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MUSSOLINI, DOMINGADA E O ‘SUBORNO’ NA COPA DE 38

30 / março / 2020

por André Felipe de Lima


Quantas Copas do Mundo o Brasil perdeu de forma “injusta”? As opiniões divergem. Há aqueles — como eu — que apontam a derrota na final de 1950 e a eliminação precoce em 1982 como as duas maiores “injustiças” com a nossa seleção em todos os tempos. Há quem discorde e alegue terem sido duas derrotas plenamente justificáveis pelos méritos em campo dos briosos craques de Uruguai e Itália, respectivamente. Ouvi de antigos personagens, que, infelizmente, já partiram, ter sido também “injusta” a derrota de 2 a 1 da seleção de Leônidas da Silva, Tim e Domingos da Guia para os italianos (sempre eles!) na semifinal da Copa de 1938, um confronto que sempre foi alvo de inúmeros bate-bocas até o Maracanazo de 1950 ocupar o imaginário futebolístico no país. 

Em 1958, o jornalista José Franco, da revista O Cruzeiro, assinou polêmica reportagem em que o craque Niginho (ídolo do Cruzeiro e do Vasco nos anos de 1930) afirma que os jornalistas Tomaz Mazzoni e Gagliano Neto teriam obrigado o técnico Ademar Pimenta a escalar o ponta-direita Luizinho — ex-craque do São Paulo que aniversaria neste dia 29 de março — no lugar de Tim (ex-Fluminense). Ainda mais traumática teria sido a saída de Leônidas da Silva do time na semifinal contra os italianos. Em seu lugar entrou Romeu Pelicciari (ex-Fluminense), uma escalação que Niginho definia como temeridade. Mas o jogador disse mais: houve suborno naquele mundial. 

Niginho afirmara que o “duce” Benito Mussolini desejava ganhar a Copa de 38 a todo custo e que a inesperada “distensão muscular” de Leônidas da Silva na véspera do jogo contra a Itália foi, no mínimo, “esquisita”. O zagueiro Nariz, que estudava medicina, não teria identificado problema algum em Leônidas. Mesmo assim — acusara Niginho — nosso principal jogador e também artilheiro da Copa foi afastado do jogo capital daquele Mundial. 

Dois dias após a partida contra a Itália, o centroavante teve uma “recuperação” relâmpago e estava em campo contra os suecos, marcando dois gols na vitória que garantiu ao Brasil o terceiro lugar na Copa de 38.

Domingos da Guia também não foi poupado por Niginho. O atacante mineiro achava estranho o zagueiro ter feito um pênalti no italiano Piola, que, na posição em que estava — defendia Niginho —, não marcaria gol algum. “Estava na linha de fundo, sem ângulo para chutar (…) Não tenho dúvidas: não fosse o imprudente lançamento de Luizinho, a ausência de Leônidas no jogo contra os italianos e o inexplicável pênalti de Domingos em Piola, aquela Copa seria do Brasil”. 


Na semana seguinte a declaração de Niginho, Leônidas rebateu-a com veemência. “Um mundo de mentiras”, disse o Diamante Negro, alegando que no primeiro jogo contra os tchecos o Brasil perdeu logo no primeiro tempo dois jogadores (Zezé Procópio e Machado), permanecendo no campo com apenas nove. 

“Foram duas horas de futebol que me estouraram os músculos. Empatamos. Deveríamos voltar a jogar contra os tchecos 48 horas depois. Falei com Ademar Pimenta, o técnico, e ele me disse que eu precisava voltar a jogar, que ia me sacrificar porque o Brasil não podia ser desclassificado. Do primeiro time só jogaram na partida de desempate eu e o Walter (goleiro). Quando ela terminou, meus músculos acusavam o desgaste”, completou Leônidas, citando ainda a longa viajem de 17 horas que a delegação fez (de trem) para Marselha, onde enfrentaria a Itália.

Ao longo da viajem — garantiu Leônidas — aplicaram compressas quentes na perna dele. Nariz (além de jogador da seleção) ajudava o médico Castelo Branco nos cuidados com o craque. Leônidas rebateu Niginho ao alegar que Nariz estava ciente da gravidade da contusão. “Em Marselha, continuei meu tratamento, mas, no dia da partida com a Itália, verifiquei ser impossível o meu ingresso no time.”


Leônidas enfureceu-se de vez com Niginho quando se referiu à acusação de aos jogadores brasileiros: “Deslavada mentira! Não fui procurado por ninguém que me quisesse subornar. Nunca, em toda minha vida de jogador de futebol, estive envolvido em escândalos desta ordem. (…) alguns companheiros daquela época (Ademar Pimenta, Nariz, Domingos e o jornalista Tomaz Mazzoni) já vieram a público me defender. Outro injustiçado nas declarações do Niginho é o Domingos da Guia.”

Para Leônidas, que assistira ao jogo junto à baliza onde aconteceu a penalidade, não houve dúvida: Domingos sofreu um pontapé por trás do Piola e revidou. O juiz viu o lance e marcou pênalti, porém sem expulsar Domingos, que jamais negou ter dado um pontapé no adversário. “Esse foi meu erro. O juiz viu e marcou o pênalti.”

Depois da resposta publicada pela O Cruzeiro, Leônidas processou Niginho, e ganhou a causa.

João Saldanha assistiu ao jogo. O jornalista e também treinador confirmou, em depoimento ao Museu da Imagem e do Som, que a Itália mereceu a vitória (igualmente ao que aconteceu na Copa de 82). “Os italianos poderiam ter vencido de goleada. Eu estava sentado atrás do gol do Brasil e vi nosso goleiro defender até pensamento. Fomos bombardeados.”

Mas a suspeita de que houve suborno naquela Copa jamais foi esquecida. Muitas décadas depois o assunto sempre vinha à tona, sobretudo com opiniões de ex-jogadores daquele escrete. Luizinho foi um deles. 


O ídolo histórico do São Paulo e sua esposa, dona Murila, confirmaram ao jornal O Estado de S.Paulo, em reportagem do começo dos anos de 1980, que viram Leônidas da Silva, Domingos da Guia e Ademar Pimenta conversando com três dirigentes italianos em um canto do hotel e que após o papo entre eles Luizinho, intrigado, questionou ao Leônidas o que conversavam. “E ele me respondeu que os italianos estavam apenas querendo trocar as passagens para Paris. Continuei achando muito estranho. Afinal, tínhamos dirigentes para tratar um assunto desses.”

Esse breve e curtíssimo depoimento de Luizinho se perdeu no tempo e não foi explorado com mais profundidade nos anos seguintes. A história do “suborno” dos italianos ficou sem testemunhas e sob uma dúvida histórica se realmente existiu. A imprensa internacional sempre afirmou que Mussolini ganhou as duas Copas (34, na Itália, e 38, na França) para os italianos devido ao parrudo cofre que ostentava. Nada foi provado.

Polêmicas à parte, a verdade é que o Brasil perdeu dois jogos incríveis para a Itália, nas Copas de 38 e 82, em que a saquadra azzurra foi campeã. Em compensação, nós fomos tri (70) e tetra (94) em cima dos “fratelli”. Caso sirva de consolo, ganhamos dele (2 a 1) na disputa do terceiro lugar em 1978.

Mas (à vera!) o placar de campeões marca Brasil 2, Itália 2. Vamos torcer para que o épico “gol” de desempate aconteça na Copa de 22. E sem chororô, de preferência.

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