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Wilker Bento

O PAPEL DOS ESTADUAIS NO SÉCULO XXI

por Wilker Bento


Morumbi, 13 de outubro de 1977. O Corinthians vence a Ponte Preta por 1×0, gol de Basílio, e conquista o título paulista após 23 anos de espera.

Maracanã, 22 de junho de 1988. Vasco e Flamengo decidem o título carioca. Cocada entra aos 41 minutos do segundo tempo, marca o gol da vitória aos 44 e é expulso em seguida. O Vasco vence por 1×0 e é bicampeão.

Morumbi, 12 de junho de 1993. Palmeiras vence o Corinthians na prorrogação, com gol de pênalti de Evair, e encerra o jejum de 17 anos no Campeonato Paulista.

Maracanã, 25 de junho de 1995. No Fla-Flu valendo o título estadual, Renato Gaúcho desvia com a barriga o chute de Aílton e o tricolor vence por 3×2, conquistando o Campeonato Carioca no ano do centenário do rival.

Os relatos acima contam histórias sobre títulos estaduais marcantes para os clubes envolvidos. Decisões com estádios lotados, desfechos emocionantes e espaço especial no coração do torcedor. Mas há um outro elemento em comum: todas essas finais ocorreram no século XX. Não conseguiremos lembrar de nenhum título estadual recente com importância parecida, exceção feita ao tri carioca do Flamengo em 2001 – e mesmo assim, lá se vão vinte anos do inesquecível gol de falta de Petkovic contra o Vasco aos 43 do segundo tempo.

Incômodo para os grandes, insuficiente para os pequenos e rentável apenas para as federações, será que está na hora desse tipo de torneio chegar ao fim?

Contexto


Até a metade dos anos 1980, a grande maioria dos clubes de elite do futebol brasileiro tinha em seu calendário apenas o estadual e o Campeonato Brasileiro. A Copa do Brasil ainda não existia e a Libertadores, único torneio de clubes organizado pela CONMEBOL, era restrita a dois times por país. Mesmo o Brasileirão era mal organizado, durando apenas um semestre e com regulamentos que mudavam a cada edição. Assim, ser campeão estadual era mais importante que nos dias de hoje.

Na atualidade, o cenário é diferente. Os clubes grandes têm mais o que fazer além de disputar o título estadual, que fica pequeno diante das outras taças que uma equipe pode conquistar na temporada, não sendo mais uma prioridade. Infelizmente, os organizadores dos estaduais estão demorando a reconhecer isso. Por exemplo: em sua apresentação no São Paulo, o técnico Crespo afirmou que “provar jogadores no Paulistão não parece correto”. Uma declaração compreensível, em tom político, de um treinador estrangeiro que acabou de chegar em um clube que não ganha um título desde 2012. No entanto, a FPF repercutiu a fala como se transformasse o Campeonato Paulista na coisa mais importante do mundo.

Episódio ainda mais lamentável foi a publicação do regulamento do Campeonato Carioca desse ano. No documento, a FERJ prevê multa para o clube que, a partir da terceira rodada da Taça Guanabara, “deixar de utilizar sua equipe considerada principal sem motivo justo”. Uma cláusula completamente subjetiva e que interfere na autonomia dos técnicos em escolher os jogadores que bem entender.

Somente com as federações admitindo sua atual pequenez e cuidando do seu valor histórico é que a tradição dos estaduais jamais se perderá.

Preparação e revelação

Um dos argumentos mais comuns na defesa da manutenção dos estaduais é a revelação de atletas. Boa parte dos craques que o futebol brasileiro teve surgiram nesses torneios. É a oportunidade que jogadores de times menores têm de aparecer na mídia e dar um salto em suas carreiras.

Para os clubes grandes, os estaduais devem ser vistos como um espaço de experiência aos garotos da base, que terão a chance de mostrar serviço e ganhar vaga no time principal. O Athletico-PR entendeu isso e vem há alguns anos disputando o Campeonato Paranaense com a equipe sub-23.


Jogadores veteranos, que custam milhões aos clubes, devem ficar reservados apenas aos clássicos e fases decisivas, e não se desgastando fisicamente e correndo o risco de até mesmo sofrer uma lesão em partidas de pouco valor. O estadual não é o Santo Graal, mas um brinde. Aí entra a parte da colaboração do torcedor, que deve ter paciência. Não adianta reclamar dos estaduais o ano inteiro e pedir a cabeça do técnico após o primeiro empate contra um time pequeno.

Regulamento

O Campeonato Carioca virou piada nos últimos anos por adotar uma fórmula esdrúxula: um time poderia cair e subir no mesmo ano, ou vice-versa; uma seletiva entre os piores da primeira divisão e os melhores da segunda foi inventada; alguns jogos tinham vantagem do empate para quem tivesse a melhor campanha, e outros não; e ganhar os turnos passou a não ter valor nenhum. Uma criança jogando videogame faria melhor. O primeiro passo para que os estaduais sejam minimamente atrativos é a elaboração de regulamentos simples, de fácil entendimento.

O tamanho da competição também precisa ser repensado. O Palmeiras em 2020 venceu a Libertadores após 13 partidas disputadas, mas para ser campeão paulista precisou de 16. É muito tempo gasto em um campeonato pouco importante. O excesso de jogos sem dúvidas pesou no final da temporada, onde o Verdão teve que se desdobrar para disputar Copa do Brasil, Libertadores e Brasileiro de forma competitiva, chegando no Mundial de Clubes em frangalhos. A pandemia contribuiu para essa situação, mas o calendário do futebol nacional já era caótico antes do surgimento do novo coronavírus.

Existem várias soluções possíveis para isso. A mais óbvia delas é a redução dos estaduais para torneios de no máximo 10 datas. Uma competição não necessariamente precisa ser grande para ser atrativa: com menos jogos, a margem de erro diminui e cada partida ganha um peso maior. Um time pequeno pode emendar uma sequência inspirada e brigar pelas primeiras posições; um time grande não pode dar bobeira, sob o risco de ser eliminado na primeira fase ou até mesmo parar na zona de rebaixamento. É nos menores frascos que se encontram os melhores perfumes… Para compensar a redução e não deixar os clubes menores a ver navios, seria necessário um aumento nas datas das copas estaduais.

Outra possibilidade seria manter o número de datas atual, mas espaçando o torneio ao longo da temporada. Atualmente, os estaduais ocupam os quatro primeiros meses, com o Brasileirão ocorrendo nas datas restantes. Seria mais interessante se ao invés disso ambas as competições ocorressem paralelamente, durando o ano inteiro, com uma rodada do estadual ocorrendo a cada duas ou três do Campeonato Brasileiro. Dessa forma, os técnicos administrariam melhor o rodízio do elenco, e os clubes pequenos teriam mais tempo de atividade, deixando de serem “times de aluguel”.

É viável propor até mesmo o aumento para no mínimo 30 datas ao longo do ano. Nesse caso, as equipes que estivessem nas primeiras divisões do Brasileirão disputariam o estadual com times B ou a base do início ao fim.

Mando de campo


Os estaduais existem por causa dos times pequenos, sendo a oportunidade de clubes do subúrbio e do interior enfrentaram os gigantes do futebol nacional. Se o estadual acontece para contemplar os clubes menores, os jogos devem ocorrer na casa deles.

Flamengo x Madureira? Jogo em Conselheiro Galvão. Corinthians x Ferroviária? Jogo em Araraquara. Grêmio x São Luiz? Jogo em Ijuí. Com essa medida, o campeonato fica mais equilibrado, pois os pequenos teriam o fator casa sempre a seu favor.

Além disso, os torcedores que moram em locais mais afastados do estádio do seu time teriam a chance de acompanhar o clube de coração mais de perto. Por exemplo, um vascaíno que more em Bangu tem mais facilidade para se deslocar até Moça Bonita que São Januário; um cruzeirense de Governador Valadares veria um jogo contra o Democrata no Mamudão de maneira mais especial que alguém que mora em Belo Horizonte e pode ir ao Mineirão toda semana.

Outra vantagem seria a redução de custos, sem a necessidade de abrir os grandes estádios para partidas de pouco apelo, com palcos como o Maracanã e o Morumbi reservados para os jogos mais importantes.

Conclusão


A época de ouro dos estaduais, com gênios como Pelé e Garrincha desfilando seu talento, não vai mais voltar. A cena de torcedores invadindo o gramado e parando o trânsito para comemorar o título também não – com exceção de cidades como Campinas, onde Guarani e Ponte Preta esperam pelo troféu estadual há mais de um século.

Ainda assim, existe sobrevida. Unindo tradição e modernidade, charme e organização, os campeonatos estaduais podem se reinventar e render boas histórias por muitos anos

TIRA O TIME DE NOVO!

por Wilker Bento


O que mais gostava de fazer na infância e adolescência era jogar futebol. Minha igreja tinha uma quadra onde os meninos se reuniam às segundas ou quintas-feiras por volta das 18h para a brincadeira. Num dia bom, mais de trinta garotos apareciam, o que dava para formar seis times.

Como nem todos conseguiam aparecer na hora marcada, os times eram escolhidos assim que havia um número suficiente de jogadores. Aos poucos, os atrasados chegavam da escola ou do trabalho e formavam times na espera. O problema era que poderia acontecer daqueles considerados melhores aparecerem juntos ao mesmo tempo, formando um time mais forte que os outros. Essa equipe com garotos mais velhos e habilidosos nunca mais perdia uma partida e a brincadeira ficava sem graça. Assim que isso era observado, alguém gritava “tira o time de novo!” e todos concordavam em reorganizar os times, com os melhores jogadores sendo distribuidos igualmente entre as equipes e a brincadeira continuava até as 21h, quando fazíamos uma roda de oração e íamos para casa.

O futebol profissional passa por uma fase parecida na atualidade, onde parece ser necessário “tirar o time de novo” para não perder gradualmente seu interesse. Reflexo da desigualdade social que atinge o planeta, o futebol está cada vez mais desequilibrado e sem graça. Na Itália, que já teve o melhor campeonato do mundo nos anos 1980 e 1990, quando times como Napoli, Hellas Verona e Udinese conseguiam disputar títulos e contratar grandes craques, a Juventus foi campeã por nove anos consecutivos sem muito esforço, e só agora vai dando sinais de desgaste. Na Espanha, onde clubes do porte de La Coruña, Valência e Bétis já conseguiram bater de frente com a dupla Real e Barça, os dois gigantes dominam, dando espaço para o Atlético de Madrid conseguir alguma coisa de vez em quando. Na França, as hegemonias são uma tradição, com o Lyon ganhando tudo nos anos 2000 e o PSG dominando atualmente. E a situação é ainda mais grave na Alemanha, onde o Bayern é o clube mais forte há décadas, mas atingiu níveis absurdos recentemente, vencendo onze Bundesligas nos últimos quinze anos. O Gigante da Baviera tem mais que o triplo de títulos do segundo maior campeão, Nürnberg.

Os maiores clubes europeus já reconhecem a perda de valor das ligas nacionais e a chatice que elas se tornaram, mas ao invés de pensarem num jeito de fortalecer as equipes menores, a ideia da moda é a Superliga Europeia, com times definidos a partir de uma panelinha e protegidos do rebaixamento. Uma competição que enfraqueceria ainda mais os clubes médios e pequenos do continente e logo se tornaria igualmente monótona, com apenas a “nata da nata” brigando pelo título.

No Brasil, a situação não é muito diferente. Embora o critério para a divisão das cotas de TV tenha melhorado nos últimos anos, com o modelo 40-30-30 e o fim da “cláusula paraquedas” para os clubes grandes que são rebaixados, eles ainda recebem muito mais que as equipes restantes. Times que mereciam mais dinheiro e atenção da mídia nos últimos anos, como Athletico Paranaense, Chapecoense e Fortaleza, ainda penam para conquistar espaço. Não é raro que equipes caiam no ano seguinte ao acesso à Série A por não conseguirem bater de frente com os já estabelecidos na elite. E a situação é ainda mais grave nos estaduais, com clubes tradicionais do subúrbio e do interior relegados ao esquecimento na maior parte do ano. Um modelo insustentável.

Sim, é utopia pensar em igualdade total. Obviamente, times com maior torcida e desempenho histórico terão mais chances que os outros. Mas é preciso garantir que os clubes menores também tenham chance de crescer. Os norte-americanos já entenderam isso há muito tempo, ao fazerem da competição mais justa o seu negócio. Embora as suas ligas de basquete, hóquei e futebol americano também tenham seus bichos-papões, a distribuição de recursos é mais igualitária, o que possibilita que o troféu saia mais vezes das mãos de franquias dominantes. Há também o sistema de draft, onde as piores equipes têm preferência na contratação de jovens talentos, equilibrando o jogo a longo prazo. E mesmo na liga de beisebol, considerada a mais desigual entre as quatro, há um equilíbrio maior que no futebol atual – o último tricampeonato da World Series ocorreu em 2000. Ironicamente, o centro do capitalismo segue um modelo “socialista” em seus esportes…

Afinal, de que adianta termos os melhores jogadores do mundo concentrados num só lugar? Qual a graça de assistir um campeonato onde já se sabe de antemão quem ficará com a taça? Hoje a tecnologia proporciona chuteiras modernas, gramados impermeáveis, atletas desenvolvidos em plena forma, mas ainda assim os torneios em sua maioria são entediantes. Prefiro assistir um campeonato de bairro equilibrado que uma competição que envolva a elite do esporte bretão mas o mesmo time ganhe todos os anos.

Que os responsáveis pelo futebol mundial abram os olhos e não destruam esse esporte tão amado por conta de uma visão limitada ao dinheiro. Por serem tão gananciosos, podem acabar matando a própria galinha dos ovos de ouro. Por isso, fica o apelo: TIRA O TIME DE NOVO!

NO ESPORTE, EMOÇÃO É MAIS IMPORTANTE QUE JUSTIÇA

por Wilker Bento


Pierluigi Collina é considerado o maior árbitro de todos os tempos. O italiano apitou a final da Champions League de 1999 e da Copa do Mundo de 2002, entre outros jogos importantes. É o único juiz que já foi garoto-propaganda de um jogo de videogame, o Pro Evolution Soccer 4. Sua careca inconfundível tornou-se um ícone.

Em 2006, perguntado em uma entrevista sobre os segredos de um bom juiz de futebol, Collina afirmou: “O árbitro não pode ser sábio. Deve ser impulsivo. Deve decidir em três décimos de segundo”.

Pouco mais de uma década após a aposentadoria de Collina, parece que esse princípio básico foi esquecido. O árbitro de vídeo transforma uma simples decisão em uma odisseia interminável. E a troco de quê? As polêmicas continuam, as suspeitas em relação a idoneidade do processo só crescem e falhas ocasionais continuam ocorrendo, pois o VAR é um instrumento e a decisão sobre os lances é sempre tomada por seres humanos. E humanos, naturalmente, erram.

Até agora, o único legado do VAR para o esporte bretão têm sido transformar partidas ruins em intragáveis. Com o nível técnico do futebol brasileiro lá embaixo e os estádios silenciosos por causa da pandemia, o árbitro de vídeo é a última pá de cal em um esporte outrora emocionante. Porque, afinal, o torcedor não tem mais o direito de comemorar em paz o momento mais importante: o gol.

A frustração de comemorar um gol e depois perceber que não valeu é algo que sempre existiu. Muitas vezes vimos jogadores gritarem, tirarem a camisa, irem pra galera, e depois saberem que estavam em impedimento. Acontece.

Mas o VAR inventou o contrário: o gol sair e, mesmo assim, todo mundo ter que ficar esperando a confirmação do árbitro, espera essa que não raramente se estende por minutos. É brochante, um balde de água fria.

Lógico, sempre vamos lembrar do título que o nosso time poderia ter ganho em 1900 e chacrinha se o VAR existisse na época e o árbitro da ocasião pudesse ver o lance várias vezes. Mas todo time também já foi ajudado por erros de arbitragem, e essa possibilidade de ganhar ou perder um campeonato de forma suspeita nunca atrapalhou nossa paixão pelo futebol.

Isso porque é a emoção que torna o esporte apaixonante, e não a justiça. Embora o futebol envolva muito dinheiro e investimento dos profissionais, é no fundo uma grande brincadeira que precisa ser divertida para existir. Ninguém vai pegar prisão perpétua ou pena de morte se um juiz tomar uma decisão errada, diferente do que acontece num tribunal de justiça comum. Estamos falando da coisa mais importante entre as menos importantes.

Por isso, discussões a respeito de mudanças nas regras do futebol devem levar em conta a emoção que move a paixão do torcedor. Não basta simplesmente ser justo – e já deu para perceber que o VAR não será o responsável pela implementação dessa justiça nem pelo fim das polêmicas.

A tecnologia é bem-vinda, mas precisa ser bem aplicada para a realidade de cada esporte. O futebol tem uma dinâmica própria, assim como o vôlei, o basquete, o boxe, etc. Se a política do árbitro de vídeo não for repensada, o resultado será um futebol moribundo e sem graça.

FERNANDO DINIZ É UMA MIRAGEM

por Wilker Bento


Em 2016, quem mais chamou atenção no Campeonato Paulista foi o Audax, com sua campanha surpreendente. Um time marcante, que foi vice-campeão e projetou nomes como o goleiro Sidão e o meia Tchê Tchê. Mas o maior destaque daquela equipe foi o técnico Fernando Diniz. Com passagens por grandes clubes como jogador nos anos 1990 e 2000, Diniz apareceu no cenário nacional como treinador após a façanha no clube de Osasco. Na época, o futebol brasileiro ainda lambia as feridas do 7×1, com técnicos experientes sendo severamente questionados. Foi naquele mesmo ano que Vanderlei Luxemburgo, em entrevista ao programa “Bem, Amigos!”, se defendeu das críticas ao responsabilizar Felipão, e não os técnicos brasileiros em geral, pelo vexame na Copa de 2014.

Depois de uma passagem pelo Oeste e retorno ao Audax, finalmente Diniz ganhou uma oportunidade em um clube de Série A, ao ser contratado pelo Athletico Paranaense, em 2018. No Furacão, clube que cultivou imagem de modernidade e ambição nos últimos anos, tudo dava a entender que o treinador teria sucesso. Não foi o que acabou acontecendo. O time não correspondeu e Diniz foi demitido em menos de seis meses, com irrisório 34% de aproveitamento, deixando o clube na vice-lanterna do Brasileirão. O discurso dos defensores do técnico era pronto: o Athletico não tinha um time com bom material humano e condições para que o comandante botasse suas ideias em prática; faltou tempo e paciência. Porém, Tiago Nunes assumiu e levou o rubro-negro à conquista inédita da Copa Sul-Americana.

No ano seguinte, Diniz chegou ao Fluminense, mantendo a mesma filosofia de jogo, com posse de bola e busca por um futebol vistoso. O resultado, porém, foi péssimo: deixou o Fluminense na 18ª colocação do Campeonato Brasileiro. Novamente, a falta de paciência e boas condições de trabalho foi utilizada como justificativa – que, nesse caso é mais aceitável, já que o tricolor carioca vive uma crise há alguns anos. Mesmo assim, o treinador ganhou uma chance no São Paulo, que também passa por um momento difícil, mas não tanto quanto o Flu. E o mais recente capítulo dessa trajetória foi a derrota de 3×2 para o Mirassol, com o Soberano sendo eliminado nas quartas de final do Campeonato Paulista. Detalhe: o Leão perdeu 18 jogadores por causa da pandemia, e teve que completar o elenco com juniores e atletas contratados especialmente para a partida – como Zé Roberto, autor de dois gols. Sim, o São Paulo foi eliminado por um “catadão”.

Fernando Diniz é uma miragem, fruto da carência tática que o futebol brasileiro vive, um treinador que só cai para cima, blindado por suas supostas boas ideias, por parecer emular uma versão brasileira do tiki-taka. Seu modelo de futebol não tem efetividade: muita teoria e pouca prática, muita posse de bola e pouca bola na rede. Uma filosofia onde se confunde futebol arte com derrotismo, pois não consegue ser bonito como propõe e muito menos vencedor.

Gênios precisam comer muito arroz com feijão antes de serem alçados a tal posto. Como ocorreu com muitos técnicos que, de forma semelhante, começaram chamando atenção em equipes menores e depois adquiriram boa reputação no mercado. É preciso saber semear no pouco antes de chegar ao muito. Senão, qual será a desculpa da vez? Que o time do São Paulo também não tem nível para a implementação de suas ótimas ideias? Talvez um projeto de longo prazo no Liverpool?

Para evoluir e exercer todo seu potencial, Fernando Diniz precisa rever alguns de seus conceitos, corrigindo a defesa e abandonando o robotismo, para melhorar e se tornar, finalmente, um grande técnico. Todo defeito tem o seu oposto igualmente ruim, e hoje ele é a distorção oposta do futebol de resultados e do imediatismo, porque não se pode dar prazos e inúmeras oportunidades ao que é claramente ruim. Só o equilíbrio poderá levar o treinador – e o futebol brasileiro – a momentos mais felizes.

AFINAL, O QUE É AMOR À CAMISA?

por Wilker Bento


Quantas vezes já ouvimos que não se fazem mais jogadores como antigamente, ou que, no passado, se jogava por amor e hoje se joga por dinheiro? Será verdade que os atletas, antes românticos, se tornaram mercenários?

Para desvendar esse mistério, vamos começar analisando a história de dois casais fictícios: João e Maria estão juntos há 75 anos, sempre viveram no interior e se casaram atráves de um arranjo familiar. Ao longo do tempo, João se tornou frio e agressivo com Maria. Ela sempre trabalhou como dona de casa e, sem ter seu próprio dinheiro, permaneceu com ele apesar de tudo. Já Enzo e Valentina estão juntos há um ano e meio, conversam por horas na internet e sempre trocam presentes nas datas comemorativas. Depois de um tempo, eles se distanciaram, a família de Valentina se mudou para Portugal e Enzo ganhou uma bolsa numa faculdade norte-americana. Terminaram o namoro, mas são amigos até hoje. 

Quem amou mais, João ou Enzo? Qual o peso do tempo numa relação, seja pessoal ou profissional?

No Brasil, jogadores de futebol atuam oficialmente por dinheiro desde os anos 1930. Mesmo antes do profissionalismo, transferências eram comuns. Maior jogador brasileiro da era amadora, Arthur Friedenreich passou pelo Germânia, Ypiranga e Flamengo, entre outros. Não havia a ideia do jogador leal, que precisava atuar pelo mesmo clube a vida inteira.

Mesmo com o profissionalismo, os jogadores de futebol não passaram a ter as condições de trabalho que têm hoje. A lei do passe mantinha os atletas presos aos clubes detentores de seus direitos. O primeiro a romper com essa lógica foi Afonsinho, que, em plena ditadura, entrou na justiça para ter direito ao seu passe. Foi o único jogador a obtê-lo até a Lei Pelé, de 1998. Três anos antes, a Lei Bosman alterou os rumos do futebol, permitindo que jogadores com cidadania europeia trabalhassem sem restrições pelo continente.

Assim, o fluxo de transferências aumentou porque o futebol se consolidou como um negócio, e não por degradação no caráter dos atletas. A intensa circulação financeira tornou-se evidente: em 1893, Willie Groves custou 100 libras ao Aston Villa, transferência mais cara da época; em 2017, Neymar foi vendido ao PSG por 200 milhões de libras. Cada um é fruto do seu tempo.


Mesmo se adotarmos a longevidade num clube como critério para definir “amor à camisa”, observa-se que não há muita diferença entre os tempos anteriores à Lei Pelé e os dias atuais. No século XX, grandes jogadores fizeram toda sua carreira no mesmo time, como Nilton Santos, Leandro, Baresi e Bergomi. São poucos, assim como no século XXI, onde nomes como Rogério Ceni, Marcos, Puyol, e Maldini foram exceções. Não parece haver uma diferença quantitativa muito grande.

Talvez o incômodo maior para os torcedores aconteça quando um jogador passa a vestir a camisa de um rival. No passado, tivemos exemplos de atletas que só atuaram em uma equipe em seus países de origem, como Pelé, Zico e Valdano. Mas isso também ocorreu em tempos mais recentes, com Raul, Henry e Kaká.

É natural buscar novos ares e mudanças às vezes são saudáveis. Totti, por exemplo, viveu toda sua carreira na Roma e é o maior símbolo recente de fidelidade a um clube, mas também passou por momentos de desgaste e em alguns episódios, sair parecia uma melhor opção. Messi, que está no Barcelona desde criança, por vezes é contestado por não buscar novos desafios em outros times, como fez Cristiano Ronaldo.

Amor à camisa é honrar a torcida e a equipe, mostrar raça e dedicação, mesmo que o contrato não dure para sempre. Como faz Loco Abreu, que mesmo já tendo passado por 29 clubes, costuma deixar boas lembranças. Ser um andarilho da bola não apaga o que ele fez pelo Botafogo, tendo se tornando um ídolo alvinegro. O mesmo vale para Túlio, outro peregrino muito querido pela torcida do Glorioso.

O torcedor que chama o ex-jogador do seu time de “judas” não pensaria duas vezes em trocar de emprego por um salário maior. Ou aceitamos a realidade como ela é ou fantasiamos atletas puristas de uma época que nunca existiu.