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FOI UM LADRILHEIRO QUE PASSOU EM MINHA VIDA

13 / julho / 2020

por Luis Filipe Chateaubriand


Em 1981, Flamengo e Vasco da Gama decidiam o Campeonato Carioca daquele ano. 

De um lado, o melhor time do mundo, que se consagraria campeão do planeta dias depois. Do outro, um bom time, raçudo, valente, com uma torcida apaixonada.

O rubro-negro tinha feito uma campanha muito melhor ao longo do certame. Com isso, o cruz maltino precisava ganhar o primeiro jogo, se não ganhasse o rival seria campeão, em ganhando o primeiro jogo precisava ganhar o segundo jogo, em não ganhando o rival seria campeão, e em ganhando o primeiro e o segundo jogo ainda precisava ganhar o terceiro jogo.

Como se vê, a vantagem do Urubu era gigantesca, o Bacalhau, inferior tecnicamente, dependia de um quase milagre para ser campeão.

Veio o primeiro jogo. Impactados pelo falecimento do ex comandante, o brilhante técnico Cláudio Coutinho, os flamenguistas foram presa fácil para o Gigante da Colina: 2 x 0 para o Vasco da Gama, dois gols de Roberto Dinamite.

Veio o segundo jogo. Em meio a um dilúvio digno de Arca de Noé, e um campo completamente encharcado, o 0 x 0 prevalecia no placar, já aos 43 minutos do segundo tempo. A torcida vermelha e preta gritava “é campeão”, quando uma bola sobra na área, estaciona em uma poça de água, para Roberto Dinamite – sempre Roberto Dinamite – chutar rasteiro para o fundo do gol: 1 x 0 Vasco da Gama, novamente com Bob Dinamite sendo o redentor.

Veio o terceiro jogo. Melhores em campo, os jogadores do “mais querido” logo abrem 2 x 0 na metade do primeiro tempo, gols de Adílio e Nunes. 

O título parece decidido.

Entretanto, aos 39 minutos do segundo tempo, o limitado centroavante reserva Ticão diminui.

O jogo está 2 x 1.

O menos dotado tecnicamente time vascaíno, então, se incendeia e vai em busca de um empate que poderia forçar a prorrogação. 

Domina o jogo, não contra um adversário qualquer, mas sim contra o melhor time do mundo!

Mas eis que, como diria o Poetinha Vinícius de Moraes, “de repente, não mais que de repente”, um ladrilheiro desgraçado (desculpem, acho que sabem que este escriba é vascaíno…) invade o campo, para esfriar o time da Cruz de Malta.

Irritadíssimos, alguns jogadores vascaínos caçam o ladrilheiro em campo. O zagueiro Ivan tenta lhe acertar um pontapé. O lateral esquerdo Gilberto Coroa lhe dá um murro no rosto.

(Close para os dias atuais: Gilberto Coroa é amigo de uma amiga, rubro negra por sinal; diz que a invasão do ladrilheiro foi uma tremenda falta de ética e que o murro que deu no cara foi merecido).

Mas o ladrilheiro conseguiu seu objetivo: esfriou a turma da faixa diagonal e, assim, o Flamengo manteve o resultado e se sagrou campeão.

Com isso, o ladrilheiro, que ainda recebeu a camisa que Zico usou no jogo de presente, entrou para o folclore do futebol carioca, ou melhor, do futebol brasileiro.

E este signatário, então um menino de 11 anos, queria fazer com o ladrilheiro o que Gilberto Coroa fez, mesmo depois do título decidido… 

Arroubos infantis, dos quais damos risadas saudosos, de um tempo romântico do futebol brasileiro!

Luis Filipe Chateaubriand é Museu da Pelada!

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