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Futebol de Botão

CAMISA 4 OU 22

por Paulo-Roberto Andel


Eu trabalho num sebo. Por isso, regularmente acabo recebendo doações de livros e discos. Na semana passada, quem apareceu foi meu amigo Leo, precisando se desfazer de um material expressivo: centenas de CDs. Passamos praticamente a década de 1980 juntos: fomos escoteiros, jogamos muita bola e botão por aí.

Ele veio à loja, deixou o material e então fomos para a Leiteria Mineira, uma das relíquias do Centro do Rio. Ficamos lá por cerca de duas horas, daí nos despedimos, ele foi para o Metrô Carioca, eu fui para a Praça Tiradentes e só o futuro dirá quando nos veremos novamente. São milhares e milhares de quilômetros de distância entre as nossas casas.

Voltei para o sebo e comecei a mexer num pacotinho que veio junto com os CDs. Num saco plástico transparente, botões, escudinhos de papel do Grêmio e uma trave de plástico. Tudo coisa dos anos 1980, perto dos 40 anos de vida. Ah, o tempo que passa tão rápido.

Saquei um botão do pacote. Era do meu Fluminense, igualzinho a um time que tive e o tempo levou – logo que pude, colecionei botões de vidrilha e galalite. Voltando ao botão: de acrílico verde lindo e o escudo tricolor envolto em fundo circular amarelo. Lindo. Devia ser coisa de 1978: eu ainda não tinha um Estrelão para jogar, sequer um Xalingão, então fazia meu campo com uma cartolina verde, fazendo as linhas pacientemente com caneta e régua. Havia a Copa do Mundo, papel picado nas ruas, a revista em quadrinhos “Dico, o artilheiro”, o começo do Globo Esporte, as figurinhas do Futebol Cards, os botões em pacotinhos na banca de jornal e muito mais coisas para os garotos que, como eu, começavam a ficar apaixonados pelo melhor jogo de bola do mundo.

O botão do Fluminense. Tem um número 4 preto bem em cima do escudo e um 22 escrito à caneta. O que será que aconteceu com ele? Era titular e virou reserva? Não sei. A camisa 22 nem existia, exceto para as seleções, mas a 4 teve muitos candidatos. Edinho jogava sempre com a 5, mas usou a 2 em sua segunda passagem pelo clube. E a defesa? Wendell, Miranda, Tadeu, Edinho e Carlinhos. Renato, Miranda, Moisés, Edinho e Rubens. Logo depois teve Ademílton. Pelo caminho ficaram Edval e Dário. Miranda era o Trésor brasileiro, referência de Marius Trésor, cracaço da seleção francesa. Ah, o Edevaldo.


Descobrir quem era o botão faz sentido. Os botões têm vida, alma e personalidade próprias. Se um botão foi batizado com um nome, não se pode contrariá-lo chamando-o por outro. E é pra sempre, porque os botões são imortais.

Sendo o camisa 4 do Fluminense em fins dos anos 1970, o botão teve muito trabalho. Imagine marcar Adílio, Roberto, Mendonça, Tita, Paulo Cezar, Búfalo Gil e outras feras no Estrelão lotado? Não era nada fácil. Naquele pequeno pedaço de belo acrílico verde há uma história, uma vivência e uma atualidade porque o tempo do futebol é diferente dos outros: possui a magia da eternidade. Com ele, futebol, semanalmente temos dez anos de idade para sempre; falamos de coisas de 30 ou 40 anos como se fossem noutro dia e, quando vemos os ídolos hoje setentões, eles nunca têm mais do que 30 ou 25 anos de idade, porque essa é a imagem que ficou para sempre. A imagem de um jogo fica eternamente nos olhos de um menino.

Continuo a apreciar o botão. Tiro uma foto. Ao fundo está o Teatro João Caetano. Então entro no Maracanã lotado. Ele deve ser o Miranda, de uniforme todo branco, encarando Cláudio Adão de rubro-negro ou Catinha de vascaíno. Eu estava na quarta série, sonhava com o Estrelão e com um futuro melhor. Quarenta anos passam rápido, rápido demais, mas só entende quem é do ramo: o futebol é um eterno presente em que vivemos. Está tudo bem guardado na memória.

Eu só queria jogar a partida de novo.

O INUSITADO DUELO DOVAL X CAFURINGA E A REVANCHE NO FLA X FLU QUE JAMAIS ACONTECEU

por Victor Kingma


Na minha infância eu gostava muito de jogar botão. Entretanto, jamais utilizei os tradicionais times comprados nas lojas de brinquedos.

Gostava eu mesmo de confeccioná-los usando casca de coco ou conseguindo tampas descartadas de relógios Lanco, na relojoaria do bairro, em Juiz de Fora, onde eu morava na época. 

Eu era um bom praticante, sem nunca ter conseguido ser um craque no jogo, como tantos amigos do bairro.  

Certa vez, recém casado, lá pelos anos 70, fui desafiado por um primo da minha esposa, então com quatorze anos, para uma partida.

Missão ingrata, pois o moleque jogava demais! Tinha sido inclusive o campeão da modalidade no seu colégio. Eu, flamenguista histórico, e ele tricolor fanático. Claro que nossos botões representavam esses times.

Iniciada a partida logo vi que a disputa era indigesta mesmo. Logo o Fluminense fez 1 x 0. Gol de Flávio, avante tricolor.

A partir daí, confiante, ele passou a me zoar, tocando a bola de um lado para outro do estádio “Estrelão”. Sabia que podia fazer gols a qualquer momento.

Entretanto, quase no final do jogo empatei a partida: golaço de Doval, do meio de campo. 


Comecei a zoá-lo, falando que a minha experiência faria a diferença. 

Ele partiu ferozmente para o ataque e, por três vezes, esteve para desempatar. Todas através do ponteiro Cafuringa. Duas bolas (na verdade dadinhos), bateram na trave e uma passou por cima do gol.

Aí eu catimbava ainda mais dizendo que Cafuringa não fazia gols nem no time profissional, como iria fazer em jogo de botões.

No finalzinho da partida, outra chance para o Fluminense. 

Era questão de honra para ele que o gol fosse de Cafuringa.

Mas ele desperdiçou de novo: o arisco e excelente ponta tricolor, que era juiz-forano, não era mesmo de balançar as redes adversárias e mais uma vez errou o alvo.

Era evidente o nervosismo do meu forte adversário.

Na saída de bola, pimba! Desempatei! Novamente com Doval, o cabeludo atacante argentino, ídolo da torcida rubro-negra.


E o Fla x Flu terminou 2 x 1 para o meu Flamengo.

A revanche tão reclamada por ele jamais aconteceu, claro.

Não correria o risco. Até porque, certamente, ele usaria como finalizador o gaúcho Flávio, o Minuano, terrível artilheiro tricolor daqueles tempos.  

Hoje, passados mais de quarenta anos daquela emocionante partida, finalmente estou pensando em conceder a revanche ao meu querido amigo Evandro Rossi. 

Quem sabe com Fred e Gabigol como protagonistas.

Depois conto o resultado!

OPERAÇÃO BOTÃO 1980

por Paulo-Roberto Andel


Comecei a colecionar botões. Alguns deles, os panelinhas, a gente encontra nas Lojas Americanas ou Brasileiras. Já os botões de galalite são mais valorizados e, claro, mais caros. 

Tem uma loja aqui pertinho de casa, aos pés da escada rolante que leva ao Teatro Teresa Raquel. Uma papelaria. Os botões são lindos, brilhantes, têm o escudo dourado de cada dia. Assim que conseguir juntar o troco do lanche, vou comprar um botão do Bahia, que é muito bonito. Será o Osni, que é atacante e bem pequenininho. Assim que sair a escalação do time do Bahia na revista Placar, é só recortar o nome dele, pegar um pedacinho de durex e colá-lo, de modo a não atrapalhar as palhetadas. O número 7 dá para recortar também, ou comprar decalques na papelaria – o problema é que a palheta costuma rasgá-los. 

Tem uns botões bem legais do São Paulo também. Quero comprar o Serginho, mas tem que ser um botão grande que nem ele e isso vai exigir maior economia.

Geralmente a gente joga debaixo da outra escada rolante do shopping, porque ela não funciona e ali fica vazio, sem atrapalhar ninguém. Normalmente no domingo de manhã. Eu, Luis, Augusto, Marcelinho. Às vezes o Chapecó aparece. Floriano também. Na saída do shopping, do outro lado da rua mora o Gordinho, que também joga muito. Sempre tem algum adulto olhando, devem achar legal. 

A bola não é bola, mas dadinho. Tem uma briga danada por isso: gente que só quer jogar com pastilha de War, ou que só aceita bolinha de feltro. Tem quem faça bolinha com miolo de pão. Nós gostamos do dadinho: o jogo fica mais rápido, mais real, os dribles também. 

Gramado oficial: Estrelão ou Xalingão, dependendo do mando de campo. Comecei jogando numa cartolina, eu mesmo desenhei as linhas, o meio de campo e a grande área. Depois minha mãe me deu um Estrelão. 

O goleiro é sempre feito com caixa de fósforos Olhão. Para muita gente, o melhor é colocar chumbo derretido dentro para dar peso e o goleiro não cair nunca, mas dá para fazer com moedas e arroz por exemplo, ou qualquer coisa que garanta a estabilidade do arqueiro. Os escudos a gente recorta na Placar também. Agora, a camisa do goleiro cada um faz de um jeito: todo preto, com fita isolante; colorido, com papel pintado à caneta, ou de uma cor só, com outra fita. São várias opções de nome: Leão, Wendell, Raul, País, Renato, Waldir Peres, Manga. 

O botão mais valorizado depois de um artilheiro é o becão, bem grandão e sempre em dupla. Eles evitam os gols, muitas vezes empilhados ao lado do goleiro. E como são grandões, dificilmente são driblados. Impõem respeito. E são caros, quase um lanche inteiro no Gordon da Avenida Copacabana ou no Sumol da Figueiredo Magalhães. Becão não pode ser qualquer um, tem que ter moral: Abel, Rondinelli, Edinho, Moisés. Tem o Renê também. Ah, o Alex do America, que é bem grandão. Geraldo, Gaúcho. Luís Pereira. Tem gente que recua o Chicão do São Paulo para ser becão, ou o Teodoro. Beto Fuscão, não dá para esquecer! 


É difícil conseguir botões de Pernambuco. Se tivesse do Sport, eu poderia batizar de Denô ou Roberto. Do Santa Cruz, Fumanchu e Nunes. Do Náutico, Chico Fraga. 

Importante dizer que o batismo do botão não necessariamente é atual: você pode escolher um nome do passado que não está mais no time, ou até algum que você queria que tivesse jogado na sua equipe, mas não aconteceu. Tudo é imaginação. Mas por aqui não tem jeito: todo mundo tem um Roberto Dinamite, um Zico, um Rivellino. Tita está muito badalado, Guina e Paulinho também. E quando surge um atacante do America, é sempre Luisinho Tombo. Do Corinthians, Sócrates e Palhinha. Do Santos, Juari e Pita. Da Portuguesa, Enéas e Tata. 

Na banca de jornal tem os botões da marca “É gol!”. É um pacotinho igual ao de figurinhas, que vem com três botões de plástico e os adesivos para serem colados, com a cara dos jogadores. Volta e meia têm os do Cruzeiro, Revetria e Joãozinho. Já consegui um Carlinhos do Fluminense. 

Na rua Santa Clara, há uma loja de brinquedos chamada Dom Pixote. Ela vende uns botões lindos, numa caixa plástica. São chamados de vidrilha. Eles são leves, ocos, com escudinho, número e faixas coloridas. A palheta é multicolorida, psicodélica. Vêm com duas bolinhas de feltro, mas a gente usa com dadinho do mesmo jeito. São feitos em São Paulo, da marca Brianezi. Aqui no Rio, os de galalite são feitos pela marca Bertiza, mas há outras. 

Se for verdade o que o Jornal dos Sports publicou hoje, vou economizar o lanche de hoje e amanhã. Parece que o Cláudio Adão vai jogar no Fluminense, então preciso reforçar o meu time. Tomara que sim. Já pensou como vai ser quando ele estrear no Maracanã pelo Flu? 

AQUI, COM MEUS BOTÕES

por André Felipe de Lima


Se os poetas maiores podem, também posso, ora. Não falo da capacidade de um Vinicius de Moraes ou de um Chico Buarque para os sonetos, canções ou rimas históricas, que somente eles são capazes de criar. Quem dera escrevesse um por cento do que escreveram, cantaram ou viveram. Falo de outra paixão que Vininha (permito-me esse carinho com ele) e Chico tiveram na infância e dela jamais desistiram: o jogo de botão.

Ando meio nostálgico nessa dramática quarentena, e isso não tem nada a ver com “Síndrome de Peter Pan” ou algo do gênero. Tenho voltado o ponteiro do relógio sem parcimônia rumo a uma aventura, sei lá, mezzo “Benjamin Button”, mezzo “O túnel do tempo”. O primeiro, muitos sabem, é um filme onde Brad Pitt interpreta um camarada que nasce idoso e morre bebê (contei o filme, perdoem-me); o segundo, outros muitos da minha faixa etária ou mais também sabem, é um famoso seriado (olhe a nostalgia pulsando!) dos anos de 1960 cujos episódios que vi na TV na primeira metade da década seguinte eram imperdíveis. Creio ter assistido a todos, e sem conversa fiada.


Nessa mesma época, começava a curtir futebol. Jogava (muita!) bola, mas também (muito também!) botões. Tive um sem número deles. Os primeiros eram os chamados “panelinhas” da Estrela, com as carinhas dos jogadores, lembram? O meu “panelinha” do Vasco tinha no gol o Andrada, na zaga o Moisés, na ponta-direita o Jorginho Carvoeiro e no ataque o Roberto Dinamite. Confesso também tive os do Fluminense (com o Capita, Marco Antônio, Doval e Rivelino); do Botafogo (com Marinho Chagas, Fisher, Manfrini e Carlos Roberto) e do Flamengo (com Cantarelli, Rondinelli, Geraldo e Zico). Depois vieram os botões da Gulliver, a maioria de cristal e também com carinhas dos craques, mas também escudos.

Os hoje cobiçadíssimos de galalite da Bertisa foram os derradeiros da minha infância e pré-adolescência, com todas as cores, times, tamanhos e brasões. Tive para lá de trezentos. Hoje, um antigo time de “panelinha” da Estrela — para o qual todo garoto passava a torcer o nariz após ter um galalite nas mãos — custa num site de leilões de relíquias ou mesmo em qualquer marketplace da vida algo em torno de 500 reais. Comprava-os no antigo mercado Casas da Banha, que havia no Leblon, ali na rua Bartolomeu Mitre, por uma ninharia.

Acho que hoje um time de “panelinhas” custaria uns 10 reais, no máximo. E os jogadores, cujas “carinhas” colávamos nos botões, coitados, sequer viam a cor do dinheiro que poderiam receber de direitos pelo uso de suas imagens. Isso só passaria a valer em 1979, com a coleção de figurinhas “Futebol Cards”, do chiclete Ping Pong, que mudou completamente essa relação do jogador brasileiro de futebol com o marketing de entretenimento no país.


Já os botões da saudosa fábrica Bertisa são, hoje, ainda mais caros. Um simples “olhinho” ou “ratinho” — como nos referíamos aos miúdos botões de duas camadas de galalite — está custando na faixa de 50 a 100 reais. No mês passado, bateu saudade disso tudo e decidi — igualmente ao que fizeram Vinicius de Moraes e Chico Buarque — reaproximar-me do passado, do garoto igualzinho aos da foto principal que ilustra esta crônica.

No mais, como dizíamos antes de chutar contra o gol adversário e debruçados em uma mesa Estrelão, “prepara!”. Um gol em uma partida de botão sempre valerá a pena. E, aqui com meus botões que comprei nessa quarentena, é uma excelente e lúdica terapia para encarar esse momento tão difícil pelo qual passamos.

ARTESÃO DO FUTEBOL DE MESA

Houve um tempo em que o futebol de botão era febre e a criançada se reunia diariamente em volta da mesa para promover campeonatos. A tecnologia trouxe os “playstations” da vida e a garotada de hoje em dia já não é mais tão fã do futebol de mesa, mas quem viveu aquela época não consegue largar a brincadeira.

Marcinho Nunes é um desses. Além de ser fissurado, ele abrilhanta a brincadeira produzindo balizas, alambrados e botões personalizados.

– Comecei por influência de um amigo meu que é fera no botão. Ele me sugeriu, comecei a investigar e fui aprimorando a técnica.

A fera entrou em contato com a gente, apresentou o seu trabalho e logo encomendamos uma baliza personalizada do Museu da Pelada. O resultado foi encantador. Marcinho é capaz de produzir diversos tipos de baliza, variando o caimento da rede.

– Faço tudo com super-bonder, se errar já era! Uso um ferro de três metros, corto ele, faço dois cabos, pinto em cima, pinto embaixo, espero secar, coloco a rede… Demoro em média uma hora e meia para produzir duas balizas.


Depois de apresentar seu time de botão, uma verdadeira paneça diga-se de passagem, com os mais diversos craques, Marcinho ainda estufou a rede do Museu da Pelada com um belo gol de falta de Roberto Dinamite em cima do Raul!

– Eu sou maluco! Jogo até sozinho!

Os interessados em encomendar com o artesão do futebol de mesa podem entrar em contato:

Celular: (21) 99981-4678
Blog: futeboleartesanato.blogspot.com
Página: C.T. Alto da Boa Vista