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claudio lovato filho

REFLETORES

por Claudio Lovato Filho


De suas primeiras vezes num estádio de futebol, uma das que ele se recorda com mais nitidez (coisa de memória, coração e, claro, também um tanto de imaginação) foi uma noite de casa cheia, uma noite de arquibancadas e almas iluminadas, com os refletores nas seis torres de iluminação fazendo tudo parecer tão irreal (coisa de sonho) e ao mesmo tempo tão verdadeiro (coisa da vida exatamente como ela é).

Nessa noite (e não haveria de ser diferente, como poderia?), o time, no campo, foi tudo aquilo que ele imaginava e esperava e queria, e deixou a ele e ao pai – que o levara ao estádio – orgulhosos e felizes. Felizes como nunca (como nunca mais, não do mesmo jeito).

A torcida, os cantos da torcida, as faixas e as bandeiras, tudo azul, preto e branco; os vendedores de amendoim, pipoca, uísque e conhaque; o vento e o frio; a narração que vazava dos rádios de pilha… E os refletores. O time saindo do túnel e entrando em campo. E depois a luta, a insistência, os erros, os acertos. E os gols.

Como se tira isso de alguém? Como achar que isso pode ser abandonado ou esquecido em algum ponto da vida? Não, não mesmo. É coisa para a vida toda.

Hoje, mais de 50 anos depois daquela noite iluminada, as imagens e as lembranças e as sensações permanecem, processadas pelo tempo que deixa suas marcas no cabelo grisalho, nas guerras perdidas, nas dores acumuladas – dores do corpo e do espírito –, mas também nas batalhas vencidas e nas conquistas que dão sentido ao que, por vezes, parecia se perder no redemoinho do aleatório, do caótico e do despropositado.

Daquela noite no estádio, de tudo o que viveu e sentiu, ele segue extraindo força e alegria. Aquela noite no estádio – não é exagero dizer – o ajudou a chegar até aqui. Ajudou? Mais que isso: aquela noite, de certa forma, foi exatamente o que o trouxe até aqui como o ser humano que ele é e não o que poderia ser.

Aquela noite no estádio – isto também é certo – o ajudará a seguir em frente, porque faz com que o homem maduro de hoje entenda que também precisa se deixar conduzir pelo menino; o menino que ajuda a iluminar o seu caminho e a fazer com que cada passo simplesmente valha a pena.

UMA HISTÓRIA DE FUTEBOL E HEROÍSMO

por Claudio Lovato Filho


Um dos livros de futebol que mais emocionaram se chama “Futebol & Guerra – Resistência, triunfo e tragédia do Dínamo na Kiev ocupada pelos nazistas” (Jorge Zahar Editor, 2004), do jornalista escocês Andy Dougan. No momento em que o mundo assiste à invasão da Ucrânia pela Rússia, a leitura desse livro pode ser especialmente interessante ao apresentar um episódio histórico que revela muito do espírito do povo ucraniano.

Essa obra extraordinária (e extraordinária não apenas para os amantes do futebol como nós, aqui reunidos na famiília Museu da Pelada) tem como contexto a invasão nazista à União Soviética, em 1941 – mais especificamente, à Ucrâniae à capital Kiev. 

Entre os prisioneiros feitos pelos alemães estavam muitos jogadores do Dímano, considerado o melhor time da Europa pré-guerra. Eles haviam se alistado no Exército para combater os invasores nazistas e acabaram sendo capturados. Com a capitulação de Kiev foram deixados à própria sorte, enfrentando a fome, a doença e o frio nas ruas devastadas da cidade. 

Um a um foram sendo acolhidos pelo dono de uma padaria,e, liderados pelo goleiro Trusevich,  reformularam o Dínamocomo F.C. Start. O time venceu todos os jogos que disputou– contra times húngaros, romenos e de unidades militares alemãs –, o que foi fudamental  para levantar o ânimo da população de Kiev.


Sim, o Dínamo/Start venceu todas as partidas que disputou, inclusive a partida final, contra um adversário que, todos sabiam antecipadamente, não aceitaria a derrota: o time da Luftwaffe, a força aérea alemã, num jogo que teve um oficial da SS como árbitro. As consequências desse ato heróico dos ucranianos teve consequências brutais, descritas em detalhes por Andy Dougan. 

“Futebol & Guerra” é um relato fascinante e comovente; uma homenagem a 11 heróis e a uma nação por eles representada com bravura em um momento em que tudo parecia perdido e o fim parecia sempre muito próximo. 

 

UM QUILO DE ALCATRA

por Claudio Lovato Filho


A carne era tudo o que ele carregava. 

O açougueiro a havia cortado em bifes grossos e colocado no saco plástico com a etiqueta que informava o peso e o preço. No caixa rápido – para “10 volumes no máximo” – ele pagou pelos 987 gramas de alcatra usando o cartão do banco em que abrira conta havia menos de um mês e saiu do supermercado.

Saiu do supermercado, mas não conseguiu sequer chegar à esquina que lhe daria acesso à avenida que ele percorreria até chegar em casa, onde a mãe – ele sabia – ficaria de queixo caído e sem saber o que dizer assim que se desse conta daquela surpresa que ele havia preparado para ela.  

Ele não chegou à esquina porque uma viatura da Polícia Militar subiu na calçada e lhe interrompeu a passagem. Ele só teve tempo de arregalar os olhos e sentir o coração disparar antes que o PM que saiu do assento do lado do motorista começasse a gritar com ele.

“Na parede! De frente pra parede!”

“Solta a sacola!”

“Mão na cabeça!”

“Abre as pernas!”

Com o nariz quase encostado ao muro da escola pela qual ele tantas vezes havia passado na vidapercebeu a aproximação, à direita, de outro PM. Esse outro tinha uma voz arranhada, grossa, e o cheiro que vinha daquela boca lembrou a ele um bicho morto.

“Onde é que você arranjou dinheiro para comprar esta carne?” 

Ele conseguiu reunir calma e coragem para responder.

“Eu ganhei. No Castanheira. Eu jogo lá”.

“Cadê a nota fiscal?”.

“Joguei fora”.

O PM que havia se aproximado primeiro começou a enfiar as mãos e mexer nos bolsos da bermuda dele,até que os forros ficassem para fora. Com brutalidade, o policial tirou um chaveiro com o escudo do clube, ao qual estavam presas duas chaves (do portão e da porta de casa). Depois puxou uma carteira de plástico. Por fim arrancou do bolso de trás o celular com o protetor de tela rachado.

Esse mesmo PM examinava lentamente o conteúdo da carteira (havia uma nota de R$ 20, uma de R$ 10 e duas de R$ 2, a carteira de identidade, o cartão do banco, um bilhete do metrô e a carteirinha do clube com a foto dele e o registro como jogador das categorias de base), enquanto o outro se mantinha com a mão na coronha da pistola automática e com um dos coturnos encostado na sacola com a carne.

Então o que tinha o bafo de esgoto disse:

“Vira”.

Ele se voltou devagar até ficar de frente para os dois policiais.

O PM que havia revistado a carteira a devolveu. Devolveu também as chaves e o celular. O outro lhe entregou a sacola do supermercado. Os dois policiais se entreolharam.

“Tranquilo. Poder ir”, disse o primeiro PM.

E o outro:

“A gente recebeu uma informação e a descrição bate com uma pessoa com a sua… com a sua… aparência. Pode ir”.

Ele ouviu – não viu, porque não conseguiu olhar;apenas ouviu, de cabeça baixa e com os olhos fixos na calçada – os dois policiais entrarem no carro e irem embora.

Foi para casa como se fosse a primeira vez que estivesse andando naquela avenida e naquela cidade.

Quando chegou e entregou a compra à mãe, ela ficou sem saber o que dizer, apenas sorriu e ficou olhando para ele, exatamente do jeito que ele imaginou que seria.

“Vou fazer com ovo pra você, meu filho”, ela disse. “E batata frita”.

Ele tentou sorrir. Tentou deixar para trás o medo, ao mesmo tempo em que – agora, sim – sentia a raiva se apresentar com toda a força.

“Agora você é jogador profissional, meu filho. Você conseguiu. Vai ganhar o seu o dinheiro, vai ficar conhecido, vai ser respeitado, porque neste país só assim para uma pessoa como nós ser respeitada”.

Pensou no enorme esforço que teria que fazer para engolir aquela carne que a mãe já estava começando a preparar na cozinha. Seria mais uma luta que teria que empreender, uma luta pequena em comparação às tantas que já havia se acostumado a enfrentar desde muito cedo, desde sempre.

Mas foi só quando olhou para o irmãozinho, que assistia TV sentado no chão e sorria para ele de um jeito que só as crianças conseguem fazer, que as lágrimas finalmente vieram, e ele teve que correr para o banheiro porque não poderia deixar que nenhum deles visse em seu rosto a amarga materialização de todo o medo e de toda a desesperança e de toda a humilhação que naquele momento ele carregava dentro de si.      

MEU SIMPLES MANIFESTO

por Claudio Lovato Filho


O amor que sinto pelo meu clube vem de longe, de há muito tempo.

Ele não me deixa esquecer quem eu sou.

Não me deixa esquecer quem eu fui.

A camiseta que uso, em casa e na rua, nas horas boas e más, não me deixa esquecer quem eu sou.

Não me deixa esquecer quem eu fui.

Somos o que somos também por causa das nossas escolhas, e elas começam a ser feitas muito antes de se tornarem claras para nós.

De se tornarem evidentes.

Nossas escolhas pertencem a nós e nós pertencemos a elas.

O amor que sinto pelo meu clube é incondicional, como todo verdadeiro amor.

É coisa de infância, de história, de escudo.

Assim, então, portanto, meu irmão, minha irmã, não tem choro nem vela.

É imortal.

Incondicional e Imortal.

E que vão para o diabo que os carregue todos os que, de alguma forma – com sua inépcia –, contribuíram para que chegássemos a um momento como este.

Vida que segue. Estaremos sempre aqui. Para o que der e vier.

Vamos em frente, com esse amor que sempre nos caracterizou, esse amor que é engastado no centro da alma, como todo verdadeiro amor, e que nunca nos deixará esquecer o que somos.

Somos GREMISTAS.

E não há nem haverá, jamais, palavras suficientemente capazes de descrever o quanto isso é maravilhoso e sempre será.

PASTA DE PAPELÃO

por Claudio Lovato Filho


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– O que ele tem?

– Não sei. Faz dois dias que está lá no quarto, agarrado naquela pasta de papelão. Não quer sair pra nada. Perguntei se ele estava sentindo alguma coisa, se queria ir ao médico, mas ele disse que não, você conhece o seu irmão.

– À noite eu passo aí.

– Obrigada, querido!

Desligaram.

Ele ficou pensando no irmão, seu irmão mais velho, trancado no quarto.

À noite, depois de cumprimentar a cunhada, ele avançou pelo corredor do apartamento, e, lá no fim, deu duas batidas na porta do quarto do casal.

– Chico, posso entrar?

Ele não ouviu resposta.

Deu mais uma batida e foi entrando devagar.

– Oi, garoto! – disse o irmão mais velho enquanto se erguia e sentava na beirada da cama.

O irmão mais novo viu a velha pasta de papelão verde com elástico preto nas extremidades em cima da cama.

– Está tudo bem? – ele perguntou ao irmão mais velho.

O irmão mais velho ficou olhando para ele sem dizer nada.

O irmão mais novo sabia o que havia na pasta. Algumas vezes haviam passeado juntos pelo seu conteúdo. Eram reportagens sobre a carreira do irmão mais velho, ex-meio-campo com passagens vitoriosas por alguns dos maiores clubes do país. Havia também fotos presenteadas por um grande fotógrafo esportivo de quem ele se tornara amigo. As lembranças da carreira do irmão mais velho estavam espalhadas pela casa – em algumas caixas, em um armário, no computador –, mas aquela velha pasta de papelão continha a nata das memórias, uma seleta do que aconteceu de mais importante, registros de alto poder simbólico que abarcavam toda sua trajetória, desde os tempos em que, ainda adolescente, fora promovido a profissional no clube que jamais deixou de ser seu clube do coração até a despedida do futebol em outro grande clube pelo qual, já veterano, conquistara um campeonato nacional.

O irmão mais novo se sentou ao lado do mais velho na beirada da cama. 

– Aconteceu alguma coisa?

Passou-se algum tempo até que o irmão mais velho respondesse.

– Nada. Não aconteceu nada. Esse é o problema. Nunca acontece nada. Nunca mais aconteceu nada. 

– Não diz isso, Chico! Quanta coisa boa tem na sua vida!

O mais velho não disse nada por algum tempo. E então:

– Agora dei para começar a ficar nervoso quando o telefone toca, quando chamam no interfone, até quando chega uma mensagem… Caraca! 

Ficaram mais um tempo quietos no quarto iluminado apenas pela claridade que vinha da rua.

– Quer sair pra conversar? Vamos dar uma passada lá no bar do Bento? 

– Não, não estou pra isso, vou ficar na minha! – disse o mais velho com um meio sorriso. 

– Estou na boa, pode ir tranquilo.

– Então vamos ver o jogo juntos amanhã. Vai lá pra casa!

– Pode ser. Amanhã a gente combina.

O irmão mais novo se levantou apoiando uma das mãos no ombro do outro.

– Tá bom. Estou indo. Fica bem. Valeu? 

Quando estava abrindo a porta, ouviu a voz do irmão mais velho às costas. 

– Toma. Leva isto com você. 

Ele se virou e olhou para a pasta nas mãos do irmão mais velho.

– Por quê?

– Leva com você e faz o que quiser com o que tem aí.

– Isso é seu, é importante pra você.

– Pega!

Ele pegou a pasta e foi embora.

No carro, antes de dar a partida, colocou a pasta no colo e a abriu. Mais uma vez, conforme folheava as páginas de jornais e revistas, as impressões de matérias de sites e blogs em papel A4 e as fotos, ele pensou, orgulhoso, no sucesso que o irmão conseguira fazer.

Encontrou uma reportagem feita quando o irmão já era veterano, mas ainda jogava em alto nível, e que incluía uma foto de arquivo, já bastante antiga à época, em que apareciam, lado a lado, o irmão mais velho, no começo da carreira, e ele, o mais novo, então uma criança, ambos com o uniforme completo do clube. A matéria, de duas páginas, que agora lhe chamava a atenção de um jeito diferente, incluía uma entrevista em formato de perguntas e respostas. O último questionamento se referia ao período pós-carreira.

“Você já pensou no que gostaria de fazer depois que parar de jogar?”

E a resposta dele:

“Sinceramente, não penso nisso. Vou deixar para pensar quando chegar a hora. Mas ainda vai demorar! (risos)”

Ele fechou a pasta pensando no irmão mais velho, em tudo o que o irmão fez, tentando imaginar o que estava por vir.

“Um dia de cada vez”, ele pensou. “Um passo depois do outro”.

Então ligou o rádio no volume mais alto que podia tolerar e arrancou.

Enquanto isso, lá em cima, no apartamento, o irmão mais velho virava-se de lado na cama e pegava no sono, em paz (a paz possível), como há tempos não conseguia.