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A PRIMEIRA GOLEADA

14 / junho / 2017

texto: Sergio Pugliese | fotos: Guilherme Careca Meireles


PC e Tamba

Era aniversário do Grajaú Tênis Clube e Paulo Cezar Caju aceitou o convite do presidente Sergio Sapo para prestigiar o evento, mas ao entrar no salão de festas arrepiou-se como um felino acuado.

– Aquele ali é o Tamba? – me perguntou.

– O próprio – respondi.

– Ele não me traz boas lembranças….

– Como assim??? O Tamba é nota mil!!!!

– Trauma de criança…..

– Ele te bateu?

– Muito…….


(Foto: Nana Moraes)

Caju diminuiu o passo e congelou o olhar como se recordasse aquele embate pelo Campeonato Carioca, na quadra de futebol de salão da Associação Atlética Tijuca, de dimensões reduzidas e piso de cimento áspero. Era o alçapão de Tamba, mas PC representava as cores do Mengão e, aos 13 anos, já era marrentinho e tinha fama de craque. Jogava de ala e o “irmão” Fred, de parado. Ainda tinha Maina, de pivô, Maurício na ala esquerda e o goleiro Marcelo. Impossível perder.

– Vamos, PC! – tentei despertá-lo.

– Vamos…

– Por que vocês brigaram? – quis entender.

– Foi inacreditável – comentou, aumentando a minha curiosidade.

– Desembucha, PC!!!

– Levei um sacode de 6 x 2 e ele meteu quatro gols espíritas. Foi a primeira goleada que sofri na vida e me traumatizou.

– Caramba, PC, achei que o cara tivesse te embolachado.

– E embolachou….

Quem viu Tamba jogar sabe que os tais gols espíritas não tinham nada de espíritas. O cara era especialista em fazer gols sem ângulo. Pura técnica, zero sorte.

– Vamos lá falar com ele, PC. O cara nem deve lembrar mais disso. Quem bate, esquece – incentivei.

– Tomara…..


Com Tamba estavam outras lendas do futebol de salão: Serginho do Vila, Aécio, Adilson, Celsinho e Álvaro Canhoto. Ao chegar próximo, Caju curvou o corpo e esticou os braços para a frente, num claro sinal de reverência aos caras que foram os papas das quadras. E após os abraços e apertos de mãos, Tamba disparou, com um sorrisinho debochado:

– Recuperado, PC?

Caju me fuzilou com o olhar como se perguntasse “quem bate esquece?”.

– Recuperado de que, não estava doente – tentou despistar.

– Da goleada, PC!!! Hermes, Ademar, Zé Carlos Louro, eu e Zé Carlos……………

– Ah, tá, 6×2 só com gol espírita….

– 6×2, não, 7×1!!!!

– Peraí….6×2!!!!!

– 7 x 1!!!!


Aí o celular de PC toca, ele pede licença e vai afastando-se da rodinha….afasta-se, afasta-se, afasta-se até sair do clube. Da porta, discretamente, me faz um sinal e avisa que precisará ir embora. Ofereço carona e ele aceita. No carro, lembrou que estava no Flamengo quando o Botafogo, seu time de coração, aplicou aquela histórica goleada de 6 x 0, no Maracanã. E não se importou com a goleada de 7 x 1 da Alemanha no Brasil. Mas aquela de, para ele 6 x 2, o irritou profundamente. E entre uma bufada e outra, deixou escapar.

– Esse Tamba jogava pra caceta!!!!

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