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Santos

QUANDO PELÉ PAROU

por Centro de Memória do Santos


O jogo com a Ponte Preta, no finalzinho do primeiro turno do Campeonato Paulista de 1974, valia mais para o time de Campinas do que para o Santos. Só o campeão do turno se classificaria para a final e o Santos estava atrás da Ponte na classificação. Enfim, era para ser um daqueles jogos de Vila Belmiro quase vazia. Porém, um público superior a 20 mil pessoas foi ao estádio. Mais para ver Pelé, é verdade, do que o Santos.

Naquela noite de quarta-feira, 2 de outubro, o Rei se despediria do futebol. E quem não gostaria de guardar na memória as jogadas de Pelé no campo em que ele marcou 288 gols, entre eles três gols na goleada de 5 a 1 sobre o Bahia, em 27 de dezembro de 1961, que deu ao Alvinegro o seu primeiro título brasileiro?

Na Vila sempre pareceu muito fácil para Pelé marcar gols. Só em um sábado de 1964 ele fez oito na goleada de 11 a 0 sobre o Botafogo de Ribeirão Preto, recorde paulista até hoje.

Mas na noite de despedida, por mais que tentasse, ele não conseguir superar o goleiro Carlos, que anos depois seria o titular da Seleção Brasileira. Pelé chegou a acertar uma boa cabeçada, mas Carlos defendeu. O Menino da Vila Cláudio Adão, aos 44 minutos do primeiro tempo, e Geraldo, contra, aos 10 da segunda etapa marcaram os gols que deram a vitória ao Santos por 2 a 0.

Quando Pelé se ajoelhou no gramado, voltando-se para todos os lados do estádio, agradecendo aos torcedores dali do Urbano Caldeira, e de todo o mundo, os jogadores da Ponte Preta foram os primeiros a cumprimentá-lo. A noite se tornou triste e o futebol brasileiro nunca mais foi o mesmo.


Santos 2 x 0 Ponte Preta
Primeiro turno do Campeonato Paulista de 1974
Vila Belmiro, 2 de outubro de 1974 (quarta-feira)
Público: 20 258 pessoas. Renda: Cr$ 219.371,00
Santos: Cejas, Wilson Campos, Vicente, Bianchi e Zé Carlos; Leo Oliveira e Brecha; Da Silva, Cláudio Adão, Pelé (depois Gilson) e Edu. Técnico; Tim.
Ponte Preta: Carlos, Geraldo, Oscar, Zé Luis e Valter; Serelepe e Serginho; Adilson, Valtinho (Brasinha), Valdomiro e Tuta. Técnico Lilo.
Gols: Claudio Adão aos 44 minutos do primeiro tempo e Geraldo, contra, aos 10 do segundo.
Árbitro: Emídio Marques Mesquita.

CLODOALDO, DO TEMPO EM QUE VOLANTES TAMBÉM ERAM CRAQUES

por Guilherme Guarche, do Centro de Memória


Nos instantes finais da partida decisiva contra a Itália, ainda no meio de campo da defesa brasileira, Clodoaldo driblou um, dois, três, quatro oponentes. Depois, deu a bola para Rivelino, que tocou para Jairzinho, que achou Pelé. Este serviu o capitão Carlos Alberto para completar a obra-prima iniciada pelo jovem de 20 anos, mandando a bola para o fundo das redes italianas.

Este gol fechou a goleada de 4 a 1 que deu ao Brasil o seu tricampeonato mundial e consagrou o jovem camisa cinco do Santos e da Seleção Brasileira como um dos melhores do mundo na sua posição.

Clodoaldo Tavares Santana, filho de Irineu Vicente Santana e Petrina Tavares de Almeida, nasceu em um domingo, 25 de setembro de 1949, na cidade de Itabaiana, distante 54 Km da capital Aracaju, em Sergipe.

Seu começo de vida foi muito difícil. Perdeu os pais cedo e aos seis anos se viu obrigado a migrar para São Paulo, mais precisamente para a cidade de Praia Grande.

Passou a morar no litoral paulista com uma irmã e com seu irmão, Antônio. Lá ficou por três anos, mas, como houve uma separação na família, ele veio morar em Santos, com uma família no Morro do São Bento. Foi uma fase difícil na sua vida.

De 1959 a 1963 foi coroinha na Igreja do Valongo, ajudando o frei Cosme Damião nas missas. Ainda bem menino encontrou na religião a proteção e a paz espiritual que tanto precisava.

Com 11 anos começou a trabalhar para se sustentar. A princípio na feira e em mercearias, carregando as compras para as pessoas. Na adolescência trabalhou na Companhia de Produtores de Armazéns Gerais, no bairro do Macuco.

As adversidades que o garoto enfrentava na sua infância e adolescência poderiam tê-lo conduzido para outro caminho, mas o forte desejo de vencer na vida levaria Clodoaldo a ser um campeão.


A opção do futebol veio naturalmente, pela habilidade e desenvoltura que demonstrava na equipe amadora do Grêmio do Apito, administrado pelo árbitro Romualdo Arppi Filho, e depois na Sociedade Esportiva Barreiros.
No Barreiros, o time do bairro Chinês, foi dirigido pelo técnico Miro Caiçara e jogou com a camisa sete, dividindo o meio de campo com seu futuro parceiro no Santos, Walter Negreiros.

Ao vê-lo, o treinador dos amadores do Santos, Ernesto Marques, técnico que revelou vários jogadores no time santista, o convidou para treinar no Alvinegro Praiano.

Nicolau Moran, diretor de futebol do Peixe na época, também foi muito importante em sua formação como atleta e como homem, pois conseguiu que ele morasse em um alojamento no Estádio Urbano Caldeira.
Em entrevista ao Centro de Memória do Santos FC, Clodoaldo falou sobre essa etapa no clube:

Na época o alojamento era uma sauna. Insuportável dormir lá e muitas vezes a gente passava as noites na arquibancada. Trazia os colchões para cima, porque nem ventilador tinha naquela época.

Mas já tinha uma alimentação boa, moradia, e isso me facilitou, porque acordava e já tinha treino. Eu treinava em todas as posições, menos de goleiro.

Veio o amador, me destaquei no campeonato juvenil e de aspirantes. Quando fui a revelação do aspirante, no final de 1966, o Santos já me levou para uma excursão.

Era o começo de uma carreira que o consagraria como um dos melhores volantes do futebol mundial. Um médio-volante hábil, que marcava bem nos dois lados do campo, eficiente no apoio ao ataque e nos desarmes, e sem cometer faltas.

Mais do que profissional, herdeiro de Zito

Clodoaldo, que tinha desde a infância o apelido de “Corró” (pequeno peixe dos açudes), jogou a primeira partida como profissional do Alvinegro em um amistoso na cidade de Blumenau, Santa Catarina, em 5 de junho de 1966. O Santos venceu por 2 a 0, com gols de Coutinho e Amauri. Naquele dia Corró tinha, exatamente, 16 anos, oito meses e 11 dias.


O time dirigido por Luiz Alonso Perez, o Lula, que estava em seu último ano no clube formou com Laércio, Oberdan (Zé Carlos), Mauro, Haroldo e Geraldino; Joel Camargo (Clodoaldo) e Salomão; Amauri, Coutinho (Wilson), Toninho Guerreiro (Del Vecchio) e Abel

Já em 1967 Clodoaldo tornou-se titular ao substituir o grande capitão José Ely Miranda, o Zito, de quem herdou a camisa cinco do Peixe. No Campeonato Paulista de 1967, Corró, com a camisa oito, jogou várias partidas ao lado de seu ídolo, Zito, que usava a cinco

Nos vestiários do Pacaembu, antes de uma partida contra a Portuguesa de Desportos, na hora de distribuir as camisas o grande capitão santista chamou o técnico Antônio Fernandes, o Antoninho, e falou:

A camisa cinco, a partir de hoje, é do moleque

Emocionado sempre que se lembra desse episódio que marcou para sempre sua amizade com Zito, Clodoaldo se recorda de ter dito que procuraria honrar essa responsabilidade, pois “substituir Zito uma responsabilidade enorme”.

Nunca esqueci desse gesto do Zito, sempre tive um respeito e um carinho muito grande por ele como pessoa.
Fomos campeões em 1967 logo de cara, depois veio 1968 e 1969 e fui me acostumando com a camisa do capitão.

A convocação para a Seleção Brasileira, em 1968, e a participação na conquista do Mundial no México coroou sua trajetória com a camisa canarinho. Em 1972, outra marcante conquista na Seleção foi a Taça Independência. Antes da Copa do Mundo da Alemanha, em 1974, o valente médio santista que não perdia uma só dividida foi cortado do grupo às véspe ras do M undial.

Em 1978, quando ganhou seu último título no Santos, liderou um grupo de garotos conhecido como “Meninos da Vila”.

Problemas no joelho anteciparam sua despedida do futebol, e ele vestiu pela última vez a camisa do time que tanto ama no dia 26 de janeiro de 1980, na Vila Belmiro, na derrota para a Seleção da Romênia por 1 a O.

Nesse amistoso, que teve um público de 24 204 espectadores, escalado por seu amigo José Macia, o Pepe, o Santos formou com Marolla, Nelsinho Baptista, Joãozinho, Neto e Paulinho (Washington); Clodoaldo (Cláudio Gaúcho), Carlos Silva e Pita; Nilton Batata (Serginho), Aluísio (Rubens Feijão) e João Paulo.

Ao todo, entre os anos de 1966 e 1980, Clodoaldo vestiu a camisa do onze praiano em 512 partidas e marcou 14 gols. É o sétimo jogador que mais vezes defendeu o Peixe.

Pela Seleção Brasileira, o craque dono da camisa cinco jogou 51 partidas e marcou apenas três gols, um deles foi o inesquecível gol de empate na semifinal contra o Uruguai, na vitória brasileira por 3 a 1.

Títulos de Clodoaldo no Santos

1967 – Campeonato Paulista e Torneio Triangular de Florença.
1968 – Campeonato Paulista, Campeonato Brasileiro, Recopa Sul-Americana, Recopa Mundial, Torneio Octogonal do Chile e Torneio Amazônia.
1969 – Campeonato Paulista e Torneio de Cuiabá.
1970 – Torneio Hexagonal do Chile.
1973 – Campeonato Paulista.
1977 – Torneio Hexagonal do Chile.
1978 – Campeonato Paulista.


Técnico e dirigente

Em 1981 jogou três partidas pela equipe do Nacional, de Manaus. No ano seguinte se despediu da carreira após atuar na segunda liga americana pela equipe do New York United.

Ainda em 1982 aceitou o convite da diretoria presidida por Rubens Quintas e dirigiu o Santos em substituição ao técnico Daltro Menezes. Em partidas obteve 10 vitórias, seis empates e sete derrotas.

A partir de 1995, na gestão do presidente Samir Abdul Hack (*26/08/1941+29/08/2016), Clodoaldo exerceu as funções de diretor de futebol e vice-presidente do clube. Também serviu ao Santos como gerente de futebol profissional em 2009. Sua última participação na diretoria santista ocorreu em 2017.

Com a experiência de ter trabalhado muitos anos como corretor de imóveis de alto padrão na Baixada Santista, atualmente Clodoaldo é dono de uma imobiliária na em Santos.

O sergipano-santista Clodoaldo, que hoje completa 71 anos, reside na Avenida da Praia, no bairro da Aparecida. É casado desde 1974 com Clery e pai de Claudine e da modelo internacional a jovem Simone Tavares. Clery lhe deu o neto Vitor Santana, que jogou nas categorias de base do Santos.

SANTOS CONQUISTA O BI DA LIBERTADORES NA RAÇA E NO TALENTO

por Gabriel Pierin, do Centro de Memória


La Bombonera estava repleta. Os torcedores do Boca Juniors tinham um bom motivo para lotar o estádio e acreditar no título inédito. No primeiro jogo da decisão da Taça Libertadores de 1963, no Maracanã, o Santos vencia por 3 a 0, com dois gols de Coutinho e um de Lima, mas nos minutos finais Sanfilippo marcou duas vezes e a vitória foi ofuscada. Mais do que isso, a vantagem santista parecia possível de ser mantida com o Boca jogando em casa.

O Santos, campeão da Libertadores de 1962, entrou direto na semifinal da edição de 1963, quando enfrentou o rival brasileiro Botafogo, líder isolado de um grupo que tinha Alianza Lima, do Peru, e Milionários, da Colômbia. Santos e Botafogo formaram a base da Seleção na Copa do Mundo disputada naquele ano e o elenco carioca era o vice-campeão brasileiro, atrás do Peixe.

No primeiro duelo entre ambos, no Pacaembu, o Alvinegro da Vila Belmiro só conseguiu um empate por 1 a 1, e mesmo assim com um gol de Pelé aos 45 minutos do segundo tempo. Porém, no Maracanã, diante de mais de 44 mil espectadores, o Santos despachou o Botafogo por 4 a 0, com três gols de Pelé e um de Lima.

O Boca, por sua vez, era o campeão argentino e participava do torneio sul-americano pela primeira vez. Para chegar à final o time portenho liderou o seu grupo, superando Olimpia do Paraguai e Universidad de Chile, e na semifinal passou com duas vitórias pelo temido Peñarol, campeão uruguaio. A derrota por 3 a 2 para o Santos na primeira partida da final era mais um ingrediente poderoso no caldeirão que se formou para a partida de volta.

Na quarta-feira, 11 de setembro, o Santos entrava no estádio do Boca aos gritos de uma multidão enfurecida de 85 mil fanáticos e novo recorde de renda para partidas de futebol na América (120 000 dólares). A pressão era grande e o gramado estava péssimo. O time da Técnica e da Disciplina precisaria muito mais do que isso para superar as adversidades.

Sem Mengálvio, o técnico Lula trouxe Lima para o meio e colocou Dalmo na lateral-direita, fazendo entrar Geraldino na esquerda. O time ficou com Gylmar, Dalmo, Mauro, Calvet e Geraldino; Lima e Zito; Dorval, Coutinho, Pelé e Pepe.

O Boca foi escalado por Aristóbolo Deambrosi com Errea, Magdalena, Orlando Peçanha e Simeone; Rattin e Silveira; Grillo, Menéndez, Rojas, Sanfilippo e González. Para arbitrar a partida foi convidado o francês Marcel Albert Bois.

Precisando da vitória, o time da casa se lançou ao ataque. Gylmar, em grande fase, fez uma série de defesas nos primeiros minutos de jogo. O Santos reagiu e Pelé só não marcou porque foi parado com violência. O árbitro controlou a animosidade, advertindo o infrator. O primeiro tempo terminou assim: o Santos controlando o jogo e o Boca procurando vencer a qualquer custo.

Segundo tempo de grandes emoções

Logo no minuto inicial da etapa complementar, o atacante Grillo cruzou na área. Gylmar e Mauro se atrapalharam ao tentar interceptar a bola e ela sobrou para Sanfilippo, que chutou de pé direito para dentro do gol.

O estádio veio abaixo. A vitória do Boca forçaria a terceira partida. Ao Santos até o empate interessava. Sem se abater com a pressão da torcida, o Alvinegro respondeu rápido ao gol. A alegria dos argentinos durou pouco.
Três minutos depois, Dorval interceptou um tiro de meta mal cobrado por Errea e tocou para Pelé, que imediatamente vislumbrou Coutinho entrando entre os zagueiros. O centroavante bateu seco, rasteiro, no canto. O Santos empatava a partida e assumia o controle do jogo.

Com Mauro seguro na defesa, Lima em uma atuação brilhante na cobertura e os laterais Dalmo e Geraldino recebendo o apoio dos pontas Dorval e Pepe que seguravam as investidas de Grillo e Gonzalez, sobrou para a dupla de ataque Coutinho e Pelé infernizar a defesa adversária.

Aos 37 minutos, deslocado pela ponta esquerda, Coutinho seguiu com a bola, cortou para o meio e serviu Pelé, na entrada da área. O Rei, cercado por três adversários, jogou a bola entre as penas de Orlando e tocou na saída de Errea, marcando o segundo gol do Santos.

Por um momento o estádio emudeceu. Pelé foi abraçado pelos companheiros de equipe e recebeu aplausos de todo o estádio, até da implacável torcida adversária, que se rendia ao talento do Rei do Futebol.

O Santos era mais uma vez campeão da América. A vitória classificou o Peixe para disputar o título mundial com o Milan, o campeão europeu, em uma decisão que ficaria marcada por uma das viradas mais espetaculares do Alvinegro Praiano. Uma história que ainda será contada.

JUIZ PERDE A CONTA E SANTOS PERDE METADE DO TÍTULO PAULISTA

por Gabriel Santana, do Centro de Memória


Os 116 156 pagantes, um recorde no futebol paulista, presenciaram no dia 26 de agosto de 1973 o Santos ser campeão paulista pela décima terceira vez e viram um erro de arbitragem que ficou marcado na história do futebol.

Para chegar até a decisão diante da Portuguesa de Desportos, o time santista foi campeão invicto do primeiro turno, acumulando oito vitórias e três empates, assinalando 23 gols e sofrendo outros cinco. Destaque para as goleadas de 6 a 0 diante do Juventus da Moóca e de 5 a 1 contra a Ponte Preta. Já no segundo turno, o time luso sagrou-se campeão.

Na grande, no Estádio do Morumbi, o Peixe foi escalado pelo técnico Pepe, o Canhão da Vila, com Cejas, Zé Carlos, Carlos Alberto, Vicente e Turcão; Clodoaldo e Léo Oliveira; Jair da Costa (Brecha), Euzébio, Pelé e Edu.

A Portuguesa, comandada pelo experiente Otto Glória, entrou em campo com Zecão, Cardoso, Pescuma, Calegari e Isidoro; Badeco e Basílio; Xaxá, Enéas (depois Tatá), Cabinho e Wilsinho, escalada pelo experiente Otto Glória.

Tanto o público já citado, de 116 156 pessoas , quanto a renda, de 1,5 milhão de cruzeiros, foram recordes no Estado de São Paulo, superando a final do Paulista de 1971, em que o São Paulo bateu o Palmeiras por 1 a 0 diante de 103 887 torcedores e renda de  913 196 cruzeiros.

Santos no ataque 

A partida iniciou com o Santos tentando marcar um gol rapidamente. O Alvinegro dominou a partida e foi muito mais ofensivo que o time da capital. O Rei Pelé mandou três bolas na trave, mas o placar insistiu em permanecer 0 a 0 e o jogo foi para a prorrogação.

No tempo extra a Portuguesa equilibrou a partida e teve uma grande oportunidade no finzinho, com Basílio, mas Cejas conseguiu defender. Com a falta de gols, a partida se encaminhou para a decisão por penalidades.

Os cinco cobradores escolhidos do Santos foram Zé Carlos, Carlos Alberto, Edu, Pelé e Léo Oliveira. Os da Portuguesa, Isidoro, Calegari Wilsinho, Basílio e Tatá.

Zé Carlos bateu primeiro e o goleiro Zecão fez grande defesa. Isidoro inaugurou as cobranças da Portuguesa e Cejas manteve o 0 a 0 no placar, saltando para tirar a bola do ângulo.

Enfim a rede balançou na tarde daquele domingo. Carlos Alberto colocou no canto esquerdo, rasteiro, e fez 1 a 0. Calegari chutou fraco, no canto direito, e  Cejas fez mais uma defesa.

Edu fez 2 a 0 para o Peixe após cobrar com violência, no lado direito, e a Portuguesa errou seu terceiro pênalti quando Wilsinho acertou o travessão. Após esse terceiro erro do time paulistano, o goleiro Cejas começou a vibrar e contagiou seus companheiros e a torcida. Empolgado com a comemoração do time santista, o árbitro Armando Marques encerrou a partida, declarando o Alvinegro campeão.

Mas cada equipe havia cobrado três penalidades, portanto, restavam ainda duas cobranças para cada lado. Se o Santos errasse as duas e a Portuguesa acertasse as suas duas, a decisão ficaria empatada em 2 a 2.

O erro não foi identificado por nenhum atleta ou dirigente, e o Peixe comemorou o título como legítimo campeão. Já no vestiário a diretoria da Portuguesa foi alertada e antes que obrigassem a equipe a voltar ao campo, a delegação da Lusa rapidamente entrou no ônibus e seguiu em direção ao Canindé.

Erro matemático?

Ao sair do Morumbi, acusado de ter cometido um “erro de direito”, Armando Marques se justificou:

Não foi um erro de direito. Foi um erro matemático. Pensei que o Santos tinha uma vantagem matemática insuperável sobre a Portuguesa. A culpa foi toda minha. 

Cogitou-se marcar uma nova partida, mas três dias depois já começaria o Campeonato Brasileiro. A Portuguesa também ameaçou pedir a anulação do jogo. Sem datas para uma nova decisão, os dirigentes dos clubes e o presidente da Federação Paulista de Futebol, José Ermírio de Morais, decidiram lá mesmo nos vestiários a divisão do título.

Armando Marques teve seu erro “matemático”, mas a verdade é que as chances matemáticas do time santista perder a decisão por pênaltis, se ela continuasse, eram baixíssimas. Os dois batedores restantes do Peixe eram Pelé e Léo Oliveira. O Rei tinha um aproveitamento excelente em pênaltis, e Léo Oliveira era o cobrador oficial. Ambos teriam que perder seus pênaltis, e Basílio e Tatá teriam que superar Cejas, que já havia defendido duas cobranças.

Portanto, Santos e Portuguesa foram os campeões paulistas em 1973, repetindo o ano de 1935, quando ambas as equipes também foram campeãs paulistas, mas cada uma por uma liga diferente: o Santos pela Liga Paulista de Futebol (LFP) e a Portuguesa pela Associação Paulista de Esportes Atléticos (APEA).

PITA, O MENINO-MAESTRO, FAZ 62 ANOS

Centro de Memória do Santos


“Que gol fez o garoto!”, exclamou o jornalista Jéthero Cardoso, do Jornal da Tarde, na tribuna de imprensa do Morumbi. Lá no gramado o zagueiro Tecão ainda estava caído depois do drible seco do armador Pita, canhoto de 20 anos e muita habilidade, que corria em direção à pista de atletismo para comemorar o gol de virada contra o São Paulo, na primeira partida da decisão do título paulista de 1978.

Menino pobre nascido em Nilópolis, no Rio, em um 4 de agosto como hoje, Edivaldo de Oliveira Chaves veio com um ano de idade para Cubabão e passou a maior parte da infância jogando futebol e vendendo siris às margens da rodovia Anchieta.

Meia habilidoso, que não só lançava e chutava bem, mas também driblava como um atacante, Pita teve grandes momentos no futebol. Chegou até à Seleção Brasileira, pela qual fez 12 partidas, mas nada se compara com a explosão de sentimentos causada por aquele seu gol contra o São Paulo, aos nove minutos do segundo tempo, na noite de 20 de junho de 1979.

Do Casqueiro ao Santos em dois anos

Tudo estava acontecendo muito rápido na vida do menino que aos 13 anos foi defender o Casqueiro em um torneio de praia e acabou convidado para jogar na Portuguesa Santista. Dois anos depois já estava na Vila Belmiro, treinando ao lado de companheiros que, devido à eterna falta de dinheiro do clube, seriam promovidos ao time principal em 1978.

Pita passava tardes vendo os treinos de Edu, seu ídolo, e prestava atenção nos dribles do ponta para treiná-los depois. Ele acha que por isso se tornou um meia ofensivo, que se sentia à vontade perto da área adversária, a ponto de marcar gols como aquele contra o São Paulo.

Com ele e Ailton Lira lançando os rápidos Nilton Batata, Juary e João Paulo, o Santos infernizava os adversários. Após o título paulista de 1978, conquistado em meados de 1979, aquele Santos ainda venceu o primeiro turno do paulista de 1980, mas acabou derrotado na decisão com o São Paulo.

O título mais importante poderia ter vindo no Brasileiro de 1983, mas aí, além do bom futebol do adversário na final, Pita acredita que já estava tudo armado para Zico ter o seu último título antes de ir para a Itália:


– Em São Paulo ganhamos só de 2 a 1, mas era para fazermos mais dois ou três gols. No Rio, tomamos um gol logo de cara, mas estávamos equilibrando o jogo quando não deram um pênalti inacreditável em mim (o zagueiro Marinho atropela Pita na área e o árbitro Arnaldo César Coelho dá obstrução, cobrada em dois toques. Um absurdo).

– A gente já estava percebendo coisas estranhas em campo. Depois daquele pênalti não dado eu olhei para o Serginho e disse que já estava tudo armado, a gente não iria sair campeão dali de jeito nenhum.

Tímido? Nem tanto

O único defeito que os cronistas da época apontavam em Pita era a timidez. Às vezes parecia sumir do jogo. Isso também o atrapalhava fora de campo, principalmente no ambiente carnavalesco da Seleção Brasileira, dominado pelos espalhafatosos e super protegidos jogadores cariocas.

Na verdade, o futebol de Pita falava por si, não era preciso contar lorotas. Tanto, que no primeiro jogo depois de uma longa suspensão, Ailton Lira recusou a camisa 10 que o técnico Formiga lhe estendia, no vestiário. Apontou para Pita e disse: “Dê para o garoto, ele merece”.

Pita também tinha fama de bonzinho, mas também aprontava. Ele se lembra de uma noite em que colocou um siri embaixo do travesseiro de Serginho Chulapa, justamente o jogador mais temperamental do time.

– Ele estava fora. Pus o siri e antes que ele voltasse fui para o meu quarto e tranquei a porta. Eu sabia que o Serginho iria ficar furioso quando visse o bicho lá.

Realmente. Serginho viu o travesseiro se mexendo, foi checar e viu o siri enorme. Quase quebrou a porta de Pita. Hoje o meia ri, diz que gosta muito do centroavante e que o sentimento é recíproco.

Mesmo muito querido pela torcida, em 1984 Pita foi para o São Paulo, trocado pelos passes do ponta-esquerda Zé Sérgio e o volante Humberto (ambos campeões paulistas pelo Santos em 1984). No Morumbi, Pita foi duas vezes campeão paulista e uma vez brasileiro.

Em 1988 seguiu para o Racing Strasburg, da França, negociado por um milhão de dólares. Antes de encerrar a carreira de jogador e iniciar a de técnico de base, o meia que o técnico Cilinho chamou de “o último romântico do futebol” atuou pelo Guarani de Campinas e no futebol japonês.

Jogador que pouco se machucava, ele é o décimo sétimo jogador com mais atuações pelo Alvinegro Praiano. Foram 408 jogos e 55 gols marcados com a camisa do Santos, alguns deles belíssimos, que deixaram muitos zagueiros sentados, e a torcida de pé.