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Pompeia

OS INCRÍVEIS POMPEIA E VERMELHO, OS “ACROBATAS” DO FUTEBOL

por Victor Kingma


Nos início dos anos 60, o Bangu e o América tinham grandes times e vários craques desfilaram pelos gramados defendendo suas gloriosas camisas, como Djalma Dias, Leônidas e Amaro, pelo América e Zózimo, Roberto Pinto e Paulo Borges, pelo Bangu.

Entretanto, os saudosistas, como eu, devem se lembrar de dois jogadores, que, embora não fossem os astros das suas equipes, faziam a alegria das torcidas pelas acrobacias que faziam em campo: o goleiro americano Pompeia e o ponteiro banguense Vermelho.

Pompeia, que havia trabalhado em circo e sonhava um dia ser trapezista, era um espetáculo à parte com seus voos espetaculares, o, que, aliás, lhe rendeu o apelido de “Constellation”, aeronave famosa da época. Já o arisco ponteiro banguense tinha uma característica peculiar: cruzar as bolas e até bater escanteios, de letra. A torcida ia à loucura com as peripécias dos dois jogadores.

Certa vez, num jogo América e Botafogo, Pompeia foi fintado pelo endiabrado Mané Garrincha que partiu sozinho na direção ao gol para entrar com bola e tudo.


A torcida botafoguense se levantou para comemorar o gol, em mais uma diabrura do seu ponteiro, quando, inesperadamente, o elástico arqueiro do América deu um salto acrobático para trás e pegou a bola nos pés de Garrincha, em cima da linha.

Enquanto as torcidas dos dois times aplaudiam o lance, os dois artistas da bola se abraçavam, e, às gargalhadas, se divertiam pela jogada inusitada que acabavam de protagonizar. 

Em outra oportunidade, acontecia no Rio o tradicional torneio início, evento com vários jogos de 20 minutos, que marcava o começo dos campeonatos regionais. Os times que venciam as partidas iam prosseguindo na competição.

Em um jogo do Bangu, toda vez que havia um escanteio em favor do time, a torcida em coro pedia para Vermelho efetuar a cobrança. Era uma festa no Maracanã.

De repente aconteceu um pênalti para a equipe banguense. O cobrador, Ocimar, se preparava  para bater quando, assim que o juiz apitou, Vermelho tomou a frente e executou a cobrança, de letra, convertendo a penalidade, para delírio do público presente.


Nesse mesmo torneio, que não tinha tanto compromisso, pois servia para apresentar as novidades dos times para a temporada, Bangu e América se enfrentavam. 

Quase no final do jogo acontece um corner a favor do Bangu. Vermelho bate de letra e executa mais uma vez a sua inusitada jogada. A bola vai no ângulo. O ponteiro parecia tentar um gol olímpico. 

Pompéia, então, salta e faz mais um de seus voos acrobáticos para efetuar a defesa. Um detalhe: em vez de segurar a bola, como tinha feito em chutes de outros atacante, a espalma novamente para a linha de fundo, cedendo novo escanteio.

Talvez, lembrando dos tempos do circo, tenha pensado naquela hora que todos que estavam ali no “picadeiro” mereciam o replay daquela cena e das acrobacias que ele e o amigo Vermelho acabavam de executar. Valia a pena repetir.

Que saudade  daqueles românticos tempos do futebol e de seus “palhaços” e “acrobatas” da bola!  

VOA, POMPÉIA

Ter um texto de Joaquim Ferreira dos Santos no Museu da Pelada é para as trombetas soarem por uma hora e o tapete vermelho esticado para que ele possa desfilar sua categoria. Somos muitoooo fãs dele e sua mais recente obra, a biografia do colunista Zózimo, é um primor. Abram alas que Joaquim vai passar!!!!!!

por Joaquim Ferreira dos Santos

Não foi o melhor goleiro, mas tinha estilo.

Já que aqui no Museu da Pelada não se fala em outra coisa, bola de um lado para o outro, lembranças de todos os craques, abro o jogo e mostro o que carrego na caixinha de surpresas. Minha escola de texto e criação foram as quatro linhas. Aprendi com Pompéia, um goleiro do América no final dos anos 60, e só muito tempo depois confirmei nos perfis do Gay Talese, nas modulações do gogó de Roberto Silva, nas trufas brancas dos pratos do Gero. Sem estilo a vida não tem graça. Faça a coisa certa, mas ponha uma assinatura. Molho. Veneno. Maldade. O tal diabo que mora nos detalhes.


Pompéia me veio antes de todos os sabichões das redações, de todos os comunicólogos de plantão, e aqui, já que ninguém se lembra mais, faço-lhe a oração de graças. Que Deus o tenha em conforto ali onde a coruja dorme, na última gaveta, na forquilha, na santa paz dos meus heróis formadores de opinião. Não era um grande guarda valas. Um goalkeeper que jamais chegou à seleção. Médio. Rogério Ceni nunca ouviu falar nele. O hall da fama no Maracanã com certeza não prevê qualquer busto nem lhe tem os moldes da mão para imortalizar. Foi grande para as minhas convicções, especulações e crenças no destino profissional. Ele fazia ao seu jeito, este é o ponto. Como Sinatra na canção.


Osni e Pompéia. Crédito: Arquivo Público do Estado de São Paulo.

Pompéia era um sujeito magro, mulato, alto, e aos meus olhinhos infantis suas defesas espetaculares impressionaram primeiro do que qualquer outra forma de arte. Antes mesmo do plano seqüência do engarrafamento do Godard no “Made in Usa”, antes ainda de ver a arquitetura do Hundertwasser em Viena, antes de pensar que suas lições mais tarde me seriam o caminho para ganhar o pão. Antes de eu começar meu próprio jogo Pompéia mostrou que era por ali. A vida sem enfeites é muito aborrecida. Bolo sem cereja. Os Beatles sem os terninhos de gola redonda. Um beijo de boca fina. Crônica sem fecho de ouro. Sexo em silêncio. Uma garota moderna sem tatuagem.

 Pompéia, o goleiro do América que não sai nos álbuns de figurinhas nem é citado por qualquer doutor da crônica esportiva, me mostrou que fazer, depois de um bocado de treino, todo mundo acaba fazendo. Jogar se faz jogando. Mecânica esportiva. Ele me mostrou que bom mesmo é tentar fazer diferente. O passe de 40 metros do Gerson, a folha seca do Didi, a pedalada do Robinho, o fingequevai-e-vai do Garrincha, a bicicleta do Leônidas, o senta a pua do Pepe, o drible da vaca do Pelé, o sem pulo do Bebeto, o três dedos do Dunga para o Romário naquele jogo contra o Camarões nos Estados Unidos e o biquinho do Romário para o fundo das redes. Junte essas jogadas a uns acordes do Tom, umas curvas do Niemeyer, uns bisturis do Pitanguy e a introdução do Dom Casmurro – e eis o que temos de mais genial em 500 anos de civilização.


 Pompéia errava muito, nunca chegou aos pés da leiteria do Castilho, à frieza de Gilmar ou à sorte de Taffarel nos pênaltis. Seu grande trunfo era o medo de todo artista – que a platéia morresse de sono na arquibancada. Qualquer bola que lhe vinha à meta era motivo para que Pompéia se atirasse sobre ela com estardalhaço, como se gritasse olha como eu sei fazer o meu trabalho. Sempre que vejo um filme de Brian di Palma, Caetano cantando, uma crônica de Rubem Braga, me baixa a figurinha do Pompéia praticando uma ponte, que é como a gíria dos moleques reconhece aqueles pulos dos goleiros para cair com a bola abraçada. As pontes de Pompéia foram minhas primeiras aulas de redação. Aprendi depois a desprezar os adjetivos, apostar na força dos verbos e substantivos, escolher as frases afirmativas ao invés das negativas, abreviar o máximo, ser objetivo, evitar os gerúndios, não superescrever. De resto, devo tudo ao Pompéia.

 Talvez ele perfumasse a flor, como dizia João Cabral de Melo Neto, por sinal americano. Talvez adornasse demais o estilo para esconder suas falhas, mas até nisso havia sabedoria. Nem todos podem ser o Yashin, o ‘aranha negra’ russo, técnico, enxuto, que deslumbrou o mundo nos anos 60. Nem todos podem ter o reflexo do Banks na cabeçada do Pelé em 70. Descubra o seu jeito de botar os cornos acima da manada, parecia dizer Pompéia ao menino suburbano que aprendia as primeiras letras. O chute do atacante vinha fraco e rasteiro? Não importava. Pompéia, de olho na posteridade do registro fotográfico, nem aí para os riscos de um frangaço, ia em cima como se a bola viesse sempre carregada com a mesma manha de efeitos daquela que o Ronaldinho colocou de falta sobre o goleiro da Inglaterra no Japão. Era a sua marca. Parecia se divertir no trabalho. Era o que editores afirmam procurar no particular dos textos, uma voz que o destaque da multidão dos outros.


Pompéia, no espetáculo de suas pontes, foi único e aqui beijo-lhe as luvas, lavo-lhe as joelheiras em reverência de aluno. Ele queria fazer bonito, no capricho, com estilo e sem a mesmice dos colegas que simplesmente ‘ encaixavam o balão de couro’. Esparramava no Maracanã o mesmo vôo dasborboletas que o poeta Augusto Frederico Schmidt dizia ser necessário salpicar entre os parágrafos de qualquer obra. Grande Pompéia. Sabia que futebol e poesia jogam no mesmo time.

O GOLEIRO VOADOR

por Victor Kingma, de Minas Gerais


Pompéia tinha uma impulsão de dar inveja a muitos goleiros

Ao longo dos anos, o futebol brasileiro revelou grandes goleiros como Barbosa, Castilho, Manga, Gilmar, Taffarel e tantos outros. Entretanto, o mais espetacular de todos, para muitos saudosistas como eu, talvez tenha sido Pompéia. Com sua incrível elasticidade e saltos acrobáticos, fazia as torcidas vibrarem, inclusive as adversárias, para delírio dos vibrantes narradores esportivos da época.

José Valentino da Silva, o Pompéia, era mineiro da cidade de Itajubá, onde iniciou a carreira no Itajubá F.C.  Antes disso, no entanto, havia sido artista de circo.

Muitos não sabem, mas inicialmente ele jogava de centroavante. Um dia, já atuando pelo São Paulo da mesma cidade, numa partida em Três Pontas, o goleiro do time adoeceu e o treinador precisou escalar o centroavante no gol. Sua atuação foi tão espetacular que a partir daquele dia jamais abandonou a posição.

 Sua fama logo correu o Brasil e grandes clubes como Portuguesa e São Paulo tentaram contratá-lo. Mas ele sempre recusava, alegando que não queria sair de Minas.

Um dia, o Bonsucesso foi jogar em Itajubá e o juiz que acompanhava o clube carioca, e que apitou a partida, ficou impressionado com a atuação do goleiro e o convidou para jogar no Rio. Como adorava a cidade, acabou aceitando.

Por volta de 1953, Alfinete, seu primeiro técnico no Bonsucesso, costumava levá-lo para assistir os jogos de Barbosa e Castilho, os maiores goleiros da época. E Pompéia aprendeu muito com eles.

No ano seguinte, foi contratado pelo América, onde desenvolveu uma carreira brilhante. Seu primeiro título foi um torneio internacional, no Peru. 

Foi campeão carioca em 1960 pelo mesmo clube e campeão venezuelano pelo Deportivo Português. Jogou ainda no Futebol Clube do Porto, de Portugal, e no Galícia, da Venezuela. 

Pelas suas defesas acrobáticas e saltos espetaculares era conhecido como Constelation (aeronave famosa da época), Ponte Aérea e Goleiro Voador.

Quando era garoto, gostava de desenhar a figura do marinheiro Popeye. Como ele e seus amigos não sabiam pronunciar direito o nome do personagem, acabou dando origem ao apelido Pompéia.

Pompéia, o mais peladeiro dos goleiros, o goleiro voador, faleceu no Rio de Janeiro em 18 de maio de 1996, aos 62 anos de idade.