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O FUTEBOL DE ZICO É UM AMOR QUE NUNCA MORRE

15 / agosto / 2021

por Marcos Vinicius Cabral


Os olhos de Zico buscavam o vazio de cada metro quadrado naquele vestiário. O gesto de envolver as canelas com ataduras, e prendê-las com esparadrapos ao colocar os meiões, vestir o short, a camisa e calçar as chuteiras, tudo era diferente naquele domingo ensolarado de abertura do Campeonato Carioca no dia 16 de fevereiro de 1986.

No alongamento, mascando chiclete, o semblante de Zico era sério. Sua fisionomia passava a imagem de quem se negaria, naquela tarde, a jogar com os pés como fariam Cantareli, Jorginho, Leandro, Mozer e Adalberto, Andrade, Sócrates, Bebeto, Chiquinho e Adílio. Preferiu jogar com o coração.

Naqueles 90 minutos vigiados pelos dígitos do relógio britânico de Luís Carlos Félix, árbitro da partida, Zico seria diferente de tudo o que os rubro-negros e tricolores já haviam vistos em todos os clássicos disputados entre Flamengo e Fluminense. Foi ali, naquele lugar tão ou mais sagrado de tudo que existe no futebol, que o camisa 10 rubro-negro puxou a fila e subiu pela primeira vez com um médico no time formado pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, em São Paulo, chamado Sócrates, que vestia a camisa 8 no lugar do jaleco e usava com desenvoltura o calcanhar no lugar do estetoscópio.

O desejo de Zico, ora, vejam vocês, era mostrar quem era o maior artilheiro da história do Maracanã que envergava a camisa 10 do Flamengo desde o final da década de 1970. Cerca de 84 mil pagantes sentaram-se nas arquibancadas, cadeiras, e muitos destes mil torcedores, fazendo a festa cultural na geral do estádio.

Nos últimos ajustes, a preleção dada por Sebastião Lazaroni, técnico à época, o círculo com os companheiros e o momento íntimo com Deus, ficaram no passado.


No campo bélico de grama esverdeada, o Fluminense se aquecia, e com o uniforme todo branco, vinha de um tricampeonato carioca, dois títulos sobre o Flamengo com o carrasco Assis (in memorian). À procura da felicidade, Nelsinho Rosa, treinador do Fluminense, e seus comandados, entraram naquele quadrado de 105 metros de comprimento por 68 de largura com o pensamento em lutar pelo tetra com seu tradicional pó de arroz e com sua bandeira que era tremulada por Paulo Vítor, Alexandre Torres, Vica, Ricardo Gomes, Branco, Jandir, Leomir, Renê, Romerito, Gallo e Tato.

Apito inicial dado, a cada toque na bola, Zico engolia a seco o grito de “Bichado! Bichado! Bichado!”, vindo do lado direito das cabines de rádio, onde a torcida tricolor fazia sua festa em três cores. A bem da verdade, o termo ‘bichado’ já havia sido proferido no ano anterior pelo ex-presidente rubro-negro Antônio Augusto Dunshee de Abranches, numa tentativa de justificar a venda do jogador para o futebol italiano concretizada em maio de 1983: “Zico estava bichado, a verdade é essa. Ele jamais será o mesmo. Se antes era o arco e a flecha, que armava e voava para finalizar, agora, no máximo, poderá apenas armar”, filosofou o dirigente rubro-negro para dar uma desculpa na negociação do Galinho de Quintino para a Udinese-ITA que valeu uma música de Moraes Moreira em homenagem ‘Às tardes de domingo sem Zico no Maracanã’.

Culpado pela venda do maior jogador da história do clube, Dunshee, insensível, tinha um coração duro e não se preocupou com todo esforço realizado pelo ídolo rubro-negro para voltar a jogar futebol, pelas horas de exercícios físicos e pelas horas de fortalecimento dos ligamentos do joelho direito em que se submeteu no departamento médico do clube. Aos olhos do dirigente, todo aquele empenho, todo aquele esforço, seriam em vão.

Mas do pontapé inicial ao primeiro gol feito numa bela trama, se passaram dez minutos em que Zico, camisa 10, de cabeça, saiu comemorando com o punho direito cerrado e sorriso de quem começava a fazer daquele Fla-Flu um jogo eternizado para os flamenguistas e que os tricolores preferem esquecer.


Mas, aos 43 minutos da primeira etapa, quando Leomir empatou em cobrança de pênalti, Zico olhou para o passado e com as mãos na cintura, estático, na entrada da área, olhou para a imensidão do céu e lembrou dos conselhos de ‘Seu’ Antunes (1901-1986), o pai, de ‘Dona’ Mathilde (1919-2002), a mãe, de Sandra, a esposa, com quem se casou em dezembro de 1975 na Igreja de São José, na Lagoa, Zona Sul do Rio e de tudo o que passou após a entrada criminosa do lateral Márcio Nunes naquele Flamengo x Bangu, em 29 de agosto de 1985, no Maracanã.

Fim dos 45 minutos iniciais. Vestiário é feito para esfriar a cabeça e recompor as energias. Mas Zico não aceitaria algo diferente que não fosse uma vitória para lavar a alma, uma atuação para ser lembrada e uma resposta à altura para quem o considerava acabado para o futebol: “Sem dúvida, eu queria provar a eles que aquilo tinha sido uma grande covardia de um ex-presidente que tinha me vendido para a Itália três anos antes. Para justificar a negociação, ele falou à imprensa que o Zico estava bichado e foi manchete nos jornais. Mas Deus me ajudou porque tudo que tentei naquele Fla-Flu deu certo. Minha bronca não era com a torcida do Fluminense e, sim, com quem falou besteira”, diria à época o maior camisa 10 da história centenária do Flamengo.

A virada veio em uma bela cobrança de falta no ângulo de Paulo Victor, aos 27 minutos. Bebeto fez o terceiro, aos 29, e Zico, mais uma vez, aos 34, desta vez de pênalti, fechando a goleada.

Três gols, atuação estupenda, jogadas inesquecíveis, alma lavada e a certeza que ele não estava acabado para o futebol.

Zico foi gênio. Foi um dos mais completos camisas 10 do futebol mundial de todos os tempos. Não ganhou uma Copa do Mundo, é verdade, da mesma forma em que outros 39 foras de série também não ganharam como escrevi em 27 de junho de 2018 no https://www.museudapelada.com/resenha/40-genios-sem-copas.


Passados 35 anos daquele confronto, o camisa 3, Leandro, que estava em campo naqueles 90 minutos, falou da atmosfera do clássico: “Havia uma expectativa enorme na volta do Zico ao Flamengo, e da estreia do Sócrates naquele jogo. A torcida do Fluminense começou a gritar nas arquibancadas Bichado! Bichado! Bichado! Aquilo ganhou uma proporção enorme dentro de campo, e, aí, já viu, né? Um gênio como o Zico, sendo instigado é pior. O melhor é ficar quieto. Mas os tricolores não pensaram assim e sofreram com a goleada e uma das melhores atuações do Galo, sem dúvida alguma. Foi uma volta espetacular e eu, como companheiro de clube e que estive em campo nesse Fla-Flu, só fico feliz por ter visto como testemunho ocular tudo aquilo de perto”, contou ao Museu da Pelada o zagueiro central Leandro que naquela época já havia deixado a lateral-direita, posição que o consagrou e o colocou entre os melhores de todos os tempos do futebol brasileiro.

Quando resolveu pendurar as chuteiras, Zico marcou, segundo o www.zico.com.br, 508 gols no Flamengo em 730 partidas disputadas entre 1972 e 1989. Mas no total, fez os adversários buscarem a bola no fundo das redes 826 vezes.

Como atleta profissional, Zico conviveu toda a sua carreira com um diabinho que vivia sussurrando em um de seus ouvidos: “Você não vai conseguir, você já era!”.

Enquanto um anjinho, de fala mansa, rebatia: “Você conseguiu. Obrigado por tudo que você foi como jogador de futebol, pelas alegrias dadas aos torcedores rubro-negros!”.

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