Escolha uma Página

Émerson Gáspari

O CENTENÁRIO COME-FOGO

por Émerson Gáspari


Tenho 105 anos. Nessa idade, como ancião, um dos poucos prazeres que a vida ainda me concede é o de relembrar as coisas de maior significado para mim, nessa vida. O futebol está entre elas. Meu primeiro contato com ele ocorreu no longínquo 1º de agosto de 1920. Faz, portanto, exatamente um século que pisei pela primeira num estádio de futebol, levado por meu saudoso pai, que queria me apresentar cedo ao mundo da bola.

Por falar em mundo, parece que em certos aspectos ele não mudou tanto assim: naquela época, estávamos saindo de uma Gripe Espanhola que matou milhões pelo mundo afora. Hoje, é essa pandemia da Covid-19 que assombra a humanidade. Tenho fé de que sairemos dessa, como da outra vez. Por pior que seja o dia de hoje, sempre haverá um amanhã diferente e melhor. Tenhamos fé.

Mas, voltemos ao “mundo da bola”. Ontem, meus bisnetos me pediram para que lhes falasse a respeito do Come-Fogo de antigamente. Então não me fiz de rogado e passei a lhes contar histórias e mais histórias dos jogos que testemunhei. Falei do primeiro deles, o tal de 1920: estive lá, aos cinco aninhos e deste, confesso, pouco me recordo: lembro-me que o clássico ainda não tinha sequer a alcunha de Come-Fogo, que o jogo ocorreu no antigo estádio da Rua Tibiriçá, ao lado da Beneficência Portuguesa, já nos limites da cidade. Torcedores entravam de paletó e chapéu. Os mais velhos não dispensavam a bengala. As pouquíssimas senhoras, de sombrinhas, chapéus e vestidos de seda.

O Comercial, equipe bancada pelos comerciantes e coronéis do café, teve um time fabuloso, que goleou por 20 x 0 o Taquaritinga (só Santinho, fez 10 gols), empatou com a Seleção da Argentina, venceu o Corinthians na disputa da Taça Clark e voltou invicto de uma célebre excursão ao Nordeste (daí ser apelidado de “Leão do Norte”), entre outras façanhas mais. Já era uma equipe experiente e temida e seu estádio, com capacidade para três mil espectadores, possuía o primeiro campo gramado do Brasil, encravado no topo do Centro de Ribeirão Preto.

Por sua vez, o Botafogo era um clube humilde, formado pela fusão de três equipes amadoras da região da Vila Tibério, bairro popular e que abrigava a estação ferroviária e as cervejarias que ajudaram a tornar a cidade famosa pelo chope, décadas depois.

Havia, obviamente, um desnível técnico entre os times. Daí o Comercial resistir a um confronto direto, pois a discrepância era nítida. Embora os alvinegros resistissem a uma contenda, acabaram por aceitar um confronto entre seu time B, contra o quadro principal do Botafogo. Daí, se acreditava, daria jogo.

Lembro-me vagamente da partida, naquele dia. Foram muitos gols. Recordo-me bem do placar final: Comercial 8 x 0 Botafogo.  Quatro anos depois (eu maiorzinho, com nove) aí já me lembro melhor do segundo duelo: 2×1 para o Comercial, no mesmo estadiozinho da Rua Tibiriçá, em 1924.

Meus bisnetos ficaram encantados, embevecidos com tantas histórias sobre esse clássico tão tradicional do interior paulista. E eu, que acompanhei a maior parte dos quase 170 confrontos até hoje, me sinto um privilegiado por ser, talvez, a única testemunha ocular viva do primeiro jogo entre ambos. Ao menos, não conheço ninguém da minha idade aqui na cidade. Quanto mais, que tenha estado presente a essa partida inicial.

Para usar de franqueza, confesso que passei a tarde toda relatando casos e mais casos dos duelos travados. Expliquei que a vitoriosa fase amadora terminou junto com o fim daquele Comercial, em meados dos anos 30. E que o Botafogo, mais novo, prosseguiu sem a companhia do rival, por 19 anos. Até que, em 1954, eles retomaram suas disputas (já sob a alcunha de Come-Fogo) e aos poucos, a vantagem comercialina em confrontos foi sendo demolida e se inverteu, pois o Botafogo se fortaleceu bastante, enquanto o Comercial voltou com muitas dificuldades, atuando por alguns anos como inquilino, no estádio da Mogiana. Falei da “era Sócrates”, amplamente favorável ao tricolor, relembrei do rebaixamento que o Bafo impôs ao Pantera, entre outras gostosas histórias.

Expliquei a eles, como se deu a construção do estádio Francisco de Palma Travassos, a “Jóia” de cimento armado, no Jardim Paulista. E depois a mudança do Botafogo, do estádio Luiz Pereira (o “Madeirão”) na Vila Tibério, para o Santa Cruz, hoje convertido em arena.


 Eles realmente ficaram muito felizes com o papo e disseram que iriam contar algumas dessas histórias para seus coleguinhas de escola, quando as aulas enfim retornarem, porque pelas redes sociais não dá: é muita coisa para ser escrita ou mesmo lida. Eles não imaginam que feliz mesmo fiquei eu, de poder ter a atenção das crianças dirigida a mim, um ancião, nessa altura da vida. Eles nem piscavam enquanto eu falava: tal era o fascínio deles, que parecia que eu era um celular. No final da tarde despediram-se, agradecidos.

A noite caiu e fui me deitar. Mas confesso que o sono não vinha. Porque as lembranças eram muitas e um turbilhão de recordações não me saíam da cabeça. Foi daí que me surgiu uma dúvida inusitada: como seria uma disputa definitiva entre ambos os times, para decidir qual deles é o melhor, nesses cem anos de bola rolando? E com os melhores atletas de cada posição lado a lado, ao longo da história: uma espécie de Come-Fogo atemporal, eterno?

Tomei consciência de que eu seria o único capaz de imaginar uma fantasia dessas e que ela seria, secretamente, a minha singela homenagem pelos cem anos de rivalidade, já que a data praticamente “passou em branco” em Ribeirão Preto. Sinal dos tempos! 

E assim, sem mais delongas, passo a lhes descrever agora, como poderia ser o maior Come-Fogo de todos os tempos, com jogadores de épocas diferentes, atuando juntos. Para começo de conversa, proponho duas partidas: a primeira, no berço comercialino, o estádio da Rua Tibiriçá (talvez o primeiro campo totalmente gramado do Brasil) e a segunda, na atual arena botafoguense, o estádio Santa Cruz. Vale a Taça de “Campeão Eterno”.

Manhã aprazível de domingo, no estádio da Tibiriçá, com grande público saudando com pétalas de rosas o Comercial, que vem a campo com Leão, Ferreira, Jair Gonçalves, Piter e Toninho; Hélio Giglioli, Amaury e Jair Bala, Mauricinho, Paulo Bin e Carlos Cézar. O técnico Alfredinho Sampaio, auxiliado por Tim, relaciona para o banco: Ortíz, Benazzi, Pedro Omar, Ademar, Thadeu Ricci, Santinho e Guina. O Botafogo, saudado até pelos adversários com calorosas palmas e lenços brancos girados no ar, vem em seguida, com Aguilera, Eurico, Julião, Dicão e Mineiro; Carrapato, Sócrates e Tim; Zé Mário, Antoninho e J. C. Motoca. No banco, José Agnelli, auxiliado por Tiri, deixa Machado, Cicinho, Baldochi, Gallo, Raí, Paulo César e Geraldão.


Na tribuna de honra o prefeito Costábile Romano está rodeado por ilustres convidados como Lúcio Mendes (jornalista que “batizou” o clássico), o advogado e historiador Rubem Cione (comercialino), o analista social Vicente Golfeto (botafoguense), entre outros. Lá estão também o presidente do Botafogo, Waldomiro Silva, e o do Comercial, Mário Ricci. O jogo quase não acontece, porque o Comercial queria que estivesse em campo o meia Diego, mas o Botafogo protestou, pois o craque jamais vestira a camisa do time principal, tendo seguido para o Santos muito cedo. A FPF por fim, bateu o martelo: ele não poderia jogar e fim de papo. O Comercial protesta, diz que é perseguido pela Federação e que vai recorrer. O árbitro Dulcídio Wanderley Boschila, o maior apitador da história do clássico, tira o “toss” entre os capitães Carlos Cézar e Sócrates . Tudo certo, trila o apito do árbitro e começa a partida.

Empurrado por sua apaixonada torcida que é maioria no estádio, o “Bafo” parte logo para o ataque, exigindo de Aguilera, uma defesa arrojada aos cinco minutos de jogo. O meia Tim pede calma aos companheiros e tenta controlar a pressão inicial, prendendo a bola. Sócrates desdobra-se apesar do forte calor, enquanto Dicão grita com a zaga para que fique atenta, especialmente com Paulo Bin. Mas é Jair Bala quem dá um chapéu perfeito no mesmo Dicão e rola macia a bola pra Carlos Cézar, que de canhota e de fora da área, manda um pelotaço no ângulo de Aguilera: 19 minutos, Comercial 1 a 0. Sócrates, mesmo marcado por Hélio e Amaury, arma grande jogada com Zé Mário que entorta Toninho e centra para Antoninho cabecear contra a trave de Leão, aos 32. Logo em seguida, aos 35, Motoca, que trava um duelo equilibrado com Ferreira, consegue um perigoso chute cruzado, o qual passa quase sobre a linha do gol, mas vai pra fora, e quando a partida fica mais equilibrada, Paulo Bin sente o joelho e sai, para a entrada de Santinho (artilheiro máximo do amadorismo). Até que o primeiro tempo termina, no exato instante em que Carlos Cézar cobra uma falta com violência, que passa com perigo, bem próxima da meta botafoguense. Logo chega a notícia de que Zé Mário estranhamente não se sentiu bem nos vestiários e quando voltam os times para a segunda etapa, é Paulo César quem surge em seu lugar.

E o Fogão até recomeça melhor, quando um escanteio batido pelo próprio Camassuti, encontra Dicão livre no segundo pau, mas ele cabeceia de nariz e perde o empate feito. Agnelli morde com raiva seu indefectível chapéu e manda Baldochi se aquecer, para substituí-lo.

Píter paga bronca geral na zaga e Alfredinho põe Ademar no lugar de Hélio e Guina no de Jair Bala, pra tornar o time mais ofensivo. Dá certo e o alvinegro engrena novamente. Agora Píter, o indelével “Rocha Negra” não dá mais chances à Antoninho. Ademarzinho põe fogo no jogo e Carrapato (um amador botafoguense), sobrecarregado, começa a pregar. Sócrates também sente o ritmo e é substituído por Gallo, numa clara tentativa de Agnelli, de fechar o meio-campo. Mas Carlos César está impossível: lança milimetricamente nas costas de Mineiro, para Mauricinho, que vai ao fundo e cruza para um sem pulo sensacional de Santinho: 2 a 0. Goool! Esgoela César Bruno, na cabine de rádio. Ao seu lado, Miguel Liporaci é só elogios rasgados ao Leão. O Botafogo procura segurar o jogo e no finalzinho, num choque feio entre Ferreira e Eurico, em disputa de bola, ambos deixam o campo, contundidos. Felizmente, não há limites de substituições.

Cicinho entra na lateral botafoguense e Benazzi, na comercialina. E no minuto final, é ele, Benazzi, quem centra para a área, onde Guina anota de cabeça, o terceiro. Mas Dulcídio anula, alegando ter havido carga no lance e encerra o jogo em 2 a 0. O Comercial diz que vai recorrer na Justiça Desportiva, mas o resultado está mantido.


Semana de muita expectativa até o segundo confronto. O assunto preferencial nas rodinhas do Pinguim e da Única. Especulações mil de ambas as partes (Zé Mário jogará?). Torcedores fazendo apostas dos dois lados, principalmente no programa “Balanga-Beiço”, onde os apresentadores Tiririca e Coraucci Neto sempre se defrontam e a rádio PRA-7 registra recordes de ligações.

A torcida do Botafogo não perdoa o técnico José Agnelli; pede sua cabeça, pois acha que o time deveria ter atacado mais, mesmo no alçapão adversário, conforme noticia o jornalista Márcio Morais, em sua coluna “Bolso de Repórter” do jornal A Cidade. A pressão chega a tal proporção que Jorge Vieira é chamado para o seu lugar e assume o time, prometendo mais “pegada”, convocando outros jogadores e realizando “treinos secretos”. Enfiado na concentração de Bonfim Paulista, o Comercial tem uma semana mais tranquila, só que Ferreira, contundido, não joga. Mas Alfredinho, velha raposa, faz mistério sobre isso, enquanto pelo lado tricolor, Eurico já é desfalque certo, conforme furo de reportagem de Wilson Toni.

Chega enfim o grande e decisivo dia! Sol escaldante, sábado, quatro da tarde! Desde as duas, não cabe mais ninguém na arena botafoguense (os portões foram abertos ao meio-dia). O “Santão” treme com a agitação da galera. E lá vem o Pantera, agora repaginado, desta vez sob o comando de Jorge Vieira, debaixo de um foguetório “daqueles”: Doni, Cicinho, Baldochi, Bordon e Carlucci; Paulo Rodrigues, Sócrates e Raí; Zé Mário, Antoninho e Paulo Egídio. Minutos depois, o Leão (também com algumas mudanças) recebe a “salva de vaias” do estádio e vai se confraternizar com sua torcida, em seguida: Leão, Benazzi, Jair Gonçalves, Píter e Toninho; Pedro Omar, Amaury e Jair Bala; Mauricinho, Paulo Bin e Carlos Cézar. A crônica esportiva aprova as modificações, que tornaram as equipes mais ofensivas e modernas. E, apesar da pressão comercialina, Dulcídio Wanderley Boschila foi mantido para arbitrar a segunda partida, que enfim, começa.

Início do jogo, o Fogão toma logo a iniciativa e parte pra cima, com tudo: de Paulo Rodrigues para Raí, daí a Sócrates e… Leããão, para escanteio! O Comercial é de certa forma, surpreendido com tamanho ímpeto inicial do adversário. Das arquibancadas então, vem uma pressão imensa.

Tabelinha Sócrates e Raí e Pedro Omar entra rachando em cima do rapaz. Falta de longe, na meia-esquerda, lá do meio da rua. Não tem problema: pro “canhão” Carlucci não tem distância e a bola chega “oval” no gol de Leão, que não quis barreira: 12 minutos de jogo, Botafogo 1 a 0. O “Santão” estremece. Sócrates é o melhor homem em campo, mesmo acompanhado de perto por Pedro Omar. Antoninho e Piter brigam titanicamente na área. Benazzi não pode descer tanto (como pretendia Alfredinho) para não tomar bola nas costas, com Paulo Egídio. Mesmo problema de Toninho, bastante fustigado por Zé Mário. Mas aos 35 minutos, um fato muda a história do primeiro tempo: numa arrancada de Paulo Bin, Baldochi entra pra matar a jogada. Bin acaba saindo de maca, aplaudido pelos bafudos e é substituído por Guina, enquanto um empurra-empurra se instala no gramado, dando muito trabalho para Dulcídio restabelecer a ordem.

Baldochi acaba expulso de campo e deixa o Bota com dez. O Comercial aproveita a catarse momentânea e empata o jogo, numa bola que Benazzi centra na meia-lua e encontra Carlos Cézar de frente. Ele sai da bola e no corta-luz, deixa-a limpinha pra Jair Bala colocar no cantinho: 38 minutos, 1 a 1. Nas tribunas, João Batista de Campos e Mário Ricci vibram juntos.

Um silêncio toma conta do estádio por alguns minutos, que só reacende quando Sócrates e Raí “invadem a casa comercialina” (como narra Helton Pimenta) numa tabelinha genial e Leão se atira aos pés do adversário, evitando gol certo. Fim de primeiro tempo. Torcedores roendo as unhas por todos os lados.

No intervalo, muita ansiedade. E a torcida do Comercial, comemorando além da conta, começa a ser molestada, a ponto do policiamento ser reforçado nas imediações, conforme informa Luiz Antônio “Espertinho”. Voltam os times pro segundo e derradeiro tempo. Ninguém muda. Apenas Vieira pede que os laterais não desçam e que Paulo Rodrigues recue um pouco, formando mais com a zaga. Atrás, só Bordon e os dois laterais. Sócrates conversa muito com os pontas: quer mais bolas altas na área, para aproveitar sua altura e a do mano Raí. E a partida finalmente recomeça!

Pressão total do tricolor e Jair Bala e Carlos Cézar começam a terem de vir buscar a bola da defesa para o ataque, pois o Leão do Norte não sai mais lá de trás. O “Canhotinha de Ouro” sente uma fisgada na coxa e deixa o campo, para a entrada de Rômulo, na esquerda. E se o dia é de Sócrates – o melhor em campo – Leão se torna o melhor do Bafo. Primeiro, fecha o ângulo em perigoso chute diagonal de Zé Mário. Depois, no reflexo, salva um cabeceio de Raí e quando finalmente é vencido por Paulo Egídio que o havia driblado, é Píter quem salva, em cima da risca.

Mesmo com o Fogão melhor, Jorge Vieira resolve mexer no time, partindo pro tudo ou nada: sai Paulo Rodrigues e entra Tim; sai Paulo Egídio e entra Mário Sérgio. O Pantera aperta, mesmo com quatro meias e dois atacantes, agora. O Bafo se segura como pode.

Então o dono do jogo arrebenta com tudo e numa nova tabelinha com o irmão caçula, deixa-o na cara do gol. Goool de Raí: 2 a 1 Botafogo, aos 30 minutos. Nas cabines de rádio, Wilson Roveri diz que o jogo é todo do Botafogo.


Imediatamente Alfredinho saca Jair Bala e entra com Thadeu Ricci para levar a bola até Mauricinho, Guina e Rômulo lá na frente. Ele não quer que o time recue tanto, sente o cheiro do perigo no ar. Orienta Amaury e Pedro Omar para não darem trégua ao ataque adversário e homem místico que é, reza no banco de reservas.

José Agnelli e seu chapéu estão agora na tribuna, ao lado do prefeito Costábile Romano, outro botafoguense doente. Nos minutos que se sucedem, a tática e a mandinga de Alfredinho dão certo e o jogo, de fato, fica lá e cá. Ricci joga o fino e Mauricinho inferniza Carlucci, que já é advertido verbalmente pelo juiz. Então Jorge Vieira joga suas últimas fichas: saca Raí e coloca Geraldão, deixando o time agora com dois goleadores natos. Em três minutos, o Fogão cria duas chances claras e o tosco Geraldão se incumbe de perdê-las.

Até que na terceira, ele Geraldão, recebe um centro rasteiro surpreendente de Mário Sérgio (que olha para um lado e cruza para o outro), atrapalha Antoninho e erra o chute, já na marca da cal, com Leão caído no meio de um bolo de jogadores. A bola triscada, vai saindo pela linha de fundo, mas Sócrates, o mais próximo, corre e a alcança, junto à trave. Desesperado, Jair Gonçalves empurra o “Doutor”, que mesmo desequilibrado, toca genialmente de calcanhar, às suas costas, antes que Dulcídio possa dar o pênalti.

A bola dramaticamente cruza a linha de gol na diagonal, antes que Píter possa alcançá-la, num carrinho em que leva grama e terra para o fundo das redes: são 41 minutos, Botafogo 3 a 1. Renê Andrade, atrás do gol, diz que o “juizão meteu a mão no Leão, tinha que dar o pênalti, pô!”. Agnelli joga seu chapéu para o alto. Costábile perde a compostura e salta abraçado, às lágrimas, feito um menino, junto do técnico portenho. Está tudo empatado e faltam só quatro minutos… haverá tempo, ainda?

Afinal, o Pantera sempre teve a sorte a seu favor, enquanto que o Comercial… Alfredinho grita para Ricci e Rômulo recuarem, pede para Guina ficar sozinho como meia e manda Mauricinho brigar lá na área . Já Vieira insiste para que o time desça todo para o ataque. O Botafogo luta, com todas as suas forças. O Comercial não se entrega.

Geraldão se joga na área, a torcida quer o pênalti, Boschila não vai na onda. Mas é o Comercial que aos 45, assusta: contra ataque com Guina, que se livra de Tim e aproxima-se velozmente da área, atrai a marcação de Bordon e serve Mauricinho, já no desespero. Mesmo desequilibrado, ele bate forte, da meia lua. E é a vez de Doni, salvar, com a ponta dos dedos, colocando para escanteio.

O simpático Salim, da “TUC”, torcedor-símbolo do alvinegro, leva as mãos à cabeça. Do outro lado do estádio, à frente da “Dragões”, é o robusto Pidão, chefe da torcida tricolor, quem arranca os cabelos e diz que “mais uma dessas e eu infarto aqui mesmo”. Felizmente não há tempo pra isso acontecer. Pois assim que Mauricinho apanha a bola para cobrar o escanteio, Dulcídio encerra a partida. Os comercialinos protestam: querem a cobrança, já que teria de haver acréscimos. O árbitro não lhes dá ouvidos e os comercialinos dizem que sempre são perseguidos pela FPF e que irão recorrer. Cria-se novo tumulto no gramado.

Por sorte, uma inesperada invasão mista de torcedores, logo debelada parcialmente pela polícia, acaba por ajudar a arbitragem a deixar o campo, enquanto o prefeito, os presidentes dos clubes e demais autoridades chegam ao gramado e entregam o troféu… para os dois capitães!

Isso porque, como não havia previsão de desempate estabelecido no regulamento, não poderá haver cobranças de penalidade e ambos os clubes são declarados “campeões eternos”. O Botafogo apanha o troféu e sai para dar a volta olímpica junto à sua torcida, que é maioria em seu estádio. O Comercial protesta, alegando que por ter marcado um gol na casa do adversário, esse valeria dobrado e o título teria que ser seu.

E diz que vai recorrer. 

A TAÇA “MUSEU DA PELADA”

por Émerson Cássio Gáspari


Émerson Gáspari

Todo bom escritor que se aventure a redigir em “realidade alternativa” deve evitar a desculpa óbvia do “sonho” para justificar seu texto, recurso primário ao qual recorremos nas redações escolares, isso quando temos 11, 12 anos e queremos contextualizar algo de mais lúdico no papel. 

Mesmo um escritor barato – feito eu – deve procurar fugir desse recurso tão fajuto.

Pois não é que – ironia do destino – creio que de tanto evita-lo, acabei “sonhando” um novo texto? E ainda por cima, livre das “amarras” do tempo, misturando épocas diferentes num mesmo cenário.

Como boas ideias não devem ser desperdiçadas, vamos a ele, então (e que me perdoem os leitores, mas sonho é algo que não se controla, pois aflora do coração, quando a mente se deixa entorpecer pelo sono).

Quando disse a Sérgio Pugliese da minha ideia de promovermos um torneio de futebol entre os craques oferecendo a taça “Museu da Pelada”, ele achou o máximo: e foi logo ligando para Paulo Cézar Lima, requisitando sua preciosa ajuda nisso e para que convidasse todo o mundo futebolístico que este conhecia. 

PC Caju fez mais que isso: pediu a todos com quem falava, para que também convidassem quem conhecessem; independente da era em que houvessem atuado. Desse modo, multiplicou-se exponencialmente o número de cobras e apareceu gente de todo lugar e época do futebol brasileiro. 

O resultado foi espantoso!

Pugliese idealizava o torneio no Rio, berço do Museu da Pelada. E o companheiro André Felipe de Lima – seu fiel escudeiro e vascaíno também – insistia para que o realizássemos em São Januário. 

– E sem VAR, por favor! – exigia ele. 

Mas bati o pé até o fim, argumentando que esta primeira edição precisava ser em São Paulo, pois foi onde o futebol brasileiro teria oficialmente nascido, trazido pelas mãos de Charles Miller e blá, blá, blá e mais blá, blá, blá. 

Até que afinal “Serjão” cedeu, porém sob as condições de que seria um torneio totalmente raiz – de pelada, mesmo – fazendo jus ao nome da taça em disputa e também que a segunda edição aconteceria impreterivelmente na “Cidade Maravilhosa”.

Topei… e comecei a pensar no local ideal para o evento. 

No Jayme Cintra, estádio do Paulista na minha querida Jundiaí, não poderia ser… seria paixão clubística demais, de minha parte.

Precisava ser na capital. Imaginei-o primeiro no campo do CMTC Clube; uma espécie de versão do “Desafio ao Galo” no século XXI (até para emprestar um ar mais amador ao torneio). Mas desisti, pois precisaríamos de mais espaço. 

Pela mesma razão, descartei o romântico estádio da Rua Javari e quando já aventava a possibilidade de utilizarmos a Fazendinha, no Parque São Jorge, o amigo palmeirense Abílio Macedo interveio: 

– Émerson, não! Precisamos de um território “neutro”… que tal o Pacaembu?


Maravilha! Além de charmoso, o Pacaembu ainda contava com o Museu do Futebol, que poderia abrir as portas para que o Museu da Pelada promovesse resenhas com todos os seus membros, no dia do torneio. Era ousado, mas precisávamos tentar.

Apanhamos um bonde e lá fomos nós, pedir auxílio a ninguém menos do que Paulo Machado de Carvalho, para que nos ajudasse a viabilizá-lo no estádio que por sinal, leva o seu próprio nome. 

Dr. Paulo, sempre gentil e solícito, nos tranquilizou: 

– Fiquem despreocupados: eu cuido de tudo! – bradou o “Marechal da Vitória”. 

E já foi – ato contínuo – ligando para seus conhecidos políticos: Maluf, Adhemar, Jânio. Em menos de meia hora, estava tudo resolvido: o Pacaembu prontamente liberado para ser usado no evento, o qual deveria consumir o dia todo, sem dúvida. Além disso, aquele simpático empresário ainda responsabilizou-se pelos gastos decorrentes da premiação. Tudo pelo amor ao futebol. 

Pugliese achou por bem pedir ao torcedor que fosse ao estádio, para que contribuísse com doações para os projetos sociais apoiados pelo Museu da Pelada. Nada mais justo, por sinal.

Finalmente chegou o tão aguardado domingo, que coincidia com folga no calendário futebolístico nacional. O estádio ficou abarrotado: devia haver umas cinquenta mil pessoas ao todo, lá.

E embora na “Terra da Garoa”, fomos brindados com um lindo dia de sol. 

Eram tantos craques reunidos, que ficou decidido – a última hora – que o torneio teria três partidas de exibição. Não se disputariam finais: todos seriam premiados. 

A “boleirada” gostou e – no mais autêntico modo peladeiro – os jogadores sentaram-se no gramado, sendo escolhidos um-a-um (a dedo!) pelos “cobrões”. Mas nada de “cariocas x paulistas”, “casados x solteiros”, “negros x brancos”: bairrismos, modismos e racismo ficaram para trás, são coisas superadas por nossa sociedade, hoje mais justa e consciente da importância de todos. E sem violência também, por favor! 

Era tudo muito amador, mesmo: iriam jogar descalços e sem uniformes. Um time vestiria sempre camiseta do Museu, contra outro sem camisa. E bola “raiz”: costurada à mão, pesadona. Sem essas “bexigas” com que jogam nos dias de hoje – frisei. 

– E nada de VAR! – insistiu uma vez mais, André Felipe de Lima. 

Tudo pronto, os dois primeiros times pisaram no gramado. E a pelada começou exatamente às onze da manhã. Um espetáculo lindo de se ver!


Friedenreich deu a saída, rolando a pelota para Neco, que recuou a Fausto “Maravilha Negra”. Este, com categoria, abriu o jogo na direita para a descida de Zezé Procópio. 

Olhei em volta e vi a multidão nas arquibancadas de olhos vidrados no campo: realmente gratificante. O prélio segue. 

Falta agora de Junqueira em Feitiço, que ia costurando bela tabelinha com Araken Patusca pela meia. Trinta “jardas” de distância. Grané se apresenta para a cobrança: o “canhão 420” toma posição e solta um petardo que explode no travessão da meta defendida por Barbosa (balançando-a, inclusive!) e vai embora pela linha de fundo, deixando os narradores estupefatos, nas cabines de imprensa.

Os alaridos da torcida são constantes. E aumentam, quando Tim domina com exímia categoria e estica um passe para a arrancada empolgante de Romeu Pellicciari: com sua famosa “passada de ganso”, ele deixa o volante Zé do Monte para trás e atira firme para as redes de fora da área, abrindo a contagem. Rojões estouram por todos os lados. Golaço!  

Só que a peleja é lá e cá e ninguém quer ficar atrás no marcador: logo depois vem o troco dos adversários, com Zizinho fazendo uma jogada maravilhosa em cima do zagueiro Nariz, deixando Heleno de Freitas livre para empatar. 

Numa partida dessas o lúdico ocorre a todo instante fugindo às vezes, da luz da compreensão dos mais jovens, não acostumados a práticas mais antigas: como a que ocorre quando Tesourinha faz jogada maravilhosa pela direita e centra na direção de Carlitos. O artilheiro dos gols impossíveis arrisca o chute mesmo sem ângulo e vence o goleiro. Mas Belfort Duarte evita o tento em cima da linha, pois a bola toca em sua mão direita, perdendo-se pela linha de fundo. 

O árbitro Mário Vianna não percebe, assinalando escanteio. Mas o grande Belfort – zagueiro e capitão do time – corre até o juiz e lhe informa que havia sim, tocado na bola. Vianna agradece sua honestidade exemplar e assinala o penal. 

Ao meu lado nas arquibancadas, o amigo André Felipe de Lima não perdoa:

– Tão vendo? Bem melhor que o VAR…

Heleno cobra com força. Mas Marcos de Mendonça defende. O artilheiro se descabela (feito “Gilda”) proferindo xingamentos a tudo e a todos. Acaba sendo gentilmente “convidado a sair” e em seu lugar entra Leônidas da Silva. 

O “Diamante Negro” é ovacionado pela torcida e na primeira bola que recebe pelo alto, num centro do ponteiro Canário, acerta uma bicicleta indefensável na meta guarnecida por Barbosa. 

No intervalo, Veludo entra no posto de Barbosa, enquanto que Marcos de Mendonça dá lugar ao gremista Lara, verdadeira garantia em suas saídas do gol. Vários jogadores da linha também são trocados e os times voltam um pouco modificados para a segunda etapa, pelos seus treinadores Ademar Pimenta e Flávio Costa.

Segunda etapa que começa quente, pois agora o ataque dos “Três Patetas” (Isaías, Lelé e Jair Rosa Pinto) duela contra a linha defensiva “diagonal” de Rui, Bauer e Noronha. A maestria com que Jair, o “Jajá de Barra Mansa” lida com a redonda e executa seus tiros a gol e lançamentos (sempre em “s”) é encantadora. 

Já o clássico Danilo Alvim, o “Príncipe Danilo”, se vê a cometer uma faltinha na intermediária. Na cobrança, Hércules “O Dinamitador” acerta (e derruba) parte da barreira humana. 

A multidão vai ao delírio, extasiada com tantas jogadas “classudas” e incríveis, protagonizadas de parte-a-parte. 

Ademir de Menezes trava uma batalha inglória diante de Domingos da Guia: o “Divino Mestre” não abandona a área, neutralizando a conclusão da maioria de suas belas arrancadas. É um duelo empolgante. 

Bem no finalzinho, Telê Santana, o “Fio de esperança” consegue empatar a partida, num contra-ataque puxado pela direita, antecipando-se ao goleiro e tocando de biquinho, para o fundo das redes.   

Palmas eclodem de todas as partes e os apupos da torcida ecoam junto à bela “concha acústica” do velho estádio.

Entram em campo as equipes para a segunda pelada do dia. 

Ao apito de Armando Marques começa a partida, pouco depois de uma da tarde. Felizmente uma imensa nuvem escura domina parte do céu e providencialmente encobre o sol, durante quase todo o jogo. 


Gylmar sai jogando com Djalma Santos, que estende um passe para Zito. Este avança e entrega para Pelé, que recua para pegar. De Pelé para Coutinho, para Pelé, para Coutinho. Para Pelé de novo, que atira na saída de Manga, abrindo o marcador. 

Que maravilha! Quantos aplausos para o “Rei do Futebol”!

Pouco depois, é a vez de um impossível Mané Garrincha dar seu show e tirar os adversários para “dançarem”: ele finta dois, três adversários pela direita e cruza rasteiro, para o sempre eficiente Vavá empatar, com um tiro inapelável à queima-roupa, que vence Gylmar. 

Em meio à constelação de craques, o meio de campo parece ser o local preferido para um verdadeiro desfile de jogadas cerebrais. 

Numa delas, Dino Sani intercepta um passe, põe no chão e aciona Ademir da Guia. O “Divino” irrompe pela meia, tabelando com Dirceu Lopes. Jesus! Como jogam bem justos, esses dois! A conclusão do lance passa triscando a trave. 

Já pelo outro lado, o ponto forte são os lançamentos que partem do meio, executados com maestria por Didi, “O Príncipe Etíope” e Gérson. Aliás, o “Canhotinha de Ouro” fala o tempo todo em campo, orienta os companheiros e termina por descolar um passe longo açucarado que deixa PC Caju na cara do gol: é a virada!

Didi procura cadenciar o jogo, ora aplicando seus dribles sonsos, ora invertendo jogadas, utilizando-se de sua habitual “folha-seca”.  

Garrincha sente o joelho e entra Jairzinho em seu lugar.  Na outra ponta está Edu, que acaba de substituir Pinga. Porém, não há tempo para mais nada, pois chegamos ao fim da primeira etapa.  

Um Carlito Rocha preocupado vai ver Mané nos vestiários, mas Mario Américo o tranquiliza, dizendo que ele já está melhor com suas massagens, que não foi nada de mais. Só que o dirigente está sempre preparado e faz Garrincha, Didi e Nilton Santos tomarem as vitaminas que carrega no bolso, para “deixa-los mais saudáveis”, se lamentando pelo fato apenas de que não estejam na concentração botafoguense, onde poderia preparar suas fortificantes “gemadas”.

No período complementar, o espetáculo prossegue.


O capitão Carlos Alberto Torres trava um duelo duríssimo contra ninguém menos do que o endiabrado Canhoteiro. Num dos lances, o “Capita” encurrala o ponta junto à bandeirinha de escanteio, mas o lépido atacante escapa por um espaço menor do que um lenço, entre seu marcador e a linha de fundo, arrancando aplausos fervorosos da galera.

Já do outro lado, Julinho Botelho dá bastante trabalho para Nilton Santos, mas por enquanto o “Enciclopédia” vai controlando seu setor e levando a melhor, evitando o confronto, na base da experiência e da antecipação.

Os goleiros – eu ia me esquecendo – a essa altura, já são outros: entraram Oberdan no lugar de Gylmar e Castilho no posto de Manga. Além de outros jogadores na linha, escolhidos pelos treinadores Vicente Feola e AymoréMoreira. 

A sorte de Castilho quase vai pro “bebeléu” quando Tostão enfia um passe audacioso para Pelé, pela meia-esquerda. O “Leiteria” deixa o gol e é inapelavelmente driblado com uma ginga de corpo do “Rei”, o qual corre pelo outro lado, perseguindo a bola que cruza a área em diagonal e a chuta, mesmo desequilibrado. A redonda cruza toda a extensão da meta – com Bellini caindo dentro dela ao travar a corrida – e caprichosamente, vai para fora. 

Já Oberdan se vê em maus lençóis e tem que “se virar”, quando Edu e Rivellino tramam linda jogada pela esquerda – com direito a “elástico” de Riva – envolvendo a dupla Mauro e Piazza. Mas o goleiro palmeirense defende o tiro de Edu, agarrando com uma mão apenas e não dando rebote.

Mais gols, apenas no final: primeiro com Tostão, que inteligentemente apenas desvia um rebote na falta cobrada por Pepe bem no cantinho de Castilho e depois, nos instantes finais (acreditem!), Dario, o “Dadá Maravilha” – que acabara de entrar – também deixa o seu, tocando de cabeça de maneira atabalhoada e de costas para as redes, confundindo Oberdan Cattani. 

A galera cai na gargalhada com o lance e a comemoração, porque “Rei Dadá” não faz por menos e vem comemorar no alambrado com os torcedores.

Ao término do jogo, ele é, ao lado de Pelé, o mais assediado pelos repórteres de campo e explica, no imenso microfone que segura Sílvio Luiz, que “não existe gol feio; feio é não marcar gols”.  

Nas cabines de rádio e TV e na imprensa escrita, um show de profissionalismo e competência: Geraldo José de Almeida, Waldir Amaral, Osmar Santos, Luciano do Valle, José Silvério, Pedro Luiz, Fiori Gigliotti, João Saldanha, Mário Filho, José Trajano, Milton Neves, Sérgio Noronha.


Nelson Rodrigues prefere ocupar uma das cadeiras de honra. Abaixo dele, estão Castor de Andrade e Eurico Miranda, confabulando sabe-se lá o que! 

O sol volta a raiar com intensidade e os apupos da torcida trazem novas equipes a campo.

Já passa um pouco das três da tarde, quando o árbitro Arnaldo César Coelho autoriza o início do derradeiro duelo. Zagallo e Felipão estão à beira do gramado, berrando com seus times, desde o primeiro minuto de jogo. 

O equilíbrio fica mais evidente, desde o início: os espaços estão menores e a marcação, mais acirrada, nesse confronto. A bola parada vira uma arma importantíssima. 

A dupla de ataque Sócrates & Palhinha leva o casal Vicente e Marlene Matheus ao delírio, com suas tabelinhas empolgantes. Do lado de lá, Edmundo e Evair vão mostrando à que vieram: o “Animal” está impossível, hoje. 

Renato Gaúcho faz uma jogada sensacional pela direita e põe na cabeça de Reinaldo, obrigando Dida a fazer seu primeiro milagre. 

Os adversários respondem com uma triangulação infernal entre Zico, Bebeto e Roberto Dinamite, que acaba derrubado na entrada da área. O “Galinho” cobra com perfeição e Leão salva, de ponta de dedos, pondo a escanteio. 

Júnior avança e entrega para Rivaldo, que faz o corta luz, deixando a bola chegar para Ronaldo Fenômeno, que enche o pé, passando muito perto do gol.  

Agora Cafu desce pela direita e toca para Dener. O craque arranca com vontade e imensa velocidade e é parado na falta, na altura da meia-direita. Éder vai para a cobrança. Tensão no ar. 

O petardo infernal sai ziguezagueando, acerta o ângulo e abre a contagem. Fim do primeiro tempo. 

Durante o intervalo, a galera se entretém com alguns jogadores que não estão jogando, optando por brincadeiras mais descontraídas e abrilhantando o espetáculo: no gramado, Rogério Ceni se alterna entre bater e defender faltas e penais cobrados também por Perácio, Cláudio Cristóvam de Pinho, Zenon, Dicá, Ailton Lira, Neto, Marcelinho Carioca, Djalminha, Paulo Baier, Elói e Mendonça. 

Do outro lado do campo, mais atrações: um grupinho formado por Kerlon “Foquinha”, Baltazar “Cabecinha de Ouro”, Leivinha e Escurinho trocam inúmeros passes aéreos – apenas de cabeça – sem deixarem a bola cair. Próximo a eles, um animado grupo faz farra numa “roda de bobinhos”, só tocando de primeira, na maior categoria: Geraldo Assoviador, Kaká, Robinho, Denílson, Ronaldinho Gaúcho, PH Ganso, Neymar e até mesmo Falcão do futsal e Marta do futebol feminino. 

A criançada vai ao delírio com eles!

Na volta dos vestiários, Marcos entra no posto de Leão e Taffarel no de Dida.  Começa a etapa final do último jogo, com muitas alterações (para variar!) e um monte de caras novas aparece em campo.  

Careca & Muller dão uma canseira em Aldair e Marinho Chagas. Já Leandro evita descer para o ataque, pois precisa conter os avanços de Roberto Carlos pela canhota. A dupla “Casal 20” Washington e Assis vira então, um autêntico show à parte.


Do outro lado, é Romário e Adriano quem estão “tocando o terror” na dupla de zaga Oscar e Amaral. Eles só não levaram gol ainda, porque jogam com três zagueiros (como Felipão adotou) e Luís Pereira fica como líbero, salvando os lances mais agudos.

As disputas pelo alto entre o “Imperador” e o “Chevrolet” são épicas, ainda mais quando o zagueirão arranca para o ataque, levando o time todo junto.

Por sua vez, o “Baixinho” obriga o clássico Amaral a salvar gols certos por duas vezes, em cima da linha. Por conta disso, Amaral (mesmo sendo zagueiro) acabaria sendo eleito “o melhor goleiro” daquela tarde, numa descontraída brincadeira por parte da imprensa, que o presentearia por fim, com um “Moto-rádio”. 

O espetáculo está terminando; o “Rei de Roma” Falcão apanha uma bola na zaga e elegantemente caminha, conduzindo-a sem sequer olhar para ela. De repente, a entrega no círculo-central, a Mário Sérgio. O “Vesgo” não tem tempo sequer de olhar para um lado e lançar para o outro: é calçado por Dirceu (que ajudava na marcação) e que acaba por cometer uma falta. Aproxima-se a última volta dos ponteiros!  

Nelinho ajeita a bola ali mesmo, no meio de campo e toma imensa distância para bater. Taffarel pede barreira de seis homens, mesmo dali (pode isso, Arnaldo?). 

A pancada de direita é violentíssima, sai fazendo curvas e não dá a mínima chance ao goleiro, furando inclusive as redes. Incrível: é o empate, em cima da hora! Fim de jogo!

A última pelada termina com um público que se levanta e permanece aplaudindo por vários minutos de pé os seus craques. 

Todos os times agora no gramado começam a receber das mãos do Dr. Paulo Machado de Carvalho e de Sérgio Pugliese, as medalhas e taças do “Museu da Pelada”. 


Finda a confraternização e premiações, parte do público não arreda pé do estádio: é hora da “resenha”, realizada ali pertinho, no Museu do Futebol. 

O público superlota a Praça Charles Miller, prestando especial atenção à descontraída conversa com tantos craques (tendo Sócrates e Caju à frente), comandada por Sergio Pugliese, que conta com a providencial ajuda de alguns membros-voluntários do Museu da Pelada: André Felipe de Lima, Abilio Macedo, Walter Duarte, Daniel Muniz, Émerson Gáspari, entre outros. 

A resenha então se estende preguiçosamente desde o finalzinho da tarde, até altas horas da noite, tirando inclusive a própria Internet do ar e criando um autêntico “colapso digital”, tal a absurda quantidade de acessos de gente que tudo acompanhou – ao vivo, pela TV ou rádio – e que agora se encontra comentando boquiaberto o que viu e que nunca mais irá se esquecer na vida, enfim. 

PROPOSTA DIVINA

por Émerson Gáspari

Perdoem-me todos do Museu da Pelada, se desvio do assunto futebol nessas primeiras linhas, mas é que julgo importante explicar de onde surgiu a ideia dessa crônica.

Tudo começou na observação de uma daquelas discussões recorrentes que você certamente já presenciou por aí: dois caras conversando sobre a hipótese de Cristo voltar a Terra e o que aconteceria a seguir, caso isso de fato se concretizasse.


Para os que não sabem Dostoiévski – um dos maiores escritores que a humanidade produziu – já aventava essa possibilidade em 1880, em mais um de seus brilhantes textos, no qual descreve – de modo fictício – sua santa reaparição na cidade de Sevilha (Espanha) por ocasião da terrível Inquisição do século XVI.

Pois bem: após causar verdadeiro furor entre o povo, Jesus é atirado numa masmorra pela guarda real e, ao ser visitado à noite por um inquisitor que o interroga ameaçando-o inclusive de queimá-lo vivo, permanece enigmaticamente calado, mantendo nos lábios um sorriso compreensivo, aja visto que sabe as frases que aquela autoridade vai dizer, antes mesmo que possam ser pronunciadas.

Então, num arroubo de cólera, o teólogo insiste que ele compreenda que “um homem não pode ser senhor de si” e que “é mais fácil seguir a mentira institucionalizada, que o caminho do amor incondicional”. O insulta, o agride e promete que irá por fim à sua vida, ao raiar do dia seguinte, em praça pública.

Então, o dono daquela “Santa Face” (que não se alterou em momento algum, a despeito das provocações) serenamente se levante e… abraça (!) calorosamente seu algoz.

Aturdido, o inquisitor se dá por vencido e, atormentado por seu coração turvo não obter êxito perante o Messias, abre a cela, ordenando aos gritos que o prisioneiro saia imediatamente e nunca mais retorne. Jesus então caminha em silêncio em direção à saída, desaparecendo na escuridão, para não mais voltar. 

Dito isso, vamos às minhas indagações futebolísticas a vocês, agora: e se pudéssemos trazer de volta tantos craques de bola extraordinários que já partiram desse mundo?

Não seria maravilhoso rever ao vivo, as descidas ao ataque do “capita” Carlos Alberto Torres? Relembrar como era o efeito da “Folha-Seca” do genial Didi? Assombrarmo-nos com o faro de artilheiro de Friedenreich? Ou com as arrancadas empolgantes de Ademir de Menezes? Sermos brindados com os dribles moleques de Dener? Os de Canhoteiro? Ou os chutes de Jair Rosa Pinto e Hércules? O domínio de bola de Dino Sani, talvez?  E que tal poder testemunhar toda a categoria de Domingos da Guia ao sair da área, driblando os atacantes adversários?

Ressuscitarmos aquelas “pontes” formidáveis do intrépido goleiro Pompéia? Ou mesmo rever a garra do inesquecível Fernandão, na grande área?

Será que Zizinho seria tolamente negociado pelo Flamengo com o Bangu, outra vez? Que Garrincha terminaria a carreira como terminou? Que Heleno de Freitas acabaria num sanatório, de novo? Almir Pernambuquinho seria mais calmo? E Sócrates: após aposentar o mágico calcanhar dos gramados, ser tornaria afinal, presidente da CBF?

Barbosa deixaria de ser perseguido e responsabilizado pela Copa perdida?

Nilton Santos seria chamado de “Enciclopédia” ou “Wikipédia?”. Leônidas da Silva seria o mesmo “Diamante Negro” ou só mais um “Nutella” por aí?

E no restante do mundo, então? Yashin, Puskas, Di Stéfano, Cruyff, Gigghia e tantos outros teriam obtido feitos nos gramados, como obtiveram?

Mesmo figuras ligadas ao futebol teriam hoje a mesma importância de outrora?

Carlito Rocha e Vicente Matheus, por exemplo, seriam presidentes tão marcantes em seus clubes, novamente? Belfort Duarte continuaria sendo vital para o Amériquinha?

Cláudio Coutinho conquistaria o título mundial à frente do Flamengo? Telê Santana corrigiria os defeitos da Seleção de 1982, fazendo-a campeã mundial na Espanha?

Quais textos Thomas Mazzoni, Mário Filho, João Saldanha e Nelson Rodrigues seriam capazes ainda de produzir, durante a “prorrogação” à qual estariam tendo direito, na vida? Quais hinos de clube, Lamartine Babo ainda iria compor?

Mário Vianna exigiria tanto que seu nome fosse escrito com dois “enes”?

Quais gols Geraldo José de Almeida e Luciano do Valle ainda iriam narrar?

Impossível afirmar com absoluta certeza: para muitas dessas perguntas, talvez a resposta fosse “sim”. E são tantas as indagações…você mesmo, que está aí, parado e me concedendo a honra de sua leitura nesse momento, deve ter as suas também, decerto.

Então, um verdadeiro delírio me assalta subitamente, fruto de meus devaneios.

Uma ideia tola, ridícula até. A qual na verdade não passa da tentadora utopia pela imortalidade. Por um dia que seja ao menos! Vamos supor que pudéssemos então, nos dar esse direito. Ou melhor: concedê-lo a alguém.

A pergunta que não quer calar é: quem de nós daria um dia de sua própria vida para “ressuscitar” seu ídolo favorito? E mais: quem seria ele?

A ideia (absurda, eu sei!) é na verdade uma brincadeira, para verificarmos a popularidade de nossos gloriosos craques do passado.

Vou lhes dar um exemplo fora do futebol: quando o querido Ayrton Senna se foi, partindo de maneira tão prematura e traumática para todos nós, muita gente não se conformou.

Mas, se tivéssemos o “dom” da imortalidade (leia-se: poder “doar” um dia de nossa vida em prol dele) garanto-lhes que Senna teria recebido milhões de dias extras de vida, ofertados por fãs de todo o Brasil (e até do mundo!) promovendo uma espécie de “justiça divina”, face aquela tragédia.

Essa ideia maluca – posta em prática – seria responsável pelo piloto estar vivo até hoje (tenho certeza) e aposentado das pistas, talvez fosse dono de alguma escuderia da Fórmula 1, nos dias atuais.


Já imaginaram uma parceria dele com os japoneses? A equipe “Senna-Honda” formada por jovens pilotos brasileiros, mais ou menos como foi a Copersucar no passado?  Não? Pois eu já; em um dos textos de meu primeiro livro (publicado em 2013), o qual vocês não conhecem (mas o público-leitor de Ribeirão Preto, sim).

Voltemos ao futebol: gostaria de saber se você, amigo leitor, toparia – caso isso fosse possível – doar um dia de sua existência, para reviver um craque ou figura do passado de nosso glorioso futebol brasileiro e quem seria ele.

Afinal, não há prova maior de amor por um ídolo, do que dar a vida por ele (um dia que seja ao menos). 

E antes que a peraltice tome conta de vossos corações nessa brincadeira, um aviso: não vale doar para quem está vivo! 

Sei que muita gente – por pura farra, mesmo – iria querer colocar “vivo” algum jogador que anda “morto” e se arrastando em campo, ultimamente (eu mesmo conheço uns por aí que já parecem ter virado “alma penada” dos gramados faz tempo e continuam “enganando” e ganhando polpudos salários).

Mas essa enquete despretensiosa pede um mínimo de seriedade, pessoal: votem naquele que deixou mais saudades em você: um verdadeiro buraco no peito, que parece não poder ser preenchido nunca e que se faça enfim, merecedor de retornar a este mundo, nem que seja só por um dia.

Pelo mero prazer de se poder revê-lo ou até mesmo, em certos casos, de conhecê-lo.

Para quem fosse rever seu craque, a satisfação seria dobrada, pois – simultaneamente – o torcedor deixaria de ser “viúva”, também.

Ah! Bem que o homem lá em cima podia atender nossos apelos e nos conceder uma dádiva dessas, uma alegria tremenda, diante do triste cenário atual do futebol tupiniquim! (que Ele me perdoe por tanta blasfêmia, nessa crônica… amém!).

Poste seu voto democraticamente aqui amigo leitor, nos comentários deste texto, na página do Museu da Pelada e desde já, receba meu afetuoso abraço e agradecimento!

Que essa divertida eleição seja uma verdadeira “festa da democracia”. Ou melhor dizendo: “uma celebração ao bom futebol”.

O que está esperando, amigão? Mãos à obra e boa diversão!

“Bora” lá, votar! E que vença o mais querido…

FUTEBOL NO CÉU

por Émerson Gáspari


Confesso que nem sei como aquilo foi me acontecer.

Recordo-me vagamente de algumas coisas: o hospital, o suor escorrendo pelo rosto do doutor, as dores atrozes, a face de minha esposa em prantos dizendo-me algo que não pude ouvir. Tentei me despedir dela, mesmo sem entender direito o que ocorria.

Não sei se consegui balbuciar um “Amo você!” antes de cerrar os olhos. Juro que tentei, com todas as minhas forças. Espero ter conseguido.

Minha esposa e o futebol foram as coisas que mais amei na vida.  

Mas agora tudo ficou muito escuro, frio e ainda mais incerto, neste túnel estreito, longo e angustiante pelo qual atravesso, mesmo sem saber onde vai dar.

É nesse momento que me recordo de minha mãe, recentemente falecida, mas que passou por experiência semelhante, quando foi considerada clinicamente morta em 1968, justamente em razão de meu parto, que apresentara complicações. 

De súbito, o corredor chega ao seu final e à minha frente surge uma claridade intensa, radiante, que ofusca os olhos, impedindo que se veja do outro lado.

Por um instante eu hesito. Até que a coragem sobrevém, tomo impulso e adentro o desconhecido. Imediatamente o cenário se modifica por completo.

Pareço pisar em algodão, pois o chão agora é todo branco e azul, irregular e muito, muito macio. Não vejo nada construído.

A paisagem é de uma beleza incomparável e o “teto”, todo azul, se encontra com o piso, branco-azulado, a uma distância incalculável, naquilo que, creio eu, costumam chamar de firmamento.  Ao longe, árvores frutíferas abrigam pequenos grupos de crianças, todas vestidas de azul e branco, que cantam cantigas de roda, conversam e se alimentam de suas frutas.

Interpelo-me sobre o que aconteceu: será que morri?


Consigo lembrar claramente que estava com inúmeros problemas de saúde, desempregado e em situação difícil, esquecido pelos amigos, afastado dos familiares e que as únicas coisas que vinham fazendo minha vida valer à pena ultimamente, eram o amor incondicional de minha esposa e os textos baratos que eu semanalmente escrevia para o Museu da Pelada, com direito a resenhas formidáveis, depois.

Todavia, tudo isso agora soava deveras distante e irreal para mim.

Decidi me sentar e diante daquele vazio contemplativo, preferi fechar os olhos, atendo-me somente às lembranças do que vivi.

Pela minha mente, toda minha vida passou como num filme interminável. Os primeiros anos – a infância e adolescência – tão felizes, ainda na minha querida terra natal. Meus pais, os amigos, os professores do colégio Divino Salvador, os jogos do meu time, o Paulista de Jundiaí, acompanhados pela rádio Difusora ou no estádio Jayme Cintra.

Depois, os tão sofridos anos na fase adulta; já em Ribeirão Preto: a dura acolhida, a faculdade não completada, a fome, as oportunidades profissionais negadas, a triste desilusão com as pessoas, a morte dos meus avós e pais, o câncer de minha esposa.

Meio século de vida recordado em pormenores.

As alegrias, tristezas, conquistas, frustrações, amizades, conflitos, doenças, amores…

E me emocionei muito, muito, muito!

Em meu coração, a saudade infinita do amor de minha vida; a primeira vez que a vi, o primeiro beijo, o casamento, nosso convívio tão prazeroso, apaixonado, que chamava a atenção de todos pelo modo singular como nos amávamos.

Além do sentimento de missão inacabada, por não conseguir sequer sobreviver como escritor esportivo e ainda por cima, justamente quando o Museu da Pelada entra na minha vida, perco as resenhas, as amizades, o direito de escrever transmitindo todo o meu saudosismo por um tempo no qual o futebol viveu seu auge.

Permaneci ali, sentado e introspectivo, por um período que não consigo mensurar. 

Ao final, só me restou o sentimento de gratidão pelas experiências que pude ter e por isso mentalmente agradeci ao Criador, desculpando-me pelas vezes em que blasfemei ou não fui um bom filho. Então, abri os olhos e a paisagem permanecia a mesma. As árvores, as crianças ao longe. Foi como se aquele tempo incomensurável que passei recordando toda minha vida, na verdade representasse alguns poucos segundos, no céu. Muito intrigante… especialmente quando olho para baixo e tomo um susto!

Sem que eu houvesse me apercebido antes, vejo que minhas mãos estão menores.

Não apenas elas; mas também meus braços, pernas…todo meu corpo parece pequeno. Infantil, eu diria. Apalpo meu rosto e sinto sua maciez, a ausência de barba. Talvez eu esteja com meus dez anos de novo… mas como e porque?


De repente, as crianças param de brincar e uma delas vem ter comigo. É um garotinho mais ou menos da minha idade (aliás, todas parecem ter uns dez anos, também). 

Ele se aproxima e com um sorriso sincero, me convida:

– Venha com a gente! Já está na hora!

Sem fazer a mínima ideia do lugar para onde vão, obedeço. Até porque, não quero ficar sozinho. Ele percebe as dúvidas pairando em minha cabeça e começa a me explicar, no caminho:

– Percebi que você ainda está confuso. Não tenhas medo! Aqui, somos todos felizes; não há fome, guerra, doenças.

– Mas porque somos crianças? – pergunto, angustiado.

– A idade é mera ilusão! O ancião, o velho, o adulto, o jovem e a criança nada mais são que o mesmo ser, em épocas diferentes. Habitam o mesmo corpo, que apenas se modifica, entende? Aqui, somos crianças, pois é justamente nessa idade que possuímos o coração mais puro, livre de inveja, raiva, preconceito, ganância, avareza, competitividade, vaidade, ódio. Só temos espaço no peito, para o amor.

Confesso que estremeci com as palavras do meu amiguinho. Lembrei-me de que, em vários textos que escrevi em vida, aconselhei as pessoas a fazerem o mesmo que eu fazia: deixarem uma foto da infância sempre à mão para se perguntarem todos os dias: “Onde foi que me perdi de mim e como faço para reaver o coração que eu tinha?”.

Escrevia isso no fundo, por observar que a vida mundana prostituía nossos mais tenros sentimentos, transformando-nos em seres humanos piores, com o tempo. Isso lá podia ser chamado de “evoluir”?

– Você não precisa ficar triste, aqui! Todos nós temos uma vida celestial feliz e plena. E não sentimos tédio, pois costumamos vir para cá, todos os dias! – diz meu agora entusiasmado colega, apontando para frente.

Então olho e mal posso acreditar no que meus olhos testemunham: no meio daquele chão de nuvens, há uma imensa depressão, oval, com uma espécie de degraus em toda a volta, sendo que, bem no centro daquela cratera, existe uma superfície lisa. Boquiaberto, pergunto:

– É um teatro de arena?

– Não! É nosso campinho de futebol! – ele responde, já descendo alguns degraus.

Só daí, reparo nas traves (coloridas, como o arco-íris) e nas demarcações do campo (em branco) contrastando com o “gramado” (inteirinho em azul claro).

Juntamo-nos então, às centenas de garotos, todos atentos ao “campo”, onde um joguinho parece prestes a começar.


Surgem dois times mirins, um de azul e outro de branco. Todos descalços; aliás, como nós. Ninguém parece usar sapatos, no céu. E o jogo começa! Noto que não há xingos.

Não dão pontapés, nem ao menos cometem faltas. Jogam realmente muito bem! Melhor inclusive, do que eu costumava ver ultimamente na TV, quando era vivo.

Percebo na equipe branca, um garotinho quase ruivo, que parece se multiplicar, correndo, incansável, por todos os lugares do campo. E o reconheço:

– Cruyff?!

– Não sei! Mas esse aí não para em lugar algum; só falta querer jogar de goleiro! – esclarece-me o companheiro ao lado.

Então observo os demais garotos do time branco. O goleiro é o único que usa roupinha preta e só pode ser o Yashin, porque realmente é excelente debaixo dos três paus.

Há um loirinho bem alto, que atua ali atrás e sabe sair jogando como ninguém. Questiono meu parceirinho de arquibancada:

– É o Beckenbauer, não é?

– Não sei! Não conheço nenhum deles, pelo nome. Você o conhecia?


Noto que meu amigo não é exatamente um entendido de futebol e por isso, me ponho a lhe explicar um pouquinho de cada um. Interessado, ele me pergunta se conheço os demais, também. Olho mais um pouco e vejo um bem gorduchinho, cabelo penteado para trás, que chuta forte, com a perninha esquerda, gorda e curta.

– Só pode ser o Puskas… seu apelido era “canhãozinho pum”, lá na Terra.

Meu coleguinha solta uma gostosa gargalhada e pede:

– E quem são os outros?

– Olha; aquele branquelinho ali, que corre pela direita, muito rápido, driblando sem parar, com certeza é o Stanley Matthews. Já o garotinho negro, atarracadinho, na área, creio que seja o Eusébio. Ah… tem ainda aquele outro loirinho, que joga atrás, ao lado do Beckenbauer… é Bobby Moore, com toda certeza! Agora estou entendendo: é uma seleção mundial, formada por jogadores que já se foram… apesar de que tem gente aí no meio, que ainda não havia morrido, quando vim para cá… como é possível isso?

Ele me explica:

– Na verdade, todos que aí estão já se despediram da Terra. Acontece que nossos dias são contados como os dias de Deus, não como no calendário terrestre, entende? Você, por exemplo, está aqui, faz apenas um ou dois dias. Mas na Terra, isso deve equivaler a dez, vinte anos. Compreendes agora?

– Puxa – respondi surpreso – por isso, quando estava recordando minha vida, tive a sensação de que aquilo durara muito menos tempo do que na Terra, então!

– Sim, isso mesmo! Aqui, algumas coisas são diferentes: além do tempo, não existem vários idiomas, porque o céu pertence a todos, ninguém é dono de um território, um país. Note como os meninos dessa “seleção mundial” mesmo, que você falou, conversam tranquilamente, uns com os outros, em campo.

– Tem razão, amigo!

– E o outro time? Conheces alguém, também? – prosseguiu ele, curioso.

Fixo os olhos naquele gramado celestial (que loucura!) e começo a prestar atenção no time azul, agora. Aliás, um azul bem escuro, parecido com o manto de Nossa Senhora. Meu Deus! É a cor do uniforme reserva da Seleção Brasileira. Foi com ele que conquistamos nossa primeira Copa do Mundo. Será?

De repente, irrompe lá de trás, a figura de um garoto negro, alto, driblando os outros meninos na maior segurança… é Domingos da Guia, o “Divino Mestre”. Ele então se livra de todos e quando sai da área, entrega para um companheiro, que recebe o passe na maior categoria e começa a descer pela esquerda, atravessando o meio de campo.


– É Nilton Santos, o “Enciclopédia”!

– Ri, ri, ri… diverte-se de novo, meu amiguinho celestial.

– E aquele ali, negro e elegante, que recebeu a bola de cabeça erguida e fez um passe cheio de curvinhas é o Didi “Folha-Seca”.

– Ri, ri, ri… cada apelido gozado!

Nisso, noto que a bola vai parar no cantinho, para onde corre um garoto caboclinho, de perninhas tortas. Ele dribla para a direita e seus marcadores vão caindo sentados, um após o outro. Formam até uma pequena fila, antes de serem driblados.

– E esse doidinho, quem é? Ele é o que melhor dribla aqui; ainda bem que o chão de nuvens é fofo, senão a garotada ia se machucar, de tanto tombo que leva, com ele.

Pus a mão no ombro dele e respondi:

– Esse foi o maior driblador que o mundo já teve, querido. Chamava-se Garrincha e tinha os apelidos de “Anjo das Pernas Tortas” e de “Alegria do Povo”.


– Aqui ele é o que traz mais alegrias, mesmo… veja só como todo mundo se diverte, com os dribles dele.

Lancei um olhar mais apurado pela plateia e percebi que muitas meninas assistiam, também. O público mirim era variado: havia crianças loiras, morenas, negras, ruivas, amarelas, vermelhas, albinas…  parecia até uma amostragem de todos os povos, ali reunidos, igualzinho eu costumava ver, quando era “vivo”, nas Copas do Mundo.

Porém, ninguém estava lá para se exibir, nem portava aqueles insuportáveis celulares. Em campo, também não havia juiz, muito menos VAR, porque ali – segundo meu amigo – ninguém julgava ninguém. “Que Maravilha!” – pensei comigo.

Volto minha atenção para a equipe azul: percebo facilmente que o goleiro é Gylmar e que o garotinho que corre pela lateral direita, com pinta de capitão, só pode ser Carlos Alberto Torres.

De repente, um dos “brasileirinhos” carrega a bola pelo meio e se livra da marcação de um rival fortinho, de pernas grossas, que logo identifico como sendo Obdúlio Varela. Trata-se de um moreno miudinho, de estilo de jogo clássico. Acredito ser Zizinho. Quando ele levanta a pelota para a área de trivela, tenho convicção disso.

A redonda chega até um garoto negro, espremido entre Bobby Moore e Beckenbauer. Súbito, ele se joga para trás e golpeia a bola com o peito do pé direito.

– Gente, esse é o Leônidas! Tá dando uma bicicleta!

Meu parceiro me conta que dois novatos, que chegaram ainda hoje ao céu, vão entrar em campo, agorinha mesmo: um deles, bem baixinho, cabeludo, começa antes e na primeira bola, desembesta a correr e a driblar, dando trabalho para a zaga.

– Parece que se chama Dieguito: é tudo o que sei! – revela meu acompanhante.

– Só pode ser o Maradona!


Então, a jogada prossegue. A bola vem pelo alto na área e ele, não a alcançando com a cabeça, soca-a para dentro da meta. Mas faltou malícia, pois todo mundo vê e o gol acaba não valendo. Tive ali a certeza de que era o próprio e ri, balançando a cabeça.

– O que foi? – pergunta meu amigo.

– Nada! – desconverso e indago sobre o outro que iria entrar.

– É aquele da equipe azul, ali: dizem que se chama Dico.

Olho para o garotinho negro, magrinho e não acredito no que vejo:

– Pelé! Não pode ser… meu Deus!

– Ei, desse aí me lembro, lá na Terra. Também, quem não o conhecia? Era o melhor de todos; o “Rei”! – conclui meu amiguinho, agora entusiasmado.

Então “Dico” (apelido de Pelé na infância) apanha uma bola na intermediária e vai vencendo seus marcadores. Atravessa o meio-campo e aplica chapéus, rente às cabecinhas dos adversários que se interpõe. Invade a área e marca um “gol de placa”.

Foi um jogo simplesmente “divino” – na acepção da palavra – como vocês podem imaginar.  Ao final daquela inusitada pelada, todos nós da plateia nos levantamos e aplaudimos demoradamente.

Ninguém foi molestá-los, querendo tirar “selfie” para postar em alguma rede social, nem pedir a camisola azul de algum craque (sim, porque aqui no céu, todas as crianças usam uma espécie de camisola). Nada a ver com aqueles anjinhos barrocos, com asas e peladinhos, como nos acostumamos a apreciar, pintados em telas, aí na Terra.


Foi daí que, lembrando no nosso mundo, me fiz triste novamente, por relembrar de minha esposa, exatamente quando deixávamos o “estádio”, sabendo que amanhã haveria nova “pelada no céu”, com aqueles craques todos.

– Porque estás triste, se o Paraíso é lugar apenas para alegrias? – questiona meu amiguinho celestial.

– Porque não sei o que é felicidade longe do futebol e de minha companheira! Sem um ou outro, não tenho alegria plena.

Nisso, noto que uma criança se aproxima ao longe, trazendo outra pelas mãos, a qual chora muito. Porém, mesmo em prantos, ela traz consigo um andar suave, que a mim, soa familiar.

Quando se aproximam mais, quase desfaleço de tanta emoção: o jeitinho tímido, a pele morena, o cabelinho de índia, as canelinhas compridas, os dedinhos tortos dos pés, as mãozinhas delicadas, o rosto tão bonitinho, os olhinhos puxados.

– Juciara! É você, minha querida?

E ela, com as lágrimas escorrendo pelo rosto a lhe encharcar o largo sorriso, responde com voz baixinha e meiga, apenas, a frase que mais pronunciávamos nos últimos tempos, um para o outro, na Terra:

– Juntos, juntos, sempre juntos!

Abraçamo-nos com tamanha emoção, que até mesmo os que estavam à nossa volta, se emocionaram também. Por impulso, beijei muitas vezes a sua face e encerrei com um “selinho”. Foi daí que me arrependi, pensando que era pecado e que seria punido.

Mas meu amigo me tranquilizou, rindo e dizendo:

– Não se preocupe! Aqui somos todos, crianças: nossos gestos de carinho são sem maldade, sem malícia. Vivemos o amor mais puro, que vem do fundo dos nossos corações e se sofremos muito lá em baixo, aqui recebemos a dádiva da felicidade eterna. Agora sim, sois felizes para todo o sempre.

Lembrei-me das palavras de Jesus: “Vinde a mim as criancinhas, pois delas será o reino de Deus”. Era exatamente isso que estávamos vivendo, naquele lugar tão bom.

Despedimo-nos com a promessa de nos reencontrarmos no dia seguinte, no mesmo “estadiozinho celestial”. Meu amiguinho me pediu apenas, para que fosse mais cedo, pois queria conversar comigo, antes da partida.

Passei o restante daquele dia, muito feliz ao lado de minha amada. Colhi algumas flores (sim, elas florescem nas nuvens, aqui no céu) e com elas, lhe fiz uma coroa, para adornar sua cabeça.

Ela então me mostrou algo que trouxera consigo, do mundo: um indiozinho fantoche, chamado “Juço”, o qual, talvez por termos tratado como “filho” lá na Terra, havia – sei lá como – podido entrar também, a exemplo dos cães e gatos que algumas crianças carregavam, no céu. Muito interessante!

Outra passagem me veio à cabeça: a de Lázaro, quando questionado pelos outros – então espantados com sua ressurreição – sobre como era a tal vida em outro plano. Ele teria lhes respondido: “É engraçado… não notei muita diferença”.

Pois era mais ou menos assim que eu agora via as coisas, ali: uma espécie de mundo infantil, puro, sem maldade e no qual nossa missão, bem cumprida, resultara na felicidade eterna, sentindo Deus presente, o tempo todo.

Recostei-me ao pé de uma árvore e Juciara acomodou a cabeça em meu peito, sob a noite mais estrelada que já havíamos contemplado. Adormecemos.

Enfim, chegou o dia seguinte e me dirigi com minha Juci, até o “estadiozinho” mais cedo, conforme combinado. Ao descermos os degraus das arquibancadas, notei, entretanto, que os “torcedores” estavam no campo, ainda sem jogadores, pois a partida iria começar só mais tarde, um pouco.

Foi quando meu coleguinha, apontando para nós, levantou-se, dizendo para os demais, que permaneceram sentados:

– Eles chegaram! Aproximem-se amigos, estávamos vos aguardando, mesmo.

Quando terminamos de descer e cheguei ao seu lado, ele me apresentou a todas as outras crianças e disse:

– Este aqui conhece todos os jogadores que atuam em nossa liga celestial, como lhes falei. Por serem “deuses do futebol”, jamais perguntamos nada aos jogadores, por puro respeito. Gostaríamos que você nos contasse sobre cada um deles. Como jogavam lá na Terra, em que times atuaram, quais títulos ganharam, enfim; suas histórias, dentro e fora dos gramados… podeis fazer isso por nós, irmão?

E eu, vendo aquelas carinhas tão simpáticas, ávidas pelas incríveis histórias que só o futebol proporciona e já me sentindo literalmente “nos céus” com aquela situação, respondi a eles, com alegria infinita:

– Queridos! Vou lhes contar todas as histórias que sei e até que elas se esgotem, creio que deverão ter chegado aqui também, dois amiguinhos meus, que saberão lhes contar outras, ainda mais legais do que as minhas.

Foi quando meu amiguinho me perguntou, já ansioso:

– E quem são eles? Assim já nos avisam, quando chegarem às portas dos céus!

Respondi, com um sorriso de satisfação:

– Serginho Pugliese e PC Cajuzinho… esses sim, são “ferinhas” ! Vocês não perdem por esperar! Com eles aqui, poderemos ter algo que vocês vão adorar: o “Museu da Pelada dos céus”…

 

REMINISCÊNCIAS DE UM TORCEDOR

por Émerson Gáspari     


Um dia me disseram que as lembranças afetivas que nos acompanham pela vida, nada mais são do que o desejo velado de que as coisas continuassem a ser como outrora.

Nada mais verdadeiro do que isso.

Meu coração atua como um autêntico “relicário de lembranças” sempre que minha mente descortina fatos que o tempo tolamente insiste em tentar apagar, revelando-me um incorrigível saudosista, especialmente no futebol.

Foi meu saudoso pai, o responsável por incutir em mim o “vírus futebolísticus”, há meio século.

Eu sequer havia completado oito meses de vida e já estava – levado por meus pais – misturado à massa torcedora que recepcionava os heróis jundiaienses chegando de São Paulo, campeões invictos da “Divisão de Acesso”, pelo Paulista de Jundiaí.

Estávamos então, no inesquecível ano de 1968: aquele que “não terminou”.

Todavia, minhas primeiras reminiscências datam do início dos anos 70.

Lá estava eu – então com quatro, cinco anos – nos vestiários do estádio Jayme Cintra, vendo o altar a Nossa Senhora num cantinho, percorrendo o túnel e pouco depois, já correndo pelo gramado à noite, com os refletores ligados e as arquibancadas vazias, enquanto meus pais conversavam com o ex-presidente do clube, Wanderley Pires.

Daquela mesma época, recordo-me vagamente de uma partida com placar final de 0x0. Eu estava nas sociais, junto de meu pai, meu avô e um tio.

Meu pai nasceu em Jundiaí em 1931 e desde garoto, adorava futebol. Jogava nos campinhos do Vianelo, frequentados também por seu amigo Dalmo Gaspar, lendário lateral do Santos de Pelé.

Na juventude, atuou por diversos clubes amadores; sempre como central. Dizia que, por ser canhoto, achava mais fácil desarmar os atacantes, geralmente destros. Tinha um chute potente de esquerda e batia de três dedos na bola, com precisão. 

Corintiano roxo, apesar do pai palestrino, adorava me contar histórias sobre quando apanhava um trenzinho e ia ver na capital, o Timão do IV Centenário no Pacaembu da “Concha Acústica”, o Palmeiras da Academia, o São Paulo levantando o Morumbi, o Santos de Pelé, a Lusinha, o Juventus e tantos times de um período romântico do nosso futebol que o progresso e sua silenciosa estupidez conseguiram enterrar.

E eu adorava ouvi-las.


Viciado nos jornais “Gazeta Esportiva”, “Jornal da Tarde” e na revista “Placar”, eu curtia também, confeccionar meus próprios times de botão, com a carinha dos jogadores para depois brincar, irradiando as partidas – em imitações fidedignas – dos maiores locutores do rádio paulista: Fiori Giglioti, Osmar Santos e José Silvério.

Tempos também, do “Show de Rádio” e as intermináveis “Jornadas Esportivas”.

Na minha Jundiaí, a melhor estação sempre foi a Rádio Difusora, comandada na época, pelo saudoso locutor Hélio Luiz. O então repórter de campo, Adilson Freddo, continua lá até hoje, chefiando o esporte daquela emissora tão cativante, que já passou dos 70 anos de fundação.

Já o redator-chefe do Jornal da Cidade, o jornalista Sidney Mazzoni – de quem inclusive herdei o estilo de escrita – e que produzia a coluna diária de futebol mais badalada da cidade, a “Tirando de Letra” – partiu desse mundo já há algum tempo.

Eu e meu pai não perdíamos um programa futebolístico sequer.

Às vezes o velho exagerava.

Como quando resolveu levar o radinho de pilhas para ouvir uma partida durante uma festa de aniversário, para desgosto de minha mãe.

Seu papo era rico e variado. Versava facilmente sobre assuntos como atualidades, política, educação, realidade social, economia, história, astronomia e – é claro – esportes. No futebol então, ninguém o superava.

Lembro-me com desmedida saudade, das inúmeras vezes em que o acompanhei em seu trabalho pelas cidades e estradinhas que circundam Jundiaí, a bordo da Variant 70, bege (SL 8580) e dos nossos intermináveis e entusiasmados papos sobre futebol.

Nunca mais tive um parceiro futebolístico assim. Nunca mais.

Nos sábados bem cedo, batíamos uma bolinha no gramado de um clube social, antes que a rapaziada chegasse e tomasse conta do campo, para disputar uma pelada.

Eu no gol, meu pai chutando enviesado, colocado, rasteiro.

O velho botava fé que eu no futuro fosse goleiro do Paulista, porque realmente levava jeito, mas eu – tolamente – nunca quis tentar. Perdi talvez a chance de fazer parte da história do clube pelo qual torço.

Aos doze anos, comecei a pressioná-lo para que me levasse ao estádio. Eu ia equipado com um baita cornetão para azucrinar os adversários e trajando a camisa do Galo.

Bons tempos do inesquecível Joseph Pfulg à frente do clube.


O Paulista teve alguns presidentes que se destacaram ao longo de sua centenária história: Wanderley Pires, Eduardo Palhares… mas só um “pai”: o suíço Pfulg, presidente da Vulcabrás e que de futebol nunca entendeu, mas foi um ser admirável que sabia lidar com pessoas e fez tudo o que fez, desprovido de vaidade ou qualquer interesse pessoal que não fosse apenas o de retribuir à sociedade, tudo o que conquistara na cidade que o acolheu.

Todavia, houve um período em que o acesso para a Primeirona teimava em não vir e um torcedor “sem noção” pichou no muro do estádio: “FORA PFULG”.

Para desespero geral, ele ameaçou sair e então, lhe enviei uma carta comovente, lançando um apelo em nome da torcida, o qual – soube depois – o emocionou muito. Não sei até que ponto isso influenciou, mas o fato é que Pfulg acabou ficando.

Torcedor tem que fazer a diferença.

Não me esqueço do primeiro jogo “noturno” ao qual assisti – vencido nos acréscimos e de virada – em cima do Santo André, graças à “arma secreta” do treinador Adailton Ladeira: o folclórico Marco Antônio “Telefone”, verdadeiro talismã do time.

Um crioulo simpático, sorridente e brincalhão, nada clássico ou hábil com a bola.

Mas que “incendiava” o jogo e arrebatava a torcida com suas arrancadas empolgantes e uma raça inigualável. Se a peleja apertava, a torcida logo começava a gritar, exigindo:

– Põe o Telefone! – e costumava ser prontamente atendida.

Mesmo depois que ele deixou o clube, a torcida – por pura farra – continuava a pedir sua entrada e todos caíam sempre na gargalhada.

Agora, inacreditável para mim, foi – vinte e cinco anos depois – voltar ao Jayme Cintra (quando eu já morava aqui em Ribeirão Preto e fui ver meu time treinado pelo meu amigo e vizinho, o técnico Vagner Mancini) e, ao longo de uma dura partida diante do Coritiba pelo Brasileiro, ouvir a torcida ainda pedindo: “Põe o Telefone!”.

Disse para dois velhinhos com quem fizera amizade naquele dia, que não acreditava no que ouvia tantos anos depois, perguntando-lhes então, pelo paradeiro do jogador.

Rindo, eles responderam que se eu não acreditava no que ouvia o que iria dizer então, a respeito do que eles apontavam na curva das arquibancadas, mais abaixo.

Olhei e confesso que não pude crer no que vi: um senhor negro, cinquentão, usando abrigo e tênis esportivo, barba toda grisalha, braços cruzados e sorriso inconfundível, balançava a cabeça, enquanto ria dos gritos da torcida.

Era ele mesmo, o “Telefone”, em carne e osso, divertindo a galera. Incrível!

Como não amar uma torcida dessas?

Pena que meu pai já não estivesse mais entre nós, nesse dia. Iria se divertir a valer.

As lembranças são muitas. Dariam um livro. E um rio de saudosas lágrimas.


Por isso, vou encerrar por aqui, contando a vocês, duas historinhas apenas, ocorridas em jogos nos quais tive o prazer de poder acompanhar, das arquibancadas. 

Um deles, o mais emocionante que já presenciei no estádio Jayme Cintra, ao lado de meu pai. Já o outro, sozinho em São Carlos, onde eu passava sempre as férias escolares e acabei – acreditem – ajudando a decidir a partida.

São histórias inesquecíveis para mim. E quero dedica-las a todos os queridos torcedores que sempre me honram com sua leitura e comentários elogiosos no Museu da Pelada. Em especial, a Abílio Macedo, Carlos Vianna, Walter Duarte e Jorge Vitório (que inclusive batiza minhas crônicas de “texto Gáspari”).

Espero que gostem.

                                                                     – o –           


Estávamos na primavera de 1982.

No ano anterior, o Paulista estivera próximo do acesso à Divisão Especial, perdendo a vaga na semifinal. Mas agora, apesar do elenco reforçado, as dificuldades começariam mais cedo. O “Galo da Japy” precisava vencer o Palmeiras de São João da Boa Vista e se classificar para a fase seguinte do campeonato da Intermediária.

O adversário não era lá essas coisas, mas havia um obstáculo a ser vencido: o goleiro Cláudio, verdadeiro “paredão” – o melhor do torneio – mais até, do que Eli, do Aliança Clube, famoso por permanecer mais de seiscentos minutos sem tomar gols.

Cláudio era verdadeiramente um goleiro completo, geralmente o menos vazado no campeonato e contra o Paulista, desdobrava-se, saindo sempre com todos os prêmios de melhor em campo, além de sustentar (quase sozinho!) um tabu diante do Galo, que começava a incomodar.

Naquele domingo de sol, nem precisei pedir ao meu pai: ele mesmo já foi confirmando que deveríamos ir bem cedo, pois o estádio iria lotar. Na verdade, já fazíamos isso, pois ir ao Jayme Cintra naquele tempo era um evento para a tarde toda. Você chegava cedo e havia sempre uma partida interessante na preliminar, fosse de mulheres, de veteranos ou aquela que a torcida mais gostava: com o badalado time de juniores do Paulista.

Essa equipe de jovens disputava os jogos do antigo “Desafio ao Galo”, transmitido aos domingos de manhã, pela TV Record, direto do campo da CMTC, na capital.

Nessas ocasiões, o time envergava outra camisa: a do “Passarin” de Jundiaí e fez realmente muito sucesso, sendo inclusive campeão na temporada 80/81.

Certa vez, permaneceram tanto tempo “cantando de galo” no torneio, que para tirá-los de lá, foi preciso formar uma “Seleção de Campinas” com direito a Carlos, Polozzi e outros profissionais com nível de Seleção Brasileira, para que fossem derrotados por 2×1 e terem sua longa invencibilidade quebrada.


A maior revelação daquela equipe acabaria sendo o centroavante Ricardo, que logo subiu para o time de cima do Paulista e depois de alguns anos como artilheiro no tricolor, acabou contratado por Castor de Andrade e sua pasta cheia de dinheiro vivo em 1986, indo jogar no Bangu e depois em Portugal.

Pois naquela tarde não aconteceu preliminar alguma. Aliás, nem mesmo a equipe da RTC – Rádio e Televisão Cultura estava lá, para filmar o jogo e mostrar os melhores lances no programa “É Hora de Esporte”, na segunda-feira, ao meio-dia.

No lugar de tudo isso, tivemos a visita mais indesejada que poderíamos receber: uma chuva repentina, torrencial e gelada (fato comum, em Jundiaí), que começou meia hora antes do espetáculo.

Foi realmente terrível!

A certa altura, quando já nos encontrávamos encharcados “até os ossos” (para que vocês me entendam bem) por aquele verdadeiro “dilúvio”, meu pai teve a ideia de começar a pular para aquecer o corpo gelado, sendo prontamente acompanhado por mim e pela torcida, que já não aguentava mais e entoava o grito de “Gaaaaloooo, Gaaaalooooo…) por todos os cantos do estádio, o qual a esta altura, já apresentava dois terços de sua capacidade, ocupada.

Atendendo aos pedidos, o time saiu dos vestiários mais cedo, enquanto o temporal amainava. O Palmeiras veio em seguida.

Tudo pronto começou a verdadeira “batalha épica” em busca do gol salvador, já que o adversário era realmente um time limitado, que pouco atravessava o meio de campo.

Agora, havia mais um problema que surgia para atrapalhar o tricolor, uma equipe de maior envergadura técnica e toque de bola: o estado prejudicado do campo.

O Jayme Cintra tinha um belo gramado e sistema de drenagem, mas o volume de água que caiu foi realmente absurdo, a ponto de fazer o campo começar a “enlamear” em alguns lugares, atrapalhando (e muito) o toque de bola.

Disso se valia o adversário, que estourava qualquer bola para fora, assim que um ataque mais eminente se desenhava.

E tome cobrança de falta que o goleirão “se virava” para pôr a escanteio. Ou cabeçada que Cláudio salvava, de ponta de dedos. Foram várias chances perdidas. Até que o primeiro tempo terminou mesmo num 0x0, apesar daquele bombardeio todo.


No segundo, já com o sol querendo retornar, a roupa que secou no corpo e a garganta ficando completamente rouca de tanto tocar meu cornetão e puxar o grito de “Galo, Galo, Galo” (que meu pai apoiava e sempre acabava dando certo, pois contagiava a torcida que se inflamava e passava a gritar e empurrar o time também) o Paulista veio atacar bem no gol onde nos encontrávamos mais próximos.

Virou definitivamente um jogo de um lado apenas do gramado, o qual parecia ficar, a cada minuto que passava, mais e mais impraticável, dificultando por demais, o equilíbrio dos jogadores e o domínio de bola.

A dramaticidade foi chegando ao extremo: quando não era Cláudio que defendia, era o pezinho salvador de algum zagueiro do Palmeiras ou mesmo a trave e até, em certos lances, o próprio nervosismo ou o puro azar, que atrapalhavam tudo.

A menos de dez minutos do fim, o treinador colocou o atacante reserva Mosca em campo. Mais um, para tentar furar aquela barreira aparentemente intransponível. Jogador rodado, veterano já, que na primeira bola na qual partiu atrás, demonstrou toda sua vivência futebolística: pressionado por dois zagueiros, “mergulhou” na grande área em meio às poças de lama. Pênalti! Eram 39 minutos.

Mas o medo bateu logo: e se o gol não viesse? Muitos torcedores, me recordo, viraram de costas para o gramado.

A tensão era imensa. O capitão Pedro Omar apanhou a bola e caminhou até a marca de pênalti, mas teve dificuldade em colocá-la (o pior lugar de todo o campo, pois estava alagado, bem ali). Por várias vezes tentou ajeitá-la e nada. 

Cláudio usou de muita catimba, reclamando bastante com o juiz de que a bola estava adiantada em relação à marca penal (a qual nem podia ser vista, sob a água barrenta).

O árbitro corrigiu Pedro Omar que, com nervosismo, chutou insistentemente com a lateral do pé, parte do acúmulo de água sob a redonda. Eram decorridos 43 minutos. Se ele falhasse, não haveria tempo praticamente para mais nada.

Estranhamente, não se distanciou muito. Correu e bateu – não com a pancada costumeira – muito menos no canto. Foi de uma frieza absurda, até.

Então, o tempo pareceu congelar nesse instante e o próprio mundo por um momento, parou de girar, talvez!

A lama. O chute seco. O corpo do goleiro tombando timidamente para o lado esquerdo. A pelota em câmera lenta se encaminhando, baixa, para o centro da meta. Cláudio percebendo que ia passar da bola e retorcendo o corpo, para tentar voltar a tempo. Um filete de suor a me escorrer pela têmpora. A engolida em seco de muitos torcedores. O desespero estampado no rosto de meu pai.

O suspense, na garbosa voz de Hélio Luiz, entrincheirado na cabine da Difusora, enfartando quem estivesse ouvindo aquele drama todo, pelo rádio:

– Prepara-se Pedro Omar para a cobrança… não tomou muita distância… autorizado… partiu para a bola, pé direito, bateu: gooooooooltricolooooooorrrrr!!!

Bandeiras tremulando, rojões, palmas, gritos, risos: a agonia que tomara conta do estádio se transformava agora no delírio de uma torcida sofrida, apaixonada e linda.

                                                                – o –           

Minhas férias escolares eram invariavelmente desfrutadas em São Carlos, na casa de meus queridos avós. Naquele mês de julho de 1981, não seria diferente.

Aos 13 anos, atleta do judô e praticante de vários esportes, eu já entrava no cinema tranquilamente em filmes de censura 18 anos.


Então, não tive dificuldades para comprar meu ingresso no estádio Luís Augusto de Oliveira, o “Luisão” e acompanhar sozinho, a uma partida do Grêmio Esportivo São-carlense, o qual curtia ouvir os jogos sempre pela Rádio São Carlos, bem como, ler as matérias a seu respeito, nos três jornais da cidade: a Folha, o Diário e a Tribuna, todos ainda impressos em placas de chumbo.

Tive até um time de botões com uma das formações do clube: Luiz Sérgio, Paulo Felisberto, Bussolan, Hamilton, Ederaldo e Carlinhos; Silvano, Horácio, Elias, João

Carlos Traina e Serginho. Mas voltemos ao jogo.

Na semana anterior, pela primeira rodada do segundo turno, o “Lobão Sorriso” havia arrancado um belo empate fora de casa (1×1) frente o Corinthians de Presidente Prudente e direito a golaço com chapéu aplicado no goleiro e tudo o mais.

A partida em casa, diante da Votuporanguense, era fundamental para confirmar a reação da equipe, a qual no primeiro turno não havia ido nada bem, sofrendo três goleadas e rondando a perigosa zona de rebaixamento.

Não sei se já disse a vocês, mas meu coração de torcedor é tão grande, que consegue abrigar, com intensa paixão, vários clubes ao mesmo tempo.

No interior, além do meu Paulista de Jundiaí – terra onde nasci – ainda há espaço suficiente para o Grêmio São-carlense e para o Comercial, pois moro em Ribeirão Preto faz trinta e cinco anos.

Sempre soube, desde muito cedo, da minha importância como torcedor e da dimensão que isso pode tomar. Por isso, de certa forma me orgulho em ter ajudado diretamente o Grêmio a vencer a partida, naquele dia.

O time da casa começou melhor a partida e em dois ataques pontuais, abriu uma vantagem de dois gols logo nos primeiros minutos, para a nossa felicidade.

Imediatamente, entretanto, resolveu recuar e passou a sofrer um sufoco “daqueles” por parte dos visitantes, até o fim do primeiro tempo. Foi um recuo calculado, porém preocupante, pois a cidadela são-carlense esteveprestes a cair, várias vezes.

Na segunda etapa, o drama prosseguiu: a equipe acovardada, o goleio gremista trabalhando demais, os zagueiros estourando a bola para qualquer lado, até que o time de Votuporanga enfim descontou (quando na verdade, merecia era estar ganhando de virada!). 

Com o gol, baixou um silêncio momentaneamente sepulcral no estádio. O treinador permaneceu calado no banco, desanimado. A torcida – cerca de mil pessoas – muda.

Os atletas retornavam cabisbaixos para nova saída, no círculo central, lentamente.

Foi quando, aproveitando-me por estar posicionado bem no meio das acanhadas arquibancadas, ali pelo sexto ou sétimo degrau, logo acima do alambrado, berrei – a plenos pulmões – com toda fúria, para que os jogadores mais próximos ouvissem:

– Satisfeitos agora ou só quando eles empatarem? E a torcida que veio apoiar, vai passar vergonha? Cadê a raça?

Com o sangue fervendo, percebi que vários torcedores me olharam, espantados.

O juiz me observou enquanto mexia em seu cronômetro e vários atletas dos dois times, também, em silêncio.

Então, um jogador gremista, solidário à minha cobrança, de súbito bateu palmas para chamar a atenção dos companheiros, dizendo:

– Ele tá certo! Vamos dar o sangue!

Ato contínuo, três ou quatro companheiros mais próximos concordaram com a cabeça.

Incrível: instantaneamente, acabou a apatia. Passaram a dividir todas as bolas, jogando com mais ânimo e principalmente, voltaram a atacar.

Estávamos quase na metade do segundo tempo e dali por diante, o Grêmio ainda desperdiçou duas ou três oportunidades para ampliar, não passando mais sustos até o final da partida, quando então os atletas receberam nossos merecidos aplausos.

Confesso que fiquei satisfeito. Para mim, um clube só existe em razão de sua coletividade e o torcedor tem que fazer a diferença.

Ao me levantar para ir embora, alguns gremistas mais próximos, nas arquibancadas, vieram me congratular pela bronca que dei nos atletas, perguntando se eu não apreciaria fazer parte de sua torcida organizada, também.

Agradeci, explicando que por ser de fora eu não poderia, mas que eles não deixassem nunca de apoiar o time, mesmo quando tudo parecesse perdido, pois ele, mais do que qualquer um, precisava.

E fui embora, solitário e feliz, com a certeza de ter cumprido com a minha missão de torcedor do Grêmio, de alguma forma, naquele dia.