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Mauro Ferreira

AH, ISABEL…

por Mauro Ferreira

Foto: Ari Gomes

Ela sempre resolvia. Sempre. Nos momentos mais difíceis, naqueles em que a situação exigia frieza e decisão, a bola ia pra ela. Não só no vôlei. Não só no vôlei. A bola mais importante era dela. Não fugia. Nunca fugiu. Ao contrário, não se importava de se expor se acreditasse na causa. Foi assim quando decidiu jogar grávida, barrigão mesmo, proeminente, umbigo saltado, marcando a camiseta de jogo. Estabeleceu a causa.

Ah, Isabel…

Quem há de esquecer da moleca esguia, sorriso farto, espetáculo garantido a cada jogo, a cada tapa dado com vontade na cara da bola? Quem há de? Nós, os mortais, esquecíamos as dores do dia, da vida, para sorrir junto, extasiados, hipnotizados, irresistivelmente apaixonados.

Ah, Isabel…

Havia tanto ainda pra dar, pra discutir, pra influenciar, pra ensinar e pra amar. Muitos “nãos” pra dizer de cara amarrada e o triplo de “sins” com sorriso escancarado… Ainda havia muito o que fazer, o que pensar, o que projetar.

Ah, Isabel…

Você habitou tantos corações, tantos imaginários, tantos sons e sonhos… e sabia disso. Tinha a exata noção da sua relevância, do alcance da voz e dos assuntos que expandia com seu megafone rouco e potente.

Ah, Isabel…

Moça sensível, jamais tirou do radar sua intensidade infantil, acrescentando a experiência e a maturidade. Não perdeu a beleza. Fez dos anos uma fonte de juventude constante, permanente.

Ah, Isabel…

Aí está o texto prometido, embora não o que deveria ser. Os verbos agora no passado, jamais serão passado. Você é presença eterna e um presente desses que se guarda no local mais visível aos nossos olhos

Ah, Isabel…
Ah, Isabel…

Por quê?

GIBA NELES!

por Mauro Ferreira

O moleque travesso do interior do Paraná ganhou o mundo. E também ganhou bordão do locutor mais famoso da televisão brasileira. Não à toa, o primeiro cumprimento ao três vezes medalhista olímpico é sempre o sonoro “GIBA NELES!”

As façanhas de Giba vão além do que ele poderia imaginar, muito além de qualquer sonho de criança. E os voos da imaginação se transformaram em voo literais. Se não eram para afundar a bola de vôlei no território inimigo, eram para construir defesas impossíveis, espetaculares. Um jogador tão completo, tão fora da curva que acabou eleito duas vezes o melhor jogador de vôlei do mundo. Não é pra qualquer um.

Giba não é qualquer um.

Por trás do jogador famoso, temido por seus adversários por bem mais de uma década, está um sujeito afável, simpático, atencioso, sensível ao extremo. A própria percepção de sua importância é um indicativo. Quantas não foram as vezes que voltou ao hotel da seleção de táxi só para atender os fãs atrás de uma selfie, um autógrafo, um sorriso.

Humilde, explica seu combustível emocional na troca com seus “adoradores”. Sim, Giba não possui fãs. Eles são adoradores. E não esconde as lágrimas ao falar de alguns desses episódios de troca. É a sua força nada oculta que o fez sempre ressurgir do improvável.

Giba saiu do interior do Paraná para escrever um capítulo longo e importante do vôlei brasileiro

Giba saiu do interior do Paraná para virar bordão.

Sergio Pugliese, Giba e Mauro Ferreira

Giba saiu do interior do Paraná para virar mito.

DE ZÉ BAIANO AO DEUS DA RAÇA

por Mauro Ferreira

O sobrenatural comunga com os deuses e, obviamente, há algo de muito sobrenatural naquele gol.

Nascido sob o signo das águas férteis de São José do Rio Pardo, Antônio José Rondinelli Tobias foi para o Flamengo ainda menino. Cunhado pelos jogos de vôlei, a natação no rio e no clube e na colher de pedreiro, chegou àGávea batizado Zé Baiano, apelido de quando recolhia areia da ladeira para que o material não se perdesse durante as chuvas.

Chegou lateral, virou zagueiro e o apelido de menino ficou sob a tutela apenas dos mais íntimos. Por exigência de quem o levou, virou Rondinelli. E só. Das divisões de base ao gol espírita, uma história carregada de emoção. Da fúria ao choro, o rastilho é curto. E a faísca brota dos olhos até hoje, quando o assunto é Flamengo. É certo que usou outras camisas, incluindo a do arquirrival rubro-negro, só que a alma veste as cores do Exu campeão do carnaval carioca.

Antever e antecipar – verbos necessários na linguagem dos zagueiros – eram especialidades da casa. Como um punguista, surrupiava a bola dos atacantes adversários assim, do nada, surgindo das sombras. E, se não desse com os pés, usava qualquer parte do corpo para evitar um gol. Incluindo a cabeça, mesmo se a bola estivesse nos pés do artilheiro, ao feitio do chute. Ainda assim, não se conseguia enxergar a entidade.

O sobrenatural comunga com os deuses e, obviamente, há algo de muito sobrenatural naquele gol.

Até que 1978 chegou. Foi um ano triste. Até o gol. Até os 42 minutos do segundo tempo de um final de ano de final de campeonato carioca. Uma lesão na coxa tirou de Rondinelli uma Copa do Mundo. E por pouco não ficou fora da decisão do carioca daquele ano. Mas, como diz o ditado, enquanto não dá certo, é porque ainda não se chegou ao fim. Ainda haveria um fim. 

Num escanteio cobrado por Zico, a bola subiu muito.Assim como Rondinelli subiu ao ataque contrariando as ordens do capitão Carpegiani para que permanecesse na zaga. Mais uma vez, surgiu do nada para encontrar a bola de Zico no alto do templo, no tempo correto para esmagá-la com a testa e acertar a coruja do gol de Leão.

Fanática e fascinada, a torcida do Flamengo teve, ali mesmo, no templo da bola, uma conversa de pé de ouvido com Zeus, reapelidou Zé Baiano e garantiu ao Olimpo o surgimento de mais um deus.

Rondinelli renascia. Agora, com novo sobrenome: 

O DEUS DA RAÇA

O MONSTRO DO FUTEBOL DE SALÃO

texto: Mauro Ferreira

Ele ainda era só Serginho quando o locutor Januário de Oliveira soltou seu tradicional “eeeeeeee o golaço. Goooool do monstro. Serginho sabe que é disso, é disso que o povo gosta!!!! “. Ia além de saber que era disso que o povo gostava.  Sérgio Sapo sentia o que o torcedor queria e entregava obras maravilhosas com a bola pesada grudada nos pés. Até hoje, senhor sabedor de seu dom, espalha histórias e uma certa marra típica dos craques sacanas. Pudera. Decidiu dois mundiais de futebol de salão com gols característicos: uma fuga despretensiosa para uma das laterais e um chute do nada no ângulo. O goleiro? Nem na foto saiu.

A pelada tradicional de domingo, no caldeirão do Albertãonão foi tão pelada dessa vez. A bola rolou, é verdade, mas os dribles foram substituídos por risadas, histórias, bolos e uma reunião de craques do futsal. Todos lá para comemorar o aniversário de Sérgio Sapo, o ala-pivô que infernizava os parados. Hoje, sessentão, espalha alegria e continua a ser reverenciado por seus companheiros de quadra e tantos outros súditos. De Paulo César Caju a Marinho; de Paulinho Shaolin a Joaquim, de Neimar a Joãozinho e tantos outros. Ainda joga, é verdade, sempre maroto, quietinho até, do nada, aparecer e… bem, a idade já não permite as mesmas estrepolias de antes.

No vídeo comemoração desta edição do Museu, o presente fica pro final. Não perca. Reveja, veja, olhe novamente, mais uma vez. É de tirar o fôlego. Justifica quando se ouve o aniversariante soltar o seu já tradicional “joguei pra car…”. É verdade. Jogou muito. Aliás, muito mais que o próprio palavrão-adjetivo. Serginho Sapo jogou… escolham o adjetivo que quiserem, será merecido.

Parabéns, Sérgio Sapo. O aniversário é seu, o presente é nosso. Sempre foi nosso.

A PELADA COMO ELA É

por Mauro Ferreira


A pelada não tem sobrenome. Só permite apelidos, carinhos, abraços, sorrisos e resenhas. A pelada, hino da alegria, só se permite no terreno do improviso, usa a bola como pretexto e tem no encontro sem desencontro – salve Vinícius – sua sustentação.

E a pelada foi homenageada. Deveria ser, tinha que ser. Boleiros, artistas, cronistas, gente importante e outras gentes tão importantes pra ela, embora léguas distantes dos holofotes, se reuniram bem debaixo do Cristo Redentor para saudá-la em livro.

“A Pelada Como Ela É”, livro de Sérgio Pugliese, conta e transforma em história a raiz do futebol. Virou tatuagem na tarde de segunda, 20 de dezembro de 2021 – guardem essa data, meninos -, a sua estreia antes de ir pras prateleiras das livrarias. Mais de 700 peladeiros deram o ar da graça com muita graça, sorrisos, gargalhadas, resenhas, surpresas… era a energia suprema dos boleiros, presentes para levar seu quinhão de resenha em forma de autógrafo e dedicatória.

Era gente que não se via há tempos; alguns, um intervalo de quase 40 anos. Era pra começar às cinco da tarde; às duas já tinha gente atrás do livro. E o espaço do Pizza Park da Cobal do Humaitá, foi enchendo. Muitos em fila, outros em mesa dentro, personagens em mesas fora. Todos rendidos ao prazer da resenha, o melhor produto da pelada. E rendeu conversas até quase uma da manhã.

Presentes para o autor foram vários. De cachaça a chuvisco. O maior de todos, a presença de todos. Para a pelada, sem dúvida, o presente foi a resenha coletiva, a maior da história. E é por isso – só por isso – que A PELADA É COMO ELA É