vida foi muito bom para mim. E ele foi taxativo quando cheguei ao clube ao dizer que eu disputaria a posição com um tal camisa 10 chamado Zico. Ora, o Zico já era o Zico! Mas falei brincando para o Froner:”Como vou deixar um irmão mais novo no banco? Ora, deixe-o jogar!” (risos). Mas eu acho que ele não foi feliz nessa escolha, pois era brincadeira o que eu estava jogando. Cheguei para jogar no meu clube de coração e jogar ao lado da maior estrela já naquela época. Imagina como seria a dupla? Nestes 24 jogos pelo clube, devo ter entrado umas duas ou três partidas como titular e marcado uns oito gols. É um número bom. No entanto, o melhor é que nas raríssimas vezes em que atuamos juntos, fizemos gols. O que causa espanto é que a pedido do treinador Carlos Froner, mesmo emprestado para o Bahia, e com viagem marcada para me apresentar no clube baiano, eu concentrei com os companheiros para a decisão da Taça Guanabara de 1976 contra o Vasco. Logo no começo do jogo, o Vasco já vencia por 1 a 0, gol de Roberto, de pênalti e entrei nessa decisão. Comecei a mostrar meu futebol. O gol de empate, foi uma jogada individual minha em que a zaga vascaína cortou um lançamento meu, a bola voltou em minha direção, ganhei na disputa com o Luiz Carlos, driblei um marcador e quando o outro veio para me dar combate eu enfiei entre os zagueiros para o Geraldo na direita que bateu forte e venceu Mazzaropi empatando o jogo, marcando seu último gol antes da fatídica operação de amígdalas a que foi submetido. Na prorrogação, estava muito bem, chutei uma bola na trave, criei boas chances de gol, mas acabamos indo decidir nos pênaltis. Lembro que na cobrança do Zico, cheguei no ouvido dele e disse:”Meu irmão, deixa eu bater, porque se eu perder, como vou me apresentar ao Bahia amanhã, não vai pesar tanto”. Pô, parecia que estava adivinhando. Ele bateu e perdeu. Em seguida, o Geraldo, o Assobiador, perdeu a cobrança dele também, e o Vasco foi campeão. Mas da maneira que entrei naquela decisão, e se o Flamengo tivesse sido campeão, talvez, eles desfizessem o empréstimo com o Bahia (risos).

Em 1977, deixou o Flamengo ao assinar compromisso com o Bahia, Colorado Esporte Clube-PR e jogou ainda pelo Joinville, Brasília e Campo Grande-RJ, onde encerrou a carreira como jogador. O que você atribui a essa sua queda em estar em um grande clube como o Flamengo e assinar com clubes modestos?

Em primeiro lugar, não considero nenhum desses modestos. No Bahia, fui tetracampeão estadual e é um clube que a própria história responde por si. O Colorado era uma das forças do futebol paranaense, o Joinville nem se fala! Brasília foi uma opção curta, já que estava pensando na minha futura carreira de professor de Educação Física. E o Campo Grande, que recebi o convite do meu amigo Mituca, foi simplesmente espetacular. Quase fomos campeões da Taça de Prata, e o Campo Grande na minha vida foi um presente que Deus me deu. Nosso time era bom e fazia frente com os grandes daqui do Rio. Eu coloco este belo clube como um time tão grande como os demais. Para mim, modesto sou eu, não os clubes. O único que eu concordo que seja um clube modesto é o Brasília, pois lá os considerados grandes são Gama e o Ceub, que tiveram uma ascensão nacional.

Após encerrar a carreira como jogador em 1981, você se tornou treinador de futebol e o ponto alto de sua carreira foi o vice-campeonato Brasileiro de 1984 no Vasco da Gama. Vencer aquele Fluminense tricampeão Carioca era tarefa difícil?

É uma pergunta que não fala do meu currículo como treinador de futebol e das minhas passagens vitoriosas que tive em alguns clubes. Não é citado nela, por exemplo, que fui campeão no Paraná, no Botafogo, títulos estaduais que são difíceis à beça de serem conquistados. Não fala da minha passagem pela Seleção Brasileira também. Mas o meu ponto alto não foi esse vice-campeonato Brasileiro contra o Fluminense como treinador, foi sim, um dos pontos preciosos na carreira, já que antes, logo na minha estreia, eu havia sido campeão da Taça Rio pelo América, numa competição em que fomos muito prejudicados pela arbitragem. Agora, nesse jogo específico, se você analisar o time do Fluminense com Paulo Vítor, Duílio, Vica, Deley, Romerito, Assis, Washington, Tato, Branco, que eu tive a felicidade de lançar na seleção, era um time de tirar o chapéu. Mas o Vasco era uma grande equipe também, tanto é, que foram dois jogos equilibrados. O Fluminense foi feliz no gol do Romerito na primeira partida. Na segunda partida, o Vasco, que era ao lado do Santos, a equipe com o melhor ataque da competição, jogou bem, e Arturzinho, vice-artilheiro com 14 gols e Roberto, artilheiro com 16, perderam oportunidades que não costumavam perder. Mas esses fatos aqui citados por mim comprovam a sua pergunta de que este vice-campeonato foi um ponto alto na minha carreira, pois minha equipe apresentava o futebol raíz, futebol em sua essência, aquela brasilidade que a torcida gosta de ver e que falta hoje em muitos times. Eu sempre introduzi isso nas equipes em que trabalhei, ou seja, o verdadeiro futebol brasileiro. Nunca imitei o europeu. Nunca! Jamais!

Curiosamente, no mesmo ano de 84, você dirigiu a Seleção Brasileira em três jogos amistosos. Por que este pouco tempo no comando da equipe brasileira?

Primeiro, recebi o convite do presidente Giulite Coutinho por ser o treinador revelação do Brasileiro. Segundo, o próprio me disse ao afirmar que seriam partidas festivas, embora eu tenha dirigido o Brasil com a intenção de permanecer no cargo de treinador. Nos três jogos, foram uma derrota por 1 a 0 para a Inglaterra, no Maracanã, um empate sem gols contra a Argentina, no Morumbi, e uma vitória contra o Uruguai com gol de Arturzinho, em Curitiba. Minha média ficou boa, já que enfrentei três potências do futebol mundial e consegui três pontos dos seis disputados. Mas tem um adendo aí, pois não contei com aqueles jogadores extraordinários da seleção de 82 que eram Zico, Sócrates, e o Leandro, que confessou-me ter jogado no sacrifício, pois o desejo dele era que eu permanecesse como treinador. Foi muito legal essa atitude da parte do Leandro. Mas a minha base, embora eu não pudesse contar com os que eu gostaria, foram os melhores do Campeonato Brasileiro de 84. Convoquei jogadores do Fluminense e Vasco, finalistas da competição, e alguns destaques no país como o Zenon, por exemplo. Ele foi convocado por mim nestas três vezes para jogar como titular da Seleção Brasileira, a quem dei a braçadeira de capitão contra a Inglaterra no Maracanã.

Qual a sensação em ter lançado na Taça Rio de 85, um certo baixinho chamado Romário?

Uma sensação normal de quem sempre teve a oportunidade de lançar grandes nomes do futebol. Um exemplo é o Jorginho, tetracampeão do mundo pela Seleção Brasileira em 1994 e que estava para ser dispensado do América quando ainda era juvenil. Teve Mário Tilico, Mazinho, Lira, Donato, o Rocha, que era do Joinville e depois acabou indo para o Palmeiras, ou seja, revelei alguns grandes jogadores. Mas é claro que pelo estrelato que conseguiu, o Romário tenha sido o de maior relevância dentre os nomes. Mas quando fui falar com Valinhos, treinador da base do Vasco, ele me disse que o Romário arrebentaria. No entanto, nos três jogos em que jogou sob o meu comando, não fez gols não. Mas era diferenciado, obediente taticamente, rápido, oportunista e tinha faro de gol. Mas ele passou pelo mesmo processo em que eu e o Zico passamos, de subir aos profissionais, voltar à base e depois se tornar profissional imediatamente. Mas tenho um orgulho imenso em ter lançado o Romário. E quem não se orgulha de lançar um dos maiores nomes da história do futebol brasileiro? Me orgulho sim, sem dúvidas!

Você tem algum ídolo no futebol?

O ídolo maior no futebol foi o Zico. Inclusive, certa vez o ‘Capetinha’ Edílson e o Vampeta falaram que o Zico é uma entidade que tem um carisma maior do que a do Pelé. Isso é um orgulho para nós da família Antunes. Mas na vida, o meu exemplo de homem, de aprendizado, de espelho, foi o mesmo dos meus irmãos, que foi um senhor chamado Edvaldo Alves de Santa Rosa, o Dida. Esse, para você ter uma ideia do que estou falando, quando a gente chegava perto dele, tremíamos na base (risos).

Você é um dos maiores ídolos do América Football Club, sendo, de acordo com o site www.futebol80.com.br, o segundo artilheiro da história do clube com 179 gols, marcados entre 1966 e 1974, e o Luisinho, com 192, é o primeiro. O que o América representa na sua vida?

Em primeiro lugar eu não sou o segundo, e sim o primeiro. Começa por aí! Vou te contar uma passagem rápida para você e os leitores entenderem: em janeiro de 2019, houve um evento que era a assinatura para o destombamento da sede social e a construção do Parque Shopping América, na sede do clube, que contou com a presença de dirigentes, sócios, atletas, ídolos do passado e a participação do ex-prefeito Marcelo Crivella. Em um determinado momento, a senhora Eralda Savelli Guimarães, diretora do Departamento Histórico do clube, levou para um lugar mais reservado eu e o Luisinho, que muitos dizem ser o maior artilheiro do clube. Ela falou: “Luisinho, pare com esse negócio de dizer que você é o maior artilheiro da história do América. Você não é! Quem é, é o Edu. Vamos respeitá-lo, por favor!”. O Luisinho se justificou dizendo que não era ele quem falava isso e sim a imprensa. O evento continuou, e na saída, ele confidenciou:”Acho que ela não gosta de mim”. Eu o respondi dizendo que não se tratava de gostar ou não gostar e sim de fazer o trabalho dela que é corrigir informações erradas que são veiculadas nos meios de comunicação. A mídia, da qual você faz parte, diz que o Luisinho – a quem tenho imenso respeito, que foi um grande jogador, exímio artilheiro do futebol brasileiro, pessoa a quem eu amei de paixão enquanto vivo esteve, que jogou comigo em 74 e se tornou importante no começa da minha carreira de treinador – é o maior artilheiro do clube. Mas não é! Não sou eu quem falo e sim os números, pois afirmo aqui para vocês do Vozes da Bola, muito sereno, com os pés no chão e credenciados pela grande historiadora do clube que é a ‘Dona’ Eralda, que tem todos os gols que marquei. Isso é um assunto em que jornalistas do Wikipédia, dos blogs da vida ou das fake news, tem que noticiar de forma correta por meio de uma apuração detalhada. No entanto, ‘Dona’ Eralda diz que o maior artilheiro da história do América chama-se Eduardo Antunes Coimbra, este que vos fala. Baseio-me na realidade dos fatos e não que eu queira criar polêmicas, muito pelo contrário. Eu quero a verdade dos acontecimentos. Eu quero usufruir daquilo que eu batalhei e construí dentro de campo que foram os gols que marquei e a história que fiz com a camisa do América. Prezo por isso e pela informação verdadeira. Apenas isso! O clube representa gratidão na minha vida. Deu-me a oportunidade de ser jogador e treinador de sucesso. O América Football Club está dentro do meu coração para sempre.

Nós, do Vozes da Bola, sabemos que você realizou intervenções cardíacas e gostaríamos de saber como anda esse coração sabendo que o América vive um dos piores momentos da história?

Bem, eu gostaria de estar lá no clube para ajudar a tirar o nosso querido América dessa situação, pois é um trabalho de amor que se faz pelos laços afetivos que envolvem a minha história com a agremiação tão importante na minha vida. Mas eu acho que os dirigentes deveriam aproveitar os profissionais que têm identidade com o clube e extrair disso coisas boas. A gente nunca vai deixar de querer bem ao América, de torcer por ele e quanto ao meu coração, ele está perfeito. Faço check-up geral todos os anos e meu coração está bonito, já que são 74 anos de pura fertilidade na carcaça e com minha saúde muito boa. Ainda quero e muito contribuir para o futebol de alguma forma.

Como tem enfrentado o Covid-19?

Um misto de tristeza e preocupação. Perdi amigos ligados ao futebol, ligados à vida, e perdi, recentemente um irmão, não pela Covid-19, mas a perda acabou me desequilibrando um pouco nesse período de pandemia. Essa Covid-19 fez muitas pessoas perderem seus empregos, oportunidades de fazerem negócios e ocasionou nas pessoas doenças psicológicas e uma depressão profunda em muitas delas. Eu perdi familiares também para essa doença e perdi oportunidades de trabalho. É a vida. Mas tem que existir sempre os cuidados com os protocolos de saúde já que o vírus está por aí. Acabamos enclausurados por causa da doença e, consequentemente, esquecidos. Mas no futebol, talvez, o nepotismo que mais deu certo foi com o meu irmão Zico, já que ganhamos títulos em todas as equipes que treinamos, inclusive na Seleção do Japão – campeão da Copa da Ásia e classificando o país para uma Copa do Mundo. Mas a doença nos causa uma enorme tristeza, pois está ceifando vidas no mundo inteiro. Uma pena.

Defina Edu em uma única palavra.

Perseverança. Não vou colocar idôneo porque tive muitos pecados na minha vida (risos).






VOZES DA BOLA: ENTREVISTA CARPEGIANI


Nos ‘Aurélios’ da vida, a palavra predestinado significa que ou o que é destinado de antemão a. Na Teologia, basta dizer que ou aquele que foi destinado por Deus à glória eterna. Paulo César Carpegiani foi os dois.

Ser um grande jogador nem sempre é a garantia em tornar-se também um grande técnico. Exemplos, temos aos montes! No entanto, Carpegiani conseguiu unir o melhor em ambos os universos. Nos tempos em que calçava chuteiras, mesmo que a trajetória tenha sido abreviada pelas lesões no joelho, bastou uma década como profissional para eternizar seu nome no Internacional, levando o Colorado logo ao bicampeonato nacional, e Flamengo, onde emendou uma série de títulos como jogador e técnico. Foi um craque indiscutível.

Disputou uma Copa do Mundo, a de 1974, na Alemanha Ocidental, e mesmo com uma primeira fase cambaleante, se classificou ao vencer o fraco Zaire por 3 a 0, no estádio Parkstadion, em Gelsenkirchen, e foi até onde pôde ir ao cair de pé com seus companheiros, para o futebol revolucionário de uma Holanda, equipe comandada por Rinus Michels (1928-2005), temida e conhecida como ‘A Laranja Mecânica’.

“O jogo que o Brasil fez no primeiro tempo poderia ter nos dado uma possível vantagem de dois gols. Enfrentamos uma equipe sensação da Copa, e o Zagallo nos alertou sobre isso”, lamentou.

No entanto, antes de ser brilhante em campo e à beira dele, o destino deu uma boa ajuda para tornar essa história inesquecível quando fez quebrar o Aero-Willys 1963 da família na viagem para realizar um teste no Grêmio. Até hoje, os dirigentes do Internacional agradecem.

Mas falar de destino e de predestino sem usar Carpegiani, célebre meio-campista, que foi príncipe ao lado do ‘Rei de Roma’ Falcão no Internacional e que liderou um esquadrão do Flamengo de um outro ‘Rei Rubro-Negro’ chamado Zico, é chover no molhado.

Mas para quem usou tão brilhantemente os pés, usar as mãos seria viver um dilema sem precedentes, que foi, até certo ponto, com a ajuda de Dino Sani, meio caminho andado. Basta dizer que está lá na rica história rubro-negra, Paulo César Carpegiani como técnico que comandou o Flamengo na Copa Libertadores da América e no Mundial Interclubes, ambos em 1981, logo após encerrar a admirável carreira de jogador.

Cerebral, craque, clássico! Estes são os dotes da letra C, de Carpegiani, nosso personagem da série Vozes da Bola.

Por Marcos Vinicius Cabral
Edição: Fabio Lacerda


Como foi sua infância em Erechim, a segunda cidade mais populosa do norte do Rio Grande do Sul?

Minha infância foi uma vida normal como a de todo garoto que é apaixonado por futebol. Acho que Deus me deu esse dom, me encaminhou na estrada da vida e disse: “Olha, essa vai ser a sua profissão!”. As coisas foram acontecendo muito naturalmente, e até hoje, eu me faço a mesma pergunta: “Se eu não fosse jogador de futebol, o quê seria?”. Sinceramente, não saberia responder para você e muito menos para os leitores do Vozes da Bola. Na minha época de escola sempre adorei jogar futebol, fazia bola de meia e ficava ensaiando ‘balõezinhos’ na cadeira, e os pés dela serviam como o gol. Aos 14 anos, comecei jogando futebol de salão no Cruzada, time de adolescentes que foi campeão em competições estaduais, e próximo dos 17, atuei no Meca, que era um time de um empresário muito influente da cidade que acabou me contratando para trabalhar no escritório da fábrica de balas chamada Peccin. No entanto, o futebol de salão sempre foi a minha origem, mas isso não impedia de receber convites para me transferir para o futebol de campo e refutava muito por entender que no campo havia uma imensa distância entre o jogador e a bola, diferente do time do futebol de salão. Mas, uma vez ou outra, incentivado por colegas, joguei em clubes de Erechim como o Atlântico e o Ypiranga, este último, tendo realizado alguns treinamentos com os profissionais. Mas sempre amei jogar bola, e no salão, a proximidade com a bola é intensa, diferente do campo. Coisa de criança mesmo!

E como foi a história em que você só não foi jogar no Grêmio porque o carro enguiçou na estrada? E dois dias depois, você pegou um ônibus em Erechim rumo à capital, depois entrou em um táxi e errou o trajeto indo parar no Estádio dos Eucaliptos, de propriedade do Sport Club Internacional. Isso, de fato, aconteceu?

Não, a história não foi desta forma como é divulgado pelos meios de comunicação e é encontrada na Internet. Vou te explicar como começou e terminou tal história. Em 1968, quando eu fui fazer vestibular de Engenharia, em Porto Alegre, aproveitei para fazer um teste no Internacional, recomendado por um zagueiro profissional do Atlântico de Erechim que chamava-se Garcia. Escrevi uma carta para o Abílio dos Reis que era um ‘garimpeiro’ de talentos muito conceituado em Porto Alegre e que revelou grandes craques para o Grêmio e o Internacional. Nesta época, o Abílio era o treinador das categorias de base do Internacional, e com uma carta escrita pelo Garcia, fui fazer o teste como meio-campo. Fiz um treino no Estádio dos Eucaliptos, preenchi uma ficha com meus dados, assinei no rodapé dela o meu nome e fui embora. O tempo passou e dois dias antes de voltar à capital para estudar, meu vizinho, – até hoje me pergunto como isso aconteceu -, recebeu uma ligação de um senhor conhecido como Chiquinho que dizia ser treinador dos juvenis do Grêmio. Ele foi na minha casa me chamar para atender a ligação. “Olha, aqui é o Chiquinho, sou responsável pela categoria juvenil do Grêmio e estou sabendo que você está indo para o Internacional e gostaria de te esperar no Aeroporto Salgado Filho para você treinar aqui na base do clube. Teria problema?”, perguntou. Eu disse que não e falei com meu pai. Isso foi numa segunda ou terça-feira, se não me recordo, e partimos eu, dirigindo o Aero-Willys 1963 da família, meu pai Hermínio, minha mãe Leda, minha irmã Tânia e meu irmão Celso, para a viagem. No percurso de Erechim a Getúlio Vargas, a estrada era de terra e devo ter passado em uma pedra que danificou o eixo cardan que é aquele que faz o movimento de rotação das rodas. Danificado, este eixo começou a bater no assoalho do carro causando um desconforto e fazendo um barulho enorme. Depois de 40 quilômetros, nós paramos numa das oficinas na cidade de Getúlio Vargas para fazer o reparo. Ora, havíamos saído de casa às 8h, o carro ficou pronto para seguir viagem às 13h. Ficou impossível chegar no horário marcado com o senhor Chiquinho. Cientes disso, seguimos direto para a cidade onde moravam os familiares do meu pai que fica em Flores da Cunha perto de Caxias do Sul. E na manhã seguinte, fui direto treinar no Internacional. Na verdade, esta história de embarcar no ônibus na minha cidade natal, depois pegar um táxi que errou o trajeto indo parar no estádio dos Eucaliptos, nunca aconteceu.

E o Chiquinho, responsável pelo juvenil do Grêmio, está até hoje te esperando?

Pois é, este encontro não ocorreu. O Grêmio era muito forte, e talvez, eu não sei se teria oportunidade de mostrar meu futebol. O Internacional foi aquela situação que aconteceu na vida graças a Deus.

Como foi sua chegada ao Internacional?


Foi em 1969. Eu já havia estado lá, fui aprovado no teste pelo Abílio dos Reis, o descobridor de talentos em Porto Alegre. Joguei seis meses, e Osvaldo Rola, treinador dos profissionais, me subiu à equipe principal. Realizei dois jogos amistosos pelo Internacional que terminaram empatados em 0 a 0, sendo um contra o São Paulo do Rio Grande e o outro contra o Monte Negro. Fui bem, no entanto, esse treinador, me chamou e disse: “Olha, eu já ouvi falar do teu pai, que foi uma grande craque, e que você e seu irmão, apesar de serem muito bons de bola, não serviriam para amarrar os cadarços das chuteiras dele quando ele jogava futebol. Para ser sincero, estou com medo de te queimar!”, disse na ocasião. Sabendo que teria que voltar para os juvenis e ter que ficar mais um tempo por lá, eu peguei minhas coisas, fui embora e larguei o futebol. Desolado, voltei a Erechim, e completamente decepcionado com o futebol, decidi ficar por lá tocando minha vida, focando nos estudos e vivendo. Mas o Abílio dos Reis foi atrás de mim e acabei voltando, pois como eu tinha que terminar meus estudos, já que sonhava prestar vestibular para Engenharia, acabei fazendo Economia e Administração de Empresas.

Conhecido no Internacional como Paulo César, começou a jogar na equipe principal em 1970. Adotou o nome Carpegiani na Copa de 1974 para não haver confusão com o outro famoso Paulo César, o Caju. Quem te deu a ideia de incluir o Carpegiani ao seu nome?

Foi a imprensa. Ela usou o meu nome Carpegiani para fazer essa diferenciação com o Paulo César Caju que era um jogador muito famoso e que atuava no Flamengo antes de se transferir para o Olympique de Marseille. Antes disso, eu era chamado por todos e conhecido apenas como Paulo César. Os repórteres começaram a me chamar de Carpegiani e assim ficou.

Você foi titular do Brasil na Copa do Mundo de 1974, substituindo Clodoaldo. Na sua opinião, o que faltou para a Seleção Brasileira ter conquistado o título?

Zagallo, então treinador à época, enfrentou algumas dificuldades naquele Mundial, como a desistência de Pelé em disputar sua quinta Copa do Mundo, a lesão de Clodoaldo e a reformulação que precisou ser feita no elenco. Eu atravessei uma grande fase no Internacional jogando como meia e tive o privilégio de ter sido lembrado e convocado pelo Zagallo, assim como Ademir da Guia, Rivellino e Paulo César Caju. No segundo jogo – 0 a 0 contra a Iugoslávia – aconteceu a lesão (torção no tornozelo) do Leivinha no segundo tempo. E como o Leivinha era um jogador mais adiantado, o Zagallo me colocou nesta posição, ou seja, um ponta de lança chegando e se aproximando do centroavante que era o Jairzinho. E eu estreei nesta partida. O Piazza estava jogando como volante e assim que terminou o jogo o Zagallo me chamou e perguntou se eu teria dificuldades em atuar como cabeça de área, pois a intenção dele, segundo ele próprio me falou, era escalar um meio-campo comigo, Rivellino, Paulo César Caju e Dirceu. Eu falei que não havia problema algum, mas deveria ver com o Piazza, pois ele estava jogando e o ‘Velho Lobo’ respondeu que isso era um ‘problema’ dele que era o treinador. Eu não era da posição, e talvez, o Piazza ficasse chateado. O Zagallo soube administrar bem a dúvida. Mas assim, respondendo à sua pergunta que é o que interessa: empatamos com Iugoslávia e Escócia por 0 a 0, e vencemos o Zaire por 3 a 0. Nas oitavas, vencemos a Alemanha Oriental por 1 a 0, nas quartas batemos a Argentina por 2 a 1, perdemos para a Holanda por 2 a 0 na semifinal numa partida muito truncada, violenta e acabamos desclassificados. Mas a Copa que o Brasil fez se resume ao primeiro tempo contra a Holanda. Poderíamos ter ido para o intervalo com o placar a favor. Enfrentamos um time sensação da Copa e fomos alertados pelo Zagallo. Eu vi isso dentro de campo. Quando eles lateralizavam a bola, ou seja, deixavam os laterais saírem jogando, faziam pressão, resultando numa asfixia tão grande no nosso campo defensivo que não conseguimos fazer a bola chegar à frente. Tanto eu como o Rivellino, invertemos as jogadas. No segundo tempo, uma desatenção nossa, o Marinho Chagas foi atravessar uma bola e deu no pé de um jogador holandês que cruzou e o Neeskens deu um carrinho para fazer o gol. O Cruyff fez o segundo batendo de primeira um cruzamento sob medida vindo da esquerda. Depois disso, tivemos o Luís Pereira expulso por reclamação e ficou bem difícil para o Brasil. Poderíamos ter feito dois gols no primeiro tempo. E o velho jargão do futebol entrou em cena: ‘quem não faz, leva!”.

Você formou, ao lado de Paulo Roberto Falcão e Caçapava, um trio de meio-campo que entrou para a história do futebol brasileiro, ganhando sete dos oito títulos do Campeonato Gaúcho que o Inter faturou de 1969 a 1976. Além disso, foi bicampeão brasileiro nos anos de 1975 e 1976. Foi seu momento mais marcante na sua curta carreira de jogador de futebol?

Eu sou muito grato a origem que tive no Sport Club Internacional, onde fui feliz, aproveitei as oportunidades e como jogador profissional, posso te assegurar que apenas no ano de 1977, já no Flamengo, não conquistei um título na carreira naquele jogo contra o Vasco em que o Tita perdeu um pênalti, partida esta em que não atuei. Dos 15 títulos disputados, juntando, ganhei 14. Mas isso não quer dizer que a fase mais marcante foi no Internacional. Minha transferência para a Gávea foi um dos momentos mais marcantes na minha carreira.

Qual jogo com a camisa do Internacional você lembra até hoje como a atuação mais exponencial?

Tive muitos jogos importantes. Quando eu fecho os olhos começo a lembrar os Gre-Nais em que joguei. Mas historicamente, o jogo em que o torcedor Colorado não esquece até hoje foi a vitória por 2 a 0 contra o Fluminense (Máquina Tricolor), e em seguida contra o Cruzeiro, jogos que acabaram culminando com a conquista do nosso primeiro título Brasileiro em 1975. Como fiz o segundo gol, a partida contra o Tricolor das Laranjeiras se tornou inesquecível para mim e vencer aquele belíssimo time, sem tomar conhecimento de grandes jogadores que eram adversários, é algo para jamais esquecer. Para se ter uma ideia do que foi aquela partida, eles deram dois chutes em 90 minutos no nosso gol, e a título de curiosidade, foi nesse jogo que entrou o Caçapava no time, pois quem vinha atuando era o Escurinho, titular desde então. Mas o (Rubens) Minelli optou pela entrada do Caçapava na equipe e usou como tática a minha liberação e a do Falcão para armarmos as jogadas ofensivas contra a defesa Tricolor. Deu certo e foi a minha melhor atuação com a camisa Colorada.

Como surgiu o interesse do Flamengo na sua contratação?

Eu havia estado na Copa do Mundo de 1974 com o Cláudio Coutinho, coordenador técnico do Zagallo. Ao assumir o cargo de treinador do Flamengo, me indicou para ser contratado pela diretoria do clube, em 1977. Vale frisar para os leitores que o Internacional não queria me vender e entendo, que, por ser ídolo do clube, e ter construído toda uma história no Beira-Rio, era complicado deixar o clube. Para ter uma ideia do que estou te contando, havia um diretor financeiro chamado Stroungo, que não queria de jeito algum me deixar ir para o Flamengo. E teve uma história curiosa, pois em 1976, o Flamengo tentou a minha contratação com a morte do Geraldo quando ele se submeteu a operação de retirada das amígdalas. Em 1977, o Flamengo tentou novamente, e o Stroungo mais uma vez não deixou eu ir. Lembro que estávamos em um jogo amistoso no Mato Grosso do Sul e ele acabou falecendo no sábado. No domingo de manhã, dois dirigentes rubro-negros, Márcio Braga e Joel Tepet, foram de jatinho particular lá em Mato Grosso do Sul para me buscar e acertar a minha contratação. E fui direto para o Maracanã, pois naquela época havia ainda o saudoso torneio início, e a minha família surpresa, lógico, me viu e ficou se perguntando: “Como foi jogar em Mato Grosso do Sul e apareceu no Maracanã?” (risos). E foi desta forma que comecei no Flamengo, substituindo o craque Geraldo.

De certa forma, substituir um jogador do quilate de Geraldo, te incomodou?

De forma alguma. Eu sabia que se tratava de um excepcional jogador. Eu estava chegando em um clube muito importante do futebol brasileiro, e aos poucos, fui tomando conhecimento da grandeza que era o clube e da importância de jogar nele. No entanto, na minha chegada, o Flamengo era taxado como clube que só conquistava títulos regionais, e eu tive a felicidade de pertencer a uma geração que começou a se formar nos últimos anos da década de 1970 e que mudou isso.

Como foi sua estreia com a camisa Rubro-Negra?

Olha, lembro um pouco da minha primeira vez em campo com a camisa do Flamengo, mas se não me engano, foi um jogo que terminou empatado contra o Olaria, em março de 1977. O primeiro gol foi na goleada por 7 a 1 contra o Volta Redonda dois meses depois.

Como foi jogar com as feras Andrade, Adílio e Zico que acabaram se sagrando campeões estaduais de 1978 e 1979, e Brasileiro de 1980?

Foi formidável, excepcional! Mas de certa forma era natural jogar com eles. Antes, eu tive o Merica, grande jogador e que não pode ser esquecido como companheiro. Já o Andrade, por exemplo, estava voltando de empréstimo da Universidad de Los Andes Fútbol Club, de Mérida, em 1979, e ficou por dois anos no futebol venezuelano. No entanto, formei com Adílio e Zico, um senhor meio-campo. Vale lembrar que na decisão do Campeonato Brasileiro de 1980, o meio-campo foi formado comigo, Andrade e Zico. Mas jogar com estes craques não foi tão fácil como muitos acham, pois até este time chegar a formatação ideal que o nosso treinador Cláudio Coutinho queria, levou um certo tempo para se tornar um time vencedor.

Na opinião do treinador Paulo César Carpegiani, qual time foi melhor: o Internacional de 1976 ou o Flamengo de 1980?

Difícil compará-los, pois são equipes distintas. Mas te digo o por quê: na época em que o Internacional conquistou os títulos regionais e Brasileiros, era uma equipe que, apesar de ter alguns jogadores técnicos, se prevalecia da força, de pegada e competitividade, enquanto o Flamengo, em contrapartida, se notabilizou pelo futebol leve, de habilidade, toque de bola. Mas foram, apesar de dois belíssimos times, diferentes.

Você parou muito cedo, aos 31 anos, por problemas no joelho. Queria que você nos contasse como aconteceu a contusão, já que você operou o menisco em 1975, e como foi encarar o fato de pendurar as chuteiras no auge, pois era craque consagrado com uma Copa do Mundo disputada, sete títulos regionais e um bicampeonato Brasileiro pelo Internacional e estando no Flamengo?

Não lembro como aconteceu, mas não foi nenhuma entrada dura de nenhum marcador ou algo do tipo. Eu operei, em 1975, e no ano seguinte, tive uma grave lesão na virilha. Pensei em parar de jogar. Eu sou de uma época que a parte física sempre foi bem exigida, e no Sul, isso era bem acentuada. Houve o desgaste dos meniscos. O meu corpo não estava mais aguentando a exigência dos jogos, e como eu era um jogador dinâmico e técnico, tentei ir um pouco além. Eu senti o desejo em largar o futebol porque era o momento adequado de parar e isso estava me prejudicando e também os companheiros nas partidas. Isso foi em 1981 e cheguei a jogar algumas partidas, mas não deu. A decisão de pendurar as chuteiras foi acertada. Fui honesto comigo e com todo o plantel.

E como aconteceu a transição de jogador para técnico?

Quando o Cláudio Coutinho saiu no ano anterior, indo para os Estados Unidos, entrou em seu lugar o Modesto Bria, depois o Joubert, em seguida o Dino Sani, este último havia sido meu treinador no Internacional em uma época muito vitoriosa. Eu abri o jogo com ele dizendo que abandonaria o futebol. Ele ficou surpreso, mas falou: “Negativo, você vai trabalhar aqui no Flamengo comigo e será meu auxiliar!”. Assim, iniciei na carreira de auxiliar técnico. Mas foi uma coisa bem natural, nada programado ou arquitetado. Simplesmente aconteceu. O Dino acabou saindo, e o Antônio Augusto Dunshee de Abranches, mandatário do Flamengo entre 81 e 83, me fez o convite e aceitei. Nessa transição de jogador para treinador, não senti muitas dificuldades, porque eu contava com um elenco recheado de pessoas especiais e que me ajudaram muito. Mas o processo de montagem daquele Flamengo que é considerado o maior de todos os tempos não foi uma tarefa tão fácil assim. Por exemplo, o Raul não era o nosso camisa 1, o Toninho estava como titular, e uma vez ou outra o Leandro entrava. O Adílio estava treinando em separado dos demais, o Lico, contratado a pedido do Coutinho para substituir o Zico em alguns jogos, foi lançado por mim naquele 6 a 0 contra o Botafogo em 1981. Aos poucos, fui ajustando peças e fiz um time competitivo, forte e que conseguiu obter êxito em quase todas as competições. Lembro, inclusive, de uma crônica no Jornal do Brasil, assinada pelo João Saldanha, em que ele questionava o fato do Baroninho, então titular, jogar bem em 11 jogos e sair em dez para a entrada do Lico. Comigo, o meio de campo passou a ser formado pelo Andrade, Adílio e Zico, jogadores que são grandes ídolos da história do Flamengo e considerados como três dos maiores meios-campistas do clube.

Você considera os títulos da Libertadores e do Mundial, ambos pelo Flamengo em 1981, como os mais importantes na sua carreira de treinador?


Como técnico, não tenho a menor dúvida. Mas naquela época não havia tantos torneios e competições importantes como hoje. Considero as duas conquistas citadas na pergunta como muito importantes e fundamentais para eu poder dar seguimento à carreira. Na verdade, eu acho que toda conquista tem seu peso, sua relevância, seu valor, mas esses dois eu tenho um carinho especial, pois levam um asterisco que simboliza as dificuldades que foram para nós conquistá-los.

Até hoje, muito se fala do soco desferido pelo Anselmo em Mario Soto. Conte para os leitores do Vozes da Bola o que de fato aconteceu naquela partida? Você, realmente, invocou o suplente do Flamengo a agredir o chileno?

Boa pergunta, mas é preciso retroceder um pouco para respondê-la e falar da primeira partida em que vencemos o Cobreloa em casa. Na segunda partida, no Estádio Nacional, em Santiago, bastava um empate e seríamos campeões. Entretanto, vale como registro dizer que fomos tratados de uma maneira muito hostil dentro e fora de campo. E isso se evidenciou muito no jogo. Meus jogadores me informaram que o Mario Soto jogava com uma pedra numa das mãos. Mas ora, como ele escondeu aquela pedra na mão? Encontrou dentro de campo? Entrou com ela escondida no meião? Sei que ele arrebentou o supercílio do Lico e o deixou de fora da partida decisiva. Foi uma covardia muito grande e uma decisão que eles estavam jogando de forma ardilosa, cruenta e desleal. A maneira que o time do Cobreloa estava se portando dentro de campo foi muito feia. Minha equipe ficou muito abalada com esses acontecimentos e perdeu o jogo por 1 a 0. No último e decisivo jogo, havia, apesar da revolta generalizada no elenco, a premissa dos meus jogadores de reverter esse placar adverso jogando futebol. Aquilo mexeu com o brio do time. Nossos jogadores queriam dar como resposta à truculência chilena, jogando bola. Mas sem o Lico, tive que mexer na equipe e trouxe o Leandro, pela versatilidade, técnica e habilidade, para o meio-campo, adiantei o Adílio para jogar na ponta-esquerda e coloquei Nei Dias na lateral-direita. Cara, foi um bombardeio de todos os lados e lembro que o João Saldanha desceu o pau em mim na coluna dele no Jornal do Brasil em virtudes das improvisações que fiz na equipe na decisão da Libertadores. Mas fomos para o jogo. O Leandro e o Adílio, improvisados, atuaram bem. O Leandro fez uma partida esplêndida. As alterações que fiz naquele momento não tiraram a técnica, velocidade e pegada, que foram fundamentais para a conquista do título. Mas quando faltavam cinco minutos para o fim da partida, surgiu o famoso soco de Anselmo. O fato aconteceu quando a bola estava sendo disputada na lateral-esquerda. O Mario Soto veio e sem ninguém esperar, deu uma porrada no rosto do Tita sem bola. Agressão covarde e premeditada. Naquele momento, nosso banco quis entrar em campo, inclusive o nosso presidente. “Anselmo, vem cá! Você viu o que ele fez com o Tita? Entra e dá no meio dele e pode sair!” Falei para entrar em campo sem aquecer porque o jogo estava na reta final. Ele entrou e seguiu à risca a minha ordem, ou seja, entrou, deu uma porrada na cara do Mario Soto e acabou gerando a confusão toda captada pela televisão. No final do jogo, o Kléber Leite, repórter de campo da Rádio Globo, veio me perguntar se eu havia dado ordem para o Anselmo agredir o Mario Soto. Respondi que sim e contei toda a história para ele me responsabilizando pela confusão. Acabei sendo suspenso pela Confederação Sul-Americana de Futebol, e o Anselmo foi questionado dentro do clube pelos dirigentes se estaria presente no Mundial pelo incidente causado. Eu questionei e expliquei que o Anselmo não deveria ser punido porque ele apenas obedeceu uma ordem expressa minha, e se alguém tivesse que não viajar em detrimento ao que ocorreu, em Santiago, esse alguém deveria ser eu. Mas ficou tudo bem e acabamos conquistando o título Mundial em dezembro.

A que você atribui ser considerado o 3° melhor treinador da seleção paraguaia de todos os tempos?

Poxa, que legal! Eu nem sabia desta informação! Isso é um reconhecimento das campanhas que realizei no Cerro Porteño nas duas oportunidades em que trabalhei no clube, onde conquistamos os títulos do Campeonato Paraguaio de 1992 e 1994. Coloco o fato de treinar uma seleção diferente do meu país de origem, ser segundo lugar nas Eliminatórias em 1997, jogar uma Copa do Mundo e realizar uma campanha excelente como realizamos com o Paraguai em 1998, é sim, para ser considerado como um grande feito. Mas o sentimento é de orgulho, pois só quem está lá disputando o torneio mais importante do planeta, vive um momento ímpar, mágico e especial como eu tive a oportunidade de viver. Sou muito grato ao Paraguai por ter me dado o privilégio de vivenciar isso.

Como foi montar um time que ganhou respeito, principalmente pelo setor defensivo, que contava com o goleiro Chilavert, o lateral-direito Arce (que atuou por Grêmio e Palmeiras) e uma dupla de zaga com Ayala e Gamarra? Este último, no auge da forma, não cometeu uma falta sequer na Copa do Mundo de 1998, algo excepcional para um zagueiro. O Paraguai chegou até às oitavas de final, mas perdeu para a campeã daquela edição, a França. O que você tem a falar sobre essa Copa?


Isso foi fruto de uma ótima Eliminatórias que realizamos. Terminamos em segundo lugar com um ponto a menos que a poderosa Argentina comandada pelo Daniel Passarella e que contava com Zanetti, Verón, Ortega, Simeone, Claudio López, Gallardo, Crespo e Batistuta. Nossa equipe era muito forte na parte defensiva e carecemos de um grande armador, aquele camisa 10 que sabia distribuir o jogo, que chamava a responsabilidade para si e decidia a nosso favor os jogos. Fui do Oiapoque ao Chuí procurando por esse jogador e não encontrei, o que acabou se tornando para nós uma carência na competição. Infelizmente, tivemos a falta de sorte de bater de frente com a anfitriã na primeira fase eliminatória. Sofremos o gol aos nove minutos do segundo tempo da prorrogação. Confesso que saí daquele Mundial com a cabeça erguida. Realizamos um excelente trabalho, e mesmo com as adversidades, lutamos como guerreiros.

Em 1999, você teve uma passagem sem resultados expressivos no comando do São Paulo e ficou marcado com o episódio do afastamento do goleiro reserva Roger devido ao fato dele ter posado nu para uma revista de conteúdo feminino. Hoje, passados 22 anos, qual o balanço que você faz dessa passagem pelo Morumbi e acha que agiu certo em afastá-lo?

Eu tive duas passagens pelo São Paulo e formei dois belos times que marcaram épocas – 1999 e 2010. Inclusive, vale a pena citar que foi feita uma reportagem sobre um levantamento das campanhas dos treinadores do clube nos últimos nove anos. Eu apareço em primeiro lugar com aproveitamento de 66,6%, o Leão vem em seguida com 63,3% e o Muricy Ramalho, tricampeão brasileiro, vem em terceiro com 59,9%. Isso foi apenas para deixar claro para os leitores que as minhas passagens não foram tão ruins assim. Sou lembrado pelos torcedores deste grande clube do futebol brasileiro, que é o São Paulo, exatamente pelo trabalho desempenhado lá. Sobre o episódio, eu tinha um supervisor que era o Rubens Minelli, que foi meu treinador no Internacional, e o Roger estava sem contrato e queria muito renová-lo. Neste período, ficamos sabendo do surgimento de um convite da revista G Magazine, que era uma revista erótica voltada para um determinado público de ambos os sexos. No primeiro momento, o Minelli conversou com ele. Em seguida, fui falar com ele e expliquei que não ficaria legal um atleta profissional de um grande clube posar nu. Na nossa conversa, expliquei que não tinha nada contra a revista e nada contra os que posam nu, mas fui incisivo e perguntei: “Roger, me diz a verdade: o teu problema é financeiro? Você está fazendo isso por dinheiro?”. Ele respondeu: “Sim, estou fazendo por dinheiro!”. Eu e Minelli fomos à direção e pedimos para renovar o contrato dele e isso acabou sendo feito. Depois disso, ele mesmo me disse que não posaria mais e que o problema da falta de dinheiro havia sido resolvido. Passado algum tempo, o Minelli me liga e diz que a revista do Roger nu estava nas bancas sendo vendida. Ao lado do Minelli, decepcionado, reuni todo o elenco no centro do campo com a presença do Roger, desabafei dizendo que me senti traído, pois fui à diretoria do clube, pedi para renovarem o contrato dele e após me garantir que não posaria nu, descumpriu o acordo. Falei ainda para ele na roda de jogadores, que comigo ele não trabalharia mais e comuniquei aos diretores do clube. À época, isso repercutiu muito mal e foi parar até no programa da Hebe Camargo, quando o cantor sertanejo Zezé di Camargo, torcedor do São Paulo, e a própria Hebe, me criticaram abertamente. Jogador de futebol tem que preservar a imagem, pois é referência para um monte de gente, inclusive crianças.

Quem foi seu ídolo no futebol e por quê?


Ídolo é uma palavra muito forte, mas admiração eu tive por alguns grandes jogadores. O Rivellino é um deles. O Zico, é o outro. O Galo, está entre os cinco melhores jogadores do mundo de todos os tempos que eu vi jogar. Por quê? Porque ele foi um jogador completo. Batia bem com a esquerda e com a direita, cabeceava bem, cobrador de falta como poucas vezes vi, excelente lançador, sabia concluir, e era um jogador que antes de a bola chegar já sabia o que fazer. O único pecado, se podemos assim dizer, foi não ter conquistado uma Copa do Mundo, mas eu não levo muito em consideração isso. Eu tive um privilégio triplo, pois joguei com ele, fui seu treinador e convivi com ele fora de campo. Não digo, como perguntado, que é meu ídolo, mas foi um jogador marcante para mim.

Escale o melhor time com quem você jogou?

Caramba, é sério isso? Essa é complicada para responder. O melhor time com quem eu joguei? Vamos lá: Primeiro tempo eu começo com Manga e depois entra o Raul; Leandro, Mozer, Figueroa e Júnior; Andrade, Falcão e Zico; Tita, Nunes (Claudiomiro), e Adílio (Lula),

Como tem enfrentado o Covid-19?

Encaro essa pandemia com um cuidado especial, pois sou a favor das vacinas. Recebi as duas doses dela, uso máscara, álcool em gel a todo instante e fui e continuo sendo um respeitador dos protocolos sanitários exigidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Dito isso, acho que tem muita demagogia nisso aí e algumas contradições. Por exemplo, eu tive Covid-19 em janeiro deste ano e perdi o olfato. Mas acontece que eu havia fazendo o tratamento precoce e o preventivo. Não sei se tem fundamento, mas para mim e para um ‘mundaréu de gente’ que eu conheço e que fizeram o mesmo que eu fiz, conseguiram sobreviver. Tenho alguns amigos que não fizeram esse tratamento de ser medicado logo no segundo dia. Você consegue ter essa superação e vencer este vírus. Agora, deixar passar uma, duas semanas e querer fazer esse tratamento com os antibióticos, não dá. Ou seja, você pode até se salvar, mas que vai ser necessário ser intubado e vai passar um ou dois meses no hospital, não tenho dúvidas. Manter o distanciamento social é tão importante quanto o tratamento precoce. Eu fiz, minha esposa e filhos fizeram e não tivemos problema nenhum. Acredito que esta doença é muito pessoal e quem contrai o vírus, vai tratá-lo da maneira mais conveniente. E vejo isso sendo, politicamente falando, muito criticado, e não deveria ser assim. O importante é cada um cuidar de si. Muitos querem vender a ideia de que tratamento precoce não existe e garanto que não é assim. O tratamento preventivo salvou muitas pessoas.

Em uma única palavra, como você definiria o Paulo César Carpegiani?

Simplicidade. Eu era um jogador simples e isso me possibilitou jogar em dois grandes clubes do futebol mundial que foram Internacional e Flamengo, além de disputar duas Copas do Mundo como jogador e técnico.

VOZES DA BOLA: ENTREVISTA PEPE


“Mais santista de todos os santistas”. Era uma segunda-feira de Carnaval quando José Macia veio ao mundo naquele 25 de fevereiro de 1935, na cidade de Santos. Muito antes de tornar-se ídolo da torcida alvinegra praiana, ser considerado o maior ponta-esquerda da história do Santos e vestir o branco emblemático no uniforme do clube da Vila Belmiro em 750 partidas e 403 gols marcados, Pepe se tornou o segundo maior artilheiro da história do clube. Mesmo assim, enfrentou intempéries para ser jogador de futebol.

Convencer o pai, conhecido como ‘Espanhol’, a deixá-lo mostrar seu potencial jogando futebol, foi uma das maiores marcações cerradas que o ponta-esquerda eterno do Peixe sofreu. Suplicou ao pai para deixá-lo fazer o que mais amava na vida: jogar futebol e mostrar seu dom. Driblar o preconceito social à época e a fungada no cangote de uma marcação homem a homem do pai pode ser considerada uma das grandes jogadas da vida dele.

Mas Pepe estava certo e fez dos números, argumentos, que confirmariam a certeza da escolha pelo esporte bretão – viveu as maiores glórias da história dos Santos entre 1954 e 1969. Conquistou 25 títulos, sendo 11 Campeonatos Paulistas, seis Campeonatos Brasileiros, duas Copas Libertadores da América, dois Mundiais Interclubes e quatro Torneios Rio-São Paulo. Isso quer dizer que Pepe tem o feito, a honraria, de ser o jogador com mais títulos por uma única equipe.

Mais números? Na Seleção Brasileira, entrou em campo 40 vezes, anotando 22 gols, e integrou o elenco que ganhou as Copas do Mundo de 1958 e 1962, na Suécia e Chile, respectivamente. Mas antes dos números significativos, realizações profissionais e títulos conquistados, a primeira vez que Pepe, conhecido como o ‘Canhão da Vila’, pela potência do chute, entrou em campo foi vestindo a camisa do São Vicente, time da Baixada Santista, antes de chegar à Vila Belmiro em 1951, estreando na equipe profissional três anos depois. Pepe é o quarto maior artilheiro do futebol brasileiro vestindo apenas uma camisa. Somente Pelé, Roberto Dinamite e Zico balançaram mais as redes adversárias do que ele.

Depois de 20 anos de incômodo jejum de títulos, em 1955, marcou o gol do título do Campeonato Paulista na partida contra o Taubaté, vencido pelo Peixe por 2 a 1, que seria o primeiro de muitos troféus em sua vitoriosa trajetória pelo clube de vários Reis do futebol.

Ademais, na forma mais sublime de quem tem a plena consciência da relevância para o Santos, a perna esquerda de Pepe fala por si só e já se auto-proclamou por diversas vezes como o maior goleador terráqueo do único time que defendeu como atleta profissional: “Eu sou o maior artilheiro da história do Santos, porque o Rei não conta, ele é de outro mundo”, brinca, sorridente, o ex-atacante, referindo-se a Pelé, que balançou as redes 1.091 vezes com a lendária camisa 10 santista.

Entre risadas, lembranças e um show de simpatia de quem tirou tantas histórias empoeiradas pelo tempo, os jornalistas Marcos Vinicius Cabral e Fabio Lacerda, com o toque de categoria de Gisa Macia, também jornalista craque e filha de José Macia, entrevistam mais um craque para o Vozes da Bola.


Por Marcos Vinicius Cabral
Edição: Fabio Lacerda

Pepe, é verdade que seu pai, mais conhecido por Espanhol, era contra sua carreira de jogador de futebol, já que naquela época a profissão era considerada como reduto de malandros?

Naquela época, jogador de futebol não tinha uma fama muito boa e diziam que muitos deles gostavam de noitadas, bebedeiras e de farras. O passar do tempo fez meu pai enxergar o futebol por meio de outro prisma. Passou a considerar a carreira de jogador tão digna quanto qualquer outra profissão. Eu, como não era favorável a nada que fosse contrário a jogar futebol, queria ser atleta de futebol, mas o meu pai, pela própria rigidez que ele costumava educar os filhos, com carinho é claro, mas com as mãos firmes e fortes, relutou muito.

Como foi sua fase amadora jogando no infantil do Mota Lima Futebol Clube, no juvenil do Comercial Futebol Clube e no Clube Recreativo Continental?

Uma fase muito boa. O Comercial era um time nas cores vermelha e branca, e meu irmão, Mário, foi um dos responsáveis pela fundação deste clube. Havia naquela época uma rivalidade enorme entre Comercial e Vila Melo. Os jogadores, craques de bola, só jogavam descalços, e os jogos eram muito disputados. Certa vez, os diretores destes dois clubes, depois de tanto se enfrentarem e criarem essa grande rivalidade, se reuniram, e ao invés de jogarem um contra o outro, fizeram a fusão e surgiu o Clube Recreativo Continental. Era um bom time. A intenção era enfrentar o Corinthians da Vila Cascatinha e o Paulistano da Vila Toloi.

Como foi o dia 4 de maio de 1951 quando o jovem Pepe, então com 16 anos, pisou pela primeira vez no gramado da Vila Belmiro e ter sido aprovado no teste pelo técnico Salu?

Eu fui levado pelo ‘Cobrinha’, goleiro do Comercial e do Continental, e como ele era o camisa 1 do infantil do Santos, falou com o Salu, treinador. Fui fazer o teste e tive a aprovação. Naquela época, para jogar no profissional, era necessário ter pelo menos 20, 21 anos. Não é como agora que há garotos despontando cada vez mais cedo e lançados aos profissionais de suas respectivas equipes. Então, a gente tinha que fazer um vestibular, que era passar pelo infantil, juvenil, amador, até chegar nos profissionais, a faculdade de todo atleta de futebol. Mas foi em maio de 1951, na Vila Belmiro, não havia Centro de Treinamento. Neste dia eu marquei um gol na baliza de entrada do estádio. Lembro que foi um belo chute de fora da área e fiquei muito feliz em ter pisado no palco sagrado dos craques do Santos. Depois indo embora, o Salu me chamou e disse:”Pepinho, eu vou ficar com você. Traz os seus documentos que eu vou te cadastrar e você será jogador do infantil do Santos”. Poxa, foi um dos dias mais felizes da minha vida!

O senhor pode nos contar como foi sua estreia no dia 23 de maio, partida diante do Fluminense, no Pacaembu, pelo Torneio Rio-São Paulo?

Foi a minha primeira experiência no time do Santos. Eu já vinha me destacando na equipe profissional e na mista, pois naquela época, era comum quatro ou cinco atletas profissionais jogarem também na equipe mista. E aí, teve um treinador italiano que passou um curto período no comando da equipe chamado Guiseppe Ottina, que me viu jogar, gostou e me lançou na equipe profissional contra o Fluminense, no Pacaembu, pelo Torneio Rio-São. Eu, lógico, fiquei extremamente feliz, pois ia enfrentar Castilho, Pinheiro, Pinga, Bigode, Telê Santana, Didi, ou seja, um timaço, e faltando uns 20 minutos para terminar o jogo e eu entrei em campo. Foi assim a minha estreia, algo inesquecível para mim!

Como surgiu o apelido de Canhão da Vila?

Tudo começou na Mota Lima, que era uma rua do bairro de São Vicente, na Região Metropolitana da Baixada, em que morávamos. Nesse bairro, jogávamos em um time que era considerado muito bom. Os jogos eram descalços e o chão era uma areia muito fofa chamada por nós de areião, Era nosso estádio. De cada lado, lógico, bambus representavam as traves e por ter um chute forte, eu vivia derrubando o travessão (risos). Certa vez, deu um chute tão forte, mas tão forte, que o travessão caiu na cabeça do Cobrinha, o mesmo goleiro que me levou para fazer um teste no infantil do Santos. Quando eu calcei as chuteiras e comecei o processo de adaptação e a me habituar com a bola, percebi a força que o meu chute começou a alcançar. Nas equipes de base fiz muitos gols de fora da área e de faltas, que eram o meu forte. Um radialista de Santos chamado Ernani Franco, que tinha uma voz impecável e era muito ouvido, começou a me chamar de Canhão da Vila. Mas o meu chute era muito forte mesmo, e você e os leitores do Vozes da Bola conseguem imaginar a velocidade de um carro a 120 quilômetros por hora? Pois é, era o meu chute! Mas velocidade, drible e chute forte, eram as características que um ponteiro precisava ter para se destacar naquela época. O meu drible era razoável, mas o chute era uma potência que foi aos poucos sendo aprimorado em treinamentos e em muitas conversas com Jair Rosa Pinto. Foi meu companheiro de clube e me ensinou a bater de três dedos na bola. Modéstia à parte, não existe no futebol brasileiro até hoje, jogador que tenha feito mais gols de falta como eu marquei.

Podemos dizer que dentre as partidas importantes em sua carreira, a segunda do Mundial Interclubes de 1963, diante do Milan, no Maracanã, foi a mais marcante?

Sem dúvida. E por vários aspectos. Na Itália, o Santos havia perdido por 4 a 2. Nós, então, tínhamos que reverter esse placar porque era decisão do Mundial de 63 e preferimos jogar no Maracanã por se tratar de um grande estádio e com dimensões maiores do que as dimensões da Vila Belmiro. E se fôssemos jogar no Pacaembu, os corintianos, palmeirenses e são-paulinos iam torcer contra, pois naquela década, o clube não tinha tantos torcedores como têm hoje. Além de enfrentar o excelente time do Milan, tinham os torcedores adversários. Jogar no Rio de Janeiro, se não me engano, partiu do Lula, nosso treinador, que segundo a sua ideia, os torcedores do Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco, torceriam a nosso favor e nos ajudariam a reverter esse placar. Sabíamos que nossa missão não era nada fácil e terminamos o primeiro tempo perdendo por 2 a 0. No intervalo, o nosso treinador deu uma preleção e disse: “Eu acredito em vocês e vamos reverter isso!”. Mas todos do elenco santista sabiam que ganhar aquele jogo era ‘improvável’. O time dos caras era ótimo. E para piorar, uma chuva torrencial caiu no Rio de Janeiro. Mas vou te contar um segredo: foi essa chuva que nos beneficiou, sabia? Eu me aproveitei disso e como chutava muito forte, marquei dois gols de falta no grande goleiro Ghezzi, que foram o primeiro e o quarto, respectivamente, na goleada por 4 a 2 contra o super Milan Ganhamos sem Zito, Pelé e Calvet, que estavam contundidos. E fomos para a terceira partida decisiva, novamente, no Maracanã e vencemos com gol de pênalti do falecido Dalmo, criador da paradinha, nos sagrando bicampeões mundiais. Um ano antes, havíamos vencido o Benfica, que diferente do Milan, era um time que jogava e deixava jogar, com craques como Eusébio, Simões, Torres e etc. Mas vencer o poderoso Milan, equipe forte, com marcação cerrada e jogadores que chegavam duro nas jogadas, teve um sabor especial, sem dúvida! Particularmente, acho que essa vitória é até hoje a maior da história em 109 anos de existência do Santos Futebol Clube por tudo o que aconteceu nestes 270 minutos da decisão.

É verdade que, mesmo, às vezes, sendo caçado em campo por marcadores violentos e maldosos, o senhor jamais foi expulso de campo, e por essa rara disciplina recebeu o troféu Belfort Duarte?

Verdade. Foi um troféu conquistado por disciplina, pois para ganhar essa honraria era necessário não ter sido expulso e eu nunca fui em toda minha carreira. Foram 750 partidas pelo Santos, mais 42 na Seleção Brasileira e nunca recebi um cartão vermelho em toda minha vida como atleta profissional. Mas me orgulho muito de ter recebido este prêmio, pois no futebol brasileiro são três ou quatro jogadores, no máximo, que receberam este troféu. Agora, como treinador é difícil receber este prêmio (risos). Porque você fica muito dependente de jogadores e passa a não depender de si próprio. Mas como treinador eu não ganharia o Belfort Duarte. Na verdade ninguém ganhará! Mas é um prêmio que eu guardo com carinho aqui em casa até hoje. Significou um marco na minha carreira de lealdade, de honestidade, e principalmente, de disciplina.

O senhor foi convocado para as Copas do Mundo de 1958, na Suécia, e 1962, no Chile, mas se machucou nas vésperas das duas Copas e não pode atuar em nenhuma partida nestes dois primeiros títulos mundiais da Seleção Brasileira. Queria que falasse das contusões e se não ter disputado as Copas do Mundo foi a maior tristeza na carreira?

Sim, me machuquei no Santos na véspera da Copa de 58, e quatro anos depois, tive a infelicidade de me machucar também. Um jogo contra o País de Gales. Estava me preparando para ser o titular da seleção, pois os treinadores Vicente Feolla em 1958 e Aymoré Moreira em 1962, gostavam muito de ponteiros ofensivos e jogando no Maracanã senti um estiramento na panturrilha. E por ser uma competição curta, fiz o tratamento à base de gelo e compressa de água quente, considerados remédios da época. No quarto jogo, quando faltavam dois para o término da competição, eu melhorei, mas era um risco jogar dessa forma, pois se o atleta se machucasse, teria que jogar sem um jogador. As substituições eram bem diferentes de hoje em dia. Até mesmo o número de jogadores no banco de reservas era reduzido. Mas o Aymoré Moreira, que adorava o meu futebol, preferiu não correr o risco e manteve a equipe que vinha ganhando com o Zagallo na ponta-esquerda.

“Eu sou o maior artilheiro da história do Santos, porque o Rei Pelé não conta, ele é de outro mundo”, disse o senhor certa vez ao ser questionado sobre os seus 403 gols, o que o torna o segundo maior artilheiro da história do Santos. O que representou ter feito tantos gols com a camisa do Peixe?

Fazer tantos gols em uma equipe apenas é um feito histórico. A gente sabia que o Pelé era o maior jogador de todos os tempos e era o grande artilheiro com seus 1.282 gols. Eu, com meus 403 gols, me sentia extremamente feliz. E quando eu falo disso, o Pelé até ri, mas eu me considero o maior artilheiro do Santos mesmo, pois o Rei não conta (risos). Eu lembro como se fosse hoje quando o Pelé, ainda menino, chegou para fazer teste no Santos. Curiosamente, eu estava nesse dia na Vila Belmiro, e o Waldemar de Brito se virou em minha direção e me apresentou o Pelé: “Pepe, estou trazendo esse garoto para fazer teste aqui no clube e tenho certeza que vocês vão gostar do futebol dele”. O Pelé apertou a minha mão com tanta força que quase quebrou meus dedos. Ele chegou estreando o seu terno azul marinho e calças compridas, e o Lula quando viu aquele menino treinar ficou boquiaberto e profetizou: “Meu Deus, o que é isso? Esse vai ser o maior jogador do Brasil!”. Errou. Pelé se transformou no maior jogador do mundo!

O que o senhor lembra daquele 3 de maio de 1969, diante de um público de 22. 810 espectadores, quando deu adeus à carreira de jogador junto a torcida santista com uma volta olímpica no gramado da Vila Belmiro antes da partida entre Santos e Palmeiras, vencida pelo visitante por 1 a 0?

No Santos, os dirigentes do clube gostavam muito de mim por vários motivos, como nunca ter sido expulso, ter sido um jogador que só deu alegrias à torcida santista, e por ser um atleta disciplinado. Mas o contrato era de um ano e surgiam naquela época, dois pontas-esquerdas de muita categoria que eram o Edu e o Abel. Mas foi emocionante dar a volta olímpica, ser aplaudido de pé pela grande torcida do Santos, e ouvir de muitas pessoas o apelo para não parar de jogar. Mas te confesso, sem arrependimento algum, que foi a decisão certa, pois em seguida me tornei treinador respeitado e com uma carreira vitoriosa no próprio Santos, no São Paulo, Fortaleza, Inter de Limeira, Athletico Paranaense e Verdy Kawasaki, do Japão. Sem contar que uma das maiores alegrias, foi ouvir, certa vez, do renomado treinador Pep Guardiola, que aprendeu muito comigo quando foi meu jogador no Al-Ahli, do Qatar.

Em 1973, o senhor já era treinador e dirigiu a grande equipe que conquistou o título paulista, o seu primeiro como treinador e o último da carreira do Rei Pelé. Como foi viver essas duas emoções em um único ano?

Fomos campeões em 1973 e era o treinador da equipe. Os diretores haviam observado que eu era querido no clube e com um bom relacionamento com todos, desde os faxineiros, passando pelos jogadores e seus torcedores, até a imprensa. Deram-me esta oportunidade e quebramos um longo jejum com a conquista do título. Foi meu primeiro título, e aos 38 anos, mantive-me incentivado pelos desafios que surgiriam dali por diante. E as coisas aconteceram. Poder fazer com que a minha família pudesse, por meio do meu trabalho, conhecer países e culturas diferentes, foi recompensador. Por onde trabalhei, exigia nos meus contratos a presença da minha família por perto.

E o que o senhor tem a dizer sobre o Pelé? Na sua opinião, é o maior jogador de todos os tempos?

Depois que o Pelé nasceu, ‘seu’ Dondinho e ‘dona’ Celeste rasgaram a fórmula do sucesso e nunca vai aparecer um jogador como ele foi. De vez em quando aparece algum bom jogador, não preciso citar nomes aqui, pois foram vários grandes craques surgidos antes e depois do Pelé, mas igual ou superior, nunca vai existir. Pelé era completo. Batia com a perna direita e com a esquerda tendo a mesma precisão, exímio cabeceador, impulsão, chute, velocidade, visão de jogo, sabia fazer lançamentos, gols e dotado de uma categoria inigualável. O mundo conheceu jogadores excepcionais como o Puskás, Eusébio, Di Stéfano, Bobby Charlton, Beckenbauer, Cruyff, Rivellino, Zico, Maradona, mas o Pelé está degraus, eu disse degraus, acima deles todos.

Quando o senhor treinou o Al-Ahli, do Catar, entre 2003 e 2005, orientou o espanhol Pep Guardiola, que se mostrou interessado pela história do Santos bicampeão mundial de 1962/63. O senhor tinha certeza de que o Pep Guardiola se tornaria um ótimo técnico e adepto do futebol ofensivo?

Ele era bem jovem e havia jogado contra o Santos algumas vezes. Percebi o quanto ele jogava bem. Depois, o tempo passou, ele amadureceu mais como jogador e era um cabeça de área que entregava muito bem a bola para os meias criarem as jogadas ofensivas. Certa vez, tomando um chá na companhia do meu filho e do sheik que me perguntou: “Do you want to have Pep Guardiola on your team?” (Quer o Guardiola no seu time?”) Eu respondi: “Can bring it to tomorrow!” (Pode trazer ele para amanhã!). Dito e feito. Na semana seguinte, lá estava ele conosco. Lembro que na apresentação, ele me disse que havia escutado falar de mim e que eu tinha um chute forte e coisa e tal. Começamos a trabalhar e nossa equipe era modesta, sem grandes nomes ou jogadores de seleções. Guardiola se tornou um líder do time. Eu achava curioso que ele era um jogador de meia cancha, um volante de contenção, que jogava à frente dos zagueiros como brilhantemente faziam o Clodoaldo e o Dunga. Mas ele fazia bem essa função e entregava muito bem a bola para os meias criarem as jogadas de perigo do nosso time. Foi um sucesso sua participação na equipe e depois já se tornaria um excelente técnico, sendo considerado o melhor técnico do mundo, sem esquecer que aprendeu muito com meus ensinamentos.

Em 2012, o senhor lançou um livro de memórias, com o título “Bombas de Alegria, meio século de memórias do Canhão da Vila”, no qual conta histórias curiosas do futebol. Sua biografia foi escrita por Gisa Macia, sua filha, formada em jornalismo, não é mesmo?

Fui incentivado pelo José Luiz Tahan, editor da revista Mais Santos, a lançar um livro sobre a minha vida. E assim foi feito, com passagens extremamente curiosas, casos interessantes no futebol, O livro tornou-se um sucesso. E como tenho, graças a Deus, uma memória muito privilegiada, convidei a minha filha e jornalista Gisa Macia para escrever o livro que conta um pouco do que vivi dentro das quatros linhas como atleta profissional e à beira delas como treinador. Confesso que a biografia ficou muito boa, pois a Gisa Macia, além de minha filha, é muito inteligente e muito capaz nas coisas que se propõe a fazer. Foi um projeto bem bacana, onde viajamos bastante para o lançamento do livro e até hoje somos convidados a fazer o relançamento da biografia em determinadas cidades. Onde o Pepe vai, em companhia da sua filha Gisa, é sucesso total (risos). O maior barato disso tudo é que a curiosidade parte mais dos torcedores de outros clubes, e não somente os do Santos.

Como tem enfrentado o isolamento social em razão da Covid-19?

Eu estou com 86 anos e não é apenas em virtude da minha idade, mas é bom evitar riscos. A pandemia requer muito cuidado, e os meus quatro filhos, e a minha esposa, não permitem a minha saída. Mas quando alguns de seus colegas jornalistas querem fazer o trabalho deles comigo, tem que vir aqui em casa e me entrevistar, é lógico que mantemos o distanciamento usando máscaras e álcool em gel a todo momento. Mas sem máscara, nada feito, pois existem alguns irresponsáveis que não utilizam, e eu não largo a minha em hipótese alguma. A CBF mandou três máscaras para os campeões mundiais, e a gente vai usando sempre que pode. Achei uma atitude muito bonita por parte do órgão maior do futebol brasileiro fazer isso em um momento delicado como o que estamos vivemos.

Como o senhor definiria Pepe numa única palavra?

Decisivo. Às vezes, eu não estava em uma boa jornada, era muito vigiado pelos marcadores e encontrava dificuldades dentro de campo. E aí, eu resolvia tudo com um ‘foguete’ de fora da numa distância de 40 metros. O radialista Ernani Franco narrava, deste jeito: “Pepe não estava em um grande dia, mas decidiu a partida com um canhão”.