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TRISTEZA, POR FAVOR, FIQUE DO LADO DE FORA

7 / fevereiro / 2022

por Zé Roberto Padilha


Dizem que apenas Deus, e o resultado da Mega-Sena, um titulo alcançado aos 45 minutos do segundo tempo, podem decidir, quem nesta terra dos homens que amam o futebol, e perseguem a sorte, alcançará a felicidade.

Mas naquele domingo, 16 de julho de 1950, ele estaria nas mãos de um simpático e ardiloso mineiro. Seu Chico, radialista da Rádio Pequeri, era quem decidiria se sua gente explodiria de alegria, ou sucumbiria junto a todo país na mais completa dor do holocausto. Digo, perdão, Maracanaço.

No começo da década de 50, nem todos tinham rádio portátil em Pequeri, pequeno distrito de Bicas, zona da mata mineira, que só seria emancipado dois anos depois, localizado a 300 km de Belo Horizonte.

Os que tinham em suas casas, e ouviam a Voz do Brasil, Gerônimo, o Herói do Sertão, Emilinha e Marlene disputando o cetro de melhor voz pela Rádio Nacional, permaneceram desligados. Todos foram convocados para a praça principal para acompanhar pelas cornetas, fixadas aos postes, a final entre Brasil X Uruguai.

Era seu Chico quem comandava o microfone e ele estava inspirado. Era a bola sair pela lateral que ele fazia graça, baixava o volume que vinha da Radio Globo e anunciava um patrocinador.

Nem quando o Uruguai empatou a partida ele esmoreceu. E avisava, interrompendo seguidamente Waldir Amaral e Jorge Curi, onde a maioria das rádios pelo Brasil pegavam caronas: “O empate é nosso, minha gente. Brasil, zil,zil…”

E quando Gighia, aos 34 minutos do segundo tempo desempatou, Chico foi mais rápido do que o porta-voz do Apocalipse. E desligou o botão. E gritou, em nome dos ambulantes, que precisavam vender, da sua gente, tão esquecida, “Acabou! Somos campeões mundiais!”

Se o árbitro sempre dava minutos a mais, porque não posso antecipar alguns e evitar um trauma coletivo? No seu fundo musical certamente se ouvia: “Tristeza, por favor vá embora…”

Dizem, os mais antigos por lá, que a festa vazou a madrugada enquanto todos os 5 mil municípios pelo país ardiam em dor. E Pequeri, em Minas Gerais, foi, por 12 horas, a única cidade a comemorar o primeiro título mundial do futebol.

Quando acordaram e souberam do ocorrido, perdoaram o Chico. Que estava corrido. Para todos eles, foi um sonho vivido, uma festa não interrompida, um pesadelo superado, mesmo porque toda ressaca é ruim com qualquer resultado.

Nada que um Melhoral, quem se lembra, não resolvesse dia seguinte. Mesmo porque a tristeza, a verdade, a realidade nua e Gighia estava a caminho, pelas ondas médias da Rádio Globo, para recolocar a tristeza no seu devido placar.

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