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‘FIO MARAVILHA, NÓS GOSTAMOS DE VOCÊ’

20 / janeiro / 2020

por André Felipe de Lima


“E novamente ele chegou com inspiração, com muito amor e emoção, com explosão… Sacudindo a torcida aos 33 minutos do segundo tempo, depois de fazer uma jogada celestial…”. João Batista de Sales, que ficaria conhecido como Fio Maravilha, ganhou dimensão nacional através destes versos da música de Jorge Ben Jor e de sua incomparável, digamos, “beleza”. Com dentes excessivamente proeminentes e um tanto desengonçado em alguns lances dentro do campo, Fio marcou sua época. Desde Garrincha que os torcedores do Maracanã não se divertiam tanto. O atacante, filho de Valdemiro e Maria, nasceu no dia 19 de janeiro de 1945, na cidade de Conselheiro Pena, em Minas Gerais, chegou ao Flamengo em 1966 e criou forte vínculo com a torcida. Longe de ser um craque, era veloz e estava sempre bem colocado, além disso, costumava marcar gols, como em um Fla-Flu, realizado no dia 16 de dezembro de 1967.

“Um dia recebi uma carta de torcedor do Fluminense que só não me chamava de santo. Dizia o diabo. Eu até tremi, de raiva. Mas o azar foi dele. No domingo a gente ia jogar contra o Fluminense. Aimoré [Aymoré Moreira] era o técnico do Flamengo. Pedi para jogar e ele me escalou. Ganhamos de 4 a 1. Fiz dois gols e dei os passes para os outros [Reyes e Dionísio, com Rinaldo descontando para o Flu]. Estava uma fera. Sabem o que aconteceu depois? O mesmo torcedor escreveu pedindo clemência, que eu esquecesse tudo. O gozado é que daquele dia em diante quase nunca perdi do Fluminense. Jogo com o Flu é bicho certo.”

Fio vem de uma família de jogadores de futebol. Teve quatro irmãos jogadores: Michila, Nino, Luís Carlos e Germano, este o mais famoso, que manteve relacionamento com uma condessa italiana e após casar-se com ela, contra a vontade da família da jovem, foi defender o Milan. Teve uma infância pobre, com privações e com falta de uma alimentação adequada o que causou contusões musculares recorrentes durante os treinamentos. Isso acabava impedindo que o jogador tivesse uma boa sequência de jogos pelo Flamengo. Também tinha graves problemas dentários e acabou ganhando uma alcunha um pouco cruel dos amigos, Fio Vampiro.

Bonito, definitivamente Fio não era. Mas foi um dos jogadores do Flamengo que mais cartas recebia de fãs chamando-o de “lindo” e, algumas delas, propondo-lhe casamento, como escreveu, em 1970, Fausto Neto. “Adoro o Fio. Acho-o um cara genial e tenho por ele uma grande paixão”, contou Tânia Regina da Costa, que à época tinha 17 anos. No quarto da menina havia dezenas de recortes de jornais e revistas e fotos… tudo sobre Fio, evidentemente.

Depoimento da jovem Maricéa da Costa Sales, que contava apenas 14 anos nos áureos tempos de Fio, foi ainda mais intenso. “Há um ano que o amo secretamente. Quase morri de emoção quando recebi a primeira resposta de uma carta que escrevi. Nela, Fio me retribuía dois beijos muito carinhosos.”

No dia 15 de janeiro de 1972, Fio se tornaria eterno aos inspirar os versos de um poeta da Música Popular Brasileira. Na arquibancada do ‘Maraca’, durante uma partida do Torneio Internacional de Verão entre o Mengão e o Benfica, Jorge Ben Jor acompanhava a torcida, que pede a entrada do folclórico atacante. Fio substituiu Arílson e marcou o gol da vitória, que o compositor assim descreveu: “Tabelou, driblou dois zagueiros, deu um toque driblou o goleiro… Só não entrou com bola e tudo porque teve humildade em gol… foi um gol de classe onde ele mostrou sua malícia e sua raça… foi um gol de anjo, um verdadeiro gol de placa que a magnética agradecida assim cantava…”. Naquele mesmo ano, Fio ajudou o clube a sagrar-se campeão carioca.

Em 1973, depois de sua saída do Flamengo o jogador se envolveu em uma grande polêmica ao escutar os conselhos de um amigo advogado e processar o músico pedindo direitos autorais sobre a composição. Derrotado, o jogador teve que pagar os custos do processo e os honorários do advogado de Ben Jor. E pior: levou a fama de ingrato e mau caráter. A música mudou de nome, agora chama-se “Filho Maravilha”, porém o refrão que a galera canta mesmo é: “Fio Maravilha, nós gostamos de você… Fio Maravilha, faz mais um pra gente ver…”

O humorista Cláudio Besserman Viana, o Bussunda, integrante do grupo Casseta & Planeta, que faleceu em decorrência de um infarto durante a Copa de 2006, era um flamenguista de primeira linha. Durante uma entrevista concedida ao jornalista Juan Saavedra revelou o motivo: “Fui num Fla x Flu no ‘Maraca’, me arrepiei com a torcida e com a atuação do Fio Maravilha e, graças a Deus, virei Mengão até morrer”. Porém o craque do humor também condenou a atitude do ídolo: “Fiquei muito decepcionado com o processo que ele moveu contra o Jorge Ben Jor. Mas serei eternamente agradecido por ele ter me ajudado a ser rubro-negro.”

Em terras tupiniquins, Fio Maravilha defendeu Paysandu, Ceub de Brasília, Desportiva Capixaba e São Cristóvão. A partir daí, Fio resolveu apostar as fichas no soccer, como os americanos chamam o futebol. Transferiu-se para o New York Eagles e, em seguida, para o Monte Belo Panthers. Em 1979, defendendo o San Francisco Mercury, resolveu que era hora de pendurar as chuteiras. Apaixonado pela cidade resolveu ficar de vez no Tio Sam.

Como não conseguiu fazer um bom pé de meia, que lhe garantisse tranquilidade após o fim da carreira, Fio teve que batalhar por um emprego. Hoje, o ex-atacante do Fla é entregador de pizzas e integrado à cultura esportiva local, curtindo o futebol americano e o beisebol.

Fio pode ter deixado o futebol para traz, mas enquanto Jorge Ben Jor entoar os versos da música que o consagrou seu nome será lembrado, principalmente pela galera do Mengão.

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