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GÉRSON SEMPRE FALOU (E JOGOU) A VERDADE, POR ISSO O ADORAMOS

11 / janeiro / 2020

por André Felipe de Lima


“Quem é Gérson? Mocinho ou bandido? Artista de gênio ou homem mau? Há quem diga que ele é ausente, outros o chamam de destemido até demais (…) Quem é Gérson? Perguntei a moças em idade escolar e elas disseram que ele é um pão. Perguntei a idosas senhoras e elas acharam que ele não faz a barba. Quem é Gérson? O ex-jogador Zizinho acha que ele é um dos maiores homens de meio-campo de todos os tempos”. Assim o velho Jacinto de Thormes, pseudônimo do querido jornalista Maneco Muller, escreveu sobre o nosso Gérson, o nosso Canhotinha de Ouro. Zizinho estava coberto de razão. Gérson herdou dele e de Didi o dom do passe, o dom do lançamento. O dom da mágica com a bola nos pés. Gérson colocava-a no lugar do gramado em que desejasse ou nos pés de quem fosse o companheiro, genial ou bestial. Fez a alegria de muitos goleadores, deixando-os diante de sorumbáticos arqueiros que sabiam que pior que enfrentar um centroavante artilheiro era saber que o mesmo teria Gérson para alimentá-lo com passes e lançamentos quase inverossímeis. Foi assim durante muitos anos no futebol brasileiro. Gérson, um maestro, ditando orquestras no Flamengo, depois no Botafogo, no São Paulo e, por fim, no seu amado Fluminense.

Ah, claro! Na seleção brasileira, Gérson foi maestro também, e da superação, sobretudo. Aprendeu a dominar o temor. Era impressionante a tranquilidade que passava aos companheiros e treinadores. Acho que muito daquela Jules Rimet que o Capita levantou foi banhada mais pela calma do Gérson que pelo ouro maciço. Pouco antes da estreia na Copa do Mundo de 1970, estava machucado. Até mesmo o médico Lídio Toledo achava que Gérson seria cortado mais por abatimento que propriamente pela contusão. “Se eu perguntar hoje ao Gérson se ele está bem, ele me dirá que sim, mas não aguentará dez minutos de jogo, assim como o Rogério (do Botafogo, que acabou cortado). Entendem a diferença de estar bem e estar em condições de jogo?”. Mas o “Canhota” estava bem. Muito bem. Fez até gol na Copa e foi o indiscutível cérebro do escrete. Após a jornada épica no México, o São Paulo o contratou ao Botafogo, cuja torcida tão apaixonadamente envolveu-o. Não para menos. Foi campeoníssimo no alvinegro. Imagine jogar ao lado de cobras como Jairzinho, Roberto, Sebastião Leônidas, Paulo Cézar Lima…


Gérson sempre foi muito bem cercado por outros craques em todos os times que defendeu. No Flamengo, imagine uma meia com ele e Carlinhos “Violino”? Era fenomenal. No São Paulo, os uruguaios Forlan e Pedro Rocha e o centroavante Toninho Guerreiro. Um time memorável. No Fluminense? Ora, no seu tricolor, no seu idolatrado tricolor, Gérson teve craques aos montes também, verdadeiros “aviões” em campo. Avião, sim, avião. Não podíamos se esquecer disso. Gérson tem (ou pelo menos tinha nos tempos de jogador) pavor das aeronaves que pululam o céu. Foi motivo, inclusive, de piada do Henfil, que desenhou engraçados cartuns “denunciando” o medo do Canhota de voar. O medo — deixemos claro — era só de avião, porque com cartolas mal-intencionados a relação era direta e pragmática. Sem tergiversação. Por onde passou, Gérson teve problemas de relacionamento com dirigentes. Mas tinha lá suas razões. Tentavam passar-lhe a perna em pagamentos, bichos e etc.. Foi assim em todos, ou praticamente todos os clubes. Gérson tornava pública a indignação com os dirigentes, dizia que não entraria em campo se não pagassem o que deviam e, como resposta, ouvia que era um cara “antipático”, “rabugento” e “intratável”. Alguns jornalistas faziam coro ao discurso covarde de cartolas. Gérson não perdia a linha, mas a língua sempre foi afiada e a palavra bem emendada, tanto que hoje é um comentarista justo e preciso. Para ele, eram poucos os dirigentes verdadeiramente humanos, como Renato Estelita, do Botafogo. Disse isso ao Jacinto de Thormes. No final da carreira, emendou a seguinte reflexão: “Engraçado. Esses caras que criticam poderiam, de vez em quando, perder um tempinho e olhar o que realmente merece ser olhado. Eles metem o pau na gente, danam a falar mau, mas, quando a gente para de jogar, eles nos esquecem, ninguém mais se lembra de ninguém. Como não se lembraram de Veludo (ex-goleiro do Fluminense), que morreu com pneumonia nos dois pulmões; como não se lembram de Ipojucã (ex-meia do Expresso da Vitória vascaíno), que está doente; e como não se lembram de Garrincha, que, se não arrumasse um emprego, estaria muito mal de vida. É por isso, amigo, que eu aproveito, tiro tudo o que posso do futebol agora, nessa faixa entre os 18 e 33 anos, porque, amigo, quem não aproveita fica mal, fica esquecido, arrasado.”

Por isso que, neste dia 11 de janeiro, aniversário do Canhota, lembramos do nosso Gérson, o ídolo que jamais será esquecido, que sempre teve coragem para jogar futebol e, sobretudo, falar verdades. Sempre disse aos repórteres: “Alguém, algum dia, tem de ter coragem de falar a verdade. Se você tem de publicar, eu tenho coragem para dizer”. Esse é o Canhota de ontem e de hoje, está certo?!

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