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Marcos Vinicius Cabral

SESSENTA E OITO VEZES JUNIOR

Ilustrações e texto: Marcos Vinicius Cabral

Junior e Heloísa se olharam e o silêncio respondeu à pergunta do filho do casal: “Pai, quando vou te ver jogar no Maracanã com a camisa do Flamengo?”, quis saber Rodrigo Gama, filho mais velho de Junior, homem que mais vezes vestiu a camisa do Flamengo e com ela ganhou tudo, ao assistir gols e mais gols de Zico em fitas VHS (formato anterior ao DVD).

Mas tal alegria de Digo, como é chamado até hoje pelos amigos mais chegados o pai do pequeno João Henrique, que vai fazer quatro aninhos no próximo dia 12, parecia sonho distante no fim dos anos 80. Fã dos lances do inseparável parceiro do Capacete, ardia no coração de Digo, o desejo em ver o pai com o Manto Rubro-Negro. Ganhar título seria bom demais, agora títulos como a Copa do Brasil, em 1990, o Carioca, em 1991 e o Brasileiro, em 1992, melhor ainda.

– Não lembro a maneira que fiz o pedido, mas via a fita do Zico direto, e a maioria dos gols era no Maracanã! – recorda-se.

Não teve jeito. Junior deixou o Pescara, o outro clube, além do Torino, que defendeu na Itália, no segundo semestre de 1989.

Mas Junior voltou para realizar o sonho do filho, pois nos cinco anos de futebol italiano, Leo Junior – como passou a ser chamado em Turim – conduziu, em 1984, o Torino ao vice-campeonato e acabou sendo eleito o melhor jogador daquele campeonato, que contava com craques como Maradona, Platini, Rummenigge, Falcão e Zico. Pouco tempo depois, já com a camisa do modesto Pescara, se tornou o segundo melhor estrangeiro no Campeonato Italiano de 1987, ficando à frente de nomes como Maradona, Careca, Van Basten, Gullit e Rijkaard e ajudou a manter a equipe alvi-azuis na elite da competição.

Mas Junior estava realizado financeiramente e a volta foi também para vencer desafios traçados por ele mesmo, já que era o único remanescente daquela geração vitoriosa que foi o Flamengo de 81.

Logo de cara, conquistou a Copa do Brasil – competição criada para aplacar o descontentamento das federações de vários estados com menos tradição no futebol nacional – em dois confrontos contra o Goiás, em 1990, em um time comandado por Jair Pereira e que contava com Uidemar, Zinho, Bobô, Renato Gaúcho e Gaúcho.

No ano seguinte, a frase “Ganhar Fla-Flu é normal” da torcida tricolor foi silenciada por Junior e com um sonoro 4 a 2, diante de quase 50 mil pagantes em uma noite de quinta-feira iluminada no Maracanã.

Mas a cereja do bolo na carreira, como ele próprio define, veio no Campeonato Brasileiro do ano seguinte, nos dois jogos contra o bom time do Botafogo: “Eu posso dizer que 92 representou muito mais do que os torcedores pensam, principalmente porque eu era o último remanescente daquela geração de ouro do Flamengo. Naturalmente, comandar aquela molecada toda foi motivo de prazer, satisfação e ter podido, mesmo aos 38 anos, dar minha contribuição para a história do clube”.

Naquele ano, Junior não só foi campeão Brasileiro de 92, mas foi eleito melhor jogador, Bola de Prata pela revista Placar e se tornou, com o bigode espesso e cabelos grisalhos, o vovô para os outros dez netinhos daquele Flamengo.

Perto de completar 30 anos da conquista do pentacampeonato brasileiro, dois anos antes, em 2020, em um ranking elaborado por jornalistas, Junior figurou na 2ª posição entre os maiores ídolos de futebol da história do Clube de Regatas do Flamengo, atrás apenas de Zico.

No entanto, uma das maiores alegrias deste paraibano que completa 68 anos nesta quarta-feira (29), ocorreu há quase quatro anos com a chegada do pequeno João Henrique, filho de Digo, este mesmo que naquele Fla-Flu de 1991, com apenas sete anos, correu em direção do pai suado pela dificuldade do clássico e com os braços abertos, agarrou-o pelas pernas e os dois, comemoraram juntos, em particular, aquele título, realização de dois sonhos: o de Digo, que viu o pai com a camisa do clube de coração e o de Junior, que realizou o sonho do filho.

ANDRADE FOI A NOTA MUSICAL DOS CAMPOS

texto e charge: Marcos Vinicius Cabral


O mineiro Jorge Luís Andrade da Silva seria mais um jogador como tantos outros negros, humildes e que saem da cidade natal para tentar a sorte no mundo traiçoeiro do futebol.

Mas Jorge Luís Andrade da Silva sabia melhor do que ninguém que se não fosse o amor dele pela bola que o transformou em Andrade, um dos mais completos e vitoriosos cabeça de área do futebol brasileiro, esse mineiro tão talentoso de Juiz de Fora ficaria pelo caminho.

Camisa 6 de um Flamengo imortal como foi o de 1981 que conquistou o mundo, foi um genuíno craque de bola na acepção da palavra.

Carregou o piano em muitos jogos inesquecíveis, como por exemplo, nas decisões da Libertadores e do Mundial, tendo Adílio e Zico, exímios pianistas que tocavam com os pés o dó, ré, mi, fá, sol, lá e si, notas musicais criadas pelo monge italiano Guido d’Arezzo (992-1050), que resultavam em gols.

Mas Andrade foi a melhor nota musical na cabeça de área que tocou no Flamengo em 1976, quando iniciou a carreira, até 1996, quando encerrou no modesto Barreira, que virou Boavista Sport Club, agremiação esportiva da cidade de Saquarema, Região dos Lagos, em 2004.

Até hoje, passados 34 anos que deixou de atuar pelo clube, nenhum outro jogador chegou perto da classe, posicionamento e habilidade dele naquele meio de campo.

Seus desarmes, comparada a uma frequência sonora medida em hertz (Hz), descrevia com exatidão se o contra-ataque era grave ou agudo.

O posicionamento dentro de campo, representação de uma partitura ou letra em uma tablatura, por muito tempo deixou a beleza do som daquele futebol no nosso inconsciente.

Quantos desarmes! Quantos passes! Quantos momentos inesquecíveis!

Mas o Tromba, eterno ídolo rubro-negro, é patrimônio nosso e não esqueceremos sob hipótese alguma o que produziu como bom operário da bola que foi.

O resultado foi os cinco Campeonatos Brasileiros que nos deu como jogador e o sexto como técnico naquele time com Petković e Adriano em 2009.

Portanto, se não esqueceremos da Libertadores, dos Cariocas, das Guanabaras, dos torneios internacionais e do Mundial Interclubes, por que não lembrar de Andrade que contribuiu de forma decisiva nessas conquistas?

Além de um bom pianista que produzia belos sons com os pés, cada flamenguista já esqueceu quando usou as mãos para assinar com o Vasco e ganhar o título brasileiro pelo time de São Januário em 1989.

Erro imperdoável? Talvez sim, mas o indulto foi concedido anos antes com o sexto gol contra o Botafogo naquele 6 a 0 devolvido em 1981, e no passe para Bebeto marcar o gol do título da Copa União em 1987.

Mas não esqueceremos da humildade, maior qualidade do imortal camisa 6. Só os GRANDES são humildes.

Nessa quinta-feira (21) Andrade faz anos e desejar-lhe um feliz aniversário é dever nosso.

Ah, e saiba que você estará para sempre no coração do verdadeiro torcedor do Flamengo.

Abraços do fã que daqui de longe o admira. Obrigado por tudo!

VOZES DA BOLA: ENTREVISTA SÁVIO

texto: Marcos Vinicius Cabral | edição: Fabio Lacerda


Sávio, um dos maiores dribladores do futebol brasileiro é aquele tipo de jogador que causava expectativas na torcida por suas inúmeras qualidades, e na maioria das vezes, o capixaba de dribles curtos, longos, desconcertantes e gols, fazia jus ao jargão rubro-negro: “Craque, o Flamengo faz em casa”. Era o tipo de jogador que valia pagar o ingresso.

Natural de Vila Velha, Sávio chegou ao Flamengo, em 1988, aos 14 anos. A partir dali, era natural e desafiador olhar para o plantel profissional, campeão da Copa União com diversos jogadores com passagem pela Seleção Brasileira, e vislumbrar que um dia levantaria a torcida do Flamengo jogando no time principal.

Aos 18 anos, Sávio é puxado ao time profissional pelo ex-craque como jogador e técnico, Carlinhos, apelidado de Violino, e torna-se campeão brasileiro atuando ao lado de Júnior, jogador que mais vezes vestiu o Manto Sagrado. O Anjo LoIro, entre categoria de base e profissional, teve a Gávea como casa. Até 1997, Sávio encantou com sua técnica aliada à leitura e inteligência de jogo. Era a flecha que disparava insinuante para cima dos zagueiros e laterais.

Sávio foi campeão carioca em 1996 após um ano de muita frustração com um time repleto de jogadores acima da média. E a cereja do bolo foi o ataque formado por ele, Romário e Edmundo, um ano antes. Não deu certo! Mas já pararam para imaginar se desse? Somente os ‘Deuses do Futebol’ teriam condições de explicar o inexplicável: por que o Ataque dos Sonhos virou um pesadelo?

No ano que deixou o Flamengo para juntar-se ao Real Madrid, em 1997, Sávio e a torcida podem ter tido a mesma sensação ou até mesmo uma lacuna deixada. Mas se o título do segundo campeonato nacional mais importante do Brasil não chegou antes da despedida – vice campeão para o Grêmio numa partida no Maracanã que o ponta-esquerda foi substituído por Lúcio depois de caçado em campo – , nove anos depois estava Sávio no time que venceu o Vasco da Gama no Maracanã, em 2006, quando, assim como ele, outrora, Obina caiu nas graças da torcida.

Aos 23 anos, Sávio torna-se merengue. E a partir daí, marcou seu nome na galeria de craques de um dos maiores clubes do planeta. Entre 1998 e 2002, Sávio continuou deitando e rolando. Desta vez, sendo campeão em profusão.

Sávio não deixou saudades somente no Real Madrid, clube pelo qual é o terceiro brasileiro com mais temporadas, atrás somente dos laterais-esquerdos, Roberto Carlos e Marcelo.

Em Zaragoza, a quinta maior cidade da Espanha e localizada a 300 quilômetros das vizinhas Barcelona, Madrid e Valência, Sávio também fez história e os títulos conquistados com a equipe possuem um grau de importância muito expressivo para o ex-jogador. Ser campeão da Copa Del Rey sobre o poderoso ex-clube e da Supercopa da Espanha, ambos em 2004. Foi um período curto no Zaragoza. O suficiente para marcar território no coração dos torcedores.

Nosso 43º personagem do Vozes da Bola, é o Anjo Loiro da Gávea, que fez um inferno na vida dos marcadores que muitas vezes apelavam para a violência.

1 – Como foi a infância de Sávio Bortolini Pimentel em Vila Velha no Espírito Santo?

Maravilhosa. Depois do meu horário da escola, passava a maior parte do meu tempo brincando nas ruas, mas jogar bola era minha paixão. Lembro bem que havia um campo ao lado da casa em que cresci. Minha infância foi boa porque tive a bola como minha melhor amiga. Para ser sincero, praticamente, eu dormia com essa ‘minha amiga’ (risos) quase todas às noites. O meu pai era um torcedor apaixonado pelo Fluminense, tricolor roxo, e eu cresci em uma família que mesclava botafoguenses, tricolores e flamenguistas. Ou seja, não teria como não gostar de futebol. Comecei jogando no Fluminensinho daqui de Vila Velha, time que era formado por garotos considerados bons de bola e que meu pai era o treinador. Em seguida, fui para a Associação Desportiva Ferroviária, clube grande daqui do estado. Comecei a disputar competições importantes na época. Despertei a atenção de alguns clubes como o Bahia, o Botafogo e o Vasco. No entanto, essas oportunidades acabaram não se concretizando. O destino me direcionou para o Flamengo com apenas 14 anos de idade.

2 – Como foi ter sido revelado nas divisões de base da Desportiva Ferroviária-ES?

A Desportiva Ferroviária representa muito para mim. Sou torcedor apaixonado, onde tudo começou. Joguei três anos e me orgulho em dizer isso, pela importância de realizar o meu sonho. Depois que recebi o convite do Flamengo, aos 14 anos, percebi que era a hora de ir embora e tentar alçar voos maiores para a carreira. Mas o início de tudo, eu devo a Desportiva, e é, sem dúvida, um clube inesquecível na minha vida e na minha carreira de jogador de futebol.

3 – Como foi sua chegada ao Flamengo em 1988?

Muito difícil. Imagine, você sair de uma cidade pequena como Vila Velha e chegar à ‘Cidade Maravilhosa’ para jogar em um clube do tamanho do Flamengo com apenas 14 anos? É complicado! Ver tantos jogadores chegando e ver a concorrência acirrada nos testes acaba se tornando algo especial. Mas não consegui nada sozinho. Tive o apoio de muitas pessoas, principalmente para fazer o deslocamento até o clube, já que eu morava longe. Foi uma rotina muito difícil para um adolescente de 14 anos. O Flamengo, à época, não dispunha da estrutura que tem hoje. Muito longe do que vimos nos dias atuais. Além das conduções para treinar, os locais mudavam muito. Tudo era estranho. Eu tive uma família a quem considero como meus pais, que me acolheu 18 meses. Esta família que me refiro era como a minha em Vila Velha no sentido de ser bem estruturada, sólida e unida. Nesse tempo, passei a morar na concentração do clube e acabei ficando lá por seis anos. Então, foi uma chegada difícil, houve obstáculos, lutas e situações novas que não estava acostumado. Agradeço a todos os profissionais do clube que passaram na minha vida nesse período.

4 – Após a aposentadoria de Zico, todo bom jogador que surgia na posição do Galinho de Quintino vinha a comparação. Você passou por esta situação nada cômoda?

Não somente eu, mas outros jogadores conviveram com este tipo de comparação que é um fardo para qualquer jogador que está subindo ao profissional. Acontecia muito isso, principalmente, nas décadas de 1980 e 1990. Para mim, confesso aos leitores do Museu da Pelada, em nenhum momento isso me incomodou. Muito pelo contrário. Fortaleceu-me dentro do clube, pois eu tinha um método de viver cada dia diferente dentro da Gávea. Necessitava conquistar meu espaço para eu chegar ao time de cima sendo o Sávio com minhas características, com o meu futebol, com o meu aprimoramento para aperfeiçoar alguns fundamentos. Agora, ser comparado a um dos maiores camisas 10 do futebol mundial e maior ídolo do clube, aconteceu para me fortalecer. O Zico sempre foi uma referência para mim. Espelhei-me nele e isso foi motivo de felicidade, dedicação e superação. O lado positivo da comparação foi a força interior que desenvolvi e a cada treino, a cada dia, ser melhor. Obviamente, a comparação foi muito complicada. Procurei ver esta situação com um olhar de responsabilidade pela grandeza do Zico. E foi um diferencial para a minha carreira.

5 – Por que Sávio, Romário e Edmundo, considerado o melhor ataque do mundo, não deu certo no centenário do Flamengo, em 1995?

Até hoje essa é uma pergunta difícil de ser respondida. Por que o ataque, considerado o dos sonhos, não deu certo? É necessário um entrosamento entre plantel, comissão técnica, dirigentes, para que a gestão administrativa refletisse dentro do campo. O Flamengo passava por muito problemas econômicos, e o atraso no pagamento dos salários eram constantes. A reformulação, em profusão, do elenco, foi outra situação que dificultou o entrosamento do time. O extra campo foi outro grande problema daquele plantel. Mesmo com todas as dificuldades, conseguimos chegar à final do Campeonato Carioca, na Supercopa dos Campeões, em que ganhamos sete dos oitos jogos, muito em virtude da individualidade de alguns jogadores daquela equipe, mas infelizmente não deu. A parceria com o Romário, na minha opinião foi positiva, Nós dois totalizamos 140 gols em 106 jogos. Particularmente, gosto de destacar isso todas às vezes que falo desse assunto. A pressão foi inexplicável, uma vez que a expectativa dos dirigentes e torcedores recaíram no ano do centenário do clube.

6 – Em um amistoso realizado no Japão, você e Romário chegaram a trocar empurrões. O que houve ali?

Naquele episódio, transformaram um pequeno atrito em algo que parecia ser de outro mundo. Eu e o Romário discutimos durante a partida que estendeu até o vestiário. O clima ficou ruim, mas passou! Na verdade, morreu ali. No futebol isso é tão normal, mas naquela época, tudo que envolvia o nome de Romário, ganhava grande proporção. O ocorrido foi motivado pelo andamento da partida na qual estávamos perdendo no primeiro tempo. O importante foi o carinho recíproco ao longo de três anos. Muito respeito um com o outro. Romário sempre foi muito profissional.


7 – Durante o Pré-Olímpico de Atlanta em 1996, você foi destaque na Seleção Sub-23, deixando Ronaldo Fenômeno no banco de reservas. Conte essa história.

A minha história com a camisa da Seleção Brasileira começou dois anos antes, quando fui convocado e joguei um amistoso contra a Islândia, em Florianópolis. Vencemos por 3 a 0 a partida que visava a preparação para a Copa do Mundo dos Estados Unidos em 1994. Mas apesar de estar vivendo uma grande fase no Flamengo, o grupo para disputar aquele Mundial já estava definido pelo Carlos Alberto Parreira. Depois da conquista do tetracampeonato, tive uma sequência na Seleção pré-olímpica e na principal. Mostrei evolução a cada jogo com a ‘amarelinha’ e mantendo a regularidade. Sobre ser titular e ter o Ronaldo Fenômeno no banco, eu sabia da qualidade dele e do momento de aparição para o futebol. Ele havia assinado contrato com o Barcelona depois de fazer chover na Holanda vestindo a camisa do PSV. Mas, eu prefiro lembrar com carinho sobre nosso convívio. Fomos companheiros de quarto em toda as Olimpíadas. A experiência de dividir quarto com ele foi maravilhosa, e nossas conversas sobre o futebol, família, futuro, seleção e Europa, eram muito legais. Eu tenho um carinho muito grande pelo Ronaldo, um atleta exemplar, um jogador diferenciado e foi um orgulho em tê-lo enfrentado e jogado ao seu lado também.

8 – Como surgiu o apelido Anjo Loiro?

É uma história engraçada. No meu primeiro gol marcado em um Fla-Flu, o saudoso Januário de Oliveira me chamou de Diabo Loiro. Ele era mestre na arte de improvisar. Mas esse apelido acabou incomodando a avó da minha esposa, senhora Nair, que é uma pessoa muito religiosa e sentiu-se incomodada com o apelido. Certa vez, em um shopping, no Rio de Janeiro, elas encontraram o Januário. A avó da minha esposa dirigiu-se a ele, e educadamente, pediu que não chamasse-me mais de ‘Diabo Loiro’. Ela disse para ele que eu era um anjo (risos)! No jogo seguinte, eu marquei um gol, e o Januário trocou o pseudônimo. Eu conseguia ser ‘cruel’, um dos bordões do Januário de Oliveira, sendo anjo.


9 – Como foi jogar ao lado de Roberto Carlos, Raul, Redondo, Seedorf, Figo, Zidane e Casillas, naquele timaço do Real Madrid que ganhou três Champions League e um Mundial?

Confesso que o início foi muito difícil. Foi apreensão, nervosismo e ansiedade ao chegar a um clube da grandeza do Real Madrid na temporada 1997/98. Lembro que a responsabilidade era enorme, já que há 32 anos, o clube não conquistava uma Liga dos Campeões. Imagina, a pressão que era jogar naquele clube! Foi desafiador jogar pelos merengues. Jogar com estes jogadores citados e outros tantos craques foram momentos inesquecíveis. Na primeira temporada, conquistamos o título e acabamos com o jejum. Sou torcedor do Real Madrid até hoje e me emociono toda vez que lembro do clube e desses momentos que passei lá no estádio Santiago Bernabéu. Foram cinco temporadas e conquistamos as principais competições. Fui bem recebido por todos, e graças a Deus, fui muito querido pela exigente torcida madrilenha. Fui feliz. Fui campeão. Escrevi meu nome na história do clube. Sou o terceiro jogador brasileiro que mais vezes vestiu a linda camisa branca do Real Madrid sendo superado somente pelos laterais-esquerdos Roberto Carlos e Marcelo.

10 – Você jogou um ano com Zidane, considerado o maior jogador do futebol francês de todos os tempos. Como foi essa experiência?

Sim. Foi minha última temporada no clube. A experiência em ter jogado com Zinedine Zidane, que vivia seu auge, foi muito rica e muito boa. Zidane é um cara sensacional, uma pessoa muito tranquila e, apesar de ter convivido com ele apenas por uma temporada, aprendi muito. Por se tratar de ter desfrutado pouco dessa convivência, eu busquei aprender, observá-lo nos treinamentos, ver o seu profissionalismo e o exemplo dele como pessoa fora de campo. Bastou um ano jogando com ele para eu enriquecer minhas questões pessoal e profissional. Zidane foi um profissional digno de ser chamado de craque.


11 – Sávio, você conquistou a Champions pelo Real Madrid em 1997/98, 1999/2000 e 2001/02. Foi o melhor momento na carreira?

Conquistar grandes títulos jogando pelo Real Madrid, realmente, foi o momento inesquecível. Não é fácil disputar cinco Liga dos Campeões e ganhar três. Em termos de maturidade, experiência, aprendizado e de evolução dentro de campo, não tenho a menor dúvida que foi o melhor momento da minha carreira. Se for falar de momento individual, eu não saberia te responder, sinceramente. O Real Madrid foi muito bom, tanto que eu tive a felicidade de cair nas graças dos torcedores madrilenhos. Mas com todo respeito ao que vivi no Real Madrid, nada se compara ao período que joguei no Zaragoza, onde fiquei três anos, disputei três finais e em duas sagrei-me campeão. Mas não posso esquecer meu auge individual no Flamengo que foi também marcante para a minha carreira.

12 – Você foi imortalizado no Real Zaragoza, onde conquistou os títulos da Copa do Rey da Espanha – sobre o Real Madrid – e da Supercopa, em 2004. Qual sua relação com os Blancos?

O Real Zaragoza foi algo muito especial na minha carreira. Individualmente, foi o meu melhor momento na Europa e fizemos um time forte, competitivo. A minha chegada, assim como a do zagueiro Álvaro, do Gabriel Milito, do David Villa, e o Leonardo Ponzio, que já estava no clube, criou uma consistência com jogadores de muita qualidade. Foram três temporadas e chegamos em duas finais – Copa do Rei e na sequência conquistamos a Super Copa da Espanha contra o Valencia, que era o atual campeão espanhol, na temporada 2003/2004. Por estes motivos, eu afirmo, sem sombra de dúvidas, que o Real Zaragoza foi um clube que me marcou, não só pelos títulos, pela coletividade de um grupo maravilhoso, pelo ambiente. A diferença é que, por exemplo, quando você vai jogar em um clube como o Real Madrid, automaticamente, cria-se sempre a expectativa da conquista de títulos. No Real Zaragoza é diferente, pois não há essa expectativa. Não só eu, mas vários jogadores daquele grupo, foram imortalizados como grandes ídolos da história do clube. É motivo de muito orgulho e fico lisonjeado em ter defendido as cores deste clube.

13 – Em junho de 2006, você voltou ao Flamengo, disputou apenas dez partidas e não marcou nenhum gol. O que houve?


Foi uma decisão muito pessoal. Eu havia perdido meu pai meses antes e foi um momento extremamente delicado para mim. Eu necessitava ficar mais perto da minha família, principalmente, da minha mãe. Eu lembro que estava com contrato vigorando por mais um ano com o Zaragoza. A rescisão foi com o clube espanhol foi conturbada, pois os dirigentes não queriam me liberar. Mesmo assim, decidi voltar para apenas um clube no Brasil: o Flamengo. Sei que chegaram propostas de outros clubes do Brasil, mas nem quis escutar. O Flamengo vivia um momento muito ruim, financeiramente falando. Voltei ciente do momento que o clube atravessava, mas não sabia que o problema era maior do que eu pensava. Nessa minha volta, em princípio, minha meta era encerrar a carreira no meu clube de coração, mas fiquei sem receber durante o primeiro semestre. A convivência não era das melhores e percebi nos bastidores que pessoas não estavam satisfeitas com a minha volta. Logo, a sequência para 2007 ficou insustentável e decidimos pela rescisão contratual.

14 – Sávio, o que você atribui o fato de nunca ter disputado uma Copa do Mundo?

Eu não tenho resposta. Todo jogador vive essa expectativa e quando você vem desempenhando um papel de destaque individual ou coletivo pelo clube em que está jogando, é normal acreditar que vai chegar a sua hora de defender seu país, vestindo a camisa da Seleção Brasileira. Mas isso nunca aconteceu e te garanto que não abalava meu emocional. Eu conseguia superar, dar sequência à minha carreira e isso acabou me fazendo mais forte para que eu, dentro do clube, pudesse melhorar e jogar mais. Jogar uma Copa do Mundo foi um sonho não realizado. Aguardei a minha vez e, em duas Copas do Mundo, acho que tinha condições de disputar: na França em 1998, e na Coreia do Sul e Japão, em 2002.

15 – Você era um ponta-esquerda insinuante que fazia gols. Qual foi o lateral mais difícil que você enfrentou e por quê?

Era o meu estilo de jogo. Eu tinha uma característica de jogo muito pessoal, própria. Eu fazia questão de não mudar porque achava que era característica nata. E uma dessas características que eu tinha era o drible, principalmente, em alta velocidade que acabava quebrando a marcação de alguns defensores bons tecnicamente e aqueles chegavam mais duro, que eram mais viris. Eu começava a driblar muito pelo lado esquerdo e depois fui me aprimorando em fazer as jogadas pelo meio, intermediária adversária. Os técnicos exploravam essa característica que eu tinha para vencer a tática do adversário.

16 – Antes de encerrar a carreira, em 2011, você jogou no Real Sociedad, Levante, Desportiva Ferroviária-ES, Avaí e o Anorthosis, do Chipre. Como avalia essas passagens por esses clubes?

Chegou um momento na minha carreira que, aos 33 anos, comecei a escolher o clube em que eu queria jogar. Isso me trouxe consequências, como abrir mão da parte financeira e, por outro lado, como forma de retribuição, algo pessoal como jogar três meses na Desportiva Ferroviária, que para o futebol local, foi algo muito positivo. Em seguida, surgiu a oportunidade de voltar para o futebol espanhol e jogar no Real Sociedad. No meu último ano na Espanha, aceitei um desafio ainda maior e fui jogar no Chipre. Foi uma experiência enriquecedora, pois joguei minha sexta e última Champions League em um clube desconhecido no cenário futebolístico e disputar uma competição dessa magnitude. Fiquei marcado no futebol cipriota. Para mim também foi muito bom ter jogado no Anorthosis, pois na fase de grupos, nós quase classificamos, e eu acabei sendo o jogador com o maior número de assistências da primeira fase, disputando pelo clube de baixo investimento diante dos grandes da Europa. Mas acho que nessa experiência, consegui deixar algo novo e diferente para o clube e marcar, junto com meus companheiros, o clube com esse feito, já que o Anorthosis tornou-se o primeiro clube do Chipre a chegar na fase de grupos da Liga dos Campeões, derrotando o Olympiakos da Grécia.


17 – Quem foi o seu melhor treinador?

Tive alguns bons treinadores como o espanhol Vicente del Bosque, o alemão Jupp Heynckes e o holandês Guus Hiddink, mas o melhor treinador que tive foi o Paulo Autuori no Flamengo, em 1997. Era um cara sensacional, de uma clareza enorme dentro e fora de campo, e que me ensinou muito enquanto estivemos trabalhando juntos.

18 – E o seu ídolo no futebol?

Zico. Um cara que eu me espelhei dentro de campo e sempre falo que eu era Zico Futebol Clube e passei a ser Flamengo depois. Quando o conheci, admirei ainda mais, e hoje, tenho nele um grande amigo, uma pessoa sensacional e que me fez enxergar o futebol de uma outra maneira. E sou grato a ele por isso.

19 – Como vê a crise sanitária do coronavírus no mundo?

Expectativa, ansiedade e tristeza. É difícil, em um âmbito geral, a gente analisar o que está acontecendo. Eu acho que ninguém esperava algo parecido com um vírus desse que veio para mudar muitas coisas na vida de todos nós. Devemos sim, pedir a Deus, conforto para os que perderam seus amigos e entes queridos. É muito difícil mensurar isso tudo de uma forma tão simples e em palavras. Eu tenho pessoas próximas que viveram e presenciaram momentos difíceis por causa do coronavírus, e nos resta orar a Deus para que isso passe o mais rápido possível. Precisamos, não só o Brasil, mas o mundo, viver o normal de novo!

20 – Defina Sávio em uma única palavra?

Definir o Sávio em uma palavra é muito difícil (risos). Muito complicado responder a pergunta, mas eu acho que sou um cara tranquilo, muito tranquilo por sinal, caseiro, de família, amigo, muito profissional e exigente demais comigo mesmo. O profissionalismo para mim era a base para se conquistar as vitórias, e o Sávio era isso.

TITA NÃO FOI UM 1° DE ABRIL

por Marcos Vinicius Cabral


“Mas eu sou o Leandro, p…!”, exclamei ao fazer mais um gol batendo no peito estufado, pé sobre a bola dente de leite e cara de zangado.

“Negativo, você não é o Leandro, não é o Zico, não é o Júnior, Adílio, não é ninguém do Flamengo. Você é o Tita do Grêmio e tira essa camisa número 2 das costas seu moleque”, respondeu seu Válter furioso.

E completou em seguida:

“Guina, vai pra dentro e bagunça esse atrevido”, ordenou para o habilidoso neto Marcelo, que recebera dele o apelido de Guina em homenagem ao clássico meio-campista vascaíno que jogou no clube de São Januário antes de se transferir para o Real Murcia, da Espanha.

Funcionário da Fábrica Fluminense Tecidos no Barreto, em Niterói, seu Válter era homem de confiança de seu Eduardo, acionista majoritário da empresa.

Torcedor do Vasco, sempre que podia sentava numa cadeira de balanço, onde gastava seu tempo livre nas tardes entre a leitura de seu Jornal dos Sports e as instruções que dava como treinador de futebol.

Em outras palavras, era o “Clássico dos Milhões” personificado naquele chão de terra batida, onde o meu time enfrentava o do Guina sob orientações de seu Válter, treinador dos dois times.

Criou-se então, uma rivalidade entre nós e assim foi uma boa parte da minha infância.

Ora marcando Guina, ora recebendo ordens de seu Válter.

Por alguns anos, Tita foi para mim, mocinho e bandido.

Mocinho de forma inquestionável ao ganhar tudo em 1981 pelo Flamengo e bandido ao fazer o gol do título do Vasco em 1987.

Poucos, bem pouquíssimos jogadores despertaram em mim amor e ódio com tanta equivalência.

Tita foi um deles.

Se chorei de emoção abraçado ao meu tio José Cláudio em Nova Friburgo com as conquistas da Libertadores e Mundial, me escondi por uma semana, inclusive indo embora do colégio direto para casa sem aparecer na pelada para não ter que marcar Guina e receber ordens do seu Válter, na decisão do Carioca seis anos depois.

Mas foi inevitável.

O curso da vida voltou ao normal e voltei a marcar Guina e receber ordens do seu Válter.

O tempo passou.

A fábrica fechou as portas no meio da década de 1990, seu Válter faleceu tempos depois e o Guina nunca mais vi.

Esse relato poderia ter sido mais um dos tantos que fazem parte deste 1° de abril, considerado o Dia da Mentira.

Mas felizmente, não é.

Da mesma forma que Milton Queiroz da Paixão, aniversariante de hoje, não foi um mero jogadorzinho qualquer.

Tita foi craque de verdade.

Destaque na base do Flamengo, foi treinado por Zizinho e Pavão e lá conheceu Adílio e Júlio César Uri Geller.

Franzino, o talento fez com que recebesse um tratamento especial do clube e passou por um tratamento físico semelhante ao de Zico.

Aliás, Zico, este que foi seu companheiro por anos, foi também o maior de seus problemas.

Pois seja na ponta-direita ou na esquerda, como ponta de lança e até atuando como centroavante, a 7 que carregou nas costas nos 391 jogos, era motivo de insatisfação.

Ele queria mais, ou seja, ardia o desejo em seu coração em vestir a 10, como disse certa vez em 1980, em entrevista concedida ao repórter Aristélio Andrade, da Placar e republicada na série Perfis do Flamengo, relançada em 2012.

“A posição que realmente gosto e onde me sinto mais à vontade é a do Zico. Mas não dá para mim, ali ele é o melhor jogador do mundo e se fosse esperar para jogar onde gosto envelheceria na reserva”.

Envelheceu sim mas nunca na reserva nos clubes por onde passou.

No Grêmio, foi símbolo ao lado de Hugo De Léon, onde conquistou a segunda Copa Libertadores da América, em 1983.

Não bastasse, desmistificou a imagem de jogador medroso e na final da competição sangrou ao lado do clássico zagueiro uruguaio.

O vermelho escorrido na face percorreu o mundo por meio da lendária foto de Masahide Tomikoshi, da Placar, e foi a cor do rival Internacional, no qual o mórmon jogou depois.

Sua missão era substituir o ídolo Ruben Paz no coração da torcida colorada.

Missão cumprida com êxito.

Sondado e sonhado pelo Corinthians, foi no Vasco com seu gol transloucadamente comemorado com a camisa cobrindo o rosto em 1987, que virou ídolo de verdade.

Tão ídolo que foi homenageado com a manchete do Jornal dos Sports: “O Títalo é do Vascão”.

Talentoso e por mais promissor que fosse durante a carreira, ora genial, ora genioso, suas escolhas não lhe deixaram ir mais longe.

Principalmente em 1982, na Seleção de Telê Santana, onde seria naturalmente o camisa 7, mas recusou e acabou sendo deixado de lado pelo teimoso treinador mineiro.

Em tantos anos como jogador profissional, realizou sonhos, conquistou títulos e pagou algumas promessas, como o 6 a 0 no Botafogo.

“Nas cadeiras do Maracanã, eu e Adílio assistimos o Botafogo meter seis no Flamengo e prometemos que, quando fôssemos profissionais, iríamos devolver essa vergonha”, disse à época ainda na base do Flamengo.

Nove anos depois, a promessa se cumpria quando Andrade estufou as redes de Paulo Sérgio, aos 42 minutos do segundo tempo.

“Naquele momento, apenas nos olhamos e nos abraçamos”, resume Tita ao falar de Adílio.

Desfilou como um cisne em outros gramados e vestindo outras camisas como a do Bayer Leverkusen, Pescara – ao lado do ex-companheiro de Flamengo Júnior e do centroavante Edmar -, León e Puebla, ambos do México e Comunicaciones-GUA, onde encerrou a carreira.

Aposentado dos gramados, a paixão pela bola não parou e apenas diminuiu seu tamanho.

Se tornou um ávido participante de competições do golfe, esporte este em que já venceu o Masters Tour do Rio de Janeiro e é filiado à Associação Brasileira de Golfe Sênior (ABGS).

Atualmente é comentarista de futebol, esporte em que boa parte da carreira buscou a 10 enquanto foi sombra de Zico.

Ganhou algumas vezes e perdeu outras.

Mas hoje o aniversariante tem motivos de sobra para comemorar seu 63° aniversário.

E o presente maior que poderia receber neste 1° de abril é a certeza que se não foi o 10 que sempre quis ser nos gramados, fora deles, nunca deixou de ser no papel de marido de dona Sandra e no papel de pai de Desiree, Lohram, Ablanche, e Fabien.

Nada mal, convenhamos, como da mesma forma encantou as torcidas do Flamengo, Vasco, Grêmio e Internacional, onde sua maior vitória foi ter se tornado ídolo nesses clubes.

 O FLA-FLU DO LEANDRO FOI O DA REDENÇÃO

Leandro é considerado, ao lado de Djalma Santos e Carlos Alberto Torres, um dos maiores laterais do futebol brasileiro de todos os tempos. Nesta quinta-feira (17) o eterno camisa 2 rubro-negro faz aniversário e o jornalista Marcos Vinicius Cabral, o mesmo que, nas peladas de rua, quando moleque, lá na longínqua década de 1980, no Barreto, em Niterói, imitava o Leandro, enquanto todos os outros meninos personificavam o Zico. Fã de carteirinha do craque que vestiu apenas o Manto Rubro-Negro em toda carreira, o autor da série Vozes da Bola, coletânea que homenageia craques do passado, escreveu sobre o jogo mais emocionante que o ídolo disputou, até se aposentar em 1990. Jogo este que é até hoje lembrado por rubro-negros e tricolores: o Fla-Flu, ou melhor, o Fla-Flu do Leandro!

 por Marcos Vinicius Cabral

 Leandro já havia passado por muitas coisas, até chegar o ano de 1985. Uma delas era a sua autoafirmação na posição de beque central do Flamengo (a escolha do número 3 foi obra do destino e também para homenagear o amigo Figueiredo, zagueiro que morrera em um acidente aéreo com o monomotor prefixo PT-NJS 193, que espatifou-se contra uma das partes dos 2.237 metros de altura do Pico da Caledônia, na Região Serrana de Nova Friburgo, em 1984), pois, com as articulações dos joelhos desgastadas pelo vai e vem que a lateral-direita lhe exigia, mudar àquela altura, era arriscado.


 A outra, era conviver com dores e tratamentos específicos para continuar jogando em alto nível, já que lhe era cobrado – não só pelos torcedores, mas também pela imprensa esportiva, treinadores e dirigentes rubro-negros – um futebol à altura da habilidade daquele menino de cabelos escorridos e olhos verdes, que deixou o futebol de salão do Tamoyo Esporte Clube, em Cabo Frio, Região dos Lagos, para jogar na lateral-esquerda do Santos, time amador de São Pedro da Aldeia, antes de mostrar grande repertório técnico e ser aprovado por Américo Faria, ex-coordenador da Seleção Brasileira, nos treinos no Campo da Base de Fuzileiros Navais da Ilha do Governador, Zona Norte do Rio.

 “Em 1976, eu era treinador do juvenil do Flamengo e realizávamos treinos de experiência toda às segundas-feiras. De tantos garotos, dois foram aprovados com sobras e encaminhados à Gávea”, relembrou em conversa com o Museu da Pelada pelo telefone.

 Cabeça de área dos bons, um foi Vítor Luís Pereira da Silva, nascido do dia 4 de novembro do ano de 1952 em Governador Portela, no interior de Miguel Pereira, sendo até hoje um dos poucos jogadores que defendeu os quatro grandes clubes do Rio de Janeiro – sagrou-se campeão em cada um deles. No Flamengo, jogou 136 vezes. Fez gols decisivos, como o da virada por 3 a 2 na semifinal do Campeonato Brasileiro de 1982, contra o Internacional, no Beira-Rio, e no Brasileiro do ano seguinte contra o Athletico-PR, na vitória por 3 a 0, no Maracanã, além, é claro, de ter conquistado os maiores títulos da história do clube, como a Libertadores e o Mundial, ambos em 1981.

 “Eu e o Leandro chegamos juntos no Flamengo e, por obra do destino, acabamos caindo no mesmo time nos treinos. O nosso treinador, o professor Américo Faria, viu qualidades no nosso futebol e nos aprovou de imediato. Havia a dúvida se o Leandro era direito ou esquerdo, devido a facilidade com que jogava com as duas pernas. Leandro foi um senhor jogador de futebol e, não à toa, virou esse monstro da posição”, revelou Vítor ao relembrar que, ao lado do camisa 2, disputou três finais consecutivas do Carioca de Juniores contra o Botafogo, perdendo as de 77 e 78 e vencendo em 79, antes de subirem para  os profissionais.

O outro, José Leandro de Souza Ferreira, tornaria-se um dos maiores laterais do futebol brasileiro, eternizado no coração e mente dos flamenguistas como simplesmente Leandro, que vestiu apenas uma camisa em 12 anos como jogador profissional: a rubro-negra.


E com ela, em 415 partidas disputadas, entre vitórias, empates e derrotas, uma em especial, até hoje, passados 36 anos completados em dezembro do ano passado, é lembrada por todos: o Fla-Flu do Leandro! Inclusive para o craque ambidestro, que considera aquele jogo o mais emocionante de todos os que jogou na carreira.

Mas, naquele Campeonato Carioca de 1985, disputado por 12 clubes em turno e returno, Vítor, seu companheiro das categorias de base, camisa 5, era titular do meio-campo do Vasco, que não se classificou para disputar o triangular, enquanto o número 3 pertencia a Leandro, zagueiro do Flamengo, que desejava o mesmo que o Bangu: impedir o tricampeonato do Fluminense.   

Todavia, enfrentar a equipe que teve Preguinho (1905-1979), meio-campista e autor do primeiro gol do Brasil em uma Copa do Mundo, a de 1930, disputada no Uruguai, trazia à memória momentos inesquecíveis na infância na cidade onde deu seu primeiro choro em vida, a paradisíaca Cabo Frio.

Infância, Preguinho, Copa do Mundo, futebol amador, Fluminense… tudo girava no hipocampo do craque, a ponto de deixá-lo com os nervos à flor da pele quando ouvia “Fluminense”.

Este mesmo Fluminense, que na decisão do Carioca de 1969, vencia o Flamengo por 2 a 1, e fez o pequeno Leandro, então com dez anos, mentir para o pai Evilásio, com quem ouvia o jogo deitado na cama, ao dizer que iria ao banheiro fazer xixi. Na verdade, foi para a sala, rezar  para que os santos ajudassem o Flamengo a empatar o jogo e eliminar a tristeza do pai. Resultado: o Flamengo empatou com Dionísio, mas tomou o terceiro e fatídico gol da derrota pelos pés de Flávio Minuano.


Se para Leandro, vencer o Fluminense era uma maneira de ver estampada no rosto do pai a alegria que faltou em 1969, para o Flamengo não restava outra coisa para se redimir dos dois outros triangulares infelizes que deram o bicampeonato ao Tricolor em 83 e 84 – gols do carrasco Assis (1952-2014).

“A gente sabia que o nosso time era inferior, pois o Fluminense tinha jogadores excepcionais como o goleiro Paulo Vitcor, Ricardo Gomes, Branco, Jandir, Romerito, Deley, Assis, Washington, Tato, e além disso, vinha de um bicampeonato, já que jogavam juntos há pelo menos três anos”, recordou Leandro.

Mas, se o entrosamento era arma importante do Tricolor, a sensação era o forte time do Bangu, alçado a uma das grandes forças do futebol brasileiro da época, comandada pelo técnico Moisés (1948-2008), que tinha Marinho (1957-2020) como principal estrela e era turbinado pelo dinheiro do patrono e mecenas Castor de Andrade (1926-1997).

Naquele ano de 85, Fluminense (campeão da Taça Guanabara), Flamengo (vencedor da Taça Rio) e Bangu (que somou mais pontos no campeonato todo) decidiriam entre si para ver quem seria o melhor time de futebol do Estado do Rio de Janeiro.

Flamengo e Fluminense entraram em campo para quase 96 mil pagantes presentes na noite de quarta-feira, 11 de dezembro. Na moeda jogada para o alto pelo árbitro Luís Carlos Félix no cara e coroa, vitória de Vica, capitão tricolor, que escolheu o campo e Leandro ficou com a saída de bola. Partida disputada pau a pau, Romerito é derrubado por Andrade na lateral do lado direito. Branco levanta na área e Washington sobe mais que a zaga do Flamengo e abre o marcador: 1 a 0 para o Fluminense, aos 38 minutos do primeiro tempo.

No segundo tempo, nervoso, Adalberto recebe entrada forte de Leomir e, mesmo caído, revida com um chute no camisa 4 do Fluminense. Confusão formada, os dois jogadores foram mandados mais cedo para o chuveiro.

Jogo aberto. De um lado, o Fluminense, muito superior tecnicamente, e do outro, o Flamengo, bem preparado mentalmente e que teve que usar raça, amor e paixão. O Rubro-Negro se agigantou na partida e o Tricolor procurou fazer da defesa o seu melhor ataque.

”Nós, torcedores, sabíamos que o time deles era uma equipe superior, mas no papel, pois o que se viu lá dentro de campo foi outra coisa”, diz o torcedor rubro-negro Luiz Antônio Lorosa, de 56 anos, morador de São Gonçalo, que estava nas arquibancadas naquele jogo.

Torcida gritando, tensão, nervosismo dos dois lados, jogo brigado e um Cantareli jogando de zagueiro, marcaram todos aqueles 45 minutos finais. O Flamengo em cima, buscando o empate. O Fluminense se defendendo e tentando manter a vitória.

Leandro fez carreira brilhante. Ganhou quatro Brasileiros, uma Libertadores e um Mundial. Amado pela torcida, tinha as fortes dores no joelho como maior inimiga. Passou para a zaga. Se em 1969, ouviu no rádio o terceiro gol marcado por Flávio Minuano, 16 anos depois, jogaria um Fla-Flu como zagueiro. Para ele, um Fla-Flu especial, o da redenção.

Sem Zico e Júnior, negociados para a Itália, ele era a estrela. No minuto final, após pressões sucessivas na área tricolor, a bola vem fora da área para quem quer arriscar. O Fluminense ganhava por 1 a 0, gol de Washington, aquele do Casal 20.  O empate deixaria os rubro-negros ainda na briga. Leandro soltou o petardo. Um pombo sem asas. Indefensável. Paulo Victor ainda tocou na bola e ela bateu na trave, voltou nas costas dele e entrou mansamente. Era o empate. “Goooolaaaaaaaaaaaaço-aço-aço”, narrou Jorge Curi pelas ondas sonoras da Rádio Globo. O último minuto. Era um Fla-Flu. Era gol de Leandro.

Quatro dias depois, Flamengo e Bangu se enfrentaram no Maracanã, e o time de Moça Bonita saiu vitorioso, por 2 a 1. No dia 18, Fluminense e Bangu encerraram o triangular final. Por ter vencido o Flamengo, o Bangu possuía a vantagem do empate, mas o Fluminense venceu por 2 a 1 e conquistou o tricampeonato.

Mas aquela partida, disputada naquele 11 de dezembro de 1985, fez Zico e Junior confessarem: “Esse foi o Fla-Flu que faltou na minha carreira”.

O jogo foi também o último do clube narrado por Jorge Curi, rubro-negro confesso. Na semana seguinte, o locutor de voz forte inconfundível, que fez longa carreira na Rádio Globo, mas havia se transferido para a Tupi, narrou a final entre Fluminense e Bangu, e pouco depois, indo para Caxambú, encontrou a morte em um acidente automobilístico na BR-354.

A pedido da família do radialista, a camisa número 3 que Leandro usou naquele Fla-Flu foi colocada sobre o caixão de Jorge Curi, fã do jogador, que foi enterrado no jazigo perpétuo da família no Cemitério Municipal de Caxambu, Sul do estado de Minas Gerais.

Coisas do destino, do futebol, e do Fla-Flu. Aliás, do Fla-Flu do Leandro.

“Leandro, com sua excepcional qualidade, jogando na lateral-esquerda, encantou a todos e a mim em especial. Todas as vezes em que o treino se aproximava do fim, ele perguntava se havia sido aprovado. Eu, sempre brincando, dizia que ainda não havia decidido nada e que ele estava sendo avaliado. Dentro de campo, ele realizava coisas extraordinárias, de puro encantamento e magia e a cada jogada que ele fazia, olhava em minha direção como se dissesse:’Está gostando, professor?’. Eu fingia que não via e ele continuava a fazer aquelas coisas sobrenaturais a fim de me impressionar. E confesso, depois de anos, me impressionava”, revelou Américo Faria sorrindo, para depois falar sério, em tom profético:”Não há e jamais haverá outro igual. Leandro foi o melhor jogador que passou pelas minhas mãos e o maior lateral-direito de todos os tempos!”.

Profecia? Talvez, sim. A escassez de outros ‘Leandros’ no futebol, faz com que Leandro – que assopra 63 velinhas de aniversário – tenha se tornado, no imaginário do torcedor, uma divindade no panteão rubro-negro.

Passado tanto tempo, o eterno camisa 2 considera o Fla-Flu de 11 de dezembro de 1985 como o jogo inesquecível para ele e para os verdadeiros amantes do futebol. Para a Nação Rubro-Negra, fica a certeza que nada nesse mundo é eterno, mas Leandro é!

FICHA TÉCNICA

Flamengo 1 x 1 Fluminense

Data: 11 de dezembro de 1985

Local: Maracanã

Competição: Campeonato Carioca de 1985 – Triangular Final

Público: 95.049 pagantes

Renda: Cr$ 1.838.050.000,00

Árbitro: Luís Carlos Félix

Flamengo:Cantareli; Jorginho, Leandro, Mozer e Adalberto; Andrade, Adílio e Valtinho (Gilmar); Bebeto, Chiquinho e Marquinho (Júlio César Barbosa). Técnico: Sebastião Lazaroni.

Fluminense:Paulo Victor; Leomir, Vica, Ricardo Gomes e Branco; Jandir, Delei e Renê; Romerito, Washington e Tato. Entraram Paulinho e Rogério. Técnico: Nelsinho.

Gols: Washington (38’/1T) e Leandro (43’/2T).

Expulsões: Adalberto e Leomir.