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O RETORNO

25 / maio / 2020

por Claudio Lovato


Os dois times entram em campo e são recebidos por um imenso silêncio – um silêncio de cimento e plástico.

O menino com o pai nas cadeiras perto do campo não tira fotos com seu celular nem o pai olha para ele, sorrindo, compreensivo, sensibilizado, porque nenhum dos dois está ali.  

Os amigos que há mais de trinta anos vão juntos aos jogos, sempre gozando da cara uns dos outros, sempre relembrando aventuras e elogiando os “nossos tempos”, também não estão ali.

As torcidas organizadas não entoam seus cantos nem fazem tremular suas bandeiras nem agitam suas faixas e seus trapos porque igualmente não estão ali.

Em suas casas, os torcedores assistem ao jogo na TV, pelo pay-per-view, no celular, no tablet, no desk top, e alguns se socorrem no rádio e nas transmissões minuto-a-minuto. Não são permitidas aglomerações no entorno do estádio.

O primeiro gol é do time da casa, um gol bonito, diga-se; um voleio da entrada da grande área, mas os jogadores não comemoram. Não como antes. Agora apenas dão sorrisos tímidos, fazem sinal de positivo com o polegar, batem palmas e então voltam para seu lado do campo.

No intervalo, na saída dos jogadores para o vestiário, é possível perceber o semblante de cansaço e tensão de alguns deles. Não conversam entre si, sequer se olham.    

Mais adiante, por longos instantes, por ordem ou por distração do diretor de TV, vão ao ar apenas imagens de cadeiras vazias, setores inteiros vazios, o estádio vazio.

Nas entrevistas do intervalo, feita por meio de um aplicativo de reuniões virtuais, um ex-jogador com duas Copas do Mundo no currículo diz que “os donos do poder estão aproveitando a situação para aprofundar o processo de transformação do esporte mais popular do planeta num espetáculo unicamente televisivo” e que “futebol é povo no estádio, aliás, como antes mesmo da pandemia já não estava se vendo mais” e que “o futebol, assim como todo esporte, é celebração da vida e da saúde e que deveria haver mais preocupação com os jogadores, os integrantes das comissões técnicas e os funcionários dos clubes e suas famílias”. Um ex-técnico que participa do programa pondera que o futebol tinha que voltar mesmo, “porque se demorasse mais os clubes poderiam quebrar, alguns não conseguiriam se reerguer”, e outro ex-jogador argumenta que “o que mais importa agora é que os protocolos sejam seguidos com todo o rigor” e o jornalista que conduz a entrevista encerra a conversa dizendo “bom, é assim que estamos por ora, é assim que será por enquanto, isso vai passar, gente, daqui a pouco vamos ter estádios lotados de novo, vamos botar fé”, e, depois de um break comercial, voltam à tela imagens do estádio.

O segundo tempo é lento e burocrático, fato atribuído à forma física dos jogadores, que ainda precisa melhorar de forma considerável. O jogo termina um a zero e, sem entrevistas de beira de campo, a TV logo passa a exibir os melhores momentos da partida. Em seguida, a transmissão vai para o estúdio, onde os comentaristas tentam explicar aos telespectadores o novo momento que está se vivendo. Fazem um nítido esforço para justificar a decisão de retomar o futebol neste exato instante. Há quem concorde e há quem discorde em medida praticamente igual, conforme mostram os números da participação dos internautas na enquete que acaba de ser feita no ar. Então partem para a análise do jogo, com entradas ao vivo feitas por repórteres usando máscaras e a repetição dos lances do jogo até o início da madrugada.

   

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